sexta-feira, março 27, 2009
todos filhos de deus
domingo, março 08, 2009
sobre ter 29 anos e um bocado de amigos mais velhos
domingo, março 01, 2009
posts perdidos no meio de um caminho sem wi-fi (ii): assistindo à platéia do palco central
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
posts perdidos no meio de um caminho sem wi-fi (i): frestas
não sei se alguém já disse que somos a soma dos nossos limites. Sei lá, parece algo que alguém já teria dito numa frase célebre. E também parece verdade.
a lógica é um pouco darwinista: no fim das contas, fartura nunca induziu adaptação ou evolução em ninguém. As dificuldades e os limites, por outro lado, construíram a vida inteira a partir de um sopão de moléculas. E a individualidade surge do que é imposto, do que não pode ser mudado. O que é flexível, plástico e cheio de espaço acaba estagnando. Ou simplesmente caindo no fluxo.
ando no Nordeste há quase um mês, e o excesso de espaço me incomoda. Em cidades e bairros que até pouco tempo atrás eram um punhado de casinhas de reboco, o espaço pra qualquer coisa crescer parece imenso. E o resultado disso parece quase sempre uma Miami disforme.
meu possível quem sabe futuro lugar de trabalho em Natal fica a duas quadras duma estrada de várias pistas. A referência pra entrar na rua é uma revendedora de veículos gigantesca da Chevrolet. Do outro lado da avenida, há um shopping a cada três ou quatro quadras.
saindo da estrada, por outro lado, a meras duas quadras de distância, a rua é de terra batida. As casas parecem ter sido tiradas de uma favela mais ou menos arrumadinha. Eu, que não almocei, procuro um lugar pra comer. O pessoal que trabalha ali diz que o jeito é dirigir até o shopping.
LA, Miami, Barra da Tijuca ou Natal, já pouco importa. A impressão é só a de estágios diferentes de um mesmo processo que acaba por formar um emaranhado inespecífico de avenidas de várias pistas, carros cruzando de um lado pro outro, e arranhas-céus disputando espaço entre as casinhas simples que ainda restam. Tudo o que importa fica ao lado da estrada. Ser pedestre, nem pensar, exceto num curto espaço de orla marítima entregue aos turistas.
porque parece que tudo que tem espaço pra crescer acaba evoluindo hoje em direção ao mesmo capitalismo indistinto sem espaço urbano, a uma mesma lógica repetida de discursos, mentes e condomínios fechados.
a não ser nos lugares onde existem limites.
limites como as ladeiras infectas levando até a cidade alta de Salvador. Como o cenário brega de cartão postal desbotado da orla de Copabana. Como os canais poluídos e favelas de palafitas do centro do Recife. Ou até como os prédios baixos de famílias judias do Bonfim em Porto Alegre. Onde não há espaço pra estradas e especulação imobiliária, parece que os fabricantes de condomínios perdem um pouco o vigor. Deixando espaço pra algo crescer que se parece um pouco mais com o que eu chamaria de vida.
vida que parece florescer exatamente sobre a decadência de alguma outra coisa. Igrejas barrocas no Pelourinho viram campo de pelada pra moleques das ladeiras de Salvador. Grama nasce entre os ladrilhos toscos de estradas coloniais. Prédios históricos caem em pedaços e são cobertos por montanhas de graffitis coloridos. Prostitutas e militares aposentados preenchem o espaço efervescente por trás das fachadas com espessura de cartão postal em Copacabana.
e de alguma forma essa decadência me parece infinitamente mais aprazível do que o crescimento obstinado de onde há espaço. Até porque decadência é uma palavra relativa: meninos jogando bola no pátio da igreja parecem uma evolução enorme em relação a padres vestidos de branco falando bobagens num altar banhado em ouro. No fundo, o que cresce pelas frestas no meio das ruínas de algo em destroços parece conseguir escapar da lógica dominante com muito mais facilidade do que o que cresce com espaço, meios e planejamento. E o que quer que ainda queira ser único em meio ao fluxo contínuo e acachapante do capitalismo global só parece conseguir crescer nas frestas.
