quarta-feira, outubro 10, 2007

notícias da colméia em tempos de DSM-IV


a abelhinha foi ao médico se queixando de um zumbido no ouvido e acabou internada na ala psiquiátrica. Disseram que estaria ouvindo vozes.

quinta-feira, outubro 04, 2007

pra quem acha que a história anda pra frente


cada vez mais eu me convenço que ela é muito mais parecida com um desses gráficos da bolsa que vão e vem cheios de tremeliques. A longo prazo o "progresso científico" (definam como queiram, mas alguma coisa do gênero existe) até empurra a coisa toda pruma tendência de alta, mas as oscilações do meio do caminho são bizarras. E todo dia aparece algo sugerindo nitidamente que nos últimos tempos algum especulador divino anda aproveitando pra realizar os lucros e jogar a merda pra baixo.

domingo, setembro 30, 2007

mais publicidade abjetamente parcial pros amigos















but i can't do otherwise, naturalmente. Apareçam.

sábado, setembro 29, 2007

pequena nota afetuosa sobre a vida cultural em porto alegre, baseada em fatos reais


você suspeita que está numa província quando entra num cinema pra ver um filme relativamente chique e falado na mídia na semana de estréia, depois que os trailers já começaram, e descobre que é a única pessoa ali dentro. Mas você só tem certeza que está na província quando uma segunda pessoa entra na sala, e você constata pasmo que ela é o seu cunhado.

terça-feira, setembro 25, 2007

clipagem (quaseauto)promocional


minha primeira incursão no fascinante mundo dos créditos de cinema (na inédita função de "pitacos tri especiais") ganhou as bê erres da vida no fim-de-semana. E aparentemente teve pelo menos alguém que gostou. Agora é esperar um pouquinho mais pra chegar no resto do universo. Por enquanto, em todo caso, parabéns pra todo mundo que trabalhou de fato no filme. Ao contrário deste que vos fala, cuja cômoda participação foi basicamente ler uns troços e ficar dizendo que não tava bom.

quinta-feira, setembro 13, 2007

transparente como um muro de concreto

o mais engraçado de tudo não é nem o fato do Senado ter absolvido o Renan (o link de fato vai pra página dele, entre e deixe o seu spam). O que é mais engraçado é ver que essa gente patética não tem nem sequer a coragem de assumir que o fez. Bizarramente, num levantamento de ontem da Folha, mais da metade dos senadores (41 deles, listados no jornal, exatamente o que era preciso pra aprovar o processo) dizia que votaria a favor da cassação . Pior do que isso, mesmo depois da sessão tinham pelo menos 38 caras (vide reportagem do Terra) dizendo que tinham feito o mesmo. E bizarramente a contagem oficial da sessão são 35 votos a favor. Ou seja, seis senadores mentiram (e continuam mentindo) deslavadamente pra população a respeito do seu voto. Isso pra não falar nos 20 e poucos que "não abriram o voto" (alguém tem alguma dúvida de pra que lado eles votaram, aliás?), numa linda demonstração de prestação de contas idônea para os seus eleitores. E assim, depois de uma memorável sessão em que 40 senadores votaram pela absolvição da figura, só 10 (dez, X, raiz quadrada de 100) de fato admitem tê-lo feito. Sério, quase dá vontade de bater palmas nesses caras por pelo menos terem um pouco de coragem (ou cara dura mesmo). E a triste conclusão é que o destino do país vai sendo definido em pleno Congresso Nacional e a gente não sabe por quem. Tipo assim, quem é que a gente pode cobrar pela decisão agora? Não tem alguma coisa, hã, digamos assim, vagamente errada (leia-se "completamente estapafúrdia") com uma democracia representativa onde os representantes não tem que prestar conta do que fazem? Quem foi a mula que introduziu a idéia de voto secreto no Congresso Nacional? Bom, se bobear isso também foi aprovado em voto secreto, então a gente é capaz de jamais ficar sabendo.
em todo caso, eu pessoalmente desisti de fazer campanha contra o Renan, porque já perdeu a graça, e porque no fim das contas o cara tem o grupo Abril inteiro mais meio mundo atrás dele, então mais cedo ou mais tarde ele vai acabar se fodendo igual, nem que seja pra servir de bode expiatório e livrar os outros tantos. A essa altura, eu tô mais interessado em saber quem foram os filhos da puta que livraram a cara dele e não admitiram. Os meios, ainda que tão efetivos quanto jogar balde d'água em incêndio, tão aí: escreva pra esses sujeitos que não abriram o voto na página do Senado e cobre deles pelo menos um pouquinho de coragem, hombridade, ou como queira chamar pra admitir pra população o que eles fazem em nome dela. E em relação aos seis mentirosos, se algum dia a lista aparecer, vamos contratar os seguranças do Senado pra bater neles dessa vez.

segunda-feira, setembro 03, 2007

eu DISSE que era um derivado do petróleo

já era hora. Depois de uns doze anos de internet, pela primeira vez chegou na minha caixa de correio uma corrente de e-mails paranóides trazendo pelo menos uma informação prazerosa. Sim, pasmem, depois de vários milhares de mails dizendo pra eu não comer hambúrguer no mcdonald's (porque era feito de minhoca), não beber coca-cola (porque mata criancinhas no iraque), não ir no cinema (porque eu posso ser seqüestrado ou sentar numa seringa contaminada com HIV), não abrir mail de pornografia (porque pode ter vírus, óbvio) e por aí afora, finalmente alguém se prestou a escrever algo minimamente otimista e positivo e alertar a população mundial a não comer produtos feitos de soja. Aleluia, indeed. Parece quase um milagre.

naturalmente eu não sei se nada que tá escrito nesse troço tem algum fundamento. Agora, que o bom senso faz suspeitar fortemente de que alguma coisa que é capaz de gerar leite, queijo, bifes, óleo, proteína, shoyu e salsicha só pode ser um derivado secundário do petróleo, isso sempre me pareceu meio óbvio. Em algum momento eu cheguei até a montar uma comunidade no orkut a respeito (muito possivelmente a única que eu criei na vida), que aliás mais de um ano depois de sua criação conta com gloriosos três membros – já que, mesmo que num momento de fraqueza eu possa ter caído na tentação de tê-la criado, eu jamais teria a falta de senso crítico necessária pra ficar enchendo o saco das outras pessoas pra entrarem nela. Mas depois resolvi guardar a convicção pra mim, até receber radiantemente esse mail lindo hoje de tarde e decidir que tava na hora de um post catártico.

aliás, se por acaso houver algum fundo de verdade nesse troço, isso não confirma só a minha convicção de que um troço repulsivo e sem gosto chamado “proteína de soja”, com um aspecto cujo correspondente mais visualmente próximo na natureza é cocô de galinha, não pode concebivelmente fazer bem pra saúde. Isso também confirma uma convicção ainda muito mais arraigada na minha mente: o bom e velho ditado sumério de que “não existe nada mais fácil do que enganar um natureba”.

sério, pouca coisa me deixa mais perplexo no mundo moderno do que o fato de que pessoas que se acham ultraespertas, descoladas, críticas e esclarecidas a respeito das pérfidas mentiras que o capitalismo e a sociedade de consumo nos impõem são capazes de acreditar docilmente em gurus barbudos de aspecto psicótico e livros picaretas de cultura macrobiótica comprados em sebos, cujos argumentos megacientíficos pra apoiar o consumo de alimentos naturais variados geralmente são coisas tipo “os chineses fazem isso há cinco mil anos” (assim como acreditam em horóscopo, lêem o futuro em folhas de chá, exploram o trabalho infantil e traficam órgãos) ou “o que é orgânico e vem da natureza não pode te prejudicar” (vide estricnina, urtiga, chá de dama da noite e o vibrião da cólera), ou ainda “fulano foi pra índia comer só arroz e curou sua leucemia em cinco dias” (e, curiosamente, isso passou tão desapercebido que depois de milhares de anos milhões de pessoas continuam gastando bilhões de dólares tentando fazer algo tão simples). Tudo meio baseado na crença primordial neorousseauniana de que a natureza era um lugar inocente e fofo em que ninguém nunca morria nem ficava doente até que a civilização malvada veio tocar o horror. Sem jamais imaginar que talvez a razão pra não existir doença crônica na pré-história é que não tinha comida tampouco, e todo mundo morria com vinte e poucos anos da primeira infecção que aparecesse.

pessoalmente,em termos de coisas naturais e orgânicas sou mais a opinião do Werner Herzog no “Homem Urso”, de que "the common denominator in the universe is not harmony, but chaos, hostility, and murder", como pode facilmente constatar qualquer um que tenha assistido o Discovery Channel ou seus congêneres amadores. Vá lá, eu concedo que o denominador comum da civilização não é muito melhor do que o da natureza nesse aspecto. Mas o mais chocante de tudo é que essa galera natureba consegue se deixar enganar pelos dois. Tipo, nada é mais fácil do que botar um selinho de orgânico e natural em alguma coisa, dizer que tem antioxidantes e sal marinho e que previne o câncer, a cegueira e a infelicidade, e vender por três vezes o preço dum produto industrializado normal. E o pior de tudo é que as pessoas compram e acreditam piamente, torrando dinheiro em nome duma pureza virtual de benefício no mínimo duvidoso – por piores que sejam alguns produtos industrializados, pelo menos a origem deles tende a ser um pouco mais transparente, enquanto que ninguém sabe exatamente a densidade de ratos no porão onde foi feito um queijo colonial qualquer.

