



bom, aí vem a argumentação. Argumento número 1 da choradeira: “o filme pega um estereótipo deturpado do nosso país e passa a impressão de que tudo aqui é assim”. Resposta óbvia: sim, é claro que ele faz isso. A questão é que isso é normal e necessário em qualquer forma de arte. Usar estereótipos e exagerar as coisas é um recurso básico da ficção, pra mexer com o imaginário das pessoas. E é ridículo cobrar dum filme de terror ou duma comédia um compromisso fiel com a realidade. Vá lá, um pouco de verossimilhança não faz mal a ninguém, até pra própria obra não parecer idiota. Mas se coisas tipo a polícia usar facões como armas ou a floresta amazônica acabar numa favela são necessárias pra história, então que seja assim, porra. Porque se o mundo não puder contar histórias direito, a gente tá muito mais fodido do que se roubassem os nossos rins.
verdade que no caso dessa (provável) bomba cinematográfica é mais difícil argumentar que tenha sido por uma boa causa dramática: mais provavelmente deve ter sido por ignorância mesmo. Mas aí começa a virar questão de gosto. Porque se o argumento vale, algum cara que trabalhasse na pesca baleeira também podia ler Moby Dick e dizer que “isso é um absurdo, porque os capitães dos barcos não são malucos, e nenhum capitão que se preze mataria toda a sua tripulação pra se vingar duma baleia branca” e patatipatatá pelo mundo afora. A questão é que a história não é sobre a pesca baleeira; ela é sobre a obsessão, sobre a monomania, sobre a condição humana, e sobre uma infinidade de outras coisas. Ou melhor, minto: os poucos que de fato leram o livro sabem que tem longuíssimas passagens meio documentais sobre a pesca de baleias que são invariavelmente um saco. Por outro lado, quando entra o capitão maluco cruzando o mundo atrás da baleia branca, o livro vira um ponto altíssimo na história da civilização. Tão inverossímil quanto possa ser.
e mais: se usar estereótipos e exageros pra retratar alguma coisa é um problema, por que diabos a gente não boicota os filmes do Todd Solondz? Ou o Beavis and Butthead? Ou os Simpsons? Tipo assim, alguém de fato acredita que os americanos sejam todos tão idiotas quanto esses troços mostram. Não tenho certeza. Mas quando eles riem de si mesmos ninguém parece se importar, o máximo que se oferece de resposta é “eles merecem”. Aliás, nem precisa ir tão longe: quando nós avacalhamos com nós mesmos, seja com o Casseta & Planeta fazendo reportagem sobre a violência no Rio ou com o Fernando Meirelles entregando a morte do Zé Pequeno e a liderança do tráfico prum bando de crianças de oito anos no fim do "Cidade de Deus" (ah, isso sim é super verossímil...), vira tudo licença poética. E, porra, essa capacidade de criar riso ou medo com a própria tragédia é uma grande coisa que a gente sempre teve de sobra. E espero que a gente não esteja perdendo isso no meio de um ufanismo recalcado vindo não sei de onde.
mas claro, o padrão moral e ético nunca é exatamente o mesmo quando pisam no nosso calo. Por esses e outros recalques o mesmo PT que lutou contra a ditadura é o que resolveu extraditar (?!?) sumariamente, em questão de horas, o magrão americano que disse que o Lula bebia. E essa classe pseudoculta que reclama (com razão) do preconceito dos americanos em relação aos estrangeiros deveria se dar conta que o preconceito dela mesma em relação aos americanos é provavelmente tão grande quanto. Recentemente todos os meus amigos com pós-graduação que andaram pelos Estados Unidos ficaram realmente surpresos com o fato de que as pessoas de lá eram bem mais legais do que eles imaginavam. Provavelmente porque, sem que se perceba, a visão dos EUA por parte dos brasileiros que nunca foram pra lá deve ter se tornado pra muita gente bem mais parecida com o tal filme “Turistas” do que a gente se dá conta. Ou seja, de fato, talvez a gente devesse ter proibido os Simpsons.
