domingo, setembro 11, 2011

sobre padres e cineastas

numa das cenas chave do clássico “O Exorcista”, os médicos, após virarem Linda Blair do avesso com exames de imagem do cérebro sem encontrarem nada, chegam para conversar com os pais da menina. E dado que todos os exames feitos foram normais, eles sugerem à família que procurem um psiquiatra. Ao que a mãe dela prontamente responde indignada: “NÃO! A minha filha NÃO ESTÁ LOUCA! Ela está POSSUíDA PELO DEMÔNIO! Ela não precisa de um psiquiatra, ela precisa de um PADRE!
poucas histórias exemplificam tão bem o estigma social da loucura quanto essa, e volta e meia eu a uso como parábola pra conversar com alunos da área da saúde sobre a atual epidemia de diagnósticos psiquiátricos. Mas hoje eu não queria falar exatamente disso, ou pelo menos não diretamente. Hoje eu queria falar de Lars von Trier.
há uns dois anos atrás von Trier fez um filme chamado Anticristo. Que na época, ainda com o estômago meio revirado pelo final do filme, eu resumi na seguinte sinopse: “Psicólogo tenta tratar mulher com medo. Mas ela não precisa de um psicólogo. Ela precisa de um padre˜. E apesar de ter me arrependido de estragar uma noite até então agradável assistindo o filme, que lá pelas tantas descamba para um festival de violência gráfica algo gratuita, eu consegui intuir que havia algo de profundo na tensão que antecipava esse descambar, mesmo que isso acabasse se perdendo em meio a canelas perfuradas e ejaculações sangrentas.
faz mais ou menos uma hora que eu saí do cinema depois de ver o novo filme de Lars von Trier, Melancolia. E tenho a impressão de que, por mais distinto esteticamente (e inegavelmente melhor) do que o filme anterior, no fundo ele fala sobre a mesma coisa. Como no filme anterior, temos uma mulher perturbada – dessa vez não pelo medo, mas por uma melancolia aparentemente inexplicável no dia de seu casamento. E na primeira parte do filme, vemos os vários habitantes do mundo "normal" – seu marido, pais, irmã e amigos - tentando trazê-la de volta, cada um a seu jeito, sem sucesso.
as intenções daqueles que tentam trazer Justine de volta para a ordem racional do mundo, em que um casamento deveria ser um momento de celebração e felicidade, são variadas. E em um primeiro momento até conseguem surtir algum efeito transitório, já que em sua maioria são de fato sinceras. Mas mesmo as melhores intenções acabam falhando. E se falham, é em última análise pela incapacidade de compreender que a lógica de Justine não é a mesma que a deles. Até que por fim chega o momento em que a personagem adentra um estado quase catatônico em que a comunicação com o mundo humano que a cerca se torna basicamente impossível.
enquanto assistia o filme, me lembro de ter pensado nesse momento algo como “caralho, e agora como se faz pra estabelecer comunicação com uma louca dessas e trazer ela de volta? A essa altura, acho que só eletrochoque resolve.” E de fato, talvez fosse uma opção. Mas von Trier, que é mais esperto, e por isso foi fazer cinema e não psiquiatria, tinha uma ideia melhor.
e o que se vê na segunda parte do filme, com seu plot twist apocalíptico que na superfície (mas apenas na superfície) pareceria não ter nada a ver com o que tinha acontecido até então, é a lenta reaproximação de Justine com o mundo ao seu redor (personificado genialmente pela sua irmã Claire). Não porque ela se cure, mas pelo contrário, porque a ordem frágil e fictícia de festas de casamento, mordomos, café da manhã e quadros coloridos de Malevich entra em colapso, revelando o que no fundo sempre esteve por baixo, e nos aproxima. E a cena final, em que as duas irmãs se dão as mãos ao prepararem-se para o impacto, no fundo é a retomada trágica da comunicabilidade entre as duas. Como o mundo racional e organizado de Claire não foi capaz de compreender a dor de Justine, a única maneira de aproximar ambas é quebrá-lo. E estender a dor, a tristeza, e a finitude, até que ela abarque o planeta inteiro, que nos segundos antes do fim concede que a loucura é quem estava com a razão.
e firulas simbólicas à parte, a verdade que von Trier nos joga na cara é no fundo muito simples: a dor é real. O medo (no caso de Anticristo) e a melancolia (no filme homônimo) não são um degeneração da espécie, nem um defeito de neurotransmissores no cérebro. E nossas tentativas de compreendê-lo a partir da nossa míope ótica racional, com terapia cognitivo-comportamental, festas de casamento ou bons modos à mesa, estão fadadas ao fracasso – seja ele uma festa arruinada ou uma furadeira na canela. Porque no fundo o medo e a tristeza não precisam de um psiquiatra pra serem compreendidos ou curados. Eles precisam de um padre. E a silhueta de Melancolia no céu, que não representa nada além de uma antecipação do destino que no fim das contas nos espera a todos, é a lembrança de que o mesmo vale pra existência humana.
e é por essas e outras que eu não consigo deixar de dar razão a von Trier. Pra conseguir superar a incomunicabilidade daquilo que realmente dói, todos nós no fundo precisamos não de psiquiatras, mas de padres. Não de ciência, mas de fé. E na falta de deus no céu, nós que temos fé em outras coisas precisamos achar outras formas de comunhão pra que a nossa dor não nos isole do mundo. Como filmes, por exemplo. E não acreditando em padres, nos resta esperar que sejam cineastas como ele que assumam o papel de nos abençoar de vez em quando.

8 comentários:

Bípede Falante disse...

Eu também acredito em padres que não usam batinas nem carregam cruzes e culpas para democratizar entre as ovelhas brancas, pretas e sem cores do rebanho.

verapz disse...

A masterpiece.

ka disse...

Precisamos falar pessoalmente sobre isso... Genial!

olavo disse...

uai, chega aí então. Senão acho que vou pra aí no início do outubro pro show dos Cartolas com aquele outro guitarrista encerrando.

gabifavalli disse...

Não são apenas canelas perfuradas, são OEDIPUS...

Biti disse...

Só posso concordar com a Vera. Muito obrigada!

Biti

Ney Mario disse...

Brilhante

verapz disse...

Glad it's back! Really worth rereading.