mas enfim, acho que o ser humano tem vocação pra ser patinho. E então as pessoas basicamente optam por serem manipuladas pelo McDonald’s ou pela proteína de soja, pelo PT ou pelo PSDB, pelo Papa ou pelo Sai Baba, pela medicina chinesa ou pela indústria farmacêutica. Aliás, a nossa patinhice intrínseca é bem capaz de ter sido uma força evolucionária determinante na escalada da nossa espécie rumo à supremacia global: se o ser humano fosse desconfiado e arredio ao invés de ser ingênuo e propenso a se tornar massa de manobra fácil, provavelmente nunca teria sido convencido a construir essa história de "civilização". Então talvez a gente só tenha a agradecer pelo fato de sermos mais patos e ovelhas do que lobos ou leões, o que nos permite levar bem menos chifrada de búfalo hoje em dia. E deixar de se incomodar com a falta de senso crítico alheio, até porque lá pelas tantas a gente vai acabar ludibriado também. Já que, pelo menos em termos de promoção da saúde, nutrição e essas coisas todas a ignorância e picaretagem da medicina ocidental instituída ainda é quase tão grande quanto a dos gurus macrobióticos.

e enfim, já que ninguém sabe porra nenhuma, o meu bom senso ao menos me diz que é sempre melhor acreditar que um troço gosmento como carne de soja dá câncer do que achar que lasanha à bolonhesa engorda. Se ser enganado é inevitável, afinal, que pelo menos a gente seja enganado por algo gostoso.

quarta-feira, agosto 22, 2007

roquenrol, uga-uga!



pô, acabei de descobrir que sou o primeiro hit do google pra "cantores negros de Tuvalu". Quer dizer, pelo menos nos últimos três meses. Então, em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Grande Oráculo e à pequena nação por esse privilégio. Mas afora o orgulho que me solapa neste momento... quem diabos serão esses caras? E quem diabos entrou aqui por essa via? Alguém se acusa?

sábado, agosto 11, 2007

irmãozinhos famosos

sempre achei que distúrbio de fala era uma coisa que tinha um certo charme tresloucado, tanto que nunca troquei o nome desse blog e nem fui no fonoaudiólogo. Mas certamente esse primo distante é muito mais louco do que eu poderia sonhar em ser. Em todo caso, deu um baita orgulho de ser da família.

quinta-feira, agosto 09, 2007

"É assim que eu penso... e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!"


e o que dá mais medo é a sensação de que, se a gente for olhar as sentenças do Judiciário brasileiro que não saem no jornal porque não dizem respeito a figuras públicas, é capaz de achar milhares de estrupícios como esse. E deixando de lado toda a questão da homofobia, que é repugnante e ridícula o suficiente pra não requerer maiores comentários, será que alguém um pouco mais esclarecido juridicamente pode me explicar como diabos um juiz pode justificar uma sentença com a frase "é assim que eu penso"? Tipo, a coisa funciona assim de verdade na prática? As sentenças não deviam fazer referência a alguma lei, jurisprudência, constituição, essas coisas? Não tem alguma coisa meio errada nisso? E, já que você está aqui, amigo juridicamente esclarecido, tem alguma coisa que a gente possa fazer pra contribuir pro afastamento desse palhaço? Alguma via oficial? Algum abaixo-assinado? Alguma sugestão? Alguém, anyone? Houston?

segunda-feira, agosto 06, 2007

rumo ao fundo do poço, mas abraçadinhos

"As três bandas [Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju e Teatro Mágico] levam adiante a bandeira da "autenticidade" propalada pelos [Los] Hermanos. Algo que, na música, se traduz numa atitude calculadamente despojada e na pose de quem "não se vende ao sistema". O Mombojó até se vincula a uma gravadora - mas uma que ainda mantém certa aura alternativa, a Trama. Nos três casos, contudo, a estratégia de divulgação é de guerrilha. Elas disponibilizam todas as suas músicas de graça na internet e usam os shows como principal fonte de renda (e também como canal de venda de seus discos). ("Os remelentos do rock"; Revista Veja, 08/08/07)
Francamente, isso é o fim da picada. Num mercado em que as gravadoras quebraram de vez, sem perspectiva de volta, e não tem dinheiro nem vontade de investir em nenhum artista cujo nome não comece com "Ivete" e termine com "Sangalo", muito menos de tentar vender CD a menos de 30 reais, os músicos começam a encher o saco desse mercado falido e estúpido e resolvem botar o seu trabalho na internet de graça pra não depender de executivo engravatado (e pro público não depender de grana pra ter acesso ao trabalho). E, tcham-tcham-tcham-tcham, qual é a resposta da mídia? Obviamente, meter o pau nos caras por estar "fazendo pose" de independente, "autêntico" (as aspas não são minhas), e ainda por cima metido a esquerdista. Dá vontade de vomitar. Em todo caso, acho que esse é o legítimo testamento do quão fundo no poço chegou o conceito atual (ou passado) de indústria cultural. E uma demonstração surpreendente de que pelo menos uma parte da mídia está disposta a acompanhar essa massa falida de parasitas até ela sair pelo outro lado do planeta terra.

quinta-feira, julho 26, 2007

o tempo passa, a angústia aumenta, mas os baralhos seguem exatamente os mesmos

JERRY: "(...) what I wanted to get at is the value difference between pornographic playing cards when you're a kid, and pornographic playing cards when you're older. It's that when you're a kid you use the cards as a substitute for a real experience, and when you're older you use real experience as a substitute for the fantasy. But I imagine you'd rather hear about what happened at the zoo. (Edward Albee, The Zoo Story)

as fossas abertas do cinema brasileiro



ainda não consegui decidir se esse “Saneamento Básico” do Jorge Furtado é o supra-sumo da auto-ironia ou o maior ato falho da história do cinema brasileiro. Aliás, também não consigo entender muito bem por que diabos eu sou a única pessoa que parece estar se fazendo essa pergunta. Mas enfim, vamos aos fatos.
o argumento inicial do filme já foi amplamente divulgado pela mídia, e consiste num questionamento metalingüístico interessante: uma cidadezinha da serra gaúcha precisa fechar uma fossa aberta, mas a única verba pública de que dispõe é pra fazer um vídeo, ganho num concurso de baixo orçamento pra cidades com até 20.000 habitantes. Sem muita opção, os moradores resolvem fazer um vídeo sobre o “monstro da fossa” como pretexto pra usar o dinheiro para fechá-la.
a questão levantada pelo filme urge. Afinal, qualquer cidadão medianamente informado hoje em dia sabe que a dependência de financiamento quase que inteiramente público (via leis de incentivo e concursos) é há tempos a grande fossa aberta do cinema brasileiro, na qual ninguém da área tem muita coragem de tocar. Porque ao revirar a fossa surge a boa e velha questão insolúvel: quantas casas com saneamento básico valem um longa-metragem? Quantas escolas? Quantos postos de saúde? A resposta não é fácil nem óbvia, e provavelmente não tem como fugir da total arbitrariedade. A não ser que, feito um poeta russo entusiasmado e estúpido do início da revolução cujo nome me foge, a gente decida que “um queijo vale mais do que toda a obra de Pushkin”. Mas isso é ridículo, triste, e em última análise não só desumano como mentiroso. Eu pelo menos me sinto convicto e confortável em dizer que a obra de Pushkin vale muito mais do que um queijo. Mas e um milhão de queijos? Ou uma enorme indústria de queijos que empregue um montão de pessoas? E aí, novamente, chega o ponto em que a pergunta se torna insolúvel, porque felicidade não se compra, assim como não se compram vidas humanas. E eu sinto sincera pena do cara do governo que tem que equacionar esse tipo de coisa.
apesar de, ao ouvir falar do argumento do filme pela primeira vez, eu ter pensado que, apesar da questão ser importante, parecia uma idéia difícil de fazer funcionar, a verdade é que o filme, pelo menos inicialmente, é interessante, bem executado, simpático e francamente muito engraçado (particularmente pra quem já tentou fazer um filme amador entre amigos e/ou cônjuges). E, às custas da ignorância dos personagens, das cenas toscas da produção amadora e do interesse crescente dos personagens por “essa história de cinema”, o filme consegue ser divertido e ao mesmo tempo levantar um debate mais do que necessário: afinal, do que vale fazer um filme quando se tem uma fossa a fechar?
as à medida que seus protagonistas vão esquecendo a questão da fossa e se entusiasmando com a idéia de fazer cinema, o filme vai tomando um certo tom de panfleto didático de exaltação ao próprio métier e defesa do investimento na área, e evolui devagarinho prum tom de “final feliz de comédia em que tudo acaba dando certo”. E no fim das contas o filme dentro do filme é um sucesso, todo mundo sai ganhando com ele, e tudo de fato parece acabar lindamente bem. Isso por si só seria meio que um desmérito, já que faz o desfavor de, após levantar uma questão urgente, fechá-la duma maneira um tanto autocomplacente. E quando eu saí do cinema me sentindo meio irritado, eu achei que fosse por isso. Mas parando pra pensar, voluntariamente ou não, o desfecho é muito mais revelador que parece. Acompanhem os seguintes detalhes:


1. A fossa continua aberta. Concordo que, se a idéia é argumentar que o investimento em cinema vale a pena mesmo quando o país tem fossas abertas, esse detalhe era necessário. Mas é surpreendente como os personagens do filme parecem esquecer disso facilmente: aliás, esse “pequeno” detalhe só vem à tona porque o cara que estava construindo a fossa reclama que faltou verba pra ele terminar a fossa. Do pessoal que originalmente pegou o dinheiro pra fechar a fossa com o pretexto de fazer um filme (e acabou fazendo um filme com o pretexto de fechar a fossa), não se ouve um pio.

