domingo, fevereiro 24, 2008

cinco minutos depois


(isso foi originalmente um e-mail mandado pra alguns seletos há quatro anos. Não sou muito de postar textos antigos. Mas achei que talvez servisse de contraponto pro texto acima)

talvez já ande tarde pra comentar acontecimentos do início da semana passada. Por outro lado, talvez falar das coisas com atraso nunca tenha sido tão chique. O Grammy passou na segunda-feira pra algum número irrelevante de milhões ou bilhões de telespectadores com cinco minutos de atraso em relação ao espetáculo em si, num regime de quase ao vivo. Parece que o velho Oscar pensa em fazer o mesmo. Tudo isso, aparentemente, por causa do seio quase à mostra de Janet Jackson que escandalizou um país inteiro (e um universo à parte) durante o show de intervalo do Superbowl XXXqualquer coisa. Um dia depois, “Janet Jackson” era a palavra mais procurada no Google, abrindo links para milhares de sites de pornografia, e a CBS contava as reclamações em centenas de milhares. Isso que tinha um negócio prateado na frente do mamilo. Parece piada, mas é sério.

e a partir daí se geraram mais milhares de linhas de texto comentando o grau em que chegou o moralismo besta nos Estados Unidos. Tantas, aliás, que acho que não vale a pena entrar no mérito, porque seria como chutar um cadáver. Fácil, sem risco, e completamente inútil, porque o alvo é forte demais pra sentir coisa alguma. Não que deixe de ser completamente apavorante saber que o atraso de cinco minutos nas transmissões ao vivo coexiste com o maior arsenal atômico do planeta. Parando pra pensar, eles poderiam destruir o mundo em quatro minutos e ninguém nem ia ficar sabendo, porque daria tempo pra editar tudo. Mas isso tudo já foi dito, e se alguém duvidar da dimensão da coisa que entre num site de “organizações de valores tradicionais” na internet. Eu, particularmente, tenho mais a fazer.

mas parece haver um outro aspecto da coisa que talvez tenha passado desapercebido em meio ao absurdo da situação. Porque deixando de lado o incidente inicial, e a discussão a respeito do grau de escândalo que um quase-seio pode causar, o fato é que o resultado é o cancelamento de transmissões ao vivo pela simples razão de que alguma coisa pode acontecer. O que, de fato, faz qualquer um tremer de medo: como os americanos parecem ter acabado de descobrir, numa cerimônia de auditório dessas cheias de celebridades qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. Imaginem os possíveis riscos. Palavrões, arrotos, ofensas ao presidente, beliscões em partes íntimas. Até sexo, talvez. Parando pra pensar, é absurdo que alguém possa conviver com tal ameaça. Se querem saber a minha opinião, deviam simplesmente cancelar de vez todas as transmissões ao vivo. E tirar a TV da tomada, por via das dúvidas, porque sempre pode acontecer de alguém sentar no controle remoto.

mas isso não é nada ainda. Pior vai ser quando se derem conta de que um absurdo muito maior é que o mundo também acontece ao vivo. E se a gente não consegue nem sequer assistir o Oscar ao vivo, como raios vai poder sair na rua, sabendo que a qualquer momento qualquer coisa pode acontecer? Como deixar que nossas crianças vivam num mundo onde alguém pode tirar a roupa a qualquer minuto. Ou ter um ataque epiléptico. Ou atirar em cinco pessoas e depois se suicidar. Ou jogar um avião em cima de um prédio. Ou falar palavras obscenas. Ou mostrar um seio. Ou quase. Não dá. Não dá, não dá e não dá. E uma vez que se derem conta disso, é só questão de tempo até que as autoridades instituam que o mundo aconteça com um atraso obrigatório de cinco minutos. Porque é o único jeito de salvar a América.

alguém devia passar uma lei obrigando todo americano a vir pro Brasil em algum ponto da vida. As vantagens seriam inúmeras. Seria uma maravilha pra nossa indústria do turismo. Ia fornecer os nossos aeroportos com a maior coleção de impressões digitais do mundo. E ia instalar um pouco de maldade naquele bando de cabeças supostamente tão puras que têm medo dos seios da Janet Jackson. E a questão não é assistir à mulata Globeleza, e sim forçá-los a sair do hotel e caminhar no Rio de Janeiro, nem que seja em uma Copacabana já tomada de estrangeiros, e enxergar a pirâmide social brasileira inteira, os corpos malhados se expondo em busca de sexo, os ambulantes empurrando carrinhos de 5 bolas de sorvete a um real, os turistas com as prostitutas de todas as idades, o assalto ocasional, o mar verde quebrando em cima da praia e a ex-favela e atual comunidade do Cantagalo pendendo por cima dos hotéis de luxo.

e que fique bem claro que a idéia não é chocar ninguém. E nem querer impressioná-los com a violência da nossa realidade. É simplesmente fazer enxergar que a violência existe. E ponto. Até porque no fim das contas talvez não seja tão mais violento viver com as armas do tráfico apontadas contra a cabeça do que viver num confortável subúrbio no meio-oeste americano. A nossa violência é apenas um pouco mais próxima, um pouco mais escarrada, mas a verdade é que existir é intensamente violento em qualquer circunstância. Estar vivo em qualquer lugar do mundo é estar sujeito ao sol, à paixão, ao câncer, aos acidentes, aos fetiches, aos filhos mortos, à tentação. E ao destino, que aliás acaba não variando nunca. E a impossibilidade de ver o pôr-do-sol em Ipanema sem enxergar as luzes do Vidigal é apenas dar-se conta do irremediável. De que em algum lugar existe a maldade, o sofrimento, a pobreza, a luta, a morte. E que pelo menos a última acaba nos alcançando. E é claro que a gente se queixa de viver aqui, e tem todo o direito de se queixar. Mas no meio do caos, sintamo-nos ao menos um pouco privilegiados por poder saber que ele existe simplesmente saindo na rua. Até porque se a gente dependesse da TV, nesses tempos de cinco minutos de atraso, ia ser bem complicado.

pior que isso talvez seja saber que a história define seu curso num lugar onde pra um monte de gente o contato mais radical (e quase insuportável, pra alguns) com o resto do universo acontece no intervalo do Superbowl. E as coisas começam a ficar realmente estranhas quando se enxerga o mundo em 29 polegadas. Talvez porque enquanto as coisas continuarem acontecendo só pela TV, cai arranha-céu ali, morre soldado ali, toda essa bobagem que entra pela antena acaba se misturando e se esquecendo, e o título de Portador do Mal Supremo passa de Osama Bin Laden ao Grande Seio Semidesnudo quase sem se notar, conforme o que aparece no vídeo no momento. E entre uma bobagem e outra se decide o destino do mundo, e a gente a alguns milhares de quilômetros pouco pode fazer. Exceto assistir, e pensar que às vezes um pouco de maldade deve lhes fazer falta. Quem sabe se a gente exportasse o Comando Vermelho? Com cinco minutos de atraso, talvez eles não se importem em aceitar...

(escrito numa madrugada há quatro anos atrás, logo após voltar do Rio de Janeiro)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

karlovy láznĕ















a globalização nada teme. Ela bebeu demais pra isso. A globalização avança bêbada e socializa com facilidade, abarcando brancos e pretos e amarelos dançando sob o mesmo teto, contanto que seja sob a mesma música de FM de meados dos anos 90. A globalização não se preocupa com muita coisa: ela tem uma bolsa do programa Erasmus e não tem os pais conferindo que horas ela volta pra casa. A globalização ganha território rápido, muito rápido, e não encontra resistência – com exceção do eventual tcheco desdentado de olhos esbugalhados que nos xinga com ar ameaçador num bar fuleiro por falar inglês e rapidamente é expulso pela garçonete e descartado como psicótico, muito provavelmente com justiça. A globalização instala puteiros, irish pubs, restaurantes italianos ruins e lojas de souvenirs por todos os cantos, independentemente da localização geográfica. A globalização bebe cerveja e drinques metidos a besta em quantidades industriais e isso assegura a sua harmonia, porque nivelar o comportamento por baixo sempre funciona. A globalização, se eventualmente provoca surpresas bizarras a nível individual, é absolutamente previsível em relação ao seu comportamento de grupo, provavelmente por alguma questão de cálculo vetorial que sempre normaliza a resultante.

a globalização é um consenso, uma herança cultural coletiva entranhada nas tripas que reverberam canções fora de moda de nomes como Snap, Ace of Base ou Haddaway, justamente esquecidos até que as festas thrash anos 90 comecem a pulular na discoteca mais próxima da sua casa. As quais teriam shows dos Mamonas Assassinas em suas edições de aniversário se não fosse a intervenção da Serra da Cantareira. E hoje em dia a globalização ouve hip hop e simula sexo em pistas de dança pra exorcizar sua própria frustração sexual, e pra aproveitar o loophole na estrutura do politicamente correto que permite que ser machista, ganancioso e andar armado seja cool e fashion, contanto que num contexto de música afro-americana. A globalização se entende bem demais, num frenesi bêbado mas profundamente subjetivado de exibicionismo e sexo casual. E em nenhum momento a globalização se questiona, se controverte, entra em conflito consigo mesma ou com o outro, posto que não há um outro. E isso é o que me assusta. Francamente, nada a favor do conflito palestino, da guerra civil no Quênia ou de seus congêneres. Mas um mundo onde qualquer um se sinta em casa onde quer que seja tem o seu quê de perturbante.

a globalização é uma discoteca de cinco andares em Praga varada por multidões suadas por todas as partes do mundo que correm atrás de sexo e cerveja barata. E bizarramente, a única relíquia da primeira vez que eu estive aqui há quase oito anos atrás é esse computador no porão rodando o Windows 98, talvez o mesmo no qual uma vez eu me sentei pra escrever um e-mail fascinado e perplexo com o futuro que chegava. E talvez eu ande mais pessimista do que da última vez, ou simplesmente esteja meio bêbado pra raciocinar direitinho. Em todo caso, se disserem pra você que o ser humano finalmente começou a entender os outros, se pergunte duas, três, quatro vezes se isso não tem nada de suspeito. Mais provavelmente ele simplesmente deixou de encontrar o outro pelo caminho, já que não há mais estrangeiros que não falem a sua língua. E isso pode ter lá suas vantagens. Mas pode também ser bem mais perigoso do que a hipótese alternativa.

