sexta-feira, julho 28, 2006

aposentadoria o caralho

"FORTUNE magazine's 2005 Retirement Guide selects Boquete as one of the 5 best places in the world to retire..."
aposentadoria o caralho. já tô lá. esses americanos não têm a menor noção de hormônios. vou me empregar de assessor de marketing e montar slogans escrotos pra imobiliária, tipo "um lugar que escorre pela boca". ou "sinta um aperto de felicidade na garganta." esses americanos também não têm a menor noção de marketing.
(p.s. agradecimentos ao tiagão pela idéia roubada. espero que ele não chegue antes de mim)

terça-feira, julho 25, 2006

um post longo e uma vida curta


sei não, mas acho que a revolução digital finalmente tem chegado no meu estômago. Talvez sejam só as circunstâncias que fazem o assunto mais presente. Mas a minha impressão é que mais e mais a minha perspectiva de vida tem sido cada vez moldada pelo ritmo absurdamente rápido do mundo à minha volta, em que os prazos de validade dos sonhos expiram cada vez mais rápido. Mas deixa eu começar do começo.
Até um tempo atrás eu tinha o meu discman. Ele era talvez o meu objeto mais querido, a ponto de uma vez há um pouco mais de cinco anos eu ter escrito um texto pra mim mesmo chamado “o discman e o mundo”. Ele começava, ingênua e pretensiosamente como convém a um guri de vinte anos, assim:

“Sou um fruto da geração CD, e isso pode parecer vago, mas na verdade é bem mais específico do que parece. Sou novo demais pra ter qualquer nostalgia em relação a vinil. Não que não os tenha conhecido e até ouvido, mas na minha memória LPs estão inevitavelmente guardados num armário. Do meu pai. Por outro lado, sou apaixonado demais pelos pequenos discos prateados em suas caixinhas tipo jewel box (como dizem acertadamente os americanos pra denominar o compartimento de um item tão precioso) pra conseguir aceitar a invasão iminente da música digitalizada em MP3 sem torcer o nariz.”

