sexta-feira, janeiro 09, 2009

adolescendo

tenho me sentido cada vez mais adolescente, e isso pouco tem a ver com crises de meia-idade estilo beleza americana e congêneres. Senão com uma impressão esdrúxula de inadequação, de mudanças que fazem com que eu volta e meia não me reconheça mais. Até o meu corpo muda, depois de começar a fazer academia pela primeira vez em trinta anos, mudar o corte de cabelo pela primeira vez em cinquenta e ter criado uma espinha permanente embaixo do olho esquerdo. Sinto uma certa inadequação em cada movimento, tomando consciência de toda uma nova constelação de dores e cansaços novos nos músculos. E uma curiosidade intensa ao me olhar no espelho, mesmo sabendo (ou talvez precisamente por saber) que o corpo entra na fase das consequências, em que as merdas que se faz não vão repercutir algum dia quando tu ficar adulto, senão no dia seguinte (e lá vai ressaca, dor no ombro, ouvido entupido, hemorróidas). E como um legítimo adolescente me sinto perdido entre gerações, desacomodado demais pra ter assunto com gente da minha idade, velho demais pra interessar a gente mais jovem. Pulo na sala batendo cabeça escutando radiohead ao mesmo tempo que começo a medir algumas experiências a partir do que os meus filhos vão pensar dela daqui a uns anos. Volta e meia me apaixono feito bobo, inclusive pelo corpo que dorme do meu lado todas as noites. E tenho uma afinidade com essas coisas pequenas e sólidas tipo o cheiro do asfalto depois que chove, a espessura do filé da lancheria do parque, o vento que entra pela janela do quarto quando as frentes frias dão o ar da graça. Tenho adormecido cedo às custas do meu próprio sono, ao invés de por causa da hora em que tenho que acordar no dia seguinte. E demoro horas no soneca antes de levantar. Mais do que tudo, tenho ouvido muito mais música, e num volume mais alto, o que pra mim costuma ser o primeiro sinal de vida acontecendo. Não sei dizer se ando mais feliz. Mas sei dizer que tem feito mais sentido.

2 comentários:

panquis disse...

é a convivência

olavo disse...

ave.
e espero que o efeito convivência seja forte o suficiente pra durar até o fim de fevereiro sem crises de abstinência.
se bem que crises de abstinência de convivência adolescente soam como um troço massa. Algo assim tipo a idade adulta retornando em surtos, um cara babando, tremendo e murmurando "a empresa, eu preciso ir pra empresa...". E com delírios de ser estrangulado por uma gravata enrolada no pescoço. Supercombina com o carnaval no nordeste, aliás.