(16/2/08, karlovy láznĕ, praha, subsolo, lá pelas 3 da manhã)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

marmotas, essas putas

cientistas da flórida acabam de descobrir a verdade sobre as marmotas da pradaria, uns roedores falcatruas que posavam de bons moços por formarem casaizinhos pela vida inteira (e não só já foram citados por esse blog como eram usados como exemplos morais pela abjeta raça dos abstinencistas, que entre outras coisas regem a política de planejamento familiar da terra dos Klingons lá da América do Norte).
enfim, a nature acaba de noticiar que aparentemente alguém resolveu fazer uns testes de paternidade nas pequenas marmotinhas. E, voilà, parece que as cercas da pradaria não eram assim tão altas.

domingo, fevereiro 10, 2008

a al qaeda chega à prateleira de frios da geladeira


eu sei que eu já fiz essa piada antes, mas a minha compulsão por trocadilhos poliglotas é mais forte do que eu

sábado, fevereiro 02, 2008

divertimentos para uma manhã de sábado (xxi): criacionistas brincando de ciência


tentando a todos os custos suprimir as risadas (mas não conseguindo), dou-lhes às boas vindas ao Answers in Genesis Research Journal, a "publicação profissional, técnica e revisada pelos pares para a publicação de dados científicos interdisciplinares e outras pesquisas relevantes a partir da perspectiva da Criação recente do Mundo e do Dilúvio universal dentro de um modelo bíblico."
e como me disse o porteiro que me barrou no trem-fantasma esses dias: "no, no es una broma". A descrição da publicação no site é exatamente esta. E os artigos até agora (menos mal que são só três, por enquanto, sendo um do editor da revista) são destinados a questões de vital importância, tais como:
a) debater o papel dos micróbios como parte da "criação perfeita de Deus", trazendo hipóteses, por exemplo, de como o papel patogênico dos mesmos pode ter evoluído a partir de funções originalmente fofinhas após a Queda do Homem do paraíso.
b) debater a questão vital e controversa de quando foram criadas as bactérias, as quais, pobrezinhas, não são mencionadas no livro do Gênesis. Teriam sido no terceiro dia, junto com as plantas? Ou aos poucos, junto com os organismos que elas habitam? (eu, pelo menos, tenho perdido horas de sono pensando nisso todas as noites depois de ter lido isso)
c) providenciar evidência geológica de que o mundo realmente só tem alguns milhares de anos de história através do estudo duns pedaços de granito.
mas mais divertido do que isso é ler as "instruções para autores", que colocam entre os critérios para seleção dos artigos:
"o artigo é relevante para o desenvolvimento do modelo da Criação e Dilúvio?"
"o artigo é formulado dentro de um modelo de um universo jovem?"
"o artigo é fiel à interpretação gramática-histórica/normativa da Bíblia?"
tipo assim, se eles estão certos que a verdade está na Bíblia, e o pré-requisito pra publicação é que os achados do trabalho confirmem à verdade tal como está escrita na Bíblia, por que eles não param com esse teatrinho ridículo de fazer ciência, já que eles já sabem o que vão encontrar antes de começar a pesquisar mesmo, e não vão fazer melhor uso do próprio tempo? Será que a vida sexual dos cristãos ortodoxo-criacionistas é realmente tão sem graça quanto o papa faz parecer?
tem várias outras coisas divertidas, tipo o "manual de estilo" (i.e. "utilize letra maiúscula para "Flood" quando referindo-se ao Dilúvio de Noé, mas minúscula para outros usos da palavra; use maiúscula em pronomes se referindo a Deus, e assim por diante). Mas se eu fosse mencionar tudo eu estaria desestimulando a experiência impagável de dar um rolê pelo site da revista. Take a look.

terça-feira, janeiro 29, 2008

vencendo a batalha dos gus




















(ranking do público, Film Festival Rotterdam, 28/01/08. Atentem pros números 14 e 15. Pelo menos por enquanto, um a zero pra nóis)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

o meio


"Diria, sem muito rodeio
No princípio era o meio
E o meio era bom" (Luiz Tatit)

como poucas temporadas alhures, talvez como nenhuma antes, essa definitivamente começa no meio. Já faz mais de mês que eu estou aqui, e estranhamente em nenhum momento pareceu o começo de nada. Certamente não parece o fim de coisa nenhuma tampouco. Só o meio.
não sei porque essa impressão é tão presente. Mas é fato que todos os dias acordo com a impressão de que a seta do tempo tirou férias. Vá lá, talvez isso tenha a ver com o fato de eu estar um pouco de férias, pelo menos de horário formal. E na ausência de rotina tudo acaba virando um pouco um contínuo. A semana e o fim-de-semana. O trabalho e o lazer. A paz e o tédio. Até o amor e o desejo. Como em poucas vezes na vida, as divisões são pouco claras, e aquela história de dividir a luz e da escuridão e fazer-se o verbo parece só um papinho pretensioso. E eu me sinto o tempo todo no meio de alguma coisa que não começa, não termina, e não se dirige muito claramente pra lugar nenhum.
eu ando me sentindo tri bem, aliás.
estranho, talvez. Porque vá lá, “falta de direção” nunca foi um dos meus valores preferidos. Pelo contrário, se eu for ler tudo que é bobagem que tem escrita nos meus documentos da vida (nunca faria isso de verdade, seria um porre), aquele monte de palavras são sempre permeados de uma constante sensação de “estar por vir”. De estar indo em direção a alguma coisa, de estar prestes a conseguir alcançar a compreensão de algo, de estar na soleira da porta, de se enxergar sempre mais como potencial do que como presença, de enxergar o futuro sempre maior do que o presente.
a grosso modo, isso tudo parece andar meio sumido.
vai ver eu cheguei em algum lugar.
onde? Sei lá. Em todo caso, talvez valha a pena comparar com as minhas expectativas de uns tempos atrás. Eu sempre tive a impressão que o dia ia chegar em que eu ia me livrar de todos os compromissos e aí ia ter tempo pra (a) descobrir o segredo do universo, (b) escrever uma obra-prima, ou no mínimo (c) ler todos os livros que eu queria. Ou mais provavelmente (d) todas as anteriores.
bem, se a evidência empírica até agora significa alguma coisa, isso tudo era provavelmente uma grande bobagem. Faz um mês que eu tô aqui, e não descobri grande verdade nenhuma. A minha produção literária tem sido absolutamente exígua. A parte de ler tá indo um pouco melhor, vá lá, mas ainda assim acho que anda abaixo do esperado. Na verdade o que tem me acontecido é acordar tarde, ser tragado por bobagens e pendengas no computador, numa mistura caótica de trabalho e tempo perdido, e aí precisar ir no supermercado, ou arrumar a casa, ou alguma outra burocracia. E aí começa a ficar tarde e eu sinto que tenho que sair pra aproveitar o sol, já que ele se põe tri cedo. E aí quando eu volto eu já dispersei e tentar produzir algo mais elaborado fica meio difícil. E por aí vai. E eu sigo flutuando num meio, que não vai pra frente e certamente não volta atrás.
por outro lado eu tenho comido um monte de presunto cru, azeitonas recheadas com anchovas, pimentões em conserva e queijo camembert. Comprados no super, são baratos e bons pra caralho.
e o engraçado é ir descobrindo, devagar, que o meio não tem me feito tão mal assim. Há não muito tempo eu morria de medo do dia em que todas as turbulências de fins de noite de inverno iam desaguar num dia claro. Ou, como dizia um amigo meu, do dia em que a era de aquário ia chegar. Inclusive tentei sem sucesso escrever um roteiro comprido e engavetado (ainda bem) sobre esse medo uma vez. Vá lá, alguma coisa talvez se perca quando o meio chega. Tipo aquela sensação megalomaníaca orgulhosa de flecha que se move em direção a um futuro promissor e glorioso. Por outro lado, também se perde um pouco a incômoda presença da porta logo à frente, aquela sensação de que o futuro nunca chega porque sempre tem alguma coisa entre a gente e ele.
então não sei muito bem se o futuro chegou, ou se a porta se abriu. Mas pelo menos a sensação dela na minha frente tem se tornado bem menos nítida.
eu diria que talvez tenha chegado o meio.
e como dizia o Luiz Tatit, o meio não parece ruim. Fato consumado, não me sinto com nada de muito novo a dizer sobre o mundo. Mas provavelmente isso tem a ver com o fato da eloqüência quase sempre nascer da vontade de dizer, e a vontade de dizer quase sempre nascer da angústia, e da angústia quase sempre nascer daqueles incômodos cães do porão que rosnam no fundo do inconsciente. E que, ao menos por hora, têm se mantido plácidos e quietinhos no seu canto. Talvez apaziguados por uns pedaços de presunto cru.
por enquanto, eu não ando reclamando.
e se alguma angústia dá as caras de vez em quando, é só a percepção racional de que tamanha tranqüilidade não pode durar pra sempre. O conhecimento de que tudo é incrivelmente tênue, muito mais do que parece, e que em algum momento alguma coisa sempre acaba. Às vezes é o dinheiro, às vezes é o amor, às vezes é o tempo livre. E mesmo se em alguma conjunção astral contribui pra manter todo o vento a teu favor, em algum momento é um corpo que acaba por quebrar. Mas isso tudo parece uma angústia surpreendemente bem recalcada hoje em dia. Talvez porque percepções racionais, no fundo, nunca tenham tido muita importância pra ninguém mesmo.