deveria? Óbvio que não. Assim como os seus opositores, seja lá quem forem (Paulo Francis no céu, os cantores country na terra e alguns outros por aí) também não deveriam. Simplesmente porque o discurso politicamente correto de oposiçãoaopoderamericanoeaocapitalismomalvado eaostransgênicoseaoaquecimentoglobaleaopositivismocientífico eàdominaçãoisraelenseeafavor
e se há alguma regra coerente que possa ser estabelecida pra evitar isso, ela é relativamente simples: a ficção tem que poder bater em quem bem entender. Sem desculpas, e sem compromisso com verdade jornalística, a não ser que o autor ache que deva. Se ela tiver que se comprometer com gestos políticos bem intencionados antes de com o que quer que o artista queira dizer, fodeu. Primeiro, porque diminui terrivelmente a qualidade do que se produz: como já dizia Oscar Wilde, “por trás de cada mau poema existe sempre uma boa intenção”. E não é à toa que o professor e amigo Assis Brasil, quando lhe perguntam por que diabos ele só escreve romances históricos, sempre responde que é “pra poder mentir melhor”, porque se ele faz um troço contemporâneo sempre vai ter neguinho implicando que “pô, na verdade não é bem assim”. Parece provocação, mas eu tenho a impressão que não é. É só que a mentira e a fantasia (inclusive a fantasia preconceituosa do leitor/espectador) são fundamentais pra literatura. E duvido que alguém consiga contestar isso.
mas talvez tenha uma razão mais funda, qualidade à parte, pra filme preconceituoso existir. Bem ou mal, o único preconceito que é discutido é o que aparece. Afinal, tem uma caralhada de gente discutindo o tal preconceito a respeito do Brasil por causa dessa história. Pra não falar da caralhada infinitamente maior de gente discutindo se o filme do Borat é preconceituoso contra o Cazaquistão, ou contra os americanos, ou contra os judeus, ou contra as mulheres, ou contra as pessoas que apareceram. Aliás, esse filho da puta é tão genial que consegue se aproveitar de um humor revoltantemente preconceituoso (e, não por coincidência, hilário) pra fazer rir, e ao mesmo tempo questionar o próprio preconceito. E consegue criticar os americanos avacalhando completamente com um país coitado no meio da Ásia Central. Infelizmente, é uma obra praticamente irrepetível na história do cinema, porque ninguém vai cair nessa de novo. Mas é legal aproveitar enquanto ainda dura.
e talvez por isso o lugar das suásticas não seja no porão, e sim na praça pública, onde todo mundo pode jogar as laranjas. Senão, elas acabam virando um objeto demoníaco, proibido e tentador pra qualquer magrão revoltado com o mundo. Alguém duvida? Então vão até os Estados Unidos (ou até o youtube ou o google), onde não tem lei Afonso Arinas nem nada parecido, e liguem num talk show do meio da tarde pra ver uns gatos pingados da Ku Klux Klan que de vez em quando aparecem pagando vale. Porque, naturalmente, nada pode ser mais ridículo do que um cara com chapéu de pica na cabeça pedindo morte aos negros. E, no fim das contas, talvez nada possa ser mais salutar pra acabar com o racismo.
e, se alguém aí continua achando que Borat ou o cara do “Turistas” devem desculpas aos ofendidos, whatever, não vou contrariar a opinião de ninguém. Mas eu recomendaria acima de tudo que assistam o próprio Borat se desculpando pro presidente do Cazaquistão. Talvez assim elas se sintam um pouco mais satisfeitas. Eu pelo menos fiquei.






















nunca me senti tão estrangeiro. E não são os Estados Unidos da América que fazem isso comigo. Verdade que a cara dos funcionários da alfândega não colabora muito pra eu me sentir em casa. Como não colabora a proibição de levar pasta de dente no avião a não ser que seja num saco plástico transparente (alguém me explica?) E como definitivamente não colaboram as placas que dizem que fazer piadas sobre bombas pros fiscais da alfândega é passível de punição por lei (tristes aqueles que perdem a capacidade de rir de si mesmos, aliás). Não surpreendentemente, um fiscal da alfândega me cutucou quando fui tirar uma foto da placa e eu tive que enfiar a câmera na mochila às pressas (o registro fora de foco tá aí em cima).






















