Captura de tela 2012-01-29 às 14.43.20
trovoou trusz, dava vento, fez-se correnteza.preguiçosamente no ar desde 2005
você espera. Monta seus quebra-cabeças e ensaia suas peças imaginárias e veste suas bonecas e monta seus castelos indestrutíveis. Brinca de esconder e chuta bolas divididas como se a sua vida dependesse disso. Até o dia em que começa a parecer óbvio e evidente que ela não depende. Que aquilo que antes parecia tão importante é apenas a espera de uma outra coisa, um ritual de preparação pra algo que aguarda logo adiante. Uma conflagração que vai dominando aos poucos os seus pensamentos e os dos seus amigos e não tarda por acontecer, despedaçando a ordem inocente do que era antes.
a cidade num domingo de verão é toda estase, asfalto quente. Prédios feios e concreto cinza, vivos só no verde desconexo que infiltra a laje como se fosse uma ruína antiga. E é: porto alegre é hoje todos os mundos que foram antes e que se recusam a sumir, que eu encontro aqui pelos cantos sem procurar. Quase como um reflexo de mim mesmo, com minhas lajes infiltradas e goteiras, fazendo água também. Como de hábito, sinto que mudei mais que o mundo ao redor, que minhas goteiras são mais vivas do que as das ruas nesse tempo de seca; rápido a laje começa a parecer estéril, tédio, modorra ensolarada. E só devagar, à medida que a efervescência do contato passa, é que eu me lembro do que eu costumava encontrar nesse lugar. Que nunca foi mesmo muito mais do que rés-do-chão, terra arrasada, tabula rasa. Um lugar seguro pra pisar e ser eu mesmo risco, meu próprio desenho em hidrocor. Um sólido necessário, pra que sobre ele eu seja líquido, correnteza, desejo, escombros.

o exílio tem um jeito todo seu de acelerar o tempo. E a existência em câmera lenta da cidade natal, a mesma que aborrecia há alguns anos, começa a parecer frenética quando acompanhada em visitas de ocasião, ao invés de vivida dia após dia. Como se o tempo se comprimisse nos espaços entre uma ponte aérea e outra, em que eu chego a espiar um mundo que ainda chamo de meu. Mas que agora evolui fora do meu controle, num veloz estroboscópio que transforma três meses em três dias. E pela estreita fenda de luz, você descobre que bebês nasceram sem que você soubesse da gravidez, pessoas morreram sem que você soubesse da doença, casamentos acabaram sem você saber que eles tinham acontecido. E tudo naquele lugar que antes era lento, e era seu, agora acontece em uma velocidade trinta vezes maior, indiferente às suas astênicas intenções de acompanhá-lo. O que, pra alguém minimamente sensível à violência imensa da passagem do tempo (e esses tempos dos trinta e poucos sabem ser particularmente violentos), é uma porrada e tanto. E joga na cara o que o cotidiano, na sua falsa e sedutora lentidão, normalmente camufla tão bem atrás do tédio e da distração. Pra quem olha de fora, não existe camuflagem possível: o tempo mostra suas garras, e não há opção senão encará-lo. Ou então fugir, não voltar, fingir que o mundo que era seu não mais existe, e adotar um outro tempo que ainda consiga enganá-lo, em outro lugar qualquer.
àqueles incapazes disso, resta aguentar a porrada na cara.

numa das cenas chave do clássico “O Exorcista”, os médicos, após virarem Linda Blair do avesso com exames de imagem do cérebro sem encontrarem nada, chegam para conversar com os pais da menina. E dado que todos os exames feitos foram normais, eles sugerem à família que procurem um psiquiatra. Ao que a mãe dela prontamente responde indignada: “NÃO! A minha filha NÃO ESTÁ LOUCA! Ela está POSSUíDA PELO DEMÔNIO! Ela não precisa de um psiquiatra, ela precisa de um PADRE!
quarta-feira, feriado de 7 de setembro no Rio de Janeiro. Um desses raros e preciosos dias de sol de inverno em que não faz calor demais, no qual se poderia ficar a tarde toda a esmo. Mas não, o dever me chama: tenho um debate na Bienal do Livro e tomo o caminho do Riocentro ao meio-dia e meio. Depois dos quarenta e cinco minutos de praxe pra chegar na Barra, essa província extra-muros da Flórida, chego na altura do autódromo e me vem a primeira surpresa.
mas mais do que a multidão, a impossibilidade de comprar comida, o tempo que já tinha nublado quando saí, os quinze reais de estacionamento, ou a outra hora e meia de trânsito pra voltar pra Zona Sul, o desconforto maior que me fica é outro. É a pergunta inconveniente que se impõe, me perpassa, a dúvida que me devora. O que diabos essa gente toda estava fazendo lá?
gente, eu sinto dizer. Mas literatura não é isso. Aliás, eu diria que é o oposto diamétrico disso. É algo tranquilo e íntimo, que só precisa de um punhado de palavras escritas. E de um canto mais ou menos silencioso. E mil desculpas a vocês que ficaram três horas na fila do ônibus, mas vocês não vão encontrar isso num shopping. E nem em um centro de convenções lotado. E como eu bem sei que a culpa não é de vocês, e que vocês são meras vítimas de um grande embuste, tenho vontade sincera de esganar quem possa ter vendido essa mentira pra vocês.
em primeiro lugar, não se aflijam: eu já superei o bombástico episódio da minha recente excomunhão (vide post abaixo) e posterior reincorporação no rebanho de deus. Ainda que esse troço de lavar a boca em sangue de cordeiro não tenha feito muito bem pro meu hálito.
minha mais recente acusação de possessão demoníaca, cortesia do meu xará no Twitter, Pastor Olavo Amaral, depois que eu usei a palavra “caralho” em um tweet. Superestima um pouco os meus poderes, é verdade. E também durou pouco tempo, já que fui perdoado logo depois. Mas foi suficiente pra sentir um certo orgulho – nada mais fashion do que ser um escritor excomungado, afinal. Meu assessor de marketing precisa me conseguir mais oportunidades dessas.
antes tarde do que nunca, faço a mais do que merecida divulgação da exposição/retrospectiva do projeto Na Tábua, que deve estar começando a rolar nesse exato momento no Museu do Trabalho de POA (Andradas, 230) e vai até dia 21 de agosto. Pra quem nunca teve a sorte de dar de cara com os cartazes em algum boteco, o projeto do amigo e agitador cultural-mor Paulo Scott tem sido um dos projetos mais legais de divulgação literária no Brasil nos últimos tempos, tendo contado com um time de escritores e ilustradores do primeiríssimo time ao longo dos seus anos existência. E antes que eu me esqueça, o fato do meu nome estar em algum lugar do cartaz não constitui conflito de interesse algum no meu entusiasmo legítimo pela história. Estarei por lá com certeza quando passar por aí.