e como eu andava pensando na rua esses dias (consciente do privilégio enorme de poder andar na rua pensando nesse tipo de coisa), talvez a grande demonstração de sanidade mental seja quando o “ter um filho” começa a substituir o “escrever um livro” na lista de coisas importantes a fazer antes de morrer (aquele troço de plantar árvore sempre achei uma puta bobagem, e na verdade vou deixar por último pra não sugerir pra ninguém lá em cima ou lá embaixo que já esteja na minha hora). Não que as alternativas sejam mutuamente excludentes, obviamente. Mas não deixam de ser estratégias meio opostas pra lidar com a existência. Uma delas é pegar a condição humana em toda a sua dor e falta de sentido e tentar extrair alguma beleza (ainda que por vezes terrível) disso pra tentar justificar a coisa toda. A outra é olhar a dor, a falta de sentido, o sol, o amor e o presunto cru, sem tentar transmutar nada. E tendo colocado tudo no liquidificador e provado a mistura, achar que ela é boa o suficiente pra merecer ser passada adiante, sem precisar de grandes justificativas. Por achar que a única moral, no fim das contas, é tentar fazer com que de algum jeito não termine.
e, sei lá, acho que quando esse tipo de coisa começa a passar pela minha cabeça é porque eu ando feliz. Ou porque eu ando ficando velho.
de um jeito ou de outro, que eu seja bem-vindo ao começo do meio.
(Barcelona, 14 a 18 de janeiro de 2008, escrito na cama e revisado em cima do gramado verde do Parc Joan Miró)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

conexões insuspeitas (xxi): o guarda-livros e o engenheiro agrônomo

não fosse a citação ao mestre lá no meio disso aqui, talvez tivesse passado batido, ao menos pra mim. Mas agora tudo me parece claro como a luz do dia. Michel Houellebecq e Bernardo Soares são a mesma pessoa. A mesma depressão melancólica. A mesma visão clarividente e desiludida do mundo. E a mesma lógica ferrenha de guarda-livros (ou engenheiro agrônomo), tão inquebrável e desprovida de ilusão que chega a ser míope de vez em quando. Aliás, por acaso alguém já viu os dois juntos numa mesma sala?

verdade que com o tempo (e a reencarnação), tio Bernardo parece ter perdido o pouquinho de capacidade de transcendência que ainda lhe restava quando o Esteves passava do outro lado da esq... (oops, isso foi o Álvaro de Campos). Mas certamente compensou ganhando vários pezinhos no mundo. Além de uma capacidade pra escrever cenas de sexo sanitizado e desinfetado de sentimento que teriam feito Ofelinha corar. A idade não lhe cai mal.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

como dizia Mick Jagger

deus dá nozes a quem não tem dentes
e dá dentes a quem não tem nozes
e dá fome a quem não tem nenhum
e dor de barriga a quem quiçá os tenha
resta a nós, na terra vazia
dar nozes a quem tem dentes
dar dentes a quem tem nozes
injeções de corticóide aos que tem alergia
e bandas gástricas aos donos das nozes
e quando a questão estiver resolvida
e as enxurradas de nozes varrerem a terra
manter a chama da fome acesa
e dar colo em longos dias de inverno
de barriga cheia ou não
árveres somos
amém

quarta-feira, janeiro 02, 2008

sabedoria involuntária (e alheia) em portunhol

Puedes contarme tus segredos. Soy todo olvidos.

quem são eles


finalmente achei alguém que fez o trabalho sujo de fazer um comentário sério sobre o estapafúrdio e desgovernado aglomerado de pseudociência do filme mais pavorosamente ruim que eu me lembro de ter visto na última década (e talvez na minha vida). Desde que assisti esse troço eu tenho sido acometido por ataques de perplexidade durante as minhas noites insones, nas quais me pergunto incessantemente como um punhado de gente que eu conheço (e que está longe de ser ignorante) possa ter levado a sério, gostado, e até mesmo recomendado uma coisa dessas.
ah, e apesar das três partes da análise linkada acima serem convincentes o bastante no sentido de apontarem os desméritos científicos do filme, me parece que elas ainda deixam a desejar por não ressaltarem suficientemente a dolorosa ruindade cinematográfica da parte ficcional do filme. Infelizmente esta não pode ser tão facilmente descrita ou desconstruída por argumentos científicos. Mas aos que não assistiram, confiem na minha palavra: o filme é tão ruim que mesmo que tudo que ele diz fosse verdade, e que a gente conseguisse andar sobre a água com o poder do pensamento e coisas do gênero, eu acho que ainda assim ele continuaria sendo uma bosta.
em todo caso, coisas tamanhamente pavorosas são tão ruins que chegam a ser engraçadas. E eu mesmo confesso que volta e meia eu sou tentado por uma vontade imensa de assistir O Segredo. Nem que seja só pra ter assunto, ou pra ter alguma coisa pra falar mal. Mas ainda não criei coragem. Até porque depois desse Quem somos nós?, eu acho que o meu estômago precisa duns cinco anos pra se recuperar. E por enquanto não passou nem a metade desse tempo.

sábado, dezembro 29, 2007

evidência indireta em favor da última frase do post abaixo

atabalhoantes noventa por cento dos visitantes que entraram neste blog via google nos últimos dias têm passado por aqui atrás de "frases pra botar no perfil do orkut" ou variantes sobre este tema. Suponho que pra preencher o quesito "quem sou eu". É sério. Confiram a estatística aqui.

da série "grandes verdades sobre a existência feitas em casa" (# 28 - para uso em mesas de bar, formaturas e mensagens de fim de ano)

no fundo a vida é que nem um fliperama. Todo mundo tá jogando o tempo todo, mas o cara do teu lado nunca tá jogando o mesmo jogo que tu.
parece óbvio, mas tem um monte de gente que demora à beça pra se dar conta disso.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

ciência é dispensável, couro é fundamental


antes tarde do que nunca, gostaria de manifestar minhas saudações à câmara de vereadores de Florianópolis pelos imensos esforços para manter viva a milenar tradição gaúcha de fazer chacota com o QI médio dos habitantes da Ilha de Santa Catarina. Proibir a experimentação animal com uma lei municipal já é um ato risível por si só, por uma penca de razões expostas uns dois ou três posts abaixo deste. Fazê-lo com base num projeto de lei proposto por um empresário do ramo do couro (proprietário da nobre Indústria e Comércio Artefatos de Couro Deglaber Goulart, Ltda.) é ainda mais risível: suponho que a mensagem aí seja a de que "ciência é dispensável, mas coleira de cachorro feita de couro é fundamental pra civilização." Mas ouvir esse pessoal falando mentiras escabrosas e obviamente absurdas no ar praticamente não tem preço. Agora tiraram o arquivo de áudio com a entrevista do cara do site do clicrbs, mas eu cheguei a ouvir e era um troço tipo "Como não existe alternativa para o uso de animais? Nós temos dois computadores na universidade! (...) Noutros países, como os Estados Unidos, e até em alguns da Europa, isso já foi abolido há anos. Teremos que submeter os animais ao sofrimento, utilizando um modelo ultrapassado, da Idade Média?". Não sei se isso representa uma mentira deliberada ou um grau assustador de desinformação. Mas consegue ser engraçado das duas formas.
em todo caso, mesmo chegando tarde à discussão, gostaria de agradecer sinceramente aos vereadores de Floripa por essa singular maneira de divertir um cientista no exílio. Afinal, tais demonstrações raras de apreço pelos preconceitos da população dos estados vizinhos hão de permitir que o pessoal no Rio Grande do Sul continue tendo motivo pra rir à beça do vosso estado pro resto da vida. Espero que vocês continuem sempre assim, colocando o humor dos gaúchos em primeiro lugar em suas decisões. E espero também que a mania não pegue, e que alguém com um mínimo de bom senso lá em Brasília resolva cortar esse tipo de iniciativa estúpida rapidinho.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

não achei a madeleine, mas...