2. As razões apresentadas pra dizer que “o investimento no filme valeu a pena” são de um capitalismo simplista. Listemos tudo o que “acaba bem” no fim do filme: o casamento e o negócio de móveis do casal de realizadores floresce e faz um belo marketing em cima do filme; o dono da câmera, que é proprietário também de uma pousada, recebe investimentos do setor hoteleiro, feitos por uma mulher linda; o “co-diretor” e montador do filme ganha notoriedade local e espaço pra falar abobrinhas em público, além de um cachê de 2.000 reais; a atriz principal do filme vira uma estrela; a região ganha um punhado de turistas.
sinceramente, se é por isso que a gente precisa investir em cinema, me dêem os queijos. Não que eu seja contra a idéia de investir em cinema. Pelo contrário, minha opinião é que dar 10.000 reais prum vilarejo tosco fazer um vídeo é uma puta idéia. Mas essas são todas as razões erradas pra isso. O item certo pra obter esse tipo de retorno deveria constar no orçamento público como “publicidade turística”, ou qualquer outra coisa. Mas não é cinema, muito menos cultura. Se tem uma boa razão pra dar 10.000 reais pra alguém filmar algo, é pra fazer as pessoas pensarem. Tanto quem faz como quem assiste. E pensarem sobre questões relevantes, inclusive sobre a necessidade de gastar dinheiro fazendo cinema. O que, suponho eu, tenha sido o que os financiadores públicos do filme pensaram quando investiram no projeto. Estranhamente, a idéia de mérito que o próprio filme passa no fim das contas parece absolutamente diferente.

3. Os beneficiários do filme são basicamente os seus realizadores. Isso é o mais engraçado, mas é inegavelmente verdade. Todo mundo que é mostrado se beneficiando diretamente com o filme (o dono da pousada, os donos da loja de móveis, o co-diretor, a atriz principal) são os seus próprios realizadores, que fazem marketing pessoal em cima da própria obra e recebem amplos benefícios secundários. O retorno de interesse público de fato é mísero: algumas dezenas de turistas a mais, e as risadas que a população dá ao assistir o filme. Vá lá, talvez eu esteja sendo ranzinza: acho que se pode argumentar que boas risadas não sejam um retorno mísero, e que elas sejam motivo válido e suficiente pra fazer um filme. Mas é inegável que o grosso do retorno (e praticamente todo o benefício financeiro) aparece indo pra mão dos realizadores. Enquanto a fossa continua aberta.


4. 30% da verba é gasta pagando direitos autorais para os herdeiros de Billie Holiday. Um pouco menos grave, mas igualmente intrigante é o fato de que de 10.000 reais do projeto, inexplicáveis 3.000 (com a obra da fossa inacabada!) vão pra comprar os direitos duma trilha sonora da Billie Holiday! Sob a bênção de alguém que diz: “é, é caro, mas tem que ser essa música”. Excuse me? Isso é pra ser um final feliz? Eu usaria um absurdo desses pra fazer campanha em prol do domínio público, ou então pra fazer uma denúncia contra a falta de economia com o dinheiro público. Mas dizer que “tem que ser assim” é o fim da picada.
dizer que “o investimento em arte é válido” não tem nada a ver com dizer que “qualquer investimento em arte é válido”. Aliás, o outro problema latente do cinema brasileiro (que anda de mãos dadas com o financiamento público, naturalmente) é que uma parte significativa dele (não por acaso, a mais visível) tem padrões inexplicavelmente hollywoodianos. Pra filmes por vezes muito ruins. O que faz com que (a) boa parte dos filmes custe significativamente mais do que poderia custar (com pouco acréscimo de qualidade artística de fato, porque isso raramente se compra) e (b) os poucos realizadores que conseguem criar público pra pagar pelo menos uma parte dos seus filmes, ao invés de usarem isso pra se tornar independentes, geralmente passam simplesmente a pedir mais dinheiro pra fazer filmes mais caros, perpetuando o ciclo de dependência. Mas como ninguém tá botando grana do seu bolso mesmo, afora o contribuinte, quem se importa?

sinceramente, 3.000 reais em uma trilha duma cantora morta prum filme de 10.000 (que na verdade eram 2.000 inicialmente, já que a obra ia custar 8.000) me parece o clássico exemplo de desperdício do cinema brasileiro. Vá lá, pode ser que fosse a melhor trilha do mundo praquela cena. Mas pra um filme desse tamanho e orçamento, não importa. Não dá, e ponto. Está fora de alcance, assim como filmar uma batalha de naves espaciais, ou algo do gênero. E que se pegue um violão e grave uma trilha parecida, ora bolas. Ninguém vai morrer com isso. E a gente vai fazer um cinema possível pra cidade. Ou pro país. Que provavelmente, além de mais barato, vai acabar sendo mais representativo do Brasil que ele quer mostrar (e que está pagando o filme, diga-se de passagem). Mesmo que seja um pouco mais tosco. Ou exatamente por causa disso.

5. No fim das contas, o filme (dentro do filme) é um lixo. Ok, esse é o menor dos problemas. Afinal, o filme (de fora) é uma comédia, e a ruindade do filme de dentro era absolutamente necessária pra história funcionar. E eu concordo que talvez pruma comunidade de meia dúzia de habitantes, mesmo fazer um filme ruim possa ser um troço muito significativo e importante. Afora que é inevitável que investir em cinema sempre vá gerar alguns monstrinhos. Mas enfim, não deixa de ser relevante e pelo menos um pouco representativo de boa parte do cinema nacional que, mesmo com todo o dinheiro gasto e a fossa ainda aberta, o resultado final do investimento ainda assim seja muito ruim.


mas como todo mundo parece feliz no fim do filme, ninguém parece se importar muito com nada disso. E eu não sei se era a intenção dos realizadores do filme de fora, mas o resultado do filme de dentro, quando olhado com cuidado, acaba se tornando não uma defesa do investimento em cinema, mas um retrato relativamente significativo de alguns dos maiores problemas, distorções e maus hábitos do cinema brasileiro. Se isso foi consciente (e é possível que pelo menos parcialmente tenha sido), isso é um baita mérito, ainda que meio escondido. Mas o tom de final feliz meio autocomplacente do fim do filme parece sugerir que é mais provável que a maior parte dessas controvérsias tenham simplesmente emergido meio por acaso. E, se for esse o caso, é bastante sintomático que isso tenha acontecido sem que ninguém se dê conta. Talvez porque todo mundo no meio já tenha se acostumado com elas. Igualmente sintomático, e talvez mais preocupante, é o fato de que praticamente ninguém na crítica parece ter notado esses detalhes tampouco; pelo contrário, todo mundo parece ter exaltado o filme como uma “comédia prazerosa de humor inocente e sagaz”, ou uma “defesa da produção nacional”, sem conseguir enxergar o óbvio latejante.
pra mim, no entanto, o que salta aos olhos é o quanto de podre se esconde num final aparentemente feliz sem que ninguém sinta o cheiro. Ironicamente, a impressão que fica é que os realizadores do filme de fora fizeram o mesmo que os realizadores do filme de dentro. Ganharam verba pública pra fazer o filme e tentaram usar essa verba pra, no processo de fazê-lo, tentar tapar as fossas abertas do próprio cinema brasileiro. Mas, intencionalmente ou não, mudaram de rumo em algum ponto do caminho. E acabaram por deixar a fossa mais exposta ainda.

terça-feira, julho 24, 2007

se é pra ir embora...

que seja afogado numa banheira com champanhe e pétalas de rosa, ou de alguma outra maneira cheia de glamour. Anyway, esse post é pra comunicar que a minha coluna do argumento está suicidando-se por tempo indeterminado, até o momento de desfechar para balanço. Mas também é pra dizer que ela pelo menos se despede com estilo.

sexta-feira, julho 13, 2007

o óbvio, o reiterado e o repetido

pra algumas pessoas parece tão fácil entender...
"Praticamente toda música é derivada de outros artistas. Se você é guitarrista numa banda de rock, toca notas em progressão de um jeito que alguém já fez. Isso num instrumento que não foi você quem inventou. Coloca as notas numa ordem que rearranjou de alguma canção de que gosta, produz num instrumento, contextualiza inserindo outros instrumentos e chama isso de sua criação. É basicamente o que faço também. Nenhuma lei de direito autoral diz que roubo música."
(Gregg Gillis, vulgo Girl Talk, sampler convicto, sobre a acusação de "roubar música dos outros")
também nunca entendi como alguém de fato pode reclamar pra si o mérito de ter "inventado" algo. Na ciência muito menos do que na arte, aliás. Mas alguém há de ter trabalhado pesadamente o inconsciente coletivo do mundo ocidental pra encobrir esse fato escancarado. Em todo caso, é sempre bom ver gente levantando a voz pra reiterar o óbvio.

