quarta-feira, fevereiro 01, 2006

engrenagem (página virada)


terminei uma residência médica hoje. Não que isso importe muito. Mas às vezes serve pra se dar conta de algumas coisas que tu pára de notar. Tipo o fato de que, por mais que eu não detestasse tanto a minha rotina de trabalho esses dias, agora que acabou eu tenho uma vontade gigantesca de mostrar a língua pro hospital. Pro prédio, captam? Ou seja, o problema nem era tanto o meu trabalho: aquele monstrão de concreto sim é que é o verdadeiro filha da puta.
Pra quem nunca entrou num hospital pela porta dos fundos, não é um troço muito diferente duma fábrica ou de um frigorífico. Tem caldeiras, fumaça, cheiro de comida ruim no refeitório. E gente, gente, gente, um grande exército de subalternos em maior ou menor grau revoando do estacionamento pras portas às oito horas da manhã feito pombas indo pro pombal. Pra limpar corredores, desentupir canos, canular veias e operar cérebros, sem se dar conta do próprio papel de reles engrenagens da grande máquina.
A visão do hospital de onde eu costumava estacionar era basicamente a de um bloco cinza cheio de cubículos. Essa visão me fez mal por um tempão. Depois eu comecei a estacionar em outro lugar e melhorou um pouco. Mas a impressão ficou na minha cabeça. De que, pra quem olha pelos fundos, o hospital é um monólito capitalista como qualquer linha de montagem. Cheio de gerências de recursos humanos, cartazinhos com os ditados dos cinco ésses, datilógrafos, corredores insalubres e outras coisas que dão ânsia de vômito. Pelo menos pra quem ainda repara.
Em todo caso, ultimamente eu já vinha aparecendo menos no trabalho e ainda tô usando o hospital de garagem pra não pagar estacionamento, pelo menos até me cortarem. Aí de vez em quando passo na frente da entrada de bermudão, bêbado, carregando bagagem. E talvez por isso eu ando conseguindo olhar pro hospital feito gente normal. E reparar nas almas perdidas que ficam esperando na porta do hospital de madrugada. E me dar conta que, no meio do rufar da máquina, tem gente que vive ali dentro. Gente que vive, e morre, e se cura, e se encontra, e tem filhos, e perde filhos, e espera alguém noite adentro. Gente que no resto das horas mal se percebe, tamanho o barulho das engrenagens batendo, o ritmo da agenda, o funcionamento autônomo das coisas que seguem correndo mesmo sem que ninguém lembre mais do objetivo. Mas enquanto a roda segue andando sem se dar conta a vida acontece em meio ao caos, cheia de êxtase e tragédia,. Um pouco como o fluxo na freeway que passa centenas de vezes por cima do cachorro atropelado, ou como a rotina da praia que segue em volta do cadáver desovado pelo mar em Ipanema sem ter tempo pra perceber.
Mas o estranho não é se dar conta da vida acontecendo no meio da balbúrdia da máquina. Nisso eu costumo reparar o tempo todo, pelo menos enquanto tô do lado de fora. O estranho é, ao contrário da maior parte dos lugares em que eu existo, me sentir mais parte da máquina do que da vida enquanto eu trabalho. Estranho é ser engrenagem. E mais estranho de tudo é se saber útil enquanto engrenagem. E pior do que isso, mais útil enquanto engrenagem do grande castelo mecânico do que enquanto gente.
Porque o mais óbvio e perturbante em tudo isso, no fim das contas, é se dar conta de que a máquina tem sua função. Isso me bateu vendo um filme institucional do hospital (e nada pode ser mais infecto do que um filme institucional). Mas, tendo trabalhado um tempão naquela merda, eu acabei aprendendo que tem um monte de gente que tá vivo, andando, enxergando, ouvindo, amando e sabe-se lá o que mais por causa daquele monstro de cartões-ponto e datilógrafas, cubículos e filmes institucionais. Aquele mesmo que parece tão escroto pra quem olha dos fundos. E se dar conta que a gente de fato precisa dos cinco ésses, sem poder jogar a culpa da insalubridade do trabalho nessa “merda de sistema capitalista”, tem um quê de perverso e de trágico. Pra mim ao menos, parece incrível que todo mundo se adapte tão fácil a essa história de ser engrenagem. Mas acho que nessas horas eu só tenho a agradecer que todo mundo não seja igual a mim. Porque senão, convenhamos, a gente tava fodido.
Em todo caso, passou, como tudo.

Um comentário:

Nina disse...

Depois de trabalhar tanto tempo e tantas horas/dia num mesmo lugar, parece que tu aciona o piloto automático...


Parabéns Dr.!!!

Beijo!