sexta-feira, dezembro 15, 2006

américa, essa puta

digam o que queiram, o fato é que os Estados Unidos são uma puta. Uma puta fazida, é bem verdade. Fazem um charminho aqui e ali e vivem se fingindo de difíceis, feito na hora de te deixar tomando chuva na calçada enquanto espera pra pegar visto (pra alegria dos camelôs vendendo guarda-chuva a vinte reais), ou na cara cada vez mais mal-humorada dos funcionários da imigração. Mas no fim das contas, em menor ou menor grau, a América acaba dando pra todo mundo. Verdade que a qualidade do sexo varia conforme a grana do cliente. Pra alguns ela se entrega de fato, bundinha e tudo; pra maioria, por outro lado, sobra só um carinho de vez em quando, um cafuné aqui e ali, uma rapidinha num banheiro público. Mas qualidade do sexo à parte, todo mundo nesse país vai te contar que alguma vez teve uma de suas maiores fantasias realizada pela América.
Como uma meretriz da melhor qualidade, os Estados Unidos conseguem atender a todos os tipos de demandas, desejos e fetiches. Porque independentemente das possibilidades e expectativas do cliente, sempre haverá algo a ser conquistado aqui. Uma casa de subúrbio pra molhar o jardim depois de quarenta anos de dedicação à empresa? Got it. Internet sem fio com um emprego part time numa república de estudantes? Também tem. Educação razoável pros filhos que ficam em casa enquanto você carrega sofás? You bet. Maconha importada do Afeganistão via tele-entrega? Quando quiser, é só ligar.
É foda ter de admitir, mas essa ainda é a terra das oportunidades pra muita gente. E numa idade em que a minha geração está no momento de se agarrar nelas com unhas e dentes isso só se faz mais claro. E em cada cidade por que passo eu encontro alguém que de alguma maneira foi seduzido pelo fascínio da Grande Puta e conta que anda comendo ela de um jeito ou de outro. Uns são imigrantes clandestinos, outros são importados com méritos, outros estiveram aqui desde que se conhecem por gente. Mas todos parecem ir atrás de alguma coisa, e parecem encontrá-la. Sejam eles mexicanos de inglês porco trabalhando no McDonald’s, jovens empresários promissores em empregos de quatorze horas por dia, pseudointelectuais que acabaram a universidade e relaxam trabalhando como baby sitters ou surfistas brasileiros subempregados na Califórnia. Todos se aproveitando dos Estados Unidos, cada um pros seus próprios fins.
E ainda assim, mesmo com a genitália assada de tanta gente pra satisfazer, a América segue se comportando como uma profissional do sexo por excelência. E como as melhores prostitutas, ela jamais se deixa apaixonar por nenhum dos seus clientes. Por mais que trepe com montes de gentes nos mais diferentes níveis e posições, ela nunca se entrega de fato, e o seu cerne permanece intocado e inalterado. Porque independentemente do uso que se faça do sistema, o pressuposto básico da vida aqui é que o sistema em si permaneça imutável, e que sua lógica fundamental não seja questionada. Paga-se uma quantia e se recebe por um serviço, de maneira geralmente mais regular e previsível do que em qualquer outro lugar. Os Big Macs são sempre iguais, como são os Whoppers, como são as highways, como são os shoppings de beira de estrada, como são as lojas de souvenirs. As ruas são sinalizadas, os correios funcionam, os garçons são gentis, e os Republicanos e Democratas se alternarão eternamente no poder pelo resto dos dias. Mudar o mundo e fazer revolução já saíram de moda há uns 40 anos, e mesmo mudar o país não parece um discurso particularmente efetivo. Até porque quem ia alimentar os mendigos se o Mc Donald’s fosse embora?
E o que me deixa meio perplexo, de vez em quando, é tentar entender como diabos a máquina continua rodando tão vigorosamente e sem acidentes quando a vida é fácil mesmo pra quem se mantém à parte dela. É fácil entender que a galera estrebuche trabalhando no Brasil, em que mesmo com uma jornada de doze horas muita gente mal consegue pagar as contas. Mas quando qualquer um se sustenta mais ou menos tranqüilo trabalhando de entregador de pizza, às vezes parece paradoxal que o sistema não entre em colapso. Mas suponho que o grande mérito da América seja exatamente o de saber seduzir as pessoas pra continuarem correndo. As cenouras na frente dos cães são inúmeras, elas brilham nas vitrines da Quinta Avenida enquanto o pessoal faz as compras de natal, elas se escondem atrás da parede de clubes lotados em que seguranças expulsam arbitrariamente as pessoas da fila, elas escorregam entre as celebridades nas revistas de fofocas. E mais do que qualquer outra coisa, talvez a maior das cenouras que mantêm a máquina girando seja a própria indiferença da Grande Puta. Porque como qualquer mulher esperta, ao nunca se entregar por inteiro, ela sempre deixa entrever alguma coisa a mais. E enquanto houver alguém que parecer estar comendo ela dum jeito diferente, é quase certo que todo mundo vai continuar tentando melhorar.
E assim, independentemente da gente, das eleições, do Iraque, do aquecimento global ou de quem quer que seja, a América segue andando em frente como um monolito imutável, proporcionando a satisfação garantida, imediata e previsível do consumo, contanto que se tenha grana. E ao mesmo tempo em que nunca pareceu tão fácil mudar o mundo (pelo menos se você for o dono do Google), nunca pareceu tão improvável que alguém consiga mudar os Estados Unidos, que vão continuar botando gasolina nos carros, comendo fast food, comprando nachos em jogos de baseball e enrolando copos de plástico em sacos plásticos pra servir drinks de plástico. O sistema é simples e direto demais pra aceitar sutilezas, e é exatamente isso que torna ele acessível pra tanta gente. E os detratores não se dão conta que o que faz o fascínio da América é justamente a sua previsibilidade.
Vá lá, pra quem quer virar o mundo de cabeça pra baixo, pode parecer péssimo. Mas a maior parte das pessoas está mais preocupada com a certeza do sustento em troca duma quantidade pré-estabelecida de suor e de grana. E pra isso, feliz ou infelizmente, continua não havendo lugar melhor no mundo. Pouco poético? Sim, e certamente em alguma outra terra os poetas hão de continuar sonhando com pássaros revoando e fontes murmurantes de água fresca. Mas em resposta a eles, os americanos hão de perguntar, perplexos, por que diabos se precisa de água fresca quando o Gatorade é mais barato. E não deixarão de ter alguma razão.

7 comentários:

Nina disse...

10!
como sempre...
bjo!

Anônimo disse...

sei q nao lavas os meua a sério, mas, mais uma vez, great stuff!!! xxx v

olavo disse...

pô, eu vi os xxx e pensei que fosse spam. se não fosse o português no meio tinha apagado.

Biti disse...

Muito bom!!! Já que os outros comentários também foram ótimos, acho que não tem importância uma mãe coruja se manifestar. Penso que na sétima linha tem um daqueles atos falhos sobre os quais já comentaste aqui:..."menor ou menor"... Justo pra ti, que talvez pudesses usufruir das maiores benesses desta puta, fica difícil admitir.
Beijos,

Mãe coruja travestida de psicanalista de araque

olavo disse...

pois é... vai ver é só a minha sexualidade frustrada que acha que ninguém ia dar pra mim em maior grau.

Anônimo disse...

Cool, man...

olavo disse...

who are you?