terça-feira, abril 30, 2013

inversão de prioridades

tendo cumprido o objetivo de dar a volta ao redor do mundo, me resta agora dedicar-me à ambição mais delicada e profunda de deixar o mundo dar voltas ao redor de mim.

sábado, abril 20, 2013

retrato do artista quando jovem pixel

turistas ocidentais apontam câmeras sem pudor pra miséria na Índia, como se fosse espetáculo, matéria prima pra impressionar no facebook ou em jantares de família. Até aí nada de novo pra quem está acostumado a cruzar com os jipes das favela tours na sua própria cidade. Desta vez, no entanto, o que salta aos olhos é que as câmeras que apontam na direção oposta são tão frequentes quanto. Em cada esquina há um turista indiano pedindo pra tirar fotos com um rosto ocidental. Meu trem metido a besta, com suas suítes, funcionários de turbantes e gringos de pele branca, é uma atração turística pro povo parado na estação. E minha silhueta com uma câmera na janela suscita tanto interesse (e tantas câmeras levantadas) quanto a paisagem do lado de fora.
apontar uma câmera para algo hoje em dia já não rouba o espírito nem transforma: é antes uma forma de, face à impossibilidade de apreender a experiência do mundo, torná-la compreensível através de sua redução ao familiar prazer do consumo. Uma resposta estereotipada que nos exime, de certa forma, de fazer algo mais com o mundo – seja pensar sobre ele, interagir de fato ou tentar mudá-lo – pois guardá-lo na câmera, no HD, na gaveta já parece uma maneira de relacionar-se. Dessa forma, fotografar resolve boa parte do não saber o que fazer com a realidade ao redor (quem saberia o que fazer com a miséria na Índia, afinal?). E ao mesmo tempo satisfaz. Como um condicionamento de segunda ordem, lega prazer à experiência da viagem, uma sensação de algo precioso adquirido que se impõe ao desconforto do calor, do cansaço e da gastroenterite, da mesma forma que o celular comprado justifica o desprazer do trabalho que o pagou.
e é peculiar e sintomático que nesse país (tão estranhamente capaz de aparentar paz em meio ao caos, e naturalidade frente ao abismo social), a experiência da fotografia mútua se torne um fenômeno tão extremo. De um lado ou de outro da janela do trem, interagimos uns com os os outros ao mesmo tempo que nos tornamos objetos fixos e imagens paralisadas. Escondidos atrás de nossas telas coloridas, nos contentamos em digitalizar o lado oposto, redimensionando-o em manejáveis megapixels que caibam no tamanho de um iPhone. Uma experiência fotográfica do mundo que é um gesto de curiosidade, mas também de aceitação – do valor de consumo do ícone, do selo de qualidade do índice, da dispensabilidade do símbolo, e da suficiência do que fica no cartão SD. Provas fugazes da realidade de um mundo que guardamos ao invés de explorar, como um e-mail não lido que deixamos pra depois por falta de tempo e que nunca mais será aberto.
e ver o mesmo comportamento na câmera que aponta de volta pra minha, luminosa em meio à sujeira da estação de trem, talvez seja o prenúncio de uma paz estranha. Um mundo onde os extremos do planeta (e da pirâmide social) entram em comunhão na experiência do consumo, e do prazer de ter uma máquina com botões capazes de guardar a realidade. Que a essa altura já é o brinquedo preferido de ambos os lados, ao proporcionar a sensação de adquirir algo único ao preço virtualmente nulo dos megabytes armazenados. Um mundo que abraça o objeto e a imagem, e ao fazê-lo se despe um pouco do sujeito e da palavra, em uma aceitação pacífica da realidade do outro lado da lente. Que, se antes era mutável, ao ser capturada na tela digital se torna fixa e inexorável como um roteiro de Hollywood. Um mundo mais injusto e mais satisfeito do que se sonhou um dia, e que pouca gente esperava encontrar por aqui, logo após a curva do fim da história. Ou pelo menos do ponto em que a História começou a perder a letra maiúscula pra se tornar cada vez menos coletiva e mais fragmentada, tão múltipla como as incontáveis imagens que se amontoam no celular de cada um. E talvez tão permanente quanto, esperando apenas o próximo vírus, crash ou míssil pra apagar a profusão de luzinhas e tornar-se novamente uma tela preta.

segunda-feira, abril 08, 2013

o outro lado do mundo é um poço insuspeito de saudades latentes

água. Enxames de motocicletas. Vacas no meio da pista. Arroz comido com a mão. Bandeirinhas coloridas. Deuses batendo papo em telenovelas. Água mineral pra escovar os dentes. Monges jogando videogame. Estranhos pedindo pra tirar fotos com você. Ausência do conceito de fila. Cortesia transbordante. Buzinas em sinfonia. Passageiros empurrando táxis. Um alfabeto novo por fronteira. Greve geral. Crianças étnicas. Quedas de luz. Cheiro de incenso. Sorrisos. Caos. Paz. Bom dia, Ásia. De uma hora pra outra, descobri que tava com saudades.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

