quinta-feira, novembro 27, 2008

urgência, papapás

estava eu no show da mallu magalhães no gig rock há uns dez dias atrás quando uma amiga minha do meu lado largou um “impressionante, não?”. Eu meio que estranhei, afinal as pessoas costumam descrever shows com palavras tipo “legal”, “a fudê”, “do caralho” ou algo assim. Não foi senão uns dias depois que eu descobri que aquilo no palco não era uma guria de vinte e poucos tentando aparentar um certo charme infantil (afinal, mulheres cantando com voz de criança viraram um troço cool e fashion de uns tempos pra cá), senão uma criança de verdade.

sim, eu sou meio lento e vivo em marte. Anyway, aí eu entendi o comentário.

uma semana e vários tchubarubas e papapapapás depois, ainda não sei se concordo.

na real me parece que o que soa tão charmant nessa guria tem qualquer coisa a ver com uma certa confiança de se saber o centro do mundo enquanto tá no palco. Mesmo na época em que ela cantava pra câmera no youtube. Ter presença em música é um pouco uma questão de se fazer imbuir de uma verdade, de ter algo urgente pra dizer. Mesmo quando não se tem. E sair dizendo de um jeito de quem não tá nem aí se aquilo faz sentido ou não. Tipo o Caetano jovem gritando que o Gil fundiu a cuca de vocês por debaixo das vaias. Ou o Stephen Malkmus cantando sobre a data de validade de nozes brasileiras. Ou até a Panquis tocando covers toscos no violão, mesmo que só eu e mais meia dúzia tenham visto essa última.

e talvez fazer música no fundo seja mesmo conseguir cantar um refrão que diz “papapapapá” com uma voz meio desafinada, e que se foda o resto. E claro, alguns sabem fazer isso com graça particular, como é o caso dessa pirralha.

isso dito, no entanto, confesso que nem me parece tão impressionante assim. Pelo contrário, acho que quando se tem dezesseis anos e todo o charme do mundo, soar genial é simplesmente natural. Difícil é conseguir fazer isso depois que a vida te botou no devido lugar. O que deve ter algo a ver com o fato de que mesmo os gênios incontestáveis acabem declinando com a idade, pelo menos na música. Se botar no próprio lugar pode ser uma virtude humana, mas no palco inegavelmente fode com tudo.

o que me leva a concluir é que impressionante de verdade é o Neil Young, que depois de sessenta e tantos anos, toneladas de drogas pesadas, depressões infindáveis, dois filhos deficientes de casamentos diferentes, um aneurisma cerebral, vários cabelos perdidos e uns cinqüenta discos gravados, ainda parece imbuído da mesma verdade. E da capacidade de te fazer sentir instantaneamente que a angústia dele é a mesma que a tua quando abre a boca e pega a guitarra, mesmo que todas as músicas tenham três acordes e letras toscas de dar dó. Um cara que uma vez escreveu que é melhor queimar do que enferrujar, e segue queimando continuamente por três décadas desde então (ao contrário de um certo imitador supervalorizado que não agüentou o tranco e citou esse verso numa nota de suicídio).

isso sim é impressionante. A mallu é simplesmente o óbvio.

mas ser o óbvio às vezes é um puta mérito. Que siga soando assim pelo tempo que der.

3 comentários:

panquis disse...

obrigada, Lai, se conseguir mais 1000 acessos eu vou ali no Jô! Ou no Serginho.

ahuahuahuhauah

olavo disse...

bom, se tu vai depender do trânsito desse blog pode contar com uns, hã, seis.
por outro lado, se te consola, "panquis" já tem 1060 hits no google. Tem até uma banda chamada Atahualpa i us Panquis. Se não dá pra ser famoso, pelo menos podemos ser homônimos.

panquis disse...

a gente usa desses subterfúrgios!