segunda-feira, julho 14, 2014

pequena apologia da derrota

porque depois de tomar porrada suficiente pra se dar conta que no fundo não dói lhufas, você cria coragem pra encarar o inimigo. E na praia de Copacabana, em meio ao que parecia ser um bilhão de argentinos (por sorte era só impressão, não tem tantos no mundo), ali estávamos nós, a meia dúzia de brasileiros que tiveram a falta de noção suficiente pra se misturar na multidão depois de levar dez gols em dois jogos. E agora, algumas horas, várias cervejas e um banho quente depois, tenho que concluir que fomos recompensados. Menos pelo jogo (que foi o mesmo que qualquer um de vocês viu pela tevê). E mais pelo que veio depois. Porque desfeita a pretensão de ser maior do que os outros, de erguer um punhado de metal dourado, de comemorar um título que ninguém conseguiria explicar racionalmente porque deveria importar tanto, restamos nós. Um bando de latino-americanos perdidos na praia, há pouco repletos de esperança, agora apenas um exército de perdedores. E pela primeira vez desde o início da semana, a impressão era a de que voltávamos a estar em bases iguais, e a perceber o quão do caralho isso pode ser. Ao meu redor hermanos derrotados, alguns com uns restos de lágrimas nos olhos, se esforçavam pra marcar um último gol pós-prorrogação com as brasileiras que passavam. Na praia, uma pelada com jogadores entrando e saindo espontaneamente de campo acontecia sem nenhuma lógica ou finalidade possível além da possibilidade de uma torção de tornozelo (ou o privilégio de ver um pirralho de um metro e trinta com a camisa do Messi driblando um holandês de um metro e noventa). Em cantos escondidos da Avenida Atlântica, torcedores de México, Colômbia, Chile e outros países que ficaram pelo caminho renasciam aos gritos de ”eeeeeeeê, PU-TO!”, “Robben es un maricón” e “no fue penal”. E enquanto alguns argentinos ainda choravam, outros bebiam e a maior parte simplesmente chutava o balde e ligava o botão do foda-se, brasileiros combalidos tentavam sem muito sucesso fazer frente às musiquinhas argentinas (as melhores tentativas não passavam do segundo verso, que geralmente era “tomar no cu en casa tu papá”). E em meio ao ruído e às sirenes piscantes de um milhão de policiais garantindo uma civilidade forçada, o que acontecia ao meu redor já não era briga, guerra ou conflito, mas simplesmente a comunhão da derrota. E a percepção saudável de que, no fim das contas, dado que toda Copa tem trinta e uma vezes mais perdedores do que vencedores, a festa desse lado sempre vai bombar bem mais do que a do outro. Porque se em algum lado do mundo um bando de alemães bêbados soltam o anódino grito de “Super Deutschland, olê olê” (de novo, dez a zero pra Argentina nesse quesito), dificilmente isso vai fazer frente a essa peculiar noite que acaba de se passar - ou talvez continue acontecendo - na praia de Copacabana. Uma noite improvável que nos faz a todos um pouco mais humanos. Nem que seja por refrescar na memória a lição mais óbvia do futebol: a de que às vezes se ganha, às vezes se perde e às vezes se empata (e, como já dizia tio Gauss, às vezes se perde de sete, por sorte bem às vezes). E de que no fim das contas a inevitabilidade do fracasso é o que nos une enquanto espécie. Uma lição tão boba e óbvia a ponto de tornar chocante o quanto o suposto país do futebol parece incapaz de absorvê-la, a cada vez que sai atrás de bruxas, culpados e explicações quando a derrota bate a porta. Mas ao contrário do que possa dizer o Galvão, dessa vez a festa da derrota foi foda pra quem tava lá. Só você que estava chorando as pitangas é que não viu.

sábado, julho 12, 2014

em breve num cinema perto de você

mais especificamente na Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro em Porto Alegre, dia 18 de julho às 20h. Apareçam.