... o saldo da arrumação do porta-malas e interior do meu carro (Monza 95 GLS "Pol Pot", aquele que carrega não só um cadáver mas um genocídio inteiro no porta-malas) após dez anos de uso consiste no seguinte inventário:

- 1 página de roteiro de animação
- 1 guia de conversação em francês
- 1 comprovante de estacionamento do Grêmio
- 1 colar
- 10 CDs
- 3 tesourinhas de unhas fechadas na embalagem (esse é o item mais incompreensível de todos)
- 4 canetas
- 1 lanterna em miniatura
- 1 capa para iPod
- 1 pilha palito, possivelmente usada
- 1 estilete na embalagem
- 1 etiqueta de preço do lançamento do meu livro há dois anos atrás
- 2 fronhas de travesseiro mofadas
- 1 par de meias sujas
- 4 malas tipo sacola
- 1 sacola de roupas da minha namorada, contendo:
- 1 casaco
- 3 calças
- 3 blusinhas
- 2 calcinhas
- 1 par de meias
- 1 manta
- 1 blusão de lã meu
- 1 calça de origem desconhecida
- 12 exemplares do meu livro de contos
- 4 livros de outros autores
- 1 cola superbonder na embalagem
- 2 sacolas de papelão
- 2 sacolas plásticas
- 1 colchonete
- 1 exemplar da revista "Nome & Sobrenome"
- 2 seringas
- 1 componente de gaiola para roedores
- 1 HD externo não funcionante
- 1 lençol sujo
- 1 lençol novo, na embalagem
- 3 prendedores de roupa
- 2 tigelas plásticas
- 6 fitas VHS contendo filmagens de ratos epilépticos
- 1 exemplar encadernado de tese de doutorado
- 1 saco contendo rascunho da mesma tese
- 1 pacote de algodão
- 1 par de anteninhas de marciano de cor rosa
- 1 guarda-chuva
- 1 daruma
- 2 pares de chinelo
- 1 sundown fator 15
- 4 chaves
- 1 lápis ridículo de borracha
- 1 garrafa de água mineral com gás meio cheia, com canudinho
- 80 centavos em moedas
- Uns 50 laudos de ecografia abdominal
- Pelo menos um ano da história do mundo em jornais

em resumo, somando tudo, acho que vale bem mais do que uma pirralha inglesa seqüestrada.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

últimos dias de porto alegre

na real sempre achei essa coisa de postar clipes de música um ato ridículo de tietagem. Mas é um pouquinho como se o espírito do Tom Waits tivesse feito uma música sobre o meu último mês de vida e encarnado num corpinho mais desejável só pra cantar ela pra mim. Então eu simplesmente não tinha nada melhor pra dizer sobre esses dias de verão.

sexta-feira, novembro 30, 2007

terça-feira, novembro 27, 2007

frases para botar no perfil do orkut depois que uma bomba de nêutrons tiver varrido todos os gerentes de RH da superfície do planeta (i)

até uns tempos atrás volta e meia alguém batia na porta desse blog digitando a pergunta "frases para botar no orkut" no google. Suspeito que esse pessoal procure algo pra responder àquela incômoda perguntinha "quem sou eu?" que fica do lado da fotinho. Bem, amigos adolescentes, se vocês querem respostas prontas, aqui vai a minha sugestão do dia, para o delírio dos setores de recursos humanos de todo o mundo...
"Já exerci quase todos os misteres deste mundo, desde o de deputado até o de cáften profissional, mas ainda me falta encontrar aquele que assente como uma luva ao meu temperamento profundamente humano e que talvez ainda esteja por inventar: algo assim como o de um descobridor de terras e de mares que não fosse obrigado a sair da cama, já que o ócio me parece ser a primeira das virtudes teologais." (Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia)

sexta-feira, novembro 23, 2007

considerações sobre o almoço de fim de ano da empresa em que você trabalha


o ímpeto infantil de brincar é um dos grandes mistérios do mundo. Como é que um troço que faz com que uma criança gaste milhares de quilocalorias correndo dum lado pro outro, se perca, se suje, suma da vista dos pais, coma terra, minhocas, tênias, caia tombos, esfole os joelhos e bata a cabeça em quinas de mesa a cada meia hora (e isso tudo num ambiente zilhões de vezes mais protegido do que aquele em que a nossa espécie evoluiu originalmente), pode ter sido selecionado tão fortemente na evolução a ponto de estar invariavelmente presente em qualquer criança (pra não falar em cachorros, leões, golfinhos e mamíferos evoluídos em geral). E sentado na mesa do almoço enquanto os pirralhos sobem em cima dela, fico pensando que se a idéia é a de que a vontade de brincar faz com que a criança explore o mundo e por isso fique mais inteligente, o troço há de realmente funcionar. Caso contrário não justificava tanto tombo.
enfim, era só pra dizer que no fim das contas não é de se estranhar que as pessoas emburreçam tanto quando param de brincar. E os que conseguem envelhecer sem perder o jeito da coisa sejam os gênios de verdade. Longa vida ao homo ludens.

mais divulgação com amplo conflito de interesse


e era isso, na verdade. A primeira vez que eu assisti foi num porão do Julinho, e foi absolutamente claustrofóbico. Depois vi numa noite escura e fria no teatrinho minúsculo do Museu do Trabalho, com uns barulhos angustiantes e um espaço um pouquinho maior, mas não muito. Agora tá no Câmara. Assistam logo antes que chegue no Sesi ou no Madison Square Garden, porque é o tipo da coisa que funciona bem melhor em lugares pequenos e hostis.

segunda-feira, novembro 19, 2007

comentários derradeiros sobre homens e ratos


bom, depois de ter deixado um comentário verdadeiramente puto nesse blog, e de através de e-mails e cartinhas ter dado minha contribuição pro circo das cobaias pegar fogo (às vezes demais), resolvi que talvez fosse melhor me acalmar um pouco e, nem que seja só dessa vez, escrever que nem adulto pra tentar expressar um ponto de vista racional a respeito de experimentação animal. Acho que assim talvez a gente possa levar adiante um debate menos passional e mais passível de resolver pela razão. Então aí vai a minha melhor tentativa.

em primeiro lugar: sim, o sacrifício de animais de outras espécies, contra a vontade dos mesmos, em benefício da nossa própria é cruel. Isso é óbvio, e acho difícil que mesmo o mais ardoroso defensor da experimentação animal conseguisse negá-lo.

o problema todo, no entanto, é que não é só o uso de cobaias que é cruel. A natureza, ao contrário do ideário romântico de algumas pessoas, é extremamente cruel. A condição humana, de nascer, envelhecer, morrer e apodrecer é igualmente cruel. E se a gente explora os ratos em nosso benefício é em larga parte pra evitar que as bactérias, vírus, parasitas e células tumorais explorem os nossos corpos em benefício deles. Então sim, sacrificar cobaias é uma crueldade, mas é uma crueldade racionalmente escolhida e assumida pra evitar outras formas de crueldade que nos atingem mais diretamente.

em segundo lugar: concedo que a decisão por esta forma de crueldade em detrimento das outras é inargumentavelmente arbitrária. E que o ponto de vista oposto, de que o sofrimento de um indivíduo, não importa de que espécie, seja equivalente, e portanto não se justifica sacrificar milhões de ratos pra tentar prolongar as nossas próprias vidas em alguns anos é igualmente válido. E sou da opinião de que a discussão entre um e outro ponto de vista é inútil, posto que são duas posições eticamente concebíveis que dependem de valores pessoais que cada um, e apenas cada um, pode determinar para si. Então não existe argumentação lógica possível que possa resolver essa questão.

apesar disso, no entanto, me parece que existe uma diferença muito grande entre as pessoas que defendem cada um desses pontos de vista, que é a coerência dos atos de cada lado em relação à posição assumida. As pessoas que defendem a experimentação animal geralmente encaram tal fato como um mal necessário, e esforçam-se para conviver com a crueldade inflingida aos animais ao saber que essa se converte na diminuição do sofrimento humano. Isso me parece uma escolha consciente e uma postura racionalmente assumida. Já aqueles que defendem a abolição da experimentação animal, por uma questão de coerência, deveriam por definição:

a) estarem dispostos eles mesmos a servirem de cobaias para quaisquer novos tratamentos médicos, farmacológicos ou de outra natureza, mesmo sabendo que os riscos de consumir um produto químico nunca antes testado num organismo vivo, no estado atual da ciência, são grosseiramente semelhantes aos de consumir um dejeto industrial qualquer, o que certamente implica no sacrifício de milhares de seres humanos.

ou

b) estarem dispostos a abdicar completamente da medicina moderna como um todo, já que ela não surgirá de um passe de mágica, um programa de computador ou uma revelação divina se não se puder experimentar e testar hipóteses e terapêuticas novas.

não surpreendentemente, apesar de inúmeros e ruidosos protestos em favor dos ratos de laboratório, sinceramente não conheço ninguém que de fato assuma os riscos acima em nome dos animais, que me parecem os requisitos mínimos para que essas pessoas sejam coerentes com o seu discurso. Pelo contrário, a grande maioria dessas pessoas sai tomando comprimidos pra menor dor de cabeça que surja. E tenho razoável certeza (e fico feliz com isso, porque me parece indicar um certo grau do que eu ao menos chamo de "humanidade") que pouquíssimos abolicionistas (ou quiçá nenhum) deixariam um filho seu morrer de uma leucemia facilmente curável "porque a quimioterapia foi testada em animais".

então me parece que esse lado da discussão atua só da boca pra fora. Seja por ingenuidade, desinformação, hipocrisia, pra eximir-se de culpa ou simplesmente pra aparecer, a quase totalidade das pessoas que defendem a abolição da experimentação animal reproduz um discurso que é absolutamente incoerente com seus atos. Então no fim das contas a idéia que fica é que sim, a discussão moral a respeito do tema é insolúvel. Mas que a humanidade em peso - incluindo aí os defensores da experimentação animal, os críticos da mesma idéia e a grande massa silenciosa entre os dois - já fez uma escolha moral ativa em prol do uso de animais em pesquisa e reitera essa escolha todos os dias através de seus atos. E tentar argumentar que não devesse ser assim, quando ninguém parece disposto a assumir as conseqüências, me parece simplesmente jogar conversa fora.

talvez por isso nós cientistas pareçamos tão irritados de vez em quando com o discurso "pró-animais". Não é que ele não nos pareça válido. É simplesmente porque ninguém está disposto a sustentá-lo na prática. Discutir questões deste porte significa arcar com as conseqüências do que se defende, e só parece haver um lado da discussão que parece ser capaz disso. O resto é conversa fiada. Que, se não for devidamente identificada e denunciada como tal, pode colocar em risco a vidae o bem-estar de um monte de gente.

era isso, espero que eu tenha sido claro. E estou aberto a discussão, como vários outros. Contanto que ela seja sustentada por posturas coerentes, e não apenas por palavras vazias.

segunda-feira, novembro 12, 2007

comam arroz e banhem-se no ganges, mas deixem o resto da humanidade em paz!