e se em nossa geração o pouco que cresce com graça o faz nos espaços mais restritos, disfarçado de decadência e estrago na paisagem, é interessante nos perguntarmos onde crescerá algo que valha a pena no futuro. Uma vez que a miamização do mundo estiver concluída, espaço certamente haverá muito menos. Então sei lá, talvez ainda haja esperança: se a lógica vale alguma coisa, talvez nunca haverão tantas frestas apertadas pra forçar o mundo a se transformar em alguma outra coisa que não o que era antes.
verdade que é pouco provável que essas novas frestas gerem especificidades geográficas bonitas como as que ainda restam hoje, já que o mundo é cada vez mais igual em todas as partes e seus limites e furos também o serão. Mas talvez as novas frestas pelo menos permitam o surgimento de algo único no tempo, senão no espaço, já que o formato exíguo e sinuoso do espaço que sobrar vai ser forçosamente diferente de todos os espaços anteriores.
então quem sabe alguma espécie de discurso novo cresça entre os pequenos espaços escondidos em cantos remotos da rede e nas ruelas entre os condomínios fechados, como se fosse vegetação entre tijolos de igrejas barrocas, ou uma pelada espontânea com bola de meia no pátio da prisão. O mundo é cada vez mais o mesmo, mas os limites e os buracos seguem aí: resta saber aproveitá-los pra tentar criar um troço novo entre as frestas, e existir como ainda não se existiu exatamente antes. É o mínimo que eu esperaria de um bando de gente que quisesse um dia se chamar de uma geração.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
sábado, fevereiro 07, 2009
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
condição humana, redux
sexta-feira, janeiro 30, 2009
dedinhos pra cima
segunda-feira, janeiro 26, 2009
sobre a vida de ganchos em diante
garrafas de cerveja vazias pela casa, papéis de sonho de valsa no chão do carro. Areia no olho, noites mal dormidas, noites não dormidas. Queimaduras de sol, algas nos bolsos e cicatrizes de toboágua. Asfalto, ventiladores a pino, despertadores desligados. Centenas de mensagens não lidas na caixa de entrada. Fones nos ouvidos, sonhos de homens voadores. Os menores toques ganham o peso de pontes. O corpo deitado sobre os furos da represa, e cada rolar na cama traz novas inundações. Hoje sou todo correnteza, até o fim da semana restarão os escombros.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
vinde a mim as criancinhas
quinta-feira, janeiro 15, 2009
novas formas de solidão no mundo moderno (xsiviiix): tentando chamar a atenção no orkut
sentindo-me carente de atenção esses tempos, e constatando que quase ninguém me ligava, mandava e-mails ou dava qualquer sinal de vida, elocubrei um plano genial ao ver a minha namorada fuçando na vida dos outros no orkut e ver que o monstro da telinha azul agora tinha aprendido a avisar todos os meus amigos sobre atualizações no meu perfil.vou trocar o meu perfil para "solteiro", pensei. Assim todos vão se preocupar comigo, me ligar pra ver se eu estou bem, mandar recados, ficar preocupados, espalhar boatos sobre a minha pessoa, etc. Em resumo, eu serei novamente um cara importante na vida das pessoas.
parecia um plano genial. Eu até troquei umas configurações pro troço avisar toda a minha lista de amigos, avisar quem entrou no meu perfil, etc., etc. E a vanessa ficou superentusiasmada porque ia descobrir "todas essas putinhas que vão começar a te mandar recados". Enfim, uma idéia brilhante como eu não tinha há tempos.
ou não.
pois hoje, passada umas duas semanas da experiência, sou forçado a constatar decepcionado que ninguém percebeu. Sério. Bom, pra não mentir, uma única pessoa obsessivamente cibernética chegou a perguntar a respeito (e logo descobriu que era mentira). Mas de resto, o troço continua às moscas como sempre, com seis visitas no tal perfil na última semana. E eu não pareço ter ganho uma única ligação a mais no celular com esse esforço todo. Pra não falar em cafuné.
mas enfim, talvez ser solteiro não seja uma notícia tão significativa. Provavelmente na semana que vem vou tentar trocar o item "orientação sexual" para "gay", pra ver se chama mais a atenção. Mas já de antemão suspeito que o fracasso vai ser tão retumbante quanto. Sei lá, no fundo talvez a melancia no pescoço ainda seja a minha melhor opção.