quarta-feira, julho 11, 2007

mergulhando corajosamente nas águas do futuro

sempre tive um forte complexo de inferioridade (e sentimento de profunda defasagem) ao ver esses vídeos de adolescentes com 500.000 hits no youtube, ou comunidades no Orkut com 1 milhão de membros, particularmente ao lembrar que o meu livro de contos tem uma tiragem de uns mil exemplares, e que metade deles tão na mão de gente que sequer deve ter lido. Mas tá na hora da virada. Graças a esse tradutor automático, tô pronto pra invadir os êmeésseênes da vida. Aí embaixo vai o primeiro conto traduzido. Daqui por diante, não vai ter banda larga o suficiente pra tanta fama.
(com créditos pro pelizzari, jp cuenca e scott pelo telefone sem fio).

a porta du 4o

kom u avanssu da idadi...tudu u ke ainda konsigu mante em minha kabessa saum as partidas i as xegadas...... du kaminhu ke jaz entre umas i otras...poca koiza sobrevivi a aridez da minha memoria: us paises longinkus ke algum dia habitaram a minha imaginassaum permaneci longinkus...i na ausencia deles eu me veju atadeenhu apenas a essi 4o...i a todas as vezes ke a porta c abriu......da 1a vez ainda havia 1 mundu inteiru a se discobertu du ladu d fora...i eu mau podia konte a minha excitassaum enkantu ke dentru du 4o a mala esperava ansioza a bera da porta i u orgulhu dela kobria-me d bjs...flores i certezas d 1 retornu idilicu ke naum haveria...... pois da proxima vez ke entrassi pela porta jah haveria nascidu a dor...i a esperanssa da kama feita i du sorrisu nus labius jah c kontrapunha u estranhamentu...... “minha viagi foi maior du ke a tua”...ela dissi...i eu aceitei sem sabe u ke fazia ou u ke faze...kom a eloquencia i a forssa esvaidas pelu mundu...... i sem renunciah a 1 ultima tentativa d transpor a porta implorei por perdaum...+ por inercia du ke por esperanssa...mas nu intimu jah sabia ke u 4o naum era i naum seria + u msm...... a partida siguinti foi apenas necessaria...du ladu d fora a eternidadi a esperah ke eu atravessassi a porta por kompletu...kom a troxa d ropas nas kostas i 1 lagrima nus olhus...... i ninguem entaum imaginaria ke u retornu seria sofreguidaum pura...1 imensidaum d abrassus c estendenu da porta au leitu...ondi 1 nova eternidadi me dava as boas vindas......kom a eternidadi veiu a siguranssa: as partidas tornaram-c komuns...automaticas...planejadas...i u bate da porta antis fatidicu torno-c apenas korrikeiru...naturau komu u esforssu d sai em silenciu p naum acordah-la...sempre retribuidu kom 1 acenu silenciosu entre travesseirus i bocejus...... us retornus tornaram-c igualmenti singelus...1 abri d surpreza da porta duranti a limpeza da kaza...a makiagi ou a sesta da tardi...us abrassus i bjs gratuitus i telegraficus komu nus konvinha...... ateh u dia em ke u abri da porta koincidiria kom u fexah dus olhus i u kolidi dus korpus i us gritus d sim...num brevi vislumbre siguidu da porta batida sem tranca i du silenciu kumplici i disorientadeenhu a restah nu 4o...... a proxima abertura seria relutanti...1 kurtu interludiu p juntah us pertencis antis da saida sem dispedidas...jah sabenu nu fundu ke tudu naum passava da preparassaum necessaria p proximu retornu...rodopianti...inevitaveu i repletu d perdoes...bjs tremulus...juras d amor eternu i promessas d nunca +......a parti daih as partidas seriam todas furtivas...noturnas...findas antis du amanhece num lentu escorregah por entre us kobertores...u 4o em silenciu acolhedor i kumplici da evanescencia da noiti du otru ladu da porta...... i dpois dissu viriam ainda partidas rispidas...retornus languidus...escapadas subitas...xegadas pontuais...partidas a kontragostu...xegadas d improvisu...partidas i xegadas i partidas i a porta a abri i fexah...sempre a porta...a porta du 4o...u iniciu i u fim d todu u dislocamentu...... i eh p porta ke olhu qdu esta c abre i dexa ke ela entre...doci i majestoza...ela ke em sua imensidaum aproxima-c da kama em ke to deitadeenhu i dexanu us pacotis d supermercadeenhu au ladu da kabecera me diz oi filhu...sentiu minha falta??!?! i eu respondu ke naum...mai...foi tudu bem...i sabenu ke eh mentira olhu p ela komu c pedissi perdaum pela minha infidelidadi...... i qdu ela c aproxima p beijah-me eu tiru us olhus da porta i encontru por fim a certeza ke procurava...a reconfortanti certeza d ke jamais saih...d ke nunca parti nem xeguei...i d ke tudu u ke passa por minha kabessa eh apenas frutu d 1 imaginassaum angustiada pelu tormentu da solidaum momentanea...pois tudu u ke sempre hovi disdi u iniciu dus tempus naum foram partidas nem xegadas...mas apenas a porta du 4o...i a infelicidadi kontida d qm naum konseguiu sai......

quarta-feira, julho 04, 2007

taquilalia quer, taquilalia pode


confirmado! Atendendo a uma reivindicação antiga deste blog, o “Saneamento Básico” do Jorge Furtado é provavelmente o primeiro filme do cinema brasileiro em que todos os oito ou dez motoristas contratados têm sobrenome. Sem exceção. Sério. Um verdadeiro milagre da tecnologia moderna, que mostra que, quando a blogosfera realmente quer algo, o nosso poder é quase ilimitado. Nem que seja via figa. É ver pra crer, breve, num cinema próximo de você.

terça-feira, junho 26, 2007

e já que eu enveredei pelo assunto abaixo...

e falando no tal "jornalismo cultural", uma pergunta simples: por que diabos em pleno 2007 as críticas de literatura e música continuam terminando com o preço do disco ou do livro. Será que alguém que se presta a ler crítica de música no mundo ainda compra CD? Vá lá, livros ainda compram-se de vez em quando, então de repente o preço pode eventualmente ser útil pra alguém. Mas, útil ou não, me incomoda profundamente essa coisa da indissociabilidade obra de arte = objeto de consumo. Se alguém faz uma entrevista com um escritor, o que o cara vai ter pra dizer provavelmente vai ter muito pouco a ver com o livro dele ter sido lançado pela editora X com preço de capa de R$ 54,00. E muito mais a ver com o fato do livro ter sido escrito. Então eu não vejo uma razão óbvia pras coisas serem assim tão indissociáveis: a obra existe independentemente do objeto de suporte, e isso devia ser cada vez mais óbvio na era pós-napster. Mas por algum motivo, parece que a ficha demora a cair. E aquele incômodo preço continua onipresente, transformando o caderno de cultura do jornal na versão chique dos classificados.
vá lá, talvez seja tudo conspiração da tal "indústria" cultural pra manter viva a figura do chamado "consumidor" cultural (aliás, como diabos essas duas palavrinhas profundamente infelizes se juntaram com a pobre palavra "cultura"?). Ou talvez seja o peso de todos os séculos pré-imprensa/fotografia/soulseek em que a arte de fato equivaleu ao objeto físico que dificulta a perda do hábito. Ou talvez pro próprio “consumidor” a idéia de que se pode “adquirir cultura” sacando o cartão de crédito do bolso possa ser uma maneira confortável de se diferenciar usando a carteira ao invés da cabeça. E claro, sempre vai ter alguém pra dizer que é importante que seja assim, porque o autor precisa lucrar de algum jeito, etc., e "mal não faz” botar o preço ali. Mas nada disso me parece uma boa razão pra que nada consiga existir sem preço no mundo (como "proof of principle", eu acabei de dar um google no marçal aquino pra botar um link no post abaixo, e o primeiro hit, ali nos "links patrocinados", foi o www.shoppinguol.com.br.). E coisas como o precinho embaixo da crítica podem ser muito tênues, mas elas me parecem profundamente representativas do jeito capitalista tosco de equiparar a arte a um objeto de mercado. E ajudam a perpetuar uma visão de mundo em que o dinheiro é capaz de comprar tudo, inclusive cultura. E pior, em que ele é o único meio possível pra isso.
por sorte, os dias do precinho provavelmente estão contados. Mais e mais gente troca músicas, PDFs, e vídeos via net e não precisa comprar porra nenhuma pra se tornar um ser mais pensante. Timidamente, pelo menos as revistas de música tem incluído umas paginazinhas de "downloads", ou "coisas na web" (sem preços!). E esses dias eu abri uma rolling stone gringa (hoje em dia totalmente inserida no mainstream musical) e encontrei uma dica de download que ao invés do endereço pra baixar tinha simples e milagrosamente a palavra “leaked”. Ou seja, pelo menos alguém aí fora parece estar se dando conta que o mundo mudou. E se o tal jornalismo cultural não se der conta disso, é bem capaz de seguir o mesmo caminho das gravadoras em direção à cova. Nada a ser temido, em todo caso: se acontecer, é provavelmente porque ele já ia tarde mesmo.