(o coelhinho vai bem, já a criança...)
eu achei que a situação era complicada quando li que o prefeito César Maia tinha sancionado uma lei que efetivamente proibia a experimentação animal no estado do Rio de Janeiro (meio por engano, é verdade, mas isso não nega o fato de que o cara que tá segurando o coelhinho redigiu aquele texto com essa intenção). Mas o debate que tem se seguido mostra que a situação é, pelo menos em alguns casos, muito mais escabrosa do que parecia a princípio. Com todo o respeito às pessoas razoáveis e coerentes que defendem os direitos dos animais e a regulamentação da pesquisa em cobaias (que não são poucas, aliás), o grau de ignorância e obscurantismo de boa parte dessa gente é chocante.
abaixo segue um ponto de vista (reproduzido com orgulho, diga-se de passagem, no site do democratas - vulgo o pêefeéle com vergonha do próprio nome - partido da anta que criou o tal projeto de lei) publicado no jornal mais importante do país por uma professora universitária. O descalabro é tamanho que eu fiz questão de comentar frase a frase. E estimulo todo mundo que se encontra igualmente perplexo a escrever pro tal deputado ou pra autora do estrupício reproduzido abaixo pra xingar, discordar educadamente ou contar alguns fatos básicos sobre a saúde no século XX que a maioria das pessoas aprendeu na quinta série. Ou ainda a escrever protestando pra reitoria da UFSC , que afinal é quem paga essa pessoa (com o nosso dinheiro, aliás) pra falar essas bobagens.
anyway, a situação só não é tão escabrosa porque eu tenho a convicção que esses radicais são a absoluta minoria, mesmo entre quem se preocupa com os direitos dos animais. O problema é que, como todo fanático, eles são muito mais vocais do que os moderados. Então façamos algum barulho. Ou pelo menos aproveitemos que o debate está aberto pra responder a altura. Se essas pessoas querem se curar com arroz e banhos no Rio Ganges, que o façam (ainda que aposto sem medo que a maioria delas preferirá a quimioterapia quando o problema for com elas). Mas que deixem o resto da humanidade em paz. A maioria já decidiu e segue decidindo (ainda que silenciosamente) em favor da experimentação animal, por uma decisão de colocar as pessoas em primeiro lugar. E não tem nada de errado nisso, é apenas o jeito da maioria ver o mundo. Então, queridos fanáticos, se quiserem "fazer a sua parte" não usufruindo da ciência e recusando-se a utilizar a medicina moderna, go ahead. Mas deixem o resto da humanidade em paz pra se governar como bem entender.
anyway, lá vai o descalabro inteiro:

"AS INVESTIGAÇÕES científicas mais relevantes para a preservação da saúde e da vida humanas resultaram de estudos feitos com base na clínica, na observação e no mapeamento das doenças que mais incidem sobre a população humana ou de estudos voltados para a prevenção das doenças, não exclusivamente para o combate de seus sintomas.
(OK, a afirmativa que “a prevenção é mais importante do que o combate dos sintomas” pode até estar certa. Só que esquece que (a) estudos animais são obviamente importantes pra estratégias de prevenção primária e secundária (vide estudos de vacinas ou métodos diagnósticos) e (b) a oposição “prevenção vs. combate dos sintomas” é completamente esdrúxula. A importância de prevenir não diminui em nada a importância de saber remediar ou controlar os sintomas com a doença instalada. Não há nada de errado agir exclusivamente no combate dos sintomas quando o resto falha. Negar isso seria recusar analgésico pra paciente com câncer terminal, o que é uma idéia completamente sádica e vil)
"As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicos, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies."
(sim, e os estudos clínicos se baseiam no quê, querida? Como essa pessoa acha que as pessoas desenvolvem não só as drogas a serem testada, mas toda a base de conhecimento de fisiologia, genética, bioquímica e patologia que permite construir modelos teóricos pra interpretar as observações clínicas de maneira que elas sirvam pra alguma coisa?)
Via de regra, estudos baseados no modelo animal vivo (vivissecção) servem apenas para desenvolver a habilidade dos cientistas na construção de modelos que terão de ser, mais tarde, redesenhados para a aplicação em estudos destinados à investigação de possíveis terapêuticas para doenças humanas.
(pra começar, não entendi lhufas dessa frase mal escrita. Mas me parece que jogar esse “desenvolver a habilidade” ali no meio parece uma tentativa de sugerir, falsamente, que os cientistas usam animais pra “treinar habilidades”, o que é absolutamente falso. Eles os usam pra construir conhecimento. Aliás, o próprio uso do termo “vivissecção” pelos “abolicionistas” da experimentação animal pra denominar experimentação animal é um erro de utilização da palavra (que a rigor significa “o ato de examinar internamente um ser enquanto ele ainda está propriamente vivo”, o que é o destino de uma porcentagem ínfima de cobaias sacrificadas no mundo – eu chutaria menos de 1%), que me parece querer evocar cientistas mutilando animais e confundir a questão (válida, a meu ver, pelo menos como debate) da necessidade da vivissecção para o ensino com a questão (completamente descabida, a meu ver) da necessidade da experimentação animal para a pesquisa científica e para a saúde humana)
Após todo esse esforço, as drogas não funcionam como prometido. Muitas delas são retiradas do mercado após constatada sua letalidade para humanos
(esse argumento é completamente idiota. A lógica aqui é (a) “a ciência utiliza animais”. (b) “a ciência tem fracassos e produz drogas que tem que ser retiradas do mercado”. Logo (c) “a culpa é da experimentação animal. Excuse me, qual é o sentido que isso faz? Pense um pouquinho, meu doce. Se a ciência já erra e produz drogas inefetivas e perigosas usando milhares de cobaias, imagine o cenário dantesco que se produziria se ela testasse elas direto em gente).
A ciência usa o dinheiro e investe o tempo de seus operadores se perdendo nos labirintos da vivissecção. Seu investimento nesse único método de pesquisa é diretamente proporcional ao seu fracasso em responder satisfatoriamente às questões às quais se propõe responder com a investigação.
(mesma lógica, mesma bobagem)
Enquanto gerações e gerações de jovens cientistas são transformadas em vivisseccionistas sob a imposição hegemônica de uma ideologia claramente fracassada, outras tantas gerações de jovens, bebês e adultos morrem a cada ano daquelas mesmas doenças que o cientista há mais de cinco ou seis décadas promete curar ao buscar em organismos de ratos e camundongos a resposta para males que afetam cada vez mais devastadoramente organismos de indivíduos humanos.
(de novo o mesmo argumento: (a)“a ciência tem fracassos”, logo (b) “ela não funciona e a culpa da experimentação animal”. De novo, se depois de décadas de pesquisa as pessoas continuam morrendo das mesmas doenças – ainda que geralmente menos – isso só quer dizer que a gente precisa do máximo de ferramentas possíveis)
A ciência vivisseccionista não tem feito nenhum progresso na busca da cura dos grandes males que produzem as doenças crônicas, dolorosas e letais mais comuns em organismos humanos: câncer, acidentes vasculares, diabetes, hipertensão, mal de Alzheimer, mal de Parkinson. Além do fracasso evidente de todas as drogas até hoje empregues para a "cura" dessas doenças, é preciso contabilizar o fracasso de outras inventadas a partir do modelo vivisseccionista para o tratamento das demais doenças que afligem os seres humanos, a exemplo da depressão e de outras formas de sofrimento psíquico
(me dêem licença pra ser um pouco sarcástico, mas isso é um completo atentado contra o bom senso, e um insulto blatante a milhões de cientistas bem-intencionados. Eu não vou citar exemplos de por que isso está errado porque me parece que não precisa, qualquer pessoa que tenha passado do jardim da infância consegue reconhecer o absurdo total das frases acima. Em todo caso, se alguma referência é necessária recomendo à autora que dê uma olhadinha em qualquer estatística de expectativa de vida ou mortalidade por doenças específicas de qualquer lugar do mundo desse século. Falar que a ciência não tem feito nenhum progresso na busca da cura das doenças mencionadas é um descalabro completo e total, e é simplesmente insultante pra humanidade em geral)
(notem que a autora insiste no conceito de “cura” de maneira a enganar o leitor: de fato, a maior parte das doenças citadas permanecem incuráveis (com a honrosa exceção do câncer, que vou discutir abaixo). No entanto, é completamente inegável que o controle, a mortalidade, a morbidade e o sofrimento associado a coisas como diabetes, hipertensão, doenças vasculares cerebrais e Parkinson foi imensamente afetado pela medicina moderna e pela farmacologia, em grande parte devido ao suporte de experimentos animais. O tratamento correto da diabetes faz a diferença entre décadas vividas com qualidade de vida semelhante a um indivíduo saudável e a cegueira, a amputação, a insuficiência renal e a morte precoce por um infarto. Dizer que a doença “não foi curada” pode até ser uma verdade relativa, mas tentar sugerir através daí que a vida dos diabéticos não foi vastamente melhorada pela ciência é um insulto a milhares de cientistas que pesquisam na área e a milhões de pessoas doentes que tem que ouvir uma estultície tamanha)
(ainda no parágrafo acima, gostaria de destacar que também sou um puta crítico da “invenção” (ou pelo menos da diagnostização de sintomas) por parte da psiquiatria moderna. Agora, puta que o pariu, o que diabos isso tem a ver com os pobres dos ratos. É o típico argumento de um observador tosco que coloca a ciência toda dentro dum saco plástico pra jogar dentro do rio)
Ao adotar o organismo de camundongos, ratos, cães, gatos, porcos, cavalos, aves e primatas não humanos como referência para a investigação, a ciência deixa de estudar e conhecer o organismo e o psiquismo dos seres da espécie humana, a destinatária de seus resultados.
(esse é o outro argumento freqüentemente usado que também é completamente idiota. É claro que seres humanos são diferentes de porcos e camundongos, qualquer criança retardada sabe disso. A questão é que é a melhor maneira que a gente tem pra se aproximar. O que a autora pretende defender, que a gente injete células tumorais nos nossos filhos e depois abra a barriga deles pra implantar capsulazinhas de remédio? Ou será que ela acha que um programa de computador ou uma escultura de argila são mais próximos das pessoas do que um camundongo?)
O que o cientista vivisseccionista faz é estudar a fisiologia dessas doenças em organismos que, via de regra, nem sequer as produzem naturalmente. É preciso "fabricar" um camundongo com câncer para testar nele as drogas prometidas para curar o câncer em organismos que não foram "fabricados" com câncer, mas que o desenvolvem.
(sim, e qual é o problema disso? Um engenheiro que quer estudar um cinto de segurança que funcione tem que modelar um acidente de carro, seja no computador, no papel ou numa demonstração ao vivo. O acidente (e o carro) não são intrínsecos ao computador e o papel. O acidente do carro batido ao vivo também é fabricado. Mas a demonstração funciona e produz conhecimento válido e útil. A “naturalidade” ou “inaturalidade” do câncer no camundongo pouco tem a ver com a importância do conhecimento gerado)
A morte por câncer continua a ser praticamente previsível, apesar das drogas às quais o paciente humano é submetido na "luta contra" ele.
(ô sua ignorante, dá uma olhada nisso aqui. Atente particularmente para números como “sobrevivência em cinco anos de câncer de tireóide: 94,6%; testículo: 93,3%; melanoma: 85,1%; útero: 83,2%; mama: 80,4%. Dizer que “a morte por câncer continua a ser praticamente previsível” denota um grau de desinformação grotesco e é um desserviço enorme à saúde pública e ao bem-estar de um monte de gente)
Adiar a morte não cura.
(OK, vá lá, esse é um ponto de vista válido. Que por sinal, se adotado, significa “joguemos fora toda a ciência médica, o sistema de saúde, os profissionais de saúde e por aí afora”. Afinal, tudo que a gente sempre fez em termos de aumentar sobrevivência foi “adiar a morte”. Que eu saiba, nem a medicina nem ciência nenhuma fez ninguém imortal até hoje. Por outro lado, ela provavelmente aumentou a expectativa de vida média da população numa escala de décadas e, ainda que eu (e provavelmente ninguém) possa dizer ao certo o quanto isso se deve à experimentação animal, certamente dá pra dizer que foi um bom naco (uma vez ouvi uma estimativa de dez anos, mas como não sei daonde veio, não vou usar de argumento). Se a autora quiser botar os seus anos a mais de vida fora, sinta-se à vontade e pule dum prédio. Mas deixe os meus pra mim e pros outros, por favor, por favor)
Essa ciência pode abrir mão do uso de animais vivos, pois, embora ela tenha produzido uma quantidade incalculável de drogas para combater os sintomas de tais males, ao sustentar sua investigação no vivisseccionismo, não produz resultados que garantem a "cura" de nenhum daqueles males mais freqüentes que afetam crônica ou agudamente a saúde e destroem a vida humana
(de novo o mesmo argumento tosco. As minhas perguntas que ficam, no fim das contas, são as seguintes: (a) se essa pessoa fosse diagnosticada com diabetes ou hipertensão ou HIV amanhã, será que ela não se trataria porque “o tratamento não cura”, mesmo sabendo que ganharia talvez dez ou vinte anos de vida com isso? (b) Se ela tivesse câncer terminal, será que ela não tomaria analgésico pra tratar sua dor excruciante porque “o tratamento não cura”? (c) Se ela tivesse gastado ridículos cinco minutos da carreira acadêmica dela cruzando “taxa de mortalidade” e “câncer” no google, será que ela teria descoberto que câncer se cura sim?)
(e no fim das contas, deixo o mesmo apelo à autora que costumo deixar a todo defensor da abolição da experimentação animal: NÃO SUBMETA SEU FILHO A NENHUM TRATAMENTO MÉDICO! Deixe a criança arder em febre ao ser consumida por uma pneumonia. Deixe ele urrar de dor quando quebrar a clavícula. Deixe ele ficar seqüelado pra vida inteira porque não tratou uma meningite. É o mínimo que se pode esperar, em termos de coerência.
Espero que eu tenha sido claro.)