quinta-feira, junho 19, 2014

o espaço

então você olha pra fora da janela e vê a luz clara, a brisa do mar, a temperatura anormalmente agradável desses dias ensolarados de outono. E quando a luz entra pelo espaço que se criou, depois que tudo em volta caiu aos pedaços, o que você encontra é um silêncio estranho ao qual você não está acostumado. Sua primeira reação a ele, como de hábito, é olhar ao redor pra tentar encontrar algum resquício do que havia antes. Você sempre foi bom em juntar pedaços, afinal, construir ficções sobre o que caiu, usar os escombros como cenário pro seu próximo filme. Mas dessa vez os fragmentos são pequenos e lacônicos, e não servem pra construir nada que não seja areia. E o que existe é apenas essa luz, amorfa na ausência de qualquer coisa de pé que possa fazer sombra. Subitamente o mundo se fez claro, amplo, vazio, solar e silencioso. E você se dá conta do quanto isso lhe inquieta. O quanto lhe remete a um tempo distante em que você mal era você, alguma tarde de sábado em frente ao computador vinte anos antes, uma espécie de preparação final antes da vida começar. A última vez em que você não tinha lugar óbvio pra correr da solidão. Porque depois disso sua capacidade besta pra construir amores na sua própria cabeça sempre deu conta do recado. E mesmo em todas as vezes que eles se quebraram você sempre foi tão bom em escutar seus próprios diálogos imaginários emanando dos escombros que nunca teve tempo pra reparar no silêncio. Mas agora você percebe que o que se acostumou a chamar de silêncio durante esse tempo todo foi apenas o ruído constante da sua própria narrativa. Um eco de um lugar imaginado, externo ao mundo, uma Ítaca perdida que no final daria sentido à odisseia, ao calvário e ao exílio. Mas agora não existe calvário nem exílio, apenas o espaço ermo de um domingo de sol. E dessa vez não há histórias óbvias pra preencher o silêncio: os códigos se perderam, as senhas foram esquecidas, e já não há como resgatar de um mundo estrangeiro as palavras que antes emanavam dele. Não porque você tenha perdido sua eloquência, mas porque qualquer palavra que você pudesse pronunciar nesse momento diria pouco sobre o que você sente. Pois o que você tem a dizer dessa vez é apenas esse enorme grito ao contrário, esse vácuo que você projeta no ar esperando que alguma voz fale de volta e se infiltre no ar que você engole, aspira, golfeja. Mas o que o mundo lhe devolve é apenas esse ar puro, quieto, quente, esse resquício de maresia no fim da tarde. E você se dá conta do desconforto estranho que isso lhe traz. Um desconforto que o faz perder o resto da semana declarando guerras contra oponentes imaginários, construindo moinhos, batendo em você mesmo e fingindo que os socos são de outra pessoa. Pra ver se a dor que isso lhe causa o convence de que existe alguém de carne e osso contra quem lutar, e lhe exime uma vez mais de enfrentar o oponente de verdade. Esse espaço vazio e enorme ao seu redor, sem narrativas pra esconder a experiência fundamental de estar sozinho. Sem construções pra encobrir a visão de um mundo duro e incompreensível que segue ali, avesso a ser explicado. Um inimigo que, ao contrário das ameaças concretas da vida, segue sendo uma verdade que você não sabe enfrentar. Pois sua força é inútil contra esse oponente desleal que não sente seus golpes, que não bate de volta, que em sua passividade esvazia o sentido da briga e escancara a sua impotência. E todas as suas estratégias falham contra o enigma perene e imóvel de uma tarde clara de domingo, que não oferece resposta nenhuma à sua fúria senão esse enorme e desmesurado silêncio.

quinta-feira, maio 15, 2014

toró de livro

meio envergonhado por usar esse espaço quase que exclusivamente como forma de divulgação de outros projetos nos últimos tempos, venho informar pros bem-aventurados que escapam da minha lista de spam (e portanto ainda não sabem da história) que estou num projeto legal de antologia literária da Bookstorming, editora carioca especializada em crowdfunding que acaba de vir ao mundo.
o livro se chama Desordem, e além do meu conto (uma história sobre black blocs e neuropróteses chamada "O ano em que nos tornamos ciborgues" - dá pra ler um trechinho no site) tem a participação de seis outros autores brasileiros legais: Cristiano Baldi, Erika Mattos da Veiga, Katherine Funke, Natércia Pontes, Patrick Brock e Paulo Bullar. A seleção fica um pouco no meio caminho entre a novidade e a nostalgia, e nesse sentido é sempre saudável ver que eu não sou o único cara de cabelos brancos que ainda consegue entrar na categoria dos "jovens autores brasileiros".
por 35 reais, frte incluso, você ajuda na viabilização do livro e recebe ele em casa quando ficar pronto se a campanha vingar (ou o dinheiro de volta se isso não acontecer). Bem mais simples e rápido (e com menos atravessadores) do que ir na livraria.
então enfim, se interessar, passa lá no site (http://www.bookstorming.com.br), pega um exemplar e apoia a campanha. O processo dura menos de cinco minutos, custa menos do que dois números 1 do McDonald's e rende um livro legal entregue na sua casa. Além de ajudar alguma coisa diferente a começar no mercado editorial. E acreditar no diferente é algo que faz uma falta grande no mundo.