mil bichos pra se esquecer

quando eu era pequeno meu brinquedo preferido era um fichário gigante chamado Mil Bichos. Umas figurinhas grandes com fotos de bichos na frente e informações atrás, feitas pela editora Abril. Hoje valem mil reais no Mercado Livre.
mas o que eu amava nos Mil Bichos não era tanto a foto nem a informação. E sim o fato deles serem classificáveis. Cada bicho tinha uma classificação zoológica, uma classificação ecológica e uma classificação biogeográfica. E você podia classificar eles em pilhas por qualquer um dos critérios.
não conseguiria contar quantas vezes classifiquei, desclassifiquei e reclassifiquei as mil e poucas fichas do brinquedo. O que diz alguma coisa sobre a minha natureza – só uma criança espiroqueadamente neurótica mantém um rito de classificação como passatempo favorito por vários anos. As outras estão ocupadas dando boladas nos vidros do vizinho.
mas tudo isso é um preâmbulo pra contar que esses dias eu parei pra olhar fotos no computador.
minha intenção inicial, além de fazer alguma coisa com o excesso de imagens acumuladas no HD, era fazer uma árvore. Por razões meio arbitrárias e despretensiosas, eu sempre gostei de fotografar galhos e folhas, e sabia que tinha incontáveis dessas fotos guardadas. E embestei que dava pra imprimir um monte delas e encaixá-las como uma árvore única, fazendo uma espécie de árvore de todas as árvores a partir dos detalhes de várias.
então criei uma pasta no computador chamada “árvore mãe” e fui abrindo pastas de fotos atrás de árvores, copiando e colando tudo o que parecia vegetal. Como sempre ocorre, porém, abrir pastas em ordem cronológica reversa rapidamente virou um exercício de revisionismo. Até porque, pra minha natureza Mil Bichos, olhar pra trás nunca é mera nostalgia. E sim uma tentativa de costurar fios, achar relações, traçar narrativas, ordenar fatos. Sou assustadoramente bom em ordenar fatos e datar eventos. Desafio qualquer um que eu conheça nesse quesito.
e como essa gente mala das artes plásticas conseguiu incutir na nossa cabeça que por trás de uma obra tem que haver um conceito, minha árvore logo foi deixando de ser só uma árvore. E se tornando numa maneira de dar continuidade a tempos e lugares desconexos. De juntar as várias árvores numa só, e ao fazê-lo ligar os pontos da minha geografia fragmentada e descontínua dos últimos três anos. Um esforço de dissecção, classificação e arqueologia. Uma tentativa, como quase tudo o que eu escrevo, de criar uma narrativa que dê conta de tudo o que se passou.
então fui cortando e colando folhas e galhos, e isso foi indo, e foi indo. Era foto pra caralho. Mas por menos que eu parasse pra olhar, me limitando a reconhecer superficialmente os lugares e tempos, só o copiar e colar de galhos e folhas se revelou uma tarefa hercúlea. Ao chegar ali pelo fim de dois mil e nove, quando me mudei pro Rio, já tava completamente exausto. E não tinha nem começado a fazer sentido de alguma coisa a mais do que a mera aparência das árvores.
e aí naquele momento tive um dos poucos insights que realmente prestaram na minha vida. Pode parecer óbvio e piegas pra quem ouve de fora, mas naquele momento bateu como poucas vezes a verdade óbvia, mas difícil de encarar, de que não dá pra dar conta do tempo. Ou do mundo, ou da existência. Que a maioria dos momentos e imagens são esquecidos, que tem informação demais pra entrar na narrativa. Que a palavra é lenta demais pra competir com a vida passando. E que não importa o esforço que se faça, o destino final da memória, bem como o da matéria, é se perder na desordem.
o que não significa que não haja fotos legais lá no meio, ou acontecimentos que valham a pena. Mas eles são mais legais enquanto imagens e momentos do que como fios condutores de qualquer coisa. E talvez a melhor, ou a única maneira de aproveitá-los seja tomá-los como tal. Imagens soltas e vagamente conectadas, com a mesma textura lógica de um sonho. Algo que parece ter um sentido enquanto você rola na cama. Mas pro qual toda interpretação subsequente será uma história inventada ao acordar, insuficiente pra apreender a essência efêmera e incompreensível do que já se perdeu.
e toda tentativa de estabelecer uma linha e interpretar o passado, assim como o sonho, será sempre uma narrativa a posteriori, com muito pouco a dizer sobre o que aconteceu de verdade. Não mais do que uma história inventada pra dar conta de um mundo inapreensível, assim como deuses são inventados pra explicar trovões. Que no fundo não serve pra entender o que fica pra trás, e que no máximo pode servir pra apontar um caminho qualquer pra seguir adiante. E isso se a gente der sorte.
por mais que eu possa falar dela, no fundo uma árvore é só uma árvore.
e é curioso que eu pare pra revisar e postar o que está escrito aí em cima em um fim de tarde saturado até os ouvidos em palavras e mais palavras sobre os mortos de Santa Maria. Reportagens no jornal, chamadas na tevê, conversas de boteco e postagens do Facebook em que todo mundo parece ter algo a dizer. Sobre o absurdo da falta de fiscalização, a irresponsabilidade da banda, os amigos que fulano perdeu, o choro da Dilma ou qualquer coisa do gênero. E ao me ver cercado por esse excesso de palavras, a única coisa que me ocorre é que a loucura do mundo é um pouco a mesma que a minha. Porque achar que alguma dessas narrativas vá ser suficiente pra fazer algum sentido do que se passou é um pouco como achar que uma árvore vá ligar os pontos da vida. E assim como não há árvore que faça sentido do tempo, também não há palavra que faça sentido da dor.
da minha parte, não tenho nada a dizer sobre portas de emergência, sinalizadores ou alvarás de discotecas. Só tenho a sensação de uma tarde cinza, de uma tristeza no ar e de um excesso de palavras. Se tivesse perdido alguém próximo, gostaria de estar perto dos que ficam pra dar um abraço. Não sendo o caso, o que tenho a oferecer é o meu silêncio. E um desejo de sorte nas palavras que cada um escolha pra criar uma história que ajude a seguir em frente. Até porque, por acidente ou não, eu também acabo de escolher as minhas.