SÔNIA TERESINHA FELIPE, 53, doutora em filosofia moral e teoria política pela Universidade de Konstanz (Alemanha) com pós-doutorado em bioética-ética animal pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Portugal)
(alguns cientistas pró-experimentação diriam que filósofo não tem nada que se meter em assunto do qual não entende; eu discordo absolutamente: acho que o assunto não é dos cientistas que fazem experimentação, é da humanidade em geral. Mas um mínimo de estudo e conhecimento do assunto, do qual a autora obviamente não dispõe seria, digamos assim, útil, antes de escrever prum jornal de circulação nacional)
é professora da graduação e da pós-graduação
em filosofia e do doutorado interdisciplinar em ciências humanas da Universidade Federal de Santa Catarina
(ou seja, esse descalabro desvairado foi sustentado com grana do meu bolso. Super legal).

(Folha de S. Paulo, 10/11/07, seção "Debates": "A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?")

sábado, novembro 10, 2007

melhor frase que eu li no jornal nos últimos tempos

tava na zero hora esses dias:
"- O que eu vejo de b... na internet. É gente que está emporcalhando a profissão, é gente que não leu. Blog é depósito de lixo... - disparou o colunista da revista Caras." ("De Olho nos Mestres, ZH 7/11/07). (negrito do autor deste blog)
se aquela história de "literatura é saber o que deixar no subtexto" (conforme o assis brasil disse na mesma reportagem) é verdade, o cara que escreveu a matéria certamente tem as bases. Eu é que não vou dizer pra ele que jornalista não sabe escrever.

ícones pop natimortos (i)

o barulhinho de conexão discada (trrrrrrrrrrrrrr - tum dum - tum dum - taaaaaah - shhhhhhhh). tadinho, passou de símbolo de modernidade a artefato retrô sem nem saber o que aconteceu.

sexta-feira, novembro 02, 2007

aviso de utilidade pública

se você, leitor, puder aceitar um conselho na vida a respeito de avisos de utilidade pública, aceite esse, que o meu pai me deu pouco antes de morrer:
"meu filho (suspiro apertado pelo câncer de esôfago)... se eu não estiver aqui, eu peço que você me prometa que (tosse com escarro purulento) , não importa o que acontecer, você vai desconfiar seriamente de qualquer coisa que junte as palavras "flanelinha" e "ácido muriático" na mesma frase antes de repassar um e-mail. Ah, e se der tempo cuide bem da sua mãe tamb... (gasp, glup, acesso de tosse e parada respiratória)."

quinta-feira, outubro 25, 2007

comedores de criancinhas da contemporaneidade (i): computadores e jogos eletrônicos


é quase paranormal. O tempo passa, o tempo voa, e as pessoas continuam achando que videogame e computador são coisa do demônio. E isso inclui acadêmicos supostamente respeitados. Ou pelo menos é o que se depreende dessa pesquisa da American Psychological Association que acabou de aparecer no yahoo notícias (cujo release oficial tá aqui e diz a mesma merda). Chocantemente, nas conclusões da pesquisa lê-se o seguinte:

"While Americans deal with high levels of stress on a daily basis, the health consequences are most serious when that stress is managed poorly. Four in ten Americans (43 percent) say they overeat or eat unhealthy foods to manage stress, while one-third (36 percent) skipped a meal in the last month because of stress. Those who drink (39 percent) or smoke cigarettes (19 percent) were also more likely to engage in these unhealthy behaviors during periods of high stress. Significant numbers of Americans report watching TV for more than two hours a day (43 percent) and playing video games or surfing the Internet (39 percent).Healthy behaviors used to manage stress included: listening to music (54 percent); reading (52 percent); exercising or walking (50 percent); spending time with family and friends (40 percent); and praying (34 percent)."