Rárárá. Ou, como se diria no MSN, huahuahuahuahuah. Naturalmente, durou um pouco mais de um ano até que eu deixasse de comprar CDs pro resto da vida, sem sentir nenhuma falta. E um pouco mais de quatro até que eu abandonasse eles completamente pra quem queira vir pegar aqui em casa.
E mais do que isso, desde então eu dou e continuo dando o testemunho vivo de que o Napster mudou a minha vida. Precisamente por ter feito a minha coleção de CDs que eu achava tão preciosa (eu era daqueles caras que guardava discos em estantezinhas, classificados em ordem alfabética) se tornar um troço absolutamente sem sentido de existir. E isso não foi ruim. Pelo contrário, isso sinceramente incorporou na minha cabeça o conceito de que acumular coisas era um troço meio sem nexo. Pelo simples fato de me dar conta de que maioria das coisas, incluindo toda a música do universo, estava disponível quando eu precisasse. Às vezes pagando, às vezes de graça. Mas que eu podia esperar precisar. Isso me fez, entre outras coisas, abandonar a minha biblioteca na casa da minha mãe, começar a passar livros e discos adiante quando parecia a coisa certa a fazer, ridicularizar de vez a idéia de comprar artesanato em viagem, me despreocupar em arrumar o meu quarto e ter a impressão de que eu preciso de bem menos dinheiro do que antes pra viver bem. Tudo isso hoje em dia me faz um cara bem mais feliz, e eu sou infinitamente grato à pirataria pro resto da vida por isso.
Mas vá lá, isso já anda mais ou menos incorporado há horas. Construir ou acumular coisas sólidas na modernidade líquida não faz sentido porque a validade delas expira antes que a gente consiga terminar. Parece óbvio. O novo é que essa mesma mentalidade agora parece estar lentamente se incorporando no plano das idéias. Parando pra pensar, eu tenho a impressão de que uns tempos pra cá escrever um livro, ou simplesmente o ritual de sentar depois do temporal pra tentar colocar as idéias no lugar e fazer um sentido das coisas parece tão fútil quanto organizar uma estante de CDs. Pra começar, porque tenho sérias dúvidas se alguém ainda vai estar lendo livros de papel daqui a 20 anos. Segundo, porque tenho sérias dúvidas se a noção de “livro” ou de autoria como ela existe hoje vai existir daqui a 50 anos. Terceiro, porque parece reproduzir cultura dum jeito moribundo, e tomar o lado do establishment ao invés do lado da revolução parece um papel deplorável pra qualquer artista. E por último, naturalmente, porque tenho a impressão que qualquer idéia ou projeto que leve algum tempo pra desenvolver pode ter perdido completamente o sentido no momento em que esse tempo tenha passado.
Isso me lembra com uma conversa de bar com o Gilson, meu parceiro de cinema, em que eu perguntei, pela milésima vez, porque raios fazer filmes pra essa gente que faz cinema como profissão tinha que ser tão caro e profissional e em 35 mm, e porque raios eles não pegavam uma câmera digital e uma equipe enxuta e faziam tudo low budget. E de tanto insistir, eu consegui arrancar um certo “pois é, eu estou começando a pensar um pouco assim” (cineasta profissional não se entrega tão fácil). E aí me deu uma explicação a respeito, falando de terceiros, mas de um jeito que pelo menos parecia um tanto quanto confessional. Que dizia algo tipo “velho, isso é complicado. Mas às vezes tu tem que pensar que o cara estuda e trabalha um tempão, dez ou quinze anos, sonhando com o dia que vai fazer um longa-metragem seguindo aquela tradição de sempre, 35 mm, várias semanas de filmagem, um troço tipo “A Noite Americana”. E aí quando ele finalmente chega no momento da vida em que isso passa a estar no alcance dele, as regras mudaram, e o tempo desse sonho meio que passou. É foda...”
(Obs: não sei se ele repetiria essa história sem a taça de vinho na frente, e também não sei se as palavras foram exatamente essas. Mas esse é o jeito com que eu prefiro lembrar da história, e eu admiro o cara um monte por ter contado ela do jeito que eu me lembro. Mesmo que ele não tenha dito nada disso).
Em todo caso, a questão é que acho que a minha sensação dos últimos tempos, no fim das contas, passa um pouco por aí. Não sei se os meus projetos de longo prazo não andam perdendo um sentido num mundo que muda tão rápido. Livros? Estranho como meio de permanência, no mínimo. Achar uma editora? Huahuahuahuahuah. Ciência? É como ser uma formiga no meio de milhares de pós-docs chineses trabalhando sessenta horas por dia pelo mundo afora.. Em todo caso, nada parece destinado a alguma forma de permanência. E eu não estou falando da imortalidade afora: nada que demore muito pra alcançar parece dar muita garantia de que vá continuar fazendo sentido quando eu chegar lá.
E como o mundo é quem dita todos os movimentos do jogo, talvez a única arte que ainda faça sentido de fato seja aprender a reagir. Talvez o único jeito de não ser ultrapassado seja afundar de vez na dispersão e tentar deixar de fazer um sentido estático das coisas (aliás, não deve ser coincidência que o meu único livro se chama “Estática”), e tomar o movimento e a efemeridade como as únicas realidades com que a gente pode de fato contar. E esquecer a história toda de fazer sentido, pois os únicos sentidos que continuarão a fazer sentido são os feitos na hora, em breves conversas de bar ou em postagens soltas, aqueles que não se importarem em morrer logo após de nascerem. Na prática, talvez a literatura já nem exista mais. O que existe é um mar de informação se atualizando todos os dias, e se tornando cada vez mais uma coisa só. E como o mar é muito maior do que o que cabe nas nossas veias, a gente nunca vai apreendê-lo. O máximo que a gente pode fazer é tentar flutuar e seguir sobrevivendo dentro dele.
E o mais engraçado de tudo é que nada disso chega a me fazer sofrer. No máximo talvez me cause uma certa desorientação, mas que em todo caso é quase despreocupada. E talvez seja justamente essa tranqüilidade a prova última de que eu ande incorporando de fato a dispersão como inerente à vida. E o que então resta fazer com todo esse barulho, no momento em que pensar ou escrever parece não dar conta do que se tem a dizer na velocidade adequada? Sei lá, acho que só o tempo dirá. E provavelmente vai acabar se desdizendo logo depois.