sexta-feira, janeiro 09, 2009
adolescendo
tenho me sentido cada vez mais adolescente, e isso pouco tem a ver com crises de meia-idade estilo beleza americana e congêneres. Senão com uma impressão esdrúxula de inadequação, de mudanças que fazem com que eu volta e meia não me reconheça mais. Até o meu corpo muda, depois de começar a fazer academia pela primeira vez em trinta anos, mudar o corte de cabelo pela primeira vez em cinquenta e ter criado uma espinha permanente embaixo do olho esquerdo. Sinto uma certa inadequação em cada movimento, tomando consciência de toda uma nova constelação de dores e cansaços novos nos músculos. E uma curiosidade intensa ao me olhar no espelho, mesmo sabendo (ou talvez precisamente por saber) que o corpo entra na fase das consequências, em que as merdas que se faz não vão repercutir algum dia quando tu ficar adulto, senão no dia seguinte (e lá vai ressaca, dor no ombro, ouvido entupido, hemorróidas). E como um legítimo adolescente me sinto perdido entre gerações, desacomodado demais pra ter assunto com gente da minha idade, velho demais pra interessar a gente mais jovem. Pulo na sala batendo cabeça escutando radiohead ao mesmo tempo que começo a medir algumas experiências a partir do que os meus filhos vão pensar dela daqui a uns anos. Volta e meia me apaixono feito bobo, inclusive pelo corpo que dorme do meu lado todas as noites. E tenho uma afinidade com essas coisas pequenas e sólidas tipo o cheiro do asfalto depois que chove, a espessura do filé da lancheria do parque, o vento que entra pela janela do quarto quando as frentes frias dão o ar da graça. Tenho adormecido cedo às custas do meu próprio sono, ao invés de por causa da hora em que tenho que acordar no dia seguinte. E demoro horas no soneca antes de levantar. Mais do que tudo, tenho ouvido muito mais música, e num volume mais alto, o que pra mim costuma ser o primeiro sinal de vida acontecendo. Não sei dizer se ando mais feliz. Mas sei dizer que tem feito mais sentido.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
câmara escura, guaxinim, trompete, raio-x, gambito da dama, lesmas, Frida, aquário, abdómen, míssil, esturjão, ósmio, aranhas, oxigênio, magnetos...
palavras chave do meu livro de acordo com algum algoritmo automático do google books. Fiquei tri orgulhoso de tamanha salada. Parece até melhor do que realmente é.
eles
segunda-feira, dezembro 15, 2008
esse post não é um sapato
ok, esse troço (um preview do próximo livro do Chris Anderson, o cara da cauda longa) tá no ar desde o início do ano, mas eu não sou nerd a ponto de ler a wired todos os meses. Em todo caso, achei que ainda valia a pena linkar. Algumas pessoas são capazes de expressar de maneira ultraclara alguns conceitos que são simples, porém anti-intuitivos o suficiente pra continuarem sendo insistentemente negados por muita gente. Particularmente por dinossauros que insistem em achar que cultura e informação possam ser distribuídas através do mesmo tipo de economia que rege o comércio de sapatos (incluindo aí executivos de gravadora, compositores frustrados e jornalistas culturais que terminam críticas com o preço do "produto" de que estão falando). O que é uma causa pra lá de perdida. Como já dizia o Raul, nós não vamo pagá nada. É tudo free.
a uns vinte centímetros da glória
às vezes um único cara toma nas próprias mãos o desejo reprimido da humanidade inteira. E quase consegue satisfazê-lo. Afinal, deve querer dizer alguma coisa o fato de que todas as versões do vídeo do Bush atacado pelo sapato voador tenham cinco estrelas no youtube. Uns vinte centímetros mais pra baixo e teria sido a glória. Mas, parafraseando o que o Bin Laden uma vez disse sobre aviões (e por sorte não cumpriu), a chuva de sapatos não parará tão cedo. Quem dera virasse moda.
domingo, dezembro 07, 2008
eu já sabia
corre no Proceedings of the National Academy of Science o boato de que moscas senescentes têm um tempo de vida maior quando vivem em meio a moscas mais jovens. Eu particularmente nunca precisei de moscas pra ter certeza disso.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
segunda-feira, dezembro 01, 2008
ainda sobre deus, e sobre o silêncio, que é mais legal que Ele
(roubado do "Solenar", do Rafael Jacobsen)