a pergunta que me perpassa, óbvia, é "como diabos jogar videogame e surfar na internet foram parar no grupo de "comer excessivamente, fumar, e beber álcool", ao invés do grupo "ler, ouvir música, etc."" É absolutamente bizarro que em 2007 existam psicólogos profissionais da associação oficial da classe no país mais poderoso e evoluído do mundo dizendo que "ler texto num livro" seja uma atividade saudável e "ler texto na tela do computador" seja uma atividade insalubre. Quem é o idiota que concluiu isso? Qual foi o crime que as vidas passadas do videogame cometeram pra que ele tenha um karma tão incrivelmente negativo.
sério, pra qualquer pessoa nascida na era da informática, o fato de que o conceito de que "surfar na internet faz mal à saúde" ainda exista é atabalhoante. Vá lá, claro que excessos existem. Mas jogar videogame em excesso existe assim como fazer exercício em excesso, ler em excesso, ouvir música em excesso e rezar em excesso, e nenhum deles é saudável. Particularmente o último. Mas o preconceito ainda continua existindo, e ele parte de gente que define políticas de saúde do país mais influente do mundo.
explicações, só tenho duas:
(a) psicólogos e psiquiatras importantes tendem a ser um bando de velhos conservadores que, como a maioria dos pobres seres humanos, morrem de medo daquilo que não conseguem entender e conseqüentemente olham feio pra tudo que não compreendem.
(b) a tal pesquisa faz parte de uma campanha chamada "Mind/Body Health: For a Healthy Mind and Body, Talk to a Psychologist". E o press kit inclui até um telefone pra agendar uma consulta com um psicólogo pra manejar o stress. Hã, alguém aí na platéia sussurrou "conflito de interesse"? Putz, isso é quase pior do que a indústria farmacêutica.
e pra cada uma delas, só tenho uma sugestão
(a) lembrem do aviso do velho bob, ainda atual 44 anos depois.
(b) quite simply put, fodam-se todos e enfiem o dinheiro da consulta vocês sabem aonde.
e por enquanto é só. Outra hora escrevo um pouco mais sobre "como o mundo inteiro foi tornado doente mental pela psiquiatria moderna". Agora eu tenho que vomitar.

eu na feira (ii)

achei, tá aqui o anúncio oficial. Como pode ser constatado, eu tentei trocar a idade pelo ano de nascença na minha biografia pra ver se conseguia disfarçar o fato de ser o mais velho da trupe. Mas não sei se vai colar.

quinta-feira, outubro 18, 2007

eu na feira

a programação da feira do livro de porto alegre hesita em divulgar isso abertamente (seria medo do influxo excessivo de fãs?), mas aparentemente eu vou estar participando de um "encontro de jovens escritores" a ser realizado no dia de abertura da feira (26 de outubro) às 15h30 da tarde. A história vai contar com a mediação do Paulo Scott e com a participação de um pessoal novo e interessante da literatura de POA, incluindo este que vos fala. É pra acontecer na área juvenil da feira (talvez porque sejamos jovens, mas sabe-se lá...), na sala "Casa do Pensamento", Armazém A do Cais do Porto. Se vocês olharem direitinho na tal programação, verão que o evento de fato existe, ainda que o meu nome (e o dos outros participantes) não conste da lista.
se o convite acima não parece suficiente pra convencê-los a ir, repasso a convocação enviada a minha pessoa pelo Antônio Xerxenesky (que também vai estar por lá).

"Ei, vocês que participarão d'O Debate n'A Feira.
Espalhai a Palavra.
Se vocês não convidarem pessoas, ninguém irá. Não criemos ilusões, as pessoas não ficam caminhando pela feira do livro e "ó, está tendo um debate de jovens escritores, vou entrar!", ainda mais quando ela é situada na seção INFANTO-JUVENIL da feira (é no auditório que tem lá no Cais). Então convidem. Façam uma mega-divulgação. Ameacem castrar os amigos que não forem com uma foice enfurrajada que com certeza porta tétano em cada átomo. O espaço, se não me engano, é bem grande, cabe uma platéia de umas 200 pessoas. Enfim. Chamem mãe, chamem pai, chamem tia-avó, prima em terceiro grau, cachorro do vizinho. Acho que fui enfático o suficiente.
Forte abraço a todos e até dia 26."

enfim, acho que dá pra captar a mensagem. Ou pelo menos pra perceber que o pessoal é criativo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

emos protestam contra fábrica de picles

"estamos cansados de rótulos", afirmam.

notícias da colméia em tempos de DSM-IV


a abelhinha foi ao médico se queixando de um zumbido no ouvido e acabou internada na ala psiquiátrica. Disseram que estaria ouvindo vozes.

quinta-feira, outubro 04, 2007

pra quem acha que a história anda pra frente


cada vez mais eu me convenço que ela é muito mais parecida com um desses gráficos da bolsa que vão e vem cheios de tremeliques. A longo prazo o "progresso científico" (definam como queiram, mas alguma coisa do gênero existe) até empurra a coisa toda pruma tendência de alta, mas as oscilações do meio do caminho são bizarras. E todo dia aparece algo sugerindo nitidamente que nos últimos tempos algum especulador divino anda aproveitando pra realizar os lucros e jogar a merda pra baixo.

domingo, setembro 30, 2007

mais publicidade abjetamente parcial pros amigos















but i can't do otherwise, naturalmente. Apareçam.

sábado, setembro 29, 2007

pequena nota afetuosa sobre a vida cultural em porto alegre, baseada em fatos reais


você suspeita que está numa província quando entra num cinema pra ver um filme relativamente chique e falado na mídia na semana de estréia, depois que os trailers já começaram, e descobre que é a única pessoa ali dentro. Mas você só tem certeza que está na província quando uma segunda pessoa entra na sala, e você constata pasmo que ela é o seu cunhado.

terça-feira, setembro 25, 2007

clipagem (quaseauto)promocional


minha primeira incursão no fascinante mundo dos créditos de cinema (na inédita função de "pitacos tri especiais") ganhou as bê erres da vida no fim-de-semana. E aparentemente teve pelo menos alguém que gostou. Agora é esperar um pouquinho mais pra chegar no resto do universo. Por enquanto, em todo caso, parabéns pra todo mundo que trabalhou de fato no filme. Ao contrário deste que vos fala, cuja cômoda participação foi basicamente ler uns troços e ficar dizendo que não tava bom.

quinta-feira, setembro 13, 2007

transparente como um muro de concreto

o mais engraçado de tudo não é nem o fato do Senado ter absolvido o Renan (o link de fato vai pra página dele, entre e deixe o seu spam). O que é mais engraçado é ver que essa gente patética não tem nem sequer a coragem de assumir que o fez. Bizarramente, num levantamento de ontem da Folha, mais da metade dos senadores (41 deles, listados no jornal, exatamente o que era preciso pra aprovar o processo) dizia que votaria a favor da cassação . Pior do que isso, mesmo depois da sessão tinham pelo menos 38 caras (vide reportagem do Terra) dizendo que tinham feito o mesmo. E bizarramente a contagem oficial da sessão são 35 votos a favor. Ou seja, seis senadores mentiram (e continuam mentindo) deslavadamente pra população a respeito do seu voto. Isso pra não falar nos 20 e poucos que "não abriram o voto" (alguém tem alguma dúvida de pra que lado eles votaram, aliás?), numa linda demonstração de prestação de contas idônea para os seus eleitores. E assim, depois de uma memorável sessão em que 40 senadores votaram pela absolvição da figura, só 10 (dez, X, raiz quadrada de 100) de fato admitem tê-lo feito. Sério, quase dá vontade de bater palmas nesses caras por pelo menos terem um pouco de coragem (ou cara dura mesmo). E a triste conclusão é que o destino do país vai sendo definido em pleno Congresso Nacional e a gente não sabe por quem. Tipo assim, quem é que a gente pode cobrar pela decisão agora? Não tem alguma coisa, hã, digamos assim, vagamente errada (leia-se "completamente estapafúrdia") com uma democracia representativa onde os representantes não tem que prestar conta do que fazem? Quem foi a mula que introduziu a idéia de voto secreto no Congresso Nacional? Bom, se bobear isso também foi aprovado em voto secreto, então a gente é capaz de jamais ficar sabendo.
em todo caso, eu pessoalmente desisti de fazer campanha contra o Renan, porque já perdeu a graça, e porque no fim das contas o cara tem o grupo Abril inteiro mais meio mundo atrás dele, então mais cedo ou mais tarde ele vai acabar se fodendo igual, nem que seja pra servir de bode expiatório e livrar os outros tantos. A essa altura, eu tô mais interessado em saber quem foram os filhos da puta que livraram a cara dele e não admitiram. Os meios, ainda que tão efetivos quanto jogar balde d'água em incêndio, tão aí: escreva pra esses sujeitos que não abriram o voto na página do Senado e cobre deles pelo menos um pouquinho de coragem, hombridade, ou como queira chamar pra admitir pra população o que eles fazem em nome dela. E em relação aos seis mentirosos, se algum dia a lista aparecer, vamos contratar os seguranças do Senado pra bater neles dessa vez.