"a vida não imita a arte...

...ela imita programas de TV ruins" (Woody Allen)
ou alguém tem mais alguma explicação pro fato de que os criminosos mais famosos do país se chamam os "Irmãos Cravinhos"?

sábado, julho 22, 2006

milagre da multiplicação dos posts

de tanto eu me queixar que ninguém comentava porra nenhuma que eu escrevia, parece que uns spammers belgas ficaram com pena e postaram uns 60 comentários duma vez só com os links pro lixo comercial de sempre (pílulas de dieta, oportunidades de ficar milionário sem sair de casa, etc.). Uma poluição do caralho, mas pelo menos é sempre bom saber que tem gente que se importa contigo no mundo.

quarta-feira, julho 19, 2006

fugindo de babel


pros que insistem em martelar que tudo já foi dito:
a) é verdade. E se nem tudo foi dito (como argumenta o Toni no seu egomaníaco e freqüentemente brilhante "Entre"), certamente tudo pode ser formado por análise combinatória, como na Biblioteca de Babel e portanto já existe, em tese, no universo das combinações possíveis.
b) não importa. Porque a arte está no que se escolhe, e não no que se cria. E num universo de absoluto excesso de palavras, informações e opções, a única criatividade possível, na arte e na vida, é o saber cortar. E guardar apenas o que parece merecer ser dito.
c) eu tenho certeza que alguém já disse isso antes. Talvez o próprio Borges (atribuir coisas ao Borges sempre é bom negócio, como diria a autora daquele texto piegas pendurado em metade das repartições públicas do mundo). Ou então a minha própria namorada, de um outro jeito, num prefácio perdido na biblioteca da UFRGS.
d) mas também não importa. O que importa é que hoje de noite, escolher isso (ou o que quer que fosse) pra escrever é a resposta possível ao infinito. Que, no fim das contas, é tão desprovido de sentido quanto o vazio. Até que se comece a abdicar da maior parte dele.

quinta-feira, julho 13, 2006

da incômoda antropomorfização dos objetos inanimados


chamem-me de um cara sensível. Mas se tem alguém de quem eu morro de pena esse alguém é o clips do word. Esses dias encontrei ele no orkut e o perfil dele dizia algo tipo "são poucos os que gostam de mim". Isso meio que cortou o meu coração, porque é a pura verdade. E agora, desde que reinstalei o meu windows ele aparece o tempo todo e eu até agora não tive coragem de apagá-lo. E é pura pena, porque obviamente eu nunca usaria um troço inútil desses. Mas é exatamente por isso que eu não consigo desligá-lo. Estou tentando racionalizar a coisa pra ver paro com essa frescura. Mas por enquanto ainda não deu.

segunda-feira, julho 10, 2006

fazendo a cabeça da juventude butiaense


ou seria butiana? God only knows. Em todo caso, cheguei lá.

domingo, julho 09, 2006

mersault


"...sacudiu o suor e o sol, e compreendeu que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz."

praia ou campo, o absurdo ainda reina. Até na frente de todas as câmeras do mundo. E mais um argelino vai em direção ao cadafalso.

(mais remixes Mersault+Zizou no folhetim desumano, amanhã)

terça-feira, julho 04, 2006

breviário de depois da copa perdida









quem somos nós? sei lá, quem se importa?
de onde viemos? que diferença faz?
pra onde vamos? é tudo que o silêncio tem me dito ultimamente.

livros com 90% de desconto (i)

aproveite a promoção!

