quinta-feira, janeiro 18, 2007

a uma leitora anônima


eu queria ter poesia pra botar aqui. Há pouquinho alguém perguntou se eu tinha um blog e aí eu dei o endereço e pensei “putz, aquela pessoa anônima vai entrar naquele troço anódino esperando, sei lá, pelo menos um pouco de literatura e... cadê?”. Sei lá, desde que eu dei pra me preocupar com coisas e causas maiores a poesia parece ter tirado férias. Talvez porque a poesia não tenha sido feita pra causas maiores. Maiakovski que me perdoe, mas acho que a poesia (verso ou não verso, não é uma questão de parágrafos, eu podia usar “literatura” mas não é uma palavra tão bonita) precisa de coisas que sejam apreensíveis numa escala humana. E o mundo já deixou de ser apreensível há tempos, pra mim ao menos. Pelo menos de uma vez só. Na real mesmo o meu restritíssimo metiê de cientista já me parece grande demais pra ser apreendido de uma vez só, então o que dizer do mundo inteiro. Então talvez eu precise voltar os olhos pras coisas simples. Hoje de tardezinha um pouquinho antes do sol se pôr ele entrou pela fechadura do banheiro do Elo, bar adentro, e formou um raio comprido e pungente que dava pra acompanhar por uns dois, três metros, até ele se chocar com a madeira velha do bar. Eu queria um troço mais ou menos assim pra poder trabalhar. Por outro lado, eu não posso ficar sem o mundo, porque enfim, ele tá aí, e isso já parece um bom motivo pra estar nele. Então talvez o verdadeiro desejo é que o mundo se transformasse em alguma coisa simples assim. Simples o suficiente que desse pra cantar com o meu conhecimento tosco de música sem que ninguém sentisse falta das diminutas, sem que ninguém sequer cogitasse a hipótese de um acorde aumentado. Se alguém tiver uma boa sugestão faça o favor de me avisar.

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