sábado, janeiro 19, 2013

janeiro

o espaço em volta reluz como um gramado seco demais, refletindo o sol ainda tímido da manhã. Quieto, eu apenas aguardo o momento da primeira faísca, depois da qual tudo o mais será incêndio.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

o que aprendi com o olímpico monumental

estranho nutrir uma sensação de dívida com esse tosco anel de concreto, mas é inegável que ela existe. Pois por mais chavão e piegas que seja dizê-lo, vários pedaços do que eu sei sobre a vida depois de trinta e três anos de campeonato eu aprendi por aqui. A começar pela verdades mais óbvias, e mais difíceis de aceitar: como a de que na vida às vezes se ganha, às vezes se perde, às vezes se empata (e às vezes o juiz encerra o jogo porque fica com medinho). Aprendi que o mundo é fundamentalmente injusto, que o melhor nem sempre ganha, e que de certa forma é bom que seja assim, porque senão seria beisebol. Mas também aprendi que as derrotas podem ser tão épicas e notáveis quanto as vitórias, e que passada a ressaca a convivência de ambas na memória é surpreendentemente harmoniosa. Aprendi a abraçar estranhos, e a compartilhar experiências e estados de espírito de uma forma que a vida lá fora quase nunca proporciona. Aprendi que nem derrotas nem vitórias duram pra sempre, que a cada ano a tabela do campeonato começa do zero, e que no fim das contas a vida sempre anda em círculos. Conheci o esforço hercúleo dos comentaristas esportivos em fingir que não repetem suas frases pela milésima vez, em fazer tudo parecer tão novo como no primeiro dia em que se pisa no estádio. E conheci a imensa capacidade do ser humano em de fato acreditar nisso, sentir que uma noite qualquer de quarta-feira será a última e que tudo o que já se ganhou ou vai se ganhar na vida pouco vale em relação ao que está em disputa no instante presente. Também aprendi a constância: triste ou alegre do lado de fora, eufórico ou fodido na vida, uma vez dentro do anel de concreto sempre voltam a valer as regras: os mesmos noventa minutos, os mesmos onze de cada lado, a mesma lógica inabalável do jogo. E aprendi sobre os inesquecíveis momentos em que toda essa lógica se dissolve, em que alguém apanha a bola e contraria frontalmente o fluxo natural do universo, em que sete podem ser mais que onze mesmo com um pênalti contra (ok, confesso que isso foi pela tevê). Aprendi que esses momentos raros são os que contam, que se vive oitenta e nove minutos e meio de marasmo pra ver o destino decidido em dez ou quinze segundos, por um lance genial ou por um erro bobo. Mas ainda que tudo se decida nesses instantes, no lampejo brusco de um ataque fulminante, talvez a lição mais importante que o estádio me ensinou é que a maior parte da vida é meio de campo. Zero a zeros frustrantes, toques pro lado, volantes de contenção, carrinhos escorregadios e bolas divididas. E que por mais que o destino da partida se decida em um instante, de certa forma ela é ganha ou perdida nesse meio de campo truncado. Nos tempos mortos em que nada parece acontecer, mas nos quais se urge silenciosa e imperceptivelmente a agonia ou o êxtase do que está por vir. Pois são a dedicação e a espera pacientes durante esses oitenta e nove minutos aparentemente fúteis que, de dividida em dividida, terminam por levar ao ponto em que a sorte irrompe. E esse é o grande mistério. Saio do Olímpico pela última vez graduado, um tanto mais sábio do que se aqui não tivesse pisado. E sobre o quanto a vida ainda há de ensinar pela frente, através desse estranho rito entre as quatro linhas do campo, só a Arena agora é capaz de dizer.