segunda-feira, setembro 03, 2007

eu DISSE que era um derivado do petróleo

já era hora. Depois de uns doze anos de internet, pela primeira vez chegou na minha caixa de correio uma corrente de e-mails paranóides trazendo pelo menos uma informação prazerosa. Sim, pasmem, depois de vários milhares de mails dizendo pra eu não comer hambúrguer no mcdonald's (porque era feito de minhoca), não beber coca-cola (porque mata criancinhas no iraque), não ir no cinema (porque eu posso ser seqüestrado ou sentar numa seringa contaminada com HIV), não abrir mail de pornografia (porque pode ter vírus, óbvio) e por aí afora, finalmente alguém se prestou a escrever algo minimamente otimista e positivo e alertar a população mundial a não comer produtos feitos de soja. Aleluia, indeed. Parece quase um milagre.

naturalmente eu não sei se nada que tá escrito nesse troço tem algum fundamento. Agora, que o bom senso faz suspeitar fortemente de que alguma coisa que é capaz de gerar leite, queijo, bifes, óleo, proteína, shoyu e salsicha só pode ser um derivado secundário do petróleo, isso sempre me pareceu meio óbvio. Em algum momento eu cheguei até a montar uma comunidade no orkut a respeito (muito possivelmente a única que eu criei na vida), que aliás mais de um ano depois de sua criação conta com gloriosos três membros – já que, mesmo que num momento de fraqueza eu possa ter caído na tentação de tê-la criado, eu jamais teria a falta de senso crítico necessária pra ficar enchendo o saco das outras pessoas pra entrarem nela. Mas depois resolvi guardar a convicção pra mim, até receber radiantemente esse mail lindo hoje de tarde e decidir que tava na hora de um post catártico.

aliás, se por acaso houver algum fundo de verdade nesse troço, isso não confirma só a minha convicção de que um troço repulsivo e sem gosto chamado “proteína de soja”, com um aspecto cujo correspondente mais visualmente próximo na natureza é cocô de galinha, não pode concebivelmente fazer bem pra saúde. Isso também confirma uma convicção ainda muito mais arraigada na minha mente: o bom e velho ditado sumério de que “não existe nada mais fácil do que enganar um natureba”.

sério, pouca coisa me deixa mais perplexo no mundo moderno do que o fato de que pessoas que se acham ultraespertas, descoladas, críticas e esclarecidas a respeito das pérfidas mentiras que o capitalismo e a sociedade de consumo nos impõem são capazes de acreditar docilmente em gurus barbudos de aspecto psicótico e livros picaretas de cultura macrobiótica comprados em sebos, cujos argumentos megacientíficos pra apoiar o consumo de alimentos naturais variados geralmente são coisas tipo “os chineses fazem isso há cinco mil anos” (assim como acreditam em horóscopo, lêem o futuro em folhas de chá, exploram o trabalho infantil e traficam órgãos) ou “o que é orgânico e vem da natureza não pode te prejudicar” (vide estricnina, urtiga, chá de dama da noite e o vibrião da cólera), ou ainda “fulano foi pra índia comer só arroz e curou sua leucemia em cinco dias” (e, curiosamente, isso passou tão desapercebido que depois de milhares de anos milhões de pessoas continuam gastando bilhões de dólares tentando fazer algo tão simples). Tudo meio baseado na crença primordial neorousseauniana de que a natureza era um lugar inocente e fofo em que ninguém nunca morria nem ficava doente até que a civilização malvada veio tocar o horror. Sem jamais imaginar que talvez a razão pra não existir doença crônica na pré-história é que não tinha comida tampouco, e todo mundo morria com vinte e poucos anos da primeira infecção que aparecesse.

pessoalmente,em termos de coisas naturais e orgânicas sou mais a opinião do Werner Herzog no “Homem Urso”, de que "the common denominator in the universe is not harmony, but chaos, hostility, and murder", como pode facilmente constatar qualquer um que tenha assistido o Discovery Channel ou seus congêneres amadores. Vá lá, eu concedo que o denominador comum da civilização não é muito melhor do que o da natureza nesse aspecto. Mas o mais chocante de tudo é que essa galera natureba consegue se deixar enganar pelos dois. Tipo, nada é mais fácil do que botar um selinho de orgânico e natural em alguma coisa, dizer que tem antioxidantes e sal marinho e que previne o câncer, a cegueira e a infelicidade, e vender por três vezes o preço dum produto industrializado normal. E o pior de tudo é que as pessoas compram e acreditam piamente, torrando dinheiro em nome duma pureza virtual de benefício no mínimo duvidoso – por piores que sejam alguns produtos industrializados, pelo menos a origem deles tende a ser um pouco mais transparente, enquanto que ninguém sabe exatamente a densidade de ratos no porão onde foi feito um queijo colonial qualquer.

mas enfim, acho que o ser humano tem vocação pra ser patinho. E então as pessoas basicamente optam por serem manipuladas pelo McDonald’s ou pela proteína de soja, pelo PT ou pelo PSDB, pelo Papa ou pelo Sai Baba, pela medicina chinesa ou pela indústria farmacêutica. Aliás, a nossa patinhice intrínseca é bem capaz de ter sido uma força evolucionária determinante na escalada da nossa espécie rumo à supremacia global: se o ser humano fosse desconfiado e arredio ao invés de ser ingênuo e propenso a se tornar massa de manobra fácil, provavelmente nunca teria sido convencido a construir essa história de "civilização". Então talvez a gente só tenha a agradecer pelo fato de sermos mais patos e ovelhas do que lobos ou leões, o que nos permite levar bem menos chifrada de búfalo hoje em dia. E deixar de se incomodar com a falta de senso crítico alheio, até porque lá pelas tantas a gente vai acabar ludibriado também. Já que, pelo menos em termos de promoção da saúde, nutrição e essas coisas todas a ignorância e picaretagem da medicina ocidental instituída ainda é quase tão grande quanto a dos gurus macrobióticos.

e enfim, já que ninguém sabe porra nenhuma, o meu bom senso ao menos me diz que é sempre melhor acreditar que um troço gosmento como carne de soja dá câncer do que achar que lasanha à bolonhesa engorda. Se ser enganado é inevitável, afinal, que pelo menos a gente seja enganado por algo gostoso.

quarta-feira, agosto 22, 2007

roquenrol, uga-uga!



pô, acabei de descobrir que sou o primeiro hit do google pra "cantores negros de Tuvalu". Quer dizer, pelo menos nos últimos três meses. Então, em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Grande Oráculo e à pequena nação por esse privilégio. Mas afora o orgulho que me solapa neste momento... quem diabos serão esses caras? E quem diabos entrou aqui por essa via? Alguém se acusa?

sábado, agosto 11, 2007

irmãozinhos famosos

sempre achei que distúrbio de fala era uma coisa que tinha um certo charme tresloucado, tanto que nunca troquei o nome desse blog e nem fui no fonoaudiólogo. Mas certamente esse primo distante é muito mais louco do que eu poderia sonhar em ser. Em todo caso, deu um baita orgulho de ser da família.

quinta-feira, agosto 09, 2007

"É assim que eu penso... e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!"


e o que dá mais medo é a sensação de que, se a gente for olhar as sentenças do Judiciário brasileiro que não saem no jornal porque não dizem respeito a figuras públicas, é capaz de achar milhares de estrupícios como esse. E deixando de lado toda a questão da homofobia, que é repugnante e ridícula o suficiente pra não requerer maiores comentários, será que alguém um pouco mais esclarecido juridicamente pode me explicar como diabos um juiz pode justificar uma sentença com a frase "é assim que eu penso"? Tipo, a coisa funciona assim de verdade na prática? As sentenças não deviam fazer referência a alguma lei, jurisprudência, constituição, essas coisas? Não tem alguma coisa meio errada nisso? E, já que você está aqui, amigo juridicamente esclarecido, tem alguma coisa que a gente possa fazer pra contribuir pro afastamento desse palhaço? Alguma via oficial? Algum abaixo-assinado? Alguma sugestão? Alguém, anyone? Houston?

segunda-feira, agosto 06, 2007

rumo ao fundo do poço, mas abraçadinhos

"As três bandas [Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju e Teatro Mágico] levam adiante a bandeira da "autenticidade" propalada pelos [Los] Hermanos. Algo que, na música, se traduz numa atitude calculadamente despojada e na pose de quem "não se vende ao sistema". O Mombojó até se vincula a uma gravadora - mas uma que ainda mantém certa aura alternativa, a Trama. Nos três casos, contudo, a estratégia de divulgação é de guerrilha. Elas disponibilizam todas as suas músicas de graça na internet e usam os shows como principal fonte de renda (e também como canal de venda de seus discos). ("Os remelentos do rock"; Revista Veja, 08/08/07)
Francamente, isso é o fim da picada. Num mercado em que as gravadoras quebraram de vez, sem perspectiva de volta, e não tem dinheiro nem vontade de investir em nenhum artista cujo nome não comece com "Ivete" e termine com "Sangalo", muito menos de tentar vender CD a menos de 30 reais, os músicos começam a encher o saco desse mercado falido e estúpido e resolvem botar o seu trabalho na internet de graça pra não depender de executivo engravatado (e pro público não depender de grana pra ter acesso ao trabalho). E, tcham-tcham-tcham-tcham, qual é a resposta da mídia? Obviamente, meter o pau nos caras por estar "fazendo pose" de independente, "autêntico" (as aspas não são minhas), e ainda por cima metido a esquerdista. Dá vontade de vomitar. Em todo caso, acho que esse é o legítimo testamento do quão fundo no poço chegou o conceito atual (ou passado) de indústria cultural. E uma demonstração surpreendente de que pelo menos uma parte da mídia está disposta a acompanhar essa massa falida de parasitas até ela sair pelo outro lado do planeta terra.