se alguém ainda duvidava que a indústria cultural é um mero subproduto do capitalismo sem coração




















(contracapa da última BRAVO!, junho/2007)
sério, esse deve ser o anúncio de pior gosto que eu já vi em toda a minha vida. Vá lá, suponho que um banco tem que manter uma certa imagem de capitalismo sisudo e malvado. Mas putz, isso é ridículo. E o mais engraçado de tudo é que essa é em tese a revista de cultura mais importante do país. Suponho que isso deva dar alguma medida de quem seja o "consumidor de cultura" dessas paragens. Afinal, o banco deve fazer uma boa pesquisa de marketing antes de decidir onde botar um estrupício desses.
aliás, não sei se é ironia de propósito de algum editor mais clarividente e adepto do autoescárnio, mas abrindo a página a primeira coisa que se encontra é um trecho de novela do Marçal Aquino sobre um escritor frustrado que assiste impotente a um bando de mulheres que gravita em torno dum anão milionário. Se tiver sido de propósito, parabéns ao responsável, não podia ter sido mais eloqüente. Mas se tiver sido o destino, enfim, isso é só mais uma prova que esse cara é um artista massa.

terça-feira, junho 19, 2007

extremely loud and incredibly close

e ainda assim, pouquíssima gente chega a se dar conta do tamanho do que está acontecendo embaixo dos nossos narizes. E o que me angustia nisso tudo não é a mudança em si, e sim o fato de que o futuro estar caindo de maduro e quase ninguém se dar conta parece uma janela de oportunidade única, enorme, arregaçada na minha frente. Na qual eu não chego a entrar por falta de tempo, apego aos velhos hábitos, imaturidade eletrônica, ou sabe-se lá o que for. Mas que cada vez mais dá vontade de largar tudo e sair por aí inventando o futuro, ah isso dá.

terça-feira, junho 05, 2007

arco-íris sem degradê


"pela livre expressão sexual", será? Sei lá, às vezes parece que não tem nada mais preconceituoso do que algumas minorias (particularmente as mais organizadas) quando têm a oportunidade. O nome da comunidade é genial, mas o conteúdo é um lixo. Porra, deixa os adolescentes em paz. Pelo jeito não pode mais existir nada sem rótulo no mundo.

segunda-feira, maio 28, 2007

brasil-sil-sil-sil-sil

ah, o que seria da gente sem esse mundo massa...
(da agência estado):
"Executado com 18 tiros há dez anos, o comerciante Paulo Roberto Pires teria mandado do além uma mensagem psicografada na qual inocenta o acusado de ser o mandante do crime [...] A carta, psicografada numa sessão espírita, foi apresentada no processo como prova da inocência do acusado, que era concunhado da vítima. O advogado do réu, Marco Antonio Martins Ramos, alegou que a mensagem de 11 folhas manuscritas foi psicografada pelo médium Rogério Leite, do Centro Espírita Paulo Ferreira, da cidade paulista de Lorena. Na tentativa de provar a veracidade do documento, ele juntou no processo fotos da sessão espírita e do médium."
quem precisa de ficção quando se tem o yahoo notícias?

domingo, maio 20, 2007

e por falar em tempo...


chegou esse mail agora. Dá-lhe Shiva.

(...) Isso mesmo. Todos os cds de música do Acervo da Cd Express estão à venda por R$ 5,00. Nem cd pirata custa tão barato.
Todos os cds nacionais e importados a R$ 5,00
Ainda tem mais de 4.000 cds dos mais variados estilos como MPB, Lounge, Trance, Eletrônico, Reggae, Surf Music, Dance, Blues, Metal, Jazz, Trilhas Sonoras, Pop, Rock, enfim, o melhor da música que a Cd Express adquiriu nos últimos 19 anos.
APENAS R$ 5,00 !!!! APROVEITE E COMPRE MUITOS!!!!

um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho

comemorar aniversário é um pouquinho como ser judeu no velho testamento. Afinal, celebrar o tempo é praticamente a mesma coisa do que adular aquele cara hediondo de barbas brancas que manda dilúvio pra cima da terra quando fica bravo e mata a família do pobre Jó por causa de uma aposta com o diabo (tipo de situação que na literatura atual está mais associada com o Jason, o Freddy Kruger e outros seres menos divinos). Mas o fascínio com tudo aquilo que é maior do que nós mesmos é quase intrínseco a espécie, e não é de hoje que olhamos deslumbrados para as avalanches e os temporais. Então acho que vale. E se não vale, pelo menos acaba acontecendo. São oito da noite de domingo, e eu mal e mal consegui acordar da letargia.

terça-feira, maio 15, 2007

o mundo virou uma rede que o efeito estufa...

... ou alguma coisa assim. Tô há horas pra criar uma frase idiota (daquelas tipo "a mata é virgem porque o vento é fresco") em homenagem ao século XXI me apropriando desses termos fashions e midiáticos. Algo como "a modernidade é líquida porque o aquecimento é global". Ou qualquer coisa do gênero. Mas não sai a que eu quero. Alguém dá uma ajuda?

dólar a 1,99!


Suprema humilhação pra terra dos Klingons. Agora quando eu for viajar não precisa ir na casa de câmbio, é só passar no bazarzinho de porcaria aqui na frente de casa.

quinta-feira, maio 10, 2007

sou alcoólatra mas sou saudável

ah, o tédio... ah, o antropormofismo... ah, a constrangedora facilidade de botar qualquer merda na rede hoje em dia...

quarta-feira, maio 09, 2007

e que ninguém venha falar do meu silêncio

não se mexe no temporal antes dele começar a chover.

mandando o conflito de interesse pra puta que o pariu

vá lá, propaganda dos amigos, colaboradores e pessoas próximas dificilmente conta. E mesmo falar de coisas que parecem muito próximas, mesmo que tu não tenha nada a ver com elas, também é sempre complicado. Mas conflito de interesse à parte, não dá pra negar que o Cão sem Dono me recuperou, e muito, a sensação de que tem alguma coisa pra ser dita. E de o que tem pra ser dito é muito simples. Em todo caso, tirem suas próprias conclusões. Estréia sexta.

segunda-feira, abril 16, 2007

paradoxos do cinema brasileiro #1

o que acontece com o sobrenome dos motoristas nos créditos? Será que eles nunca têm pai nem mãe?

sexta-feira, abril 13, 2007

mão na massa

minha estabalhoante estréia no fabuloso mundo da animação, no melhor estilo "sem verba e sem noção" (ou "com uma câmera na mão e as mesmas idéias doentes de sempre na cabeça"). Enjoy.

segunda-feira, abril 09, 2007

mais um
























dessa vez vestido de camiseta de futebol com anteninhas de marciano, se tudo der certo. Quem vier verá.

terça-feira, abril 03, 2007

sábado, março 31, 2007

invenções geniais # 233 - pela adequada exploração do trabalho infantil


cansado de ser criticado por explorar o trabalho infantil? Que tal utilizar o potencial das crianças de uma maneira política e ecologicamente correta? Nada mal, hein?
seja bem-vindo ao projeto da 1ª creche exportadora de energia elétrica do mundo!
o conceito é simples: qualquer pessoa que já tenha entrado em uma creche sabe da capacidade infinita das crianças entre 3 e 6 anos de fazer algazarra, correr, pular, subir nas paredes e coisas do gênero. A questão, então, é simples. Dada a crise energética vigente, por que não apropriar-se desta energia?
é com esta pergunta em mente que apresentamos o projeto de nossa creche/usina. Baseado na idéia de uma discoteca auto-sustentável duns holandeses viajantes , que puxará toda a eletricidade que necessita de sensores mecânicos que captam a energia mecânica dos pés das pessoas que dançam, tiramos a conclusão óbvia: se um bando de adultos podem sustentar uma discoteca com sua energia, um bando de crianças infernais pode sustentar uma nação. Daonde nascem os nossos princípios:
a) recrutamento ativo de crianças com insuportáveis distúrbios de conduta junto às creches vizinhas, com possível cobrança de comissão para aceitar os pestinhas.
b) contratação de professores surdo-mudos, uniformizados com armaduras.
c) recreio contínuo, intercalado com pequenas pausas de lanche para repor as energias.
d) animais de estimação à vontade (mantendo-se a sociedade protetora dos animais à distância, naturalmente).
e) instalação dos mesmos sensores mecânicos da tal discoteca, não só no chão como em qualquer lugar passível de ser pisoteado pelas crianças (ou seja, paredes, telhados, armários, postes de luz e possivelmente cabeças dos professores).
f) instalação de dispositivos produtores de biodiesel a partir de fraldas sujas, como fonte de energia complementar.
como as grandes civilizações da história, utilizaremo-nos uma vez mais do suor humano como o verdadeiro motor da sociedade. E ainda venderemos essa idéia via Greenpeace pros quatro cantos do mundo. Não tem como dar errado. Tô patenteando esse troço amanhã. E semana que vem começo a abrir o capital da empresa na bolsa.

os deuses podem não estar loucos ainda


mas os cientistas certamente estão. Dum artigo duns iranianos doidos numa das minhas revistas de ciência bizarra favoritas, a Medical Hypotheses:

"Intense romantic love (RL) is a cross-culturally universal phenomenon. RL, in its early stages, is associated with specific physiological, psychological and behavioral indices such as euphoria, obsessive thinking and intense focused attention on a preferred individual, emotional dependency on and craving for emotional union with the beloved one, and increased energy [1]..."

e depois de muito falarem sobre o tal “RL”, acabam por concluir:
"...The authors hypothesize that the hormonal products of pineal gland may attenuate the romantic love, particularly in its early stages, through their anti-dopaminergic properties and inhibitory effects on the caudate nucleus, which is a crucial brain region in the evolution of love. Hence, exogenous administration of the melatonin and vasotocin might be a potential therapeutic option in attenuating RL."
(Shoja et al. A cure for infatuation?: The potential ‘therapeutic’ role of pineal gland products such as melatonin and vasotocin in attenuating romantic love. Med Hypotheses 2007;68: 1172–1190)

sério, sou tri a favor de liberar a psicofarmacologia pra população em geral usar como lhe convenha, sem que se tenha que inventar doenças psiquiátricas ridículas e fictícias pra isso, como já disse alhures. Então por princípio eu não deveria me manifestar contra um troço desses. Mas têm certas coisas que doem na alma. A começar pela abreviação científica pra “romantic love”, que já beira o ridículo. Mas se querem atenuar alguma coisa, porque essas pessoas não fazem uma lobotomia em si mesmas de uma vez?
em todo caso, é bom que se possam dizer absurdos em algum lugar, nem que seja pra gente se divertir de vez em quando.

quarta-feira, março 28, 2007

pequena nota sobre preconceitos antinaturais

BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
Matilde Ribeiro - "Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou."
(do site original da entrevista na BBC Brasil)

reclama a ministra da igualdade racial (?) que a sua fala foi "descontextualizada". Sinceramente, acabei de olhar ela no contexto e considero ela tão estúpida quanto fora dele. Eu particularmente não me lembro de ter açoitado ninguém nos últimos tempos, independentemente de cor de pele. E me sentiria um tanto injustiçado se alguém não gostasse de mim por isso.
pra começar, não consigo entender o que diabos ela possa querer dizer com essa história de "uma reação natural" (ou "uma reação subjetiva normal", como disseram uns antropólogos aí) que os negros não gostem dos brancos. E as reações dos brancos que não gostam de negros são o quê, "artificiais"? "Antinaturais"? "Extraterrenas"? Também me parece uma reação obviamente "natural" que um branco tenha preconceito contra os negros, considerando-se que ele cresceu num meio preconceituoso, em que os pais e amigos fingem tolerância mas falam mal desses "negros filhos da puta" tão logo se sentem prejudicados por um, em que a TV mostra negros nas notícias policiais todos os dias, e em que nenhum negro anda por seu bairro elitista e limpinho. Mas não é por ser "natural" que tal reação deveria ser uma coisa normal ou tolerada. E certamente não é por isso que deixa de ser racismo.
mas o mais patético de tudo, no fim das contas, é que me parece que esse tal "racismo reverso" ou alguma forma de ressentimento da população negra é um problema absolutamente mínimo no Brasil, se é que existe. Confesso que no pontinho míope de vista que o meu local no país e na pirâmide social me oferecem, talvez eu não esteja tão exposto assim a grandes conflagrações raciais. Ainda assim, eu não me lembro de nenhuma vez em uns quase vinte e oito anos de vida de ter sido hostilizado por ninguém de etnia alguma por causa de cor de pele. Então a ministra consegue a proeza de se antecipar e perdoar o tal "racismo reverso" antes mesmo dele nascer no Brasil. Superbom.
dizer que não existe racismo no Brasil, como tem feito algumas pessoas que andam levantando a voz contra a idéia de afirmação afirmativa e cotas raciais, é obviamente uma bobagem grotesca. Mas não me parece uma bobagem achar que as tais políticas de "igualdade racial" do governo enxergam um país que não parece muito com o Brasil. Em primeiro lugar, a noção de raças distintas, como qualquer geneticista concordaria, é uma bobagem sem tamanho. E mesmo a noção de comunidades étnicas no Brasil me parece um tanto sem sentido: não me parece que exista grande segregação geográfica ou de costumes devido a etnia, e sim uma imensa segregação por classe social: bairros pobres e bairros ricos, costumes de pobres e costumes de ricos, produtos pra pobres e produtos pra ricos. Mas não vejo nenhum bairro negro, e se há "música negra" ou "moda negra" de uns tempos pra cá, isso parece ter sido largamente importado dos Estados Unidos - o samba, como canta o João Gilberto, sempre foi mistura de raça e mistura de cor. Da mesma maneira, a existência de tensão racial de fato, a tal "insurgência" levantada pela ministra, também nunca foi um problema dos maiores. O que existe é preconceito e discriminação, certo. Mas isso é bem diferente do que insurgência étnica.
ainda assim, por algum motivo, o pessoal lá de cima segue martelando essa história das duas populações separadas em franco conflito. E de tanto martelarem, são capazes de qualquer dia criarem exatamente isso (até porque a oficialização constitucional da separação parece só questão de tempo). Às vezes parece incompreensível. Mas como já nos ensina há tempos a indústria farmacêutica, se a gente tem um remédio popular pra vender, a melhor opção é sempre criar a doença.

segunda-feira, março 19, 2007

don't be evil


Cenário legal pro conflito do post abaixo:
Acuado por processos de violação de direitos autorais, por que o Google não resolve comprar um país de uma vez? Tipo uma ilha chinfrim dessas no pacífico, tipo Tuvalu, Nauru ou algum outro lugar ridículo desses com não muito mais do que uns 10.000 habitantes, que os nerds bilionários possam sustentar sem muito esforço. E que ao mesmo tempo, como são autônomos, independentes do mercado global e plenamente supridos pelo Google, possam reescrever sua constituição de maneira a cuspir na cara da Organização Mundial do Comércio e liberar a pirataria geral na ilha. E aí o Google Tuvalu poderá instalar na ilha seus servidores do Youtube, e de toda a forma de conteúdo arrebanhado de outras fontes, se aproveitando da legislação, com a qual ele não terá afiliação direta alguma, visto que foi decidida de livre e espontânea vontade por seus cidadãos. E então centenas de sanções internacionais voarão na cara da ilhazinha, que apenas rirá, visto que o Google terá espalhado mesas de sinuca, poltroninhas de chá e café de graça em todas as praias do país. Mais cedo ou mais tarde, os lobistas da indústria do entretenimento dirão que a GoogleIsland tem armas de destruição em massa, e o Jack Valenti exigirá a presença de inspetores da ONU no local. Os ânimos se exaltarão, com os tavaruanos sendo tachados de demônios, terroristas e tendo vistos negados por toda a comunidade internacional, fazendo com que em uma bela manhã do Pacífico a ilha amanheça coberta de bandeiras piratas por todos os lados. Sentindo-se ultrajados, os Estados Unidos ameaçarão invadir, o que mobilizará uma imediata e inédita mobilização de nerds de todas as partes do mundo, que migrarão para a ilha a fim de defendê-la, armados de celulares e espadas laser do Star Wars. E num voto inédito, a população de algum país oriental como a Coréia do Sul ou a Tailândia se aliará com nossa querida ilha, formando um novo Eixo do Mal em pleno Oceano Pacífico. Isso sim seria uma crise global divertida. Tô pagando pra ver. Aliás, alguém aí tem o mail daqueles dois nerds bilionários que mandam nessa várzea pra mim enviar a idéia?

(observação óbvia, antes que venham as críticas: sim, eu também acho meio deprimente quando a empresa mais poderosa do mundo começa a monopolizar as esperanças de uma revolução global (além de ser a dona desse humilde espaço em que elas são veiculadas, diga-se de passagem). Mas fazer o quê, bem ou mal essess nerds são bem melhores do que os republicanos. Pelo menos até o dia da vingança dos Sith)