domingo, março 09, 2014

sempre o último a saber de mim mesmo

não que seja novidade a essa altura, mas com um atraso gigantesco venho só registrar aqui que tem um conto meu na última edição da VOX, revista publicada pelo Instituto Estadual do Livro do RS, por conta do Concurso de Contos Josué Guimarães do ano passado. Dá pra ler o conto aqui no Issuu ou aqui em PDF. Depois de circular mundo (o conto já saiu na antologia alemã Wir Sind Bereit no ano passado), é sempre bom ver a história voltando pra casa. Como aliás tudo volta, mais cedo ou mais tarde.

terça-feira, dezembro 31, 2013

retrato do artista enquanto nuvem

na fila da janela, levo atrás do tapa-olho meu rosto exausto de sala de embarque. E me pergunto se do outro lado do vidro ainda há algum lugar imóvel que dê pra chamar de casa. Que por vezes já acredito que o mundo possa ter se convertido de vez nessa caixa de Pandora ao contrário, em que eu entro a cada dia pra sair em outro lugar, outra órbita, outro território pra mapear. E por mais que eu o tenha tantas vezes desejado, cada vez mais me pego pedindo à estrela cadente pra me tomar os pedidos de volta. Porque na medida em que ganho velocidade, sempre um passo à frente de uma ferrugem imaginária, vou também perdendo a capacidade de sentir o movimento do mundo, o ruído quieto a ser intuído na imobilidade e no silêncio. Perdido na nuvem que me dá liberdade, em meio à eletricidade latente, eu me pergunto como fazer pra condensar. Juntar as gotas de vapor pra tentar traçar a rota de volta ao tempo presente, guiado por alguma trilha esquecida de migalhas de pão. Num mundo sem barreiras, eu sonho com o limite, com a parede que dê forma a um caminho que não aponte sempre de volta pra mim. Mas com os próximos passos todos comprados em promoções na madrugada, já não sou eu quem me navego, quem me navega é a nuvem. E minha resolução de ano novo não é outra senão chover e voltar pro chão.

terça-feira, setembro 17, 2013

mato que é máquina não cria raiz


e em meio ao ruído intenso dos últimos tempos, é com quase uma semana de atraso que arranjo tempo pra anunciar o EP de estreia do projeto Máquina Mato, experimento em forma de banda (ou quase isso) em que toco clarinete, teclados, joystick e uma coisinha de percussão que faz "tec". Além de cumprir o papel de elemento dissonante (ou simplesmente desafinado) que tenta lutar em vão contra a incontornável vocação pop dos parceiros, compositores e músicos de fato da banda. os honoráveis Tiago Conte e Felipe de Paula. Mato que é máquina não cria raiz. E esse é só o começo.

domingo, agosto 25, 2013

por onde andei (v): todo mundo tem suas 15 semanas de silêncio

sem nem ter percebido muito bem o que houve, me dou conta que hoje completo três meses de silêncio nesse não-lugar. E é apenas um sinal dos tempos que, ao tentar entender o que aconteceu nesse lapso, agora que as circunstâncias me forçam a parar pra pensar onde estou, meu primeiro impulso foi consultar a minha própria timeline do facebook pra tentar encontrar alguma pista (abaixo vão postados os resquícios da busca). E esse recurso que talvez fosse apenas natural pra outrem - o mundo abunda em stalkers de si mesmos, afinal - é profundamente estranho pra mim, que sempre soube datas e lugares da minha vida de cor e salteado sem precisar de ajuda. E talvez essa saudável amnésia de mim mesmo, pelo menos em termos de história, indique que a narrativa ferrenha e encadeada na qual o meu ser obsessivo sempre amarrou seus dias comece a aliviar. Se isso é sinal de cansaço ou de que aprendo alguma coisa com quem aparece pelo caminho, só o tempo dirá. Por ora, os altos e baixos do mundo me fazem voltar momentaneamente às palavras. Mas no íntimo, tenho a nítida impressão de que ainda rumo firme em direção à estepe, e a um enorme silêncio prometido no fim da jornada.