domingo, novembro 18, 2012

sobre o sentido das ítacas

escrever é voltar pra casa. Deixar pra trás a balbúrdia dos aeroportos, dos trens lotados, do tráfego insano de sedutoras metrópoles que partirão você em pedaços. Virar as costas para a violência e a euforia da realidade, para a força irreprimível do que não se exprime, para o raro talento do momento presente em atropelar o que um dia você chamou de identidade. E depois de atravessado pela claridade do mundo, exausto, deixar o corpo arrefecer no chão frio do chuveiro, ainda sem luz. Sem nada além da imagem em negativo na retina e as marcas vermelhas nas costas pra tentar entender o que ainda resta do lado de dentro, com o corpo liberto do sal pela água que corre. No dia seguinte, um pouco mais livre do cansaço, você revelará as fotos (armazenadas em película, sempre), e redescobrirá o que acaba de atravessar, não na sua inteireza inapreensível, mas em uma moldura particular e imóvel que, pendurada na parede, aos poucos substituirá o real por algo passível de compreensão. Uma galeria de imagens com início, meio e fim que você possa mostrar aos seus amigos depois do jantar. Um simulacro que não será mais do que uma sombra frente à luz que o originou, mas lhe dará o esqueleto necessário para que as palavras se juntem, para que a intensidade que isolava se transforme na narrativa que unifica as contas-entes de você mesmo. E com isso fará um pouco mais fácil a transição das infinitas facetas do mundo para o pouco que você é capaz de guardar no corpo, na memória, na página. Uma página em branco que, se parecer pobre, não o terá iludido, pois será ela que por fim lhe dará a viagem. Concedendo forma e limite ao que era amorfo e infinito, como forma de apreensão de uma ínfima parte da realidade, aquela que você é capaz de contar. Fazendo-o enfim livre para dar as costas ao infinito e encarar a casa redescoberta, o íntimo pedaço do universo que você é capaz de chamar de seu.

segunda-feira, novembro 05, 2012

fragmento de um dicionário de línguas imaginárias

Dentre os conceitos básicos de geometria que se podem depreender do estudo do Yualapeng, chama a atenção a ausência de referências de trajetória, como “ir”, “vir” e “voltar”. Ainda que os termos utilizados para descrever conceitos espaciais estáticos (pontos cardeais, frente e trás, esquerda e direita) lembrem os de outros idiomas da mesma raiz, quando um Yualapeng entra em movimento ele jamais dirá que está indo para algum lugar além do próprio lar. Se perguntado para onde vai, mesmo que tenha recém saído pela manhã em direção ao trabalho na roça, sua resposta será sempre “para casa” (tar awak), ou mais precisamente “para casa, passando pelo trabalho” (sik peng tar awak).” (G. Valdès, "Tratado e obra sobre o idioma Yualapeng")

sexta-feira, novembro 02, 2012

e já que o assunto é competição...

só pra constar, "Correnteza e Escombros" é um dos finalistas do Prêmio Açorianos de Literatura de 2012 na categoria conto, junto com "Enquanto Água", de Altair Martins, e "A Árvore que Falava Aramaico", de José Francisco Botelho. Prezo muito a companhia.

abrindo a porta de vez

depois de um intervalinho pra fazer charme, a Espel Pictures (no fundo, apenas mais um nome fantasia deste que vos fala) tem o prazer de anunciar que nosso primeiro curta 100% produzido dentro de casa, "A Porta do Quarto", acaba de estrear online. Mais especificamente, estamos concorrendo no Festival Curta Como Quiser, que tem exibições na internet, cinemas, televisão e voos da TAM (sério!).
o curta estará disponível de 01/11 a 01/12 nesse link no site do SundayTV, e concorre a alguns prêmios no processo.
como o festival tem uma votação popular (convenientemente medida pelo número de pessoas que apertam o botam "curtir" no site do filme, em cima da tela), seria realmente legal se os que apreciarem o filme dessem uma força e ajudem com um clique do mouse. Pra um curta realizado de forma totalmente independente (com um custo inicial de produção de uns 200 reais, dos quais metade foram gastos em pizza, e um dinheiro um pouco maior investido na pós-produção) um prêmio significa (a) a chance de recuperar o prejuízo investido e (b, e muito mais importante) a chance de poder recompensar o resto da equipe pelo trabalho, feito sem remuneração por parceiros que simplesmente acreditaram na história, porque parecia uma história que valia a pena.
e enfim, mesmo que a gente não ganhe nada, seu clique ajuda a divulgar nosso filme pra cada vez mais gente. O que no fundo é a força motriz da história toda, ainda que às vezes a gente esqueça.
o resto da programação do Festival, incluindo exibições em outros meios, está disponível aqui. No cinema, o filme passa nos Cinemarks do Shopping Higienópolis de São Paulo e Iguatemi de Campinas no dia 06/11 às 13h. Na TV, os curtas do festival passam de segunda a sexta às 16h30 e de segunda a sábado às 21h no Canal Futura, e todos os dias às 15h45 e às 21h45 no CineBrasilTV, mas não faço ideia de pra qual dia estamos agendados. No avião, nem sei se estamos realmente agendados, mas se por acaso eu calhar de entrar num voo em que o meu próprio curta apareça na TV prometo ter orgasmos múltiplos com a experiência.