e agora um boicote que vale a pena


quer dizer, valeria a pena, se não fosse um movimento restrito a um punhado de nerds norte-americanos que mal sabem escrever, tipo esses aqui, esses aqui, e uma larga quantidade de outros ainda mais ridículos. E me deixa sinceramente chateado que todo mundo se preocupe com os filmes de terror, mas que nessas horas ninguém chie. Porque sério, parece ser o clássico caso de uma imensa maioria silenciosa e passiva cedendo a uma minoria de cinco ou seis megaconglomerados extremamente vocal, ativa e legalmente assessorada. Porque eu não consigo realmente imaginar que alguém que não seja acionista da Viacom realmente apoie eles nessa ridícula pataquada de partir pra cima do Youtube pedindo um mísero bilhão de dólares em danos. E que por favor ninguém me venha com uma argumentação legal em cima disso (ainda que a maior parte das pessoas que entende do assunto parece ser da opinião de que eles não têm razão de qualquer maneira). A questão é muito mais simples. Se uma única supercorporação multimilionária pode legalmente estragar o veículo de expressão de milhões de pessoas botando conteúdo no mundo por pura boa vontade (misturada com o narcisismo, naturalmente, mas nada mais saudável do que isso) por causa de copyrights de pedacinhos de coisas que em grande parte das vezes já foram ao ar, nunca mais irão, e não dão dinheiro pra mais ninguém, é a lei que está errada. Ponto. E nenhum ato digital de copyright do milênio ou Sepúlveda Pertence vai me convencer do contrário.
mas aparentemente ninguém parece se preocupar muito. Talvez porque todo mundo tenha crescido desde o bercinho com essa noção absolutamente criada que pirataria é um troço ruim e feio (sem nunca ter se questionado como diabos um troço cujo nome técnico é “compartilhamento” tenha o nome legal de “pirataria”). Ou porque elas tenham crescido com a idéia de “viva o sonho americano” de que se o CEO da Viacom chegou lá é porque ele trabalhou duro e merece ter três bilhões de dólares ao invés de dois (mesmo que pra isso seja necessário suprimir a produção intelectual de alguns milhões de pessoas, já que o sonho americano, como todo mundo sabe, é sempre só pra uns dois ou três). Ou simplesmente porque prefiram deixar a questão pros advogados. O problema é que, pelo menos nessa briga, os advogados estão todos do lado onde costumam estar. Do lado onde o dinheiro está concentrado. E assim a oportunidade de uma revolução cultural de verdade ainda é capaz de escapar por entre os nossos dedos (digo, por entre as letras miúdas da legislação), por pura inércia.
não pretendo começar movimento nenhum, nem adentrar na organização política nesse exato momento, até porque tá na hora da janta e além disso a minha namorada acabou de se atirar em cima da cama. Mas acho que cada um de nós podia pelo menos tomar um pouquinho de consciência e fazer um único gesto político. Que pode ser muito bem o de piratear desesperadamente tudo o que tenha alguma coisa a ver com a Viacom, pra começar (ou seja, paramount pictures, CBS, dreamworks, MTV, nickelodeon e mais meia torcida do flamengo, como mostra a figura acima). Ou de xingar a mãe deles em público e pelo menos colocar a questão em pauta. Mas já que isso pega mal em jantares chiques, ainda acho que piratear é a melhor opção. Pelo menos pros mais quietinhos. Se alguém precisa, os links pro Pirate Bay e pro Soulseek tão aí do lado. E pros mais tradicionalistas, o centro de sua cidade certamente está zunindo de camelôs com DVDs a cinco reais. Eu tenho certeza de que algum bem pelo mundo a gente vai estar fazendo. E não é todos os dias que se tem a oportunidade de fazer isso comendo pipoca.

terça-feira, março 13, 2007

arte, sem desculpas











vou ver se consigo assistir ao filme "Turistas" essa semana. Não que eu de fato esteja a fim de ver essa bosta. Talvez até saia no meio do filme. Ou no início. Mas é só um ato político, pra pagar o ingresso e boicotar essa choradeira ridícula de “boicote esses americanos que querem ganhar dinheiro denegrindo o nosso país”. E defender assim o direito de neguinho ambientar o seu filme de terror no lugar que bem entender. Até porque, cá entre nós, francamente: se você, leitor escandalizado, fosse roteirista de cinema e algum produtor picareta largasse na sua mão uma sinopse de trabalho que dissesse “turistas vão pra um lugar exótico em busca de festa e putaria e acabam seqüestrados e perdendo os rins”, alguém aí consegue pensar num lugar mais provável e convincente pra isso acontecer? Sinceramente, eu não. Mesmo. E isso que eu gosto pra caralho do país em que eu vivo.
bom, aí vem a argumentação. Argumento número 1 da choradeira: “o filme pega um estereótipo deturpado do nosso país e passa a impressão de que tudo aqui é assim”. Resposta óbvia: sim, é claro que ele faz isso. A questão é que isso é normal e necessário em qualquer forma de arte. Usar estereótipos e exagerar as coisas é um recurso básico da ficção, pra mexer com o imaginário das pessoas. E é ridículo cobrar dum filme de terror ou duma comédia um compromisso fiel com a realidade. Vá lá, um pouco de verossimilhança não faz mal a ninguém, até pra própria obra não parecer idiota. Mas se coisas tipo a polícia usar facões como armas ou a floresta amazônica acabar numa favela são necessárias pra história, então que seja assim, porra. Porque se o mundo não puder contar histórias direito, a gente tá muito mais fodido do que se roubassem os nossos rins.
verdade que no caso dessa (provável) bomba cinematográfica é mais difícil argumentar que tenha sido por uma boa causa dramática: mais provavelmente deve ter sido por ignorância mesmo. Mas aí começa a virar questão de gosto. Porque se o argumento vale, algum cara que trabalhasse na pesca baleeira também podia ler Moby Dick e dizer que “isso é um absurdo, porque os capitães dos barcos não são malucos, e nenhum capitão que se preze mataria toda a sua tripulação pra se vingar duma baleia branca” e patatipatatá pelo mundo afora. A questão é que a história não é sobre a pesca baleeira; ela é sobre a obsessão, sobre a monomania, sobre a condição humana, e sobre uma infinidade de outras coisas. Ou melhor, minto: os poucos que de fato leram o livro sabem que tem longuíssimas passagens meio documentais sobre a pesca de baleias que são invariavelmente um saco. Por outro lado, quando entra o capitão maluco cruzando o mundo atrás da baleia branca, o livro vira um ponto altíssimo na história da civilização. Tão inverossímil quanto possa ser.
e mais: se usar estereótipos e exageros pra retratar alguma coisa é um problema, por que diabos a gente não boicota os filmes do Todd Solondz? Ou o Beavis and Butthead? Ou os Simpsons? Tipo assim, alguém de fato acredita que os americanos sejam todos tão idiotas quanto esses troços mostram. Não tenho certeza. Mas quando eles riem de si mesmos ninguém parece se importar, o máximo que se oferece de resposta é “eles merecem”. Aliás, nem precisa ir tão longe: quando nós avacalhamos com nós mesmos, seja com o Casseta & Planeta fazendo reportagem sobre a violência no Rio ou com o Fernando Meirelles entregando a morte do Zé Pequeno e a liderança do tráfico prum bando de crianças de oito anos no fim do "Cidade de Deus" (ah, isso sim é super verossímil...), vira tudo licença poética. E, porra, essa capacidade de criar riso ou medo com a própria tragédia é uma grande coisa que a gente sempre teve de sobra. E espero que a gente não esteja perdendo isso no meio de um ufanismo recalcado vindo não sei de onde.
mas claro, o padrão moral e ético nunca é exatamente o mesmo quando pisam no nosso calo. Por esses e outros recalques o mesmo PT que lutou contra a ditadura é o que resolveu extraditar (?!?) sumariamente, em questão de horas, o magrão americano que disse que o Lula bebia. E essa classe pseudoculta que reclama (com razão) do preconceito dos americanos em relação aos estrangeiros deveria se dar conta que o preconceito dela mesma em relação aos americanos é provavelmente tão grande quanto. Recentemente todos os meus amigos com pós-graduação que andaram pelos Estados Unidos ficaram realmente surpresos com o fato de que as pessoas de lá eram bem mais legais do que eles imaginavam. Provavelmente porque, sem que se perceba, a visão dos EUA por parte dos brasileiros que nunca foram pra lá deve ter se tornado pra muita gente bem mais parecida com o tal filme “Turistas” do que a gente se dá conta. Ou seja, de fato, talvez a gente devesse ter proibido os Simpsons.
deveria? Óbvio que não. Assim como os seus opositores, seja lá quem forem (Paulo Francis no céu, os cantores country na terra e alguns outros por aí) também não deveriam. Simplesmente porque o discurso politicamente correto de oposiçãoaopoderamericanoeaocapitalismomalvado eaostransgênicoseaoaquecimentoglobaleaopositivismocientífico eàdominaçãoisraelenseeafavor
dosocialismointernacionaledasminorias edofeminismoedaresistência iraquianaeàsupremaciado terceiromundoetc.etal (segundo um amigo meu, essas convicções aparentemente díspares são herdadas “em haplótipos”, ou seja, andam juntas porque devem estar no mesmo cromossomo), ainda que tenha seu mérito, é no fundo um discurso tão pronto quanto o que ele pretende criticar. E se ninguém puder criticar isso, das duas uma: ou ele se torna estéril e impotente, ou um dia ele toma o poder e vira tão ditatorial quanto o primeiro. Aliás, já não tomou? Ou morreu no processo? Alguém se manifesta? Mãozinhas na platéia? Bom, sei lá. Mas viva a contradição, em todo o caso.
e se há alguma regra coerente que possa ser estabelecida pra evitar isso, ela é relativamente simples: a ficção tem que poder bater em quem bem entender. Sem desculpas, e sem compromisso com verdade jornalística, a não ser que o autor ache que deva. Se ela tiver que se comprometer com gestos políticos bem intencionados antes de com o que quer que o artista queira dizer, fodeu. Primeiro, porque diminui terrivelmente a qualidade do que se produz: como já dizia Oscar Wilde, “por trás de cada mau poema existe sempre uma boa intenção”. E não é à toa que o professor e amigo Assis Brasil, quando lhe perguntam por que diabos ele só escreve romances históricos, sempre responde que é “pra poder mentir melhor”, porque se ele faz um troço contemporâneo sempre vai ter neguinho implicando que “pô, na verdade não é bem assim”. Parece provocação, mas eu tenho a impressão que não é. É só que a mentira e a fantasia (inclusive a fantasia preconceituosa do leitor/espectador) são fundamentais pra literatura. E duvido que alguém consiga contestar isso.
mas talvez tenha uma razão mais funda, qualidade à parte, pra filme preconceituoso existir. Bem ou mal, o único preconceito que é discutido é o que aparece. Afinal, tem uma caralhada de gente discutindo o tal preconceito a respeito do Brasil por causa dessa história. Pra não falar da caralhada infinitamente maior de gente discutindo se o filme do Borat é preconceituoso contra o Cazaquistão, ou contra os americanos, ou contra os judeus, ou contra as mulheres, ou contra as pessoas que apareceram. Aliás, esse filho da puta é tão genial que consegue se aproveitar de um humor revoltantemente preconceituoso (e, não por coincidência, hilário) pra fazer rir, e ao mesmo tempo questionar o próprio preconceito. E consegue criticar os americanos avacalhando completamente com um país coitado no meio da Ásia Central. Infelizmente, é uma obra praticamente irrepetível na história do cinema, porque ninguém vai cair nessa de novo. Mas é legal aproveitar enquanto ainda dura.
e talvez por isso o lugar das suásticas não seja no porão, e sim na praça pública, onde todo mundo pode jogar as laranjas. Senão, elas acabam virando um objeto demoníaco, proibido e tentador pra qualquer magrão revoltado com o mundo. Alguém duvida? Então vão até os Estados Unidos (ou até o youtube ou o google), onde não tem lei Afonso Arinas nem nada parecido, e liguem num talk show do meio da tarde pra ver uns gatos pingados da Ku Klux Klan que de vez em quando aparecem pagando vale. Porque, naturalmente, nada pode ser mais ridículo do que um cara com chapéu de pica na cabeça pedindo morte aos negros. E, no fim das contas, talvez nada possa ser mais salutar pra acabar com o racismo.
e, se alguém aí continua achando que Borat ou o cara do “Turistas” devem desculpas aos ofendidos, whatever, não vou contrariar a opinião de ninguém. Mas eu recomendaria acima de tudo que assistam o próprio Borat se desculpando pro presidente do Cazaquistão. Talvez assim elas se sintam um pouco mais satisfeitas. Eu pelo menos fiquei.