por andei (iv): todo mundo tem seus 15 minutos de cineasta




vídeo promocional, Oaxaca FilmFest 2013

por onde andei (iii): todo mundo tem seus 15 minutos de instrumentista

gravação do máquina mato, flamingo records, SP.

por onde andei (ii): todo mundo tem seus 33 segundos de cânone


Rafael Jacobsen lê um livro encalhado em campanha de divulgação do IEL.

por onde andei (i): todo mundo tem seus 15 milímetros de fama

contracapa, "concerto de cordas & máquinas de ritmo".

segunda-feira, maio 27, 2013

autopromoção gratuita (xxix)

e aproveitando o afã de autodivulgação,  meu "A Porta do Quarto" tá de volta online, agora orgulhosamente intitulado "The Door to My Room", no ShortsNonStop, uma espécie de festival online promovido pelo Canadian Film Center. Tem inclusive um link pra votar nele, ainda que não entendi muito bem porque ele precisa ser votado, pois em tese quem decide a premiação do festival é um júri. E nem como exatamente eles vão contar os votos, já que não tem login nem nada. Mas enfim, se passar por lá acho que não custa apertar o botão. Até porque o filme continua sendo legal.

autopromoção gratuita (xxviii)

a notificação tá mais que atrasada, mas era só pra dizer que tem um artigo meu sobre a crise de confiabilidade na ciência biomédica na última edição da Ciência Hoje. Pra quem se interessar, é uma explicação bem tatibitate e pé no chão de por que a boa parte da ciência publicada no mundo é puro lixo. Vá lá que é tudo meio que cover do John Ioannidis, figurinha carimbada no meu álbum de role models científicos de todos os tempos. Mas enfim, o mundo também precisa de boas bandas cover. Nesse caso em particular, o assunto urge.

terça-feira, abril 30, 2013

inversão de prioridades

tendo cumprido o objetivo de dar a volta ao redor do mundo, me resta agora dedicar-me à ambição mais delicada e profunda de deixar o mundo dar voltas ao redor de mim.

sábado, abril 20, 2013

retrato do artista quando jovem pixel

turistas ocidentais apontam câmeras sem pudor pra miséria na Índia, como se fosse espetáculo, matéria prima pra impressionar no facebook ou em jantares de família. Até aí nada de novo pra quem está acostumado a cruzar com os jipes das favela tours na sua própria cidade. Desta vez, no entanto, o que salta aos olhos é que as câmeras que apontam na direção oposta são tão frequentes quanto. Em cada esquina há um turista indiano pedindo pra tirar fotos com um rosto ocidental. Meu trem metido a besta, com suas suítes, funcionários de turbantes e gringos de pele branca, é uma atração turística pro povo parado na estação. E minha silhueta com uma câmera na janela suscita tanto interesse (e tantas câmeras levantadas) quanto a paisagem do lado de fora.
apontar uma câmera para algo hoje em dia já não rouba o espírito nem transforma: é antes uma forma de, face à impossibilidade de apreender a experiência do mundo, torná-la compreensível através de sua redução ao familiar prazer do consumo. Uma resposta estereotipada que nos exime, de certa forma, de fazer algo mais com o mundo – seja pensar sobre ele, interagir de fato ou tentar mudá-lo – pois guardá-lo na câmera, no HD, na gaveta já parece uma maneira de relacionar-se. Dessa forma, fotografar resolve boa parte do não saber o que fazer com a realidade ao redor (quem saberia o que fazer com a miséria na Índia, afinal?). E ao mesmo tempo satisfaz. Como um condicionamento de segunda ordem, lega prazer à experiência da viagem, uma sensação de algo precioso adquirido que se impõe ao desconforto do calor, do cansaço e da gastroenterite, da mesma forma que o celular comprado justifica o desprazer do trabalho que o pagou.
e é peculiar e sintomático que nesse país (tão estranhamente capaz de aparentar paz em meio ao caos, e naturalidade frente ao abismo social), a experiência da fotografia mútua se torne um fenômeno tão extremo. De um lado ou de outro da janela do trem, interagimos uns com os os outros ao mesmo tempo que nos tornamos objetos fixos e imagens paralisadas. Escondidos atrás de nossas telas coloridas, nos contentamos em digitalizar o lado oposto, redimensionando-o em manejáveis megapixels que caibam no tamanho de um iPhone. Uma experiência fotográfica do mundo que é um gesto de curiosidade, mas também de aceitação – do valor de consumo do ícone, do selo de qualidade do índice, da dispensabilidade do símbolo, e da suficiência do que fica no cartão SD. Provas fugazes da realidade de um mundo que guardamos ao invés de explorar, como um e-mail não lido que deixamos pra depois por falta de tempo e que nunca mais será aberto.
e ver o mesmo comportamento na câmera que aponta de volta pra minha, luminosa em meio à sujeira da estação de trem, talvez seja o prenúncio de uma paz estranha. Um mundo onde os extremos do planeta (e da pirâmide social) entram em comunhão na experiência do consumo, e do prazer de ter uma máquina com botões capazes de guardar a realidade. Que a essa altura já é o brinquedo preferido de ambos os lados, ao proporcionar a sensação de adquirir algo único ao preço virtualmente nulo dos megabytes armazenados. Um mundo que abraça o objeto e a imagem, e ao fazê-lo se despe um pouco do sujeito e da palavra, em uma aceitação pacífica da realidade do outro lado da lente. Que, se antes era mutável, ao ser capturada na tela digital se torna fixa e inexorável como um roteiro de Hollywood. Um mundo mais injusto e mais satisfeito do que se sonhou um dia, e que pouca gente esperava encontrar por aqui, logo após a curva do fim da história. Ou pelo menos do ponto em que a História começou a perder a letra maiúscula pra se tornar cada vez menos coletiva e mais fragmentada, tão múltipla como as incontáveis imagens que se amontoam no celular de cada um. E talvez tão permanente quanto, esperando apenas o próximo vírus, crash ou míssil pra apagar a profusão de luzinhas e tornar-se novamente uma tela preta.