sábado, setembro 22, 2012

apesar do silêncio

sigo indo, feito ilha tentando se acomodar no continente.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Oz em greve

sempre desconfiei um pouco da afirmação popular de que “todos os políticos são uns filhos da puta”. Não porque simpatize demais com eles, mas simplesmente por um certo ceticismo científico: parece uma improbabilidade estatística, afinal, que toda uma classe cometa gestos que afrontem sua própria noção de moral o tempo todo e não comporte uma única pessoa honesta.
minha ideia sempre foi um pouco oposta – da minha parte, tenho a impressão de que Malufs e Sarneys da vida acreditem de verdade que fazem a coisa certa pelo país e pela tradição que representam.  E quanto às falcatruas tão grotescas pra quem olha de fora, talvez elas simplesmente lhes pareçam naturais – uma imposição necessária ou uma recompensa justa pelo que fazem, e nada além do modus operandi da política brasileira há séculos.
com isso, minha explicação pro que parece injustificável em Brasília sempre foi a da gradual habituação ao absurdo até ele começar a passar desapercebido. O fato da classe política brasileira ter se tornado tão fechada em sua Ilha da Fantasia no cerrado, e tão distante da vida do cidadão médio, que a desonestidade se torna banal, num mundo mágico de Oz fechado em si mesmo que opera por regras próprias. E como deportação de judeus pra quem cresceu na Alemanha nazista, corrupção passa a ser apenas parte da vida.
e tudo isso, no fundo, é apenas falta de um reality check. Enquanto ninguém de fora aparecer pra dizer que o rei está nu, ele não se dará ao trabalho de vestir-se. Não por má vontade, mas simplesmente por ter esquecido de que tinha que fazê-lo.
tudo isso tem passado pela minha cabeça nos últimos dias, ao acompanhar o desenrolar da greve dos professores federais. Pra quem por acaso não estiver ciente, a classe anda em greve há mais de dois meses em nome de um aumento salarial e um plano de carreira. Da minha parte, não tinha parado de dar aula por não me sentir representado (a greve da UFRJ foi decretada numa assembleia com menos de 5% dos professores presentes, em que só quem era filiado ao sindicato podia votar). Mas acabei forçado a fazê-lo quando os alunos resolveram apoiar a greve, com reivindicações que eles não sabiam bem quais eram, e que tinham pouco a ver com a pauta da greve de fato, incluindo porcentagens do PIB pra educação, hospitais universitários e papel higiênico no banheiro. O que apenas prova que poucas pessoas servem tão bem de massa de manobra quanto estudantes universitários, mas isso é uma outra história.
mas voltando ao resumo dos fatos, dois meses depois do início da greve o governo acenou com uma proposta de aumento salarial que leva os valores da classe a valores até bem dignos pra qualquer um que olhe de fora (se você duvida, olhe eles aqui). E minha impressão quando fiquei sabendo foi “que bom, ganhei um aumento que parece justo e as aulas vão voltar”. Três semanas e duas rodadas de negociações depois, porém, eu acompanho perplexo que os sindicatos continuam se recusando a voltar às aulas. E tudo isso em nome de algo incutido na proposta que eles chamam de “desestruturação da carreira”.
sem entender muita coisa, resolvi tentar entender o que era a tal desestruturação da carreira e fui ler as posições da ANDES (o sindicato nacional que me representa) em relação à proposta original. E desde então, todos os dias me pergunto como a universidade pública possa ter virado também o mundo mágico de Oz, e como eu fui acabar dentro dele.
pra quem não tiver paciência de ler o documento inteiro (até porque ele é meio ofensivo ao bom senso), tentarei resumir a minha impressão. Existem inúmeras críticas a pontos específicos da proposta do governo, que eventualmente até são fundamentadas, como discrepâncias entre os aumentos em diferentes classes, achatamento de aposentadorias e outros itens (algumas das quais inclusive já abordadas em uma proposta posterior do governo). Mas esses detalhes não vêm ao caso agora. Porque em termos de paradigma, os dois pontos conceituais principais que mantém o sindicato em greve parecem ser os seguintes:
(a) a proposta do governo “desestrutura a carreira” por estabelecer hierarquias entre professores, com diferentes classes conforme a qualificação profissional (com doutorado vs. sem, por exemplo), e criar regras para a ascensão à classe de professor titular que envolvem um processo seletivo e limitam a porcentagem dos professores que podem chegar a essa esfera mais alta. Citando a ANDES, “todos os professores exercem a mesma atividade que é o desenvolvimento e aperfeiçoamento do ensino, da pesquisa e da extensão de forma indissociável”. Logo, “todo o professor pode chegar ao topo e que o desenvolvimento na carreira ocorra pela incidência equilibrada entre a experiência acadêmica, a formação continuada e a avaliação do trabalho docente no contexto da avaliação institucional, respeitada a autonomia universitária para definição de critérios.”
(b) condicionar a progressão na carreira a uma avaliação periódica a ser realizada pelo MEC, o que de acordo com a ANDES é um absurdo, pois faz com que “a autonomia universitária é profundamente atacada quando se remete a definição de critérios avaliativos de tantos e tão distintos percursos acadêmicos, extremamente variáveis entre áreas do conhecimento e localizações geográficas , para regulamentações gerais que serão baixadas de fora para dentro pelo governo central”, ao instituir uma “avaliação individual de cunho produtivista, objetivada em um escore de pontos, característica do paradigma gerencial.”