sexta-feira, março 09, 2007

sobre a sábia utilização dos recursos nacionais


pô, solta o PCC pra cima do homem... Onde diabos estão esses malditos bandidos quando a gente precisa?

quinta-feira, março 08, 2007

patrolando o panóptico

meu lado (anti)psiquiatra a mil na Nature Medicine. Se por acaso alguém não tiver acesso e quiser ler, nesse estúpido mundo de conteúdo científico protegido, me pede que eu mando por mail.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

cartinha aberta ao papa


Para
Papa Bento XVI
Aposentos Papais
Basílica de São Pedro
Cidade do Vaticano
Vaticano


Caro papa Bento XVI,

Estamos escrevendo esta carta para lhe pedir um favor. Mas pode ficar tranqüilo, dessa vez não tem nada a ver com a camisinha ou com os anticoncepcionais. Até porque a gente adora bebês. Também não tem nada a ver com os muçulmanos, com os homossexuais ou com a masturbação. Ainda que pelo menos nessa última o senhor podia dar uma aliviada. Mas vá lá, a gente pode deixar essa discussão pra outra hora.
Voltando ao nosso assunto, então, o que a gente queria era pedir um apoio da sua parte pra uma amiga nossa que anda sendo injustamente denegrida pela igreja. Sim, estamos falando da Preguiça. Não conhecemos o autor da tal lista dos pecados capitais, e nem sabemos o que ele tinha na cabeça quando incluiu a Preguiça nela. O que a gente sabe, sim, é que desde que ela foi colocada na lista negra a Preguiça nunca mais conseguiu nada na vida. Nunca mais arranjou emprego em lugar nenhum, nunca mais apareceu com namorado por aí. Marido, então, nem pensar. Faz alguns séculos, pelo menos, que ela sai de noite e até consegue atrair a atenção de um gatinho ou outro (afinal a preguiça tem lá o seu charme), às vezes chega a dar um beijinho, quando muito uma rapidinha no banheiro. Mas quando ela se apresenta como Preguiça o papo sempre envereda pra algo tipo “pois é, sabe, eu tô aqui com um amigo e não posso deixar ele sozinho. Ou então “putz, esqueci de deixar comida pro cachorro em casa”. Ou até um “não, é que eu sou gay”, por parte dos mais desesperados. Particularmente se começa a aparecer gente conhecida em volta. Porque com essa história de pecados capitais ninguém hoje em dia teria coragem de admitir que namora a Preguiça. Não em público.
Resumindo, faz uns vinte séculos que ninguém liga pra Preguiça no dia seguinte. E isso não se faz com ninguém.
E se estamos falando da Preguiça, não é porque achemos que ela seja a única injustiçada da lista. De vez em quando trocamos uma idéia com a Gula e com a Luxúria também, e achamos elas umas gurias superlegais. Mas essas já tem lá os seus defensores pra fazer o seu marketing: a Gula tem o McDonald’s pra dar uma força, e a indústria pornográfica nunca deixa a Luxúria na mão. Mas a Preguiça, agora que o Jorge Amado morreu e o Dorival Caymmi não sai da rede há uns cinco anos, ficou sem ninguém pra defendê-la. E a gente gostaria de poder fazê-lo, mas ninguém escreve o que a gente lê nem ouve o que a gente diz. Então a gente achou que a única coisa cabível era pedir ajuda pro senhor. Ou pro Senhor, mas a gente não tinha o endereço desse aí, então resolveu tentar o senhor primeiro.
Assim, Sr. Papa, gostaríamos muito que você pensasse com carinho na situação da Preguiça. Não sabemos como funcionam esses assuntos internos de vocês, mas supomos que o senhor deva pelo menos conhecer um que outro cardeal na comissão de pecados capitais que lhe deva algum favor. Então confiamos que o senhor possa fazer alguma coisa pra livrar a cara da nossa amiga. E pode ter certeza, se nos ajudar, que se um dia o senhor for colocado na lista de pecados capitais, ou em alguma comunidade do Orkut que fale mal do senhor, a gente vai tentar ajudá-lo também.
Um grande abraço, agradecidos pela atenção,

Olavo Amaral e abaixo-assinados
Porto Alegre, RS
Brasil

sábado, fevereiro 10, 2007

pequenos esclarecimentos a respeito dos anos oitenta


(especificamente destinados a esse pessoal por volta dos 30 anos)
a) não, os anos oitenta não foram os mais loucos e selvagens da história da humanidade. Você é que era jovem naquela época.
b) sim, existiu música que presta no mundo depois dos anos oitenta. E você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando, mas isso não me importa nem um pouco.
c) jogar atari não tinha lá muita graça.
d) os desenhos animados e seriados de tevê de hoje em dia são infinitamente melhores do que o que quer que passasse no final da tarde daquela época. Isso que eu nem vejo tevê.
e eu poderia continuar pra sempre, mas na verdade só o que eu queria dizer é que chega de nostalgia por essa década idiota! O que se passa com essas pessoas? Será que ninguém consegue criar significantes depois dos quinze anos?
mas se essa humilde reclamação não conseguir mudar o mundo e fazer as pessoas verem que existe alguma emoção do mundo depois da adolescência, vou partir pro plano B, e lançar ao mesmo tempo um almanaque dos anos 90, uma festa thrash anos 90 que toque aquele som dance argentino bagaceiro de FM (...no te preocupes mááás... o no... mantienga el movimiento...), uma edição comemorativa de quinze anos do megadrive, uma banda cover do Oasis e um brechó de camisetinha xadrez amarrada na cintura. Fazendo as contas, o pessoal que era adolescente nessa época andou se formando nos últimos dois ou três anos, e os primeiros otários dessa geração a adquirirem poder aquisitivo já devem estar nas ruas. O filão de mercado lateja. É só cravar os dentes.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

cadernos de literatura brasileira, vol. 3478


apareceu a nova literatura. Depois de uns vários anos de críticos chatos dizendo que "pois é, a internet ajudou a veicular os escritos de muita gente, mas ainda não criou nenhuma forma literária nova de fato, etcétera e tal", eis que surge... o conto-comunidade-do-orkut-vindo-do- inferno. Sério, se vocês usam o dito cujo, chequem out as pérolas desse maluco. Verdade que uns noventa por cento das seiscentas e tantas são irritantemente idiotas, mas os dez por cento que sobram (tipo essa, essa, essa, ou ainda essa) valem a viagem. E não há quem possa dizer que não seja obviamente literatura.
mas o mais louco de tudo é que não há nenhum troço desses que não tenha pelo menos uns 500 membros que, pasmem, discutem a respeito do que foi escrito. Ou seja, pelo menos em termos de divulgação pessoal, esse cara é um gênio maior. Provavelmente nesse exato momento (quarta-feira de noite às 23h20) tem mais gente discutindo a obra dele do que a de Machado de Assis. E o pior é que é sério. No fim das contas, não sei o que diabos eu ainda tô fazendo no blogger. Menos ainda o que eu tô fazendo no word. E eu não vou nem entrar no mérito do papel.