segunda-feira, abril 08, 2013

o outro lado do mundo é um poço insuspeito de saudades latentes

água. Enxames de motocicletas. Vacas no meio da pista. Arroz comido com a mão. Bandeirinhas coloridas. Deuses batendo papo em telenovelas. Água mineral pra escovar os dentes. Monges jogando videogame. Estranhos pedindo pra tirar fotos com você. Ausência do conceito de fila. Cortesia transbordante. Buzinas em sinfonia. Passageiros empurrando táxis. Um alfabeto novo por fronteira. Greve geral. Crianças étnicas. Quedas de luz. Cheiro de incenso. Sorrisos. Caos. Paz. Bom dia, Ásia. De uma hora pra outra, descobri que tava com saudades.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

mil bichos pra se esquecer

quando eu era pequeno meu brinquedo preferido era um fichário gigante chamado Mil Bichos. Umas figurinhas grandes com fotos de bichos na frente e informações atrás, feitas pela editora Abril. Hoje valem mil reais no Mercado Livre.
mas o que eu amava nos Mil Bichos não era tanto a foto nem a informação. E sim o fato deles serem classificáveis. Cada bicho tinha uma classificação zoológica, uma classificação ecológica e uma classificação biogeográfica. E você podia classificar eles em pilhas por qualquer um dos critérios.
não conseguiria contar quantas vezes classifiquei, desclassifiquei e reclassifiquei as mil e poucas fichas do brinquedo. O que diz alguma coisa sobre a minha natureza – só uma criança espiroqueadamente neurótica mantém um rito de classificação como passatempo favorito por vários anos. As outras estão ocupadas dando boladas nos vidros do vizinho.
mas tudo isso é um preâmbulo pra contar que esses dias eu parei pra olhar fotos no computador.
minha intenção inicial, além de fazer alguma coisa com o excesso de imagens acumuladas no HD, era fazer uma árvore. Por razões meio arbitrárias e despretensiosas, eu sempre gostei de fotografar galhos e folhas, e sabia que tinha incontáveis dessas fotos guardadas. E embestei que dava pra imprimir um monte delas e encaixá-las como uma árvore única, fazendo uma espécie de árvore de todas as árvores a partir dos detalhes de várias.
então criei uma pasta no computador chamada “árvore mãe” e fui abrindo pastas de fotos atrás de árvores, copiando e colando tudo o que parecia vegetal. Como sempre ocorre, porém, abrir pastas em ordem cronológica reversa rapidamente virou um exercício de revisionismo. Até porque, pra minha natureza Mil Bichos, olhar pra trás nunca é mera nostalgia. E sim uma tentativa de costurar fios, achar relações, traçar narrativas, ordenar fatos. Sou assustadoramente bom em ordenar fatos e datar eventos. Desafio qualquer um que eu conheça nesse quesito.
e como essa gente mala das artes plásticas conseguiu incutir na nossa cabeça que por trás de uma obra tem que haver um conceito, minha árvore logo foi deixando de ser só uma árvore. E se tornando numa maneira de dar continuidade a tempos e lugares desconexos. De juntar as várias árvores numa só, e ao fazê-lo ligar os pontos da minha geografia fragmentada e descontínua dos últimos três anos. Um esforço de dissecção, classificação e arqueologia. Uma tentativa, como quase tudo o que eu escrevo, de criar uma narrativa que dê conta de tudo o que se passou.
então fui cortando e colando folhas e galhos, e isso foi indo, e foi indo. Era foto pra caralho. Mas por menos que eu parasse pra olhar, me limitando a reconhecer superficialmente os lugares e tempos, só o copiar e colar de galhos e folhas se revelou uma tarefa hercúlea. Ao chegar ali pelo fim de dois mil e nove, quando me mudei pro Rio, já tava completamente exausto. E não tinha nem começado a fazer sentido de alguma coisa a mais do que a mera aparência das árvores.