são palavras bonitas, com certeza. Mas se você foi convencido por elas, das duas uma: ou você nunca esteve dentro de uma universidade pública, ou você está dentro dela há tempo demais e deixou de perceber o quão fora da realidade é o seu funcionamento.
pra quem por acaso esteja no primeiro grupo, deixem eu tentar traçar um breve panorama do que consiste o trabalho de um professor universitário. Professores universitários não batem ponto, tem poucos horários fixos afora os de aula (atualmente fixados em 8 horas por semana pela Lei de Diretrizes e Bases, ainda que isso varie), e têm uma liberdade considerável pra escolherem ou inventarem projetos, temas de pesquisa e outras atividades às quais queiram dedicar seu tempo de trabalho. E é ótimo que essa liberdade exista, porque no fundo ela é o que permite a universidade possa existir enquanto espaço criativo de geração de ideias.
contanto, é claro, que as pessoas usem esse tempo e essa liberdade pra alguma coisa de útil.
no entanto, quem já frequentou uma universidade pública sabe que as tais 40 horas dependem pura e exclusivamente da boa vontade do professor. Porque na prática, afora o tempo em que você tem que estar em aula, não existe ninguém pra cobrar o que você faz no resto do tempo. E na ausência de controle externo nenhum, a verdade é que se eu, ou qualquer outro, quisesse dar as minhas duas manhãs de aula por semana e passar as outras 32 horas coçando o saco, surfando ou jogando bola de gude, nada nem ninguém me impediria. Aliás, talvez eu tivesse menos incomodação do que ao tentar trabalhar, por não estar competindo pelos recursos de ninguém.
um segundo fato inquestionável é que ninguém faz a menor ideia do que eu faço ou não em sala de aula: nem o MEC, nem a reitoria, nem o meu Instituto. O que significa que eu sou plenamente livre pra dar aula do jeito que quiser, chegar na hora que quiser, sair na hora que quiser e não prestar contas pra ninguém. E a não ser que eu incomode tanto os estudantes a ponto de gerar algum processo administrativo, o que quer que eu faça em sala de aula não vai fazer a menor diferença na minha vida, porque as avaliações deles sobre mim acabam perdidas em algum formulário que ninguém jamais vai olhar. O que significa que, pra minha carreira, dar uma aula ruim vale mais a pena do que ter o trabalho necessário pra preparar uma boa aula, já que livra tempo pra exercer atividades mais bem recompensadas.
e antes que alguém entenda errado, não quero dizer em absoluto que todo professor universitário seja vagabundo e não faça nada. Muito pelo contrário, minha impressão é que a maioria deles trabalha, cumpre e frequentemente excede de longe as tais 40 horas semanais, e assim corresponde ao que a sociedade esperaria deles. Mas ao mesmo tempo também conheci dezenas de professores, desde a época de aluno, que cumprem o seu mínimo de horas de aula e caem fora da universidade o mais rápido possível, trabalhando uns 20% ou menos daquilo para o qual são pagos. Afora os ocasionais casos escandalosos que não dão aula, não fazem mais nada, sequer aparecem na universidade e ainda assim não são demitidos, porque mandar alguém embora do serviço público é uma tarefa tão hercúlea que às vezes é mais fácil esperar que eles se aposentem.
duvido muito que qualquer pessoa que tenha passado por uma universidade pública não conheça inúmeros exemplos como os citados acima. E apesar de tudo isso, porém o sindicato afirma, estapafurdicamente, que “todos os professores exercem a mesma atividade que é o desenvolvimento e aperfeiçoamento do ensino, da pesquisa e da extensão de forma indissociável.” Uma afirmação risível  que denota claramente que ou (a) o comando nacional de greve nunca colocou os pés numa universidade ou (b) eles são hipócritas de marca maior mentindo descaradamente pra sociedade.
e o fato de haver pessoas que trabalham mais e outras que trabalham menos não significa que a universidade esteja infestada de pessoas mal-intencionadas. Mas é simplesmente uma consequência lógica de como o mundo funciona – pessoas diferentes têm motivações e competências diferentes, e é ingênuo esperar que um conjunto de milhares de pessoas sejam iguais e exerçam qualquer atividade da mesma maneira. E como em qualquer lugar, a única maneira de fazer com que todo mundo trabalhe pelo menos o mínimo que se espera, e preferencialmente o melhor possível, é cobrando de quem não trabalha e recompensando quem o faz.  Como seria mais ou menos natural em qualquer lugar do universo, exceto no sistema público brasileiro.
o que me leva naturalmente ao segundo ponto nevrálgico da posição do sindicato, que é a convicção dogmática de que professores universitários não podem ser avaliados pelo MEC, nem por ninguém de fora da universidade, porque isso feriria a “autonomia universitária”. O que, na versão do sindicato, é o conceito de que (a) a sociedade tem que pagar (e bem) os professores através do Ministério da Educação, porém (b) só os próprios professores são capazes de avaliar a si mesmos em âmbito interno e dizer o que eles mesmos têm que fazer. Ou seja, ganhamos 35 anos de salário mais aposentadoria, e nos sentimos plenamente confortáveis com o fato de não ter que prestar contas pra sociedade em momento nenhum.
contra toda a lógica, assim, a proposta da ANDES é que “todo o professor pode chegar ao topo da carreira”, sem que ninguém de fora tenha controle algum sobre isso. E que a única condição para chegar lá sejam critérios estabelecidos pelos próprios professores, dentro dos próprios departamentos, o que significa basicamente que você será avaliado pelos seus vizinhos de corredor, que por sua vez serão avaliados por você. E nenhum deles terá nada a perder se todo mundo for aprovados, já que é o MEC que vai pagar a conta mesmo. O que na prática significa que a não aprovação de progressão na universidade só ocorre em caso de hecatombe (ou de briga política feia). E que qualquer professor pode tranquilamente sentar a bunda depois de concursado e ver o salário aumentar eternamente sem grandes preocupações. Um pouco como uma empresa em que todo estagiário recebesse ao ser contratado a garantia de virar CEO. E enquanto isso, a sociedade paga a conta, sem a menor possibilidade de cobrar o investimento feito.
(note-se, aliás, que a tal “avaliação” não é sequer uma avaliação de verdade como as que existem no mundo real, que permitiriam botar pra rua alguém que não trabalha, ou ter alguém chegando pra cobrar porque raios os alunos acharam sua aula de ontem uma merda. Só significa que pra que você receba um aumento você vai ter que mostrar que fez alguma coisa ao longo de dois anos, com critérios que sequer estabelecidos estão. Mas mesmo isso parece completamente inconcebível pra quem vive no mundo mágico de Oz).
qualquer pessoa com um mínimo de bom senso que olhasse de fora diria que um sistema desses evidentemente não pode fazer sentido. Que é ridículo que alguém possa ganhar por 40 horas de trabalho e trabalhar 8, e mais ridículo ainda que esse alguém ganhe o mesmo que o outro que trabalha 60. Mas pro movimento sindical docente, que vive nesse mundo mágico em que todos são idênticos, competentes e trabalham o máximo que podem sem cobrança alguma, tratar todo mundo da mesma forma é apenas o estado natural, inevitável e justo das coisas. Algo assim como um socialismo que dispensasse a fase da ditadura do proletariado e pulasse direto pra utopia do mundo perfeito.
e naturalmente qualquer iniciativa em prol de diferenciar essas pessoas e recompensar quem trabalha é imediatamente tachada de “produtivista” e rejeitada como uma tentativa de “dividir a classe”. O que na verdade é exatamente o caso: a ideia toda é dividir quem trabalha e quem não trabalha, ou quem tem mais qualificação e quem tem menos. O estranho é que isso seja tomado como uma coisa ruim.
mas pra quem está dentro do sistema, tais convicções parecem absolutamente normais, e o que mais me apavora é pensar que muitos professores de fato acreditam nelas. Porque essa parece ser a natureza do sistema público brasileiro: um conjunto de categorias que, por falta de controle externo, lentamente absorvem a convicção de terem recebido uma graça divina via concurso que as permite serem sustentadas para o resto da vida sem prestar contas a ninguém. E por falta de alguém de fora pra lhes dar limite, acabam se transformando, cada um deles, na sua versão particular de Oz.
e ainda assim, a mesma classe fica pasma e indignada quando vê a mesma coisa acontecendo no Congresso, no Judiciário ou onde quer que seja, sem conseguir olhar pro próprio umbigo. Afinal, achar que professores podem auto-avaliar idoneamente seus próprios méritos é mais ou menos como achar que deputados podem legislar sobre os próprios salários. E não sei bem se existe algum deputado honesto em Brasília, mas se houver eu acho que devo andar me sentindo mais ou menos como ele se sente, assim como boa parte dos meus colegas que trabalha pela universidade. Me vendo dentro duma instituição à qual eu dedico boa parte do meu tempo, que considero vital pra sociedade e em cuja sobrevivência eu tenho todo o interesse. E assistindo as pessoas que representam a classe perderem o senso de realidade, a ponto de ameaçarem acabar por desmoralizá-la junto à população. Como quase toda instituição pública acaba desmoralizada no Brasil, devido a um insustentável modelo de gestão pública em que ninguém é responsabilizável por coisa alguma.
e o mais engraçado é que em toda greve que presenciei desde que eu era aluno (essa já é a quarta), o sindicato sempre quis me convencer que o real motivo da greve era “salvar a universidade pública” (ou “evitar a privatização da educação”), ainda que desde a primeira já me parecesse óbvio que eles só queriam salvar a si mesmos. Na minha humilde opinião, no entanto, se a ideia é salvar a universidade, o primeiro passo é rejeitar frontalmente uma postura ideológica que protege quem se acomoda, não recompensa quem trabalha e parece querer transformar a universidade federal em mais uma repartição pública (com todo o sentido pejorativo que o termo “repartição pública” infelizmente veio a adquirir no Brasil). E tentar construir algo que se assemelhe um pouquinho mais ao mundo lá fora, longe de Oz, em que as pessoas são responsáveis pelos seus atos, e passíveis de serem avaliadas pelo seu trabalho e criticadas pelas suas falhas. Porque a única maneira digna de pleitear um salário justo é oferecer a contrapartida de poder ser cobrado por quem o paga. Que em última análise não é o MEC, e sim todos nós, contribuintes, que somos quem acabará arcando com a conta.
e era mais ou menos isso, dei a cara pra bater. Mas tenho a impressão de que minha profissão precisa urgentemente de um tapa na cara pra acordar.