e aí naquele momento tive um dos poucos insights que realmente prestaram na minha vida. Pode parecer óbvio e piegas pra quem ouve de fora, mas naquele momento bateu como poucas vezes a verdade óbvia, mas difícil de encarar, de que não dá pra dar conta do tempo. Ou do mundo, ou da existência. Que a maioria dos momentos e imagens são esquecidos, que tem informação demais pra entrar na narrativa. Que a palavra é lenta demais pra competir com a vida passando. E que não importa o esforço que se faça, o destino final da memória, bem como o da matéria, é se perder na desordem.
o que não significa que não haja fotos legais lá no meio, ou acontecimentos que valham a pena. Mas eles são mais legais enquanto imagens e momentos do que como fios condutores de qualquer coisa. E talvez a melhor, ou a única maneira de aproveitá-los seja tomá-los como tal. Imagens soltas e vagamente conectadas, com a mesma textura lógica de um sonho. Algo que parece ter um sentido enquanto você rola na cama. Mas pro qual toda interpretação subsequente será uma história inventada ao acordar, insuficiente pra apreender a essência efêmera e incompreensível do que já se perdeu.
e toda tentativa de estabelecer uma linha e interpretar o passado, assim como o sonho, será sempre uma narrativa a posteriori, com muito pouco a dizer sobre o que aconteceu de verdade. Não mais do que uma história inventada pra dar conta de um mundo inapreensível, assim como deuses são inventados pra explicar trovões. Que no fundo não serve pra entender o que fica pra trás, e que no máximo pode servir pra apontar um caminho qualquer pra seguir adiante. E isso se a gente der sorte.
por mais que eu possa falar dela, no fundo uma árvore é só uma árvore.
e é curioso que eu pare pra revisar e postar o que está escrito aí em cima em um fim de tarde saturado até os ouvidos em palavras e mais palavras sobre os mortos de Santa Maria. Reportagens no jornal, chamadas na tevê, conversas de boteco e postagens do Facebook em que todo mundo parece ter algo a dizer. Sobre o absurdo da falta de fiscalização, a irresponsabilidade da banda, os amigos que fulano perdeu, o choro da Dilma ou qualquer coisa do gênero. E ao me ver cercado por esse excesso de palavras, a única coisa que me ocorre é que a loucura do mundo é um pouco a mesma que a minha. Porque achar que alguma dessas narrativas vá ser suficiente pra fazer algum sentido do que se passou é um pouco como achar que uma árvore vá ligar os pontos da vida. E assim como não há árvore que faça sentido do tempo, também não há palavra que faça sentido da dor.
da minha parte, não tenho nada a dizer sobre portas de emergência, sinalizadores ou alvarás de discotecas. Só tenho a sensação de uma tarde cinza, de uma tristeza no ar e de um excesso de palavras. Se tivesse perdido alguém próximo, gostaria de estar perto dos que ficam pra dar um abraço. Não sendo o caso, o que tenho a oferecer é o meu silêncio. E um desejo de sorte nas palavras que cada um escolha pra criar uma história que ajude a seguir em frente. Até porque, por acidente ou não, eu também acabo de escolher as minhas.

sábado, janeiro 19, 2013

janeiro

o espaço em volta reluz como um gramado seco demais, refletindo o sol ainda tímido da manhã. Quieto, eu apenas aguardo o momento da primeira faísca, depois da qual tudo o mais será incêndio.