segunda-feira, julho 30, 2012

prelúdio para um livro por escrever

em primeiro lugar, não me tome como palavra. Para você que escolhe enfrentar-me, antes de ser palavra eu sou espaço. Uma página em branco, uma maneira nova de preencher o silêncio. Uma voz que não era a sua até há pouco, mas que guarda a promessa de vir a sê-la. Em mim você busca uma espécie de redenção, uma forma de remodelar as paredes que o prendem do lado de fora da página. Uma possibilidade de recontar sua história em um registro distinto, de traduzi-la em uma língua imaginária. E às custas de burilar, remoer e revirar do avesso a sua narrativa pessoal, você em seu íntimo guarda a esperança de que a realidade se faça mais clara. De que uma experiência confusa em uma língua carregada e incompreensível se transforme em uma lógica translúcida ao ser fixada na página, como se passada por um google tradutor ao contrário. E é nessa esperança que você me abraçará como projeto, mergulhará de cabeça em mim, abrirá picada em minhas páginas e se baterá contra o idioma atrás da transcendência que se oferece do outro lado. Do momento em que a palavra se fará justa e clara, redimindo a confusão da realidade, e em que você por fim emergirá na outra ponta do túnel.
mas ao mergulhar em mim, você não percebe, ou finge não perceber, que isso é apenas uma hipótese. Que a saída do túnel é apenas uma suposição, uma certeza não justificada de que a confusão de sua cabeça pode ser traduzida em uma língua que a torne mais simples. Mas tenha em mente que é igualmente possível que essa língua não exista e nem possa existir. Que o seu mundo interior só seja apreensível em pequenos pedaços incongruentes, e que novas línguas e novas histórias não lhe permitirão ver as coisas de uma forma mais clara, mas apenas de uma forma diferente. E se isso for verdade, ao invés da clareza, tudo o que você encontrará dentro de mim será ruído. Um ruído que nesse caso não será uma distração, mas sim a essência. E essa polifonia do caralho que lhe ensurdece os ouvidos será a melhor experiência que você poderá ter de uma realidade intraduzível.
mas novamente, lembre que isso também é só uma hipótese.

quarta-feira, junho 27, 2012

dias da fila redonda

como o outro, espero eu também o momento de nascer. Procurando no meio da selvageria desse falso inverno um fio-guia, quaisquer três migalhas de pão que por acaso formem uma linha. Não pra indicar o caminho de volta, mas simplesmente pra sugerir alguma trilha a seguir no meio dessas tantas abertas a facão, pela minha vontade ou contra ela, no desmatamento geral dos últimos anos. E consciente de que o desejo de seguir por todas elas é o único sincero, mesmo que impossível, já sou capaz de decidir que nada se decide. E exponho o corpo ao sacrifício com uma volúpia incomum, sem saber se isso é abrir picada numa floresta que há pouco parecia sem saída ou buscar alguém pra replantar a porra toda. Mas sabendo lá no fundo que a única opinião possível é encontrar quem seja mato e picada, e possa fazer com que a trilha dure.
e como em todos os tempos que realmente importaram na vida, o que paira suprema sobre todo o resto é a sensação de espera. A expectativa enorme, corporal, de que algo vital vá acontecer a qualquer momento, e que às custas de sua própria intensidade fará com que algo acabe de fato acontecendo. Mas enquanto esse algo não vem eu também espero na fila redonda, aguardando o desfecho inevitável: o momento em que se nasce, em que o canal do parto chega ao fim, em que se enxerga a luz branca da vida de verdade que começará do outro lado. Com a mesma expectativa adolescente de sempre. E com uma pontinha de desconfiança, essa nova, de que talvez o outro lado pouco importe, talvez nem exista, e de que não haja vida maior do que esse úmido e lindo túnel de espera.

sábado, junho 16, 2012

pra quem cansar de ser sustentável

uma semana inteira de Rio+20 foi demais pra você? Cansado de ouvir palavras bonitas sobre sustentabilidade, emissões de carbono e aviões feitos de garrafas PET (várias delas escritas em folhetos em que você vai botar no lixo em cinco minutos, ou então em letreiros luminosos que precisam de umas três Belo Montes pra acenderem)? A fim de curar a ressaca do fim de conferência com um pouco de neurose e insensatez?
se esse for o caso, meu curta-metragem ultraminimalista A Porta do Quarto faz sua estreia carioca no De Modo Geral, evento multimídia criado pelo amigo Paulo Scott e já na sua décima-primeira edição. Afora minha pequena história de vida contada sem movimentos de câmera (em redondos 7'44"), literatura, teatro, performance e conversa jogada fora entre gente legal.
o evento rola na Casa da Gávea na próxima sexta, dia 22 de junho, às 20h30 da noite. Parece que o filme passa por volta das 21h30, mas eu não confiaria lá muito na previsão. Mas não se preocupem, que o resto da noite também promete. Apareçam.