domingo, julho 02, 2006

l'art de conjuger


je fiasque
tu fiasques
il fiasque
nous fiasquons
vous fiasquez
ils fiasquent

quinta-feira, junho 22, 2006

a verdade, nada além da verdade


a Nike bem que tentou, mas a verdade haveria de emergir em algum momento. Porque você pode enganar todo mundo por algum tempo, ou algumas pessoas por todo o tempo, mas não pode enganar todo o mundo por todo o tempo.
Este blog revela com exclusividade o que alguns poucos desconfiavam, mas ninguém ainda teve coragem de afirmar. O ex-atacante Ronaldo Nazário, 30 anos, o "Fenômeno", está morto desde o início da semana passada. As circunstâncias de sua morte permanecem obscuras, mas aventa-se a possibilidade de que um acidente tenha ocorrido com o jogador em pleno campo. Como as conseqüências de tal morte, no entanto, causariam prejuízos incalculáveis à FIFA, aos organizadores da Copa do Mundo, à Nike, à Rede Globo, ao FBI e à NASA, tais entidades reuniram-se em suas Instalações Secretas para acobertar tal fato.
Depois de mais de quinze horas de reunião, e diversas ameaças dirigidas contra as famílias dos seletos detentores de tal segredo (o técnico Parreira, os jogadores da seleção brasileira, a modelo Raica de Oliveira e mais alguns indivíduos) caso os mesmos o revelassem, as entidades por fim chegaram a um plano final. Para acobertar a morte de Ronaldo, eles forjariam a morte do humorista Cláudio Vianna, o Bussunda, em circunstâncias igualmente obscuras. O humorista receberia 1 milhão de dólares para fingir uma dor pré-cordial durante uma pelada e se retirar ao seu quarto. Dali, sairia pela janela e seria transportado por uma limusine preta até a concentração da seleção brasileira, onde assumiria o lugar de Ronaldo Nazário.
É claro que os mais afoitos, entre eles Sepp Blatter e Franz Beckenbauer, apressaram-se em concluir que o futebol de Bussunda jamais conseguiria iludir os torcedores. Ao que a ala midiática da conspiração, liderada pelo Tio Galvão, logo respondeu: "não tem problema, todo mundo vai chamar o cara de gordo, mas ninguém vai desconfiar. O máximo que vai acontecer é pedirem o Robinho no time."
E não é que eles tinham razão...
(obs: o autor deste post desaparecerá transitoriamente pelos próximos meses, através do sistema de proteção de testemunhas do governo brasileiro)

terça-feira, junho 20, 2006

já que tá caindo, pisa em cima!














programão pros dias de crise nos ares:

1. Ponha uma roupa chique e diga pra sua namorada se arrumar também.
2. Compre passagens num vôo qualquer da Varig.
3. Vá até o aeroporto e espere cancelar.
4. Vá até o balcão e insista no seu direito (garantido por algum código de ética das companhias aéreas) de ganhar um voucher de acomodação e refeições garantidas até o vôo sair.
5. Seja transferido até o hotel.
6. Como uma janta num buffet farto.
7. Dê uma trepada massa numa cama macia e arrumadinha.
8. Tome um banho quente.
9. Caia fora dali, cancelando as passagens pelo celular.
10. Peça reembolso.

quinta-feira, junho 15, 2006

ingressos esgotados!

tadinhos, também, trabalharam tanto ontem...

terça-feira, junho 13, 2006

minha namorada tem a idade da minha mãe quando eu era pequeno

não sei exatamente o que isso quer dizer, mas que deve dar um piripaco no inconsciente deve.

segunda-feira, junho 05, 2006

nome e sobrenome, mas sem dicionário

tiradas de um único quarto de página tamanho carta (ou seja, um espaço de uns 11 x 14 cm) da edição de maio revista "nome & sobrenome", algo como a única revista no mundo escrita inteira pelos colunistas sociais:

"viajem", "Banckok", "Thailandia", "Thailandes", "Ko sa muii" (era Ko Samui), "Balangan" (era Balagan) e a impressionante seqüência de "cineastas favoritos" que diz "Kurassao (acho que era Kurosawa), Almadóvar, Spilber (!) e Truffan".

Não que eu seja muito fã da correção ortográfica. Pelo contrário, me irritam pra burro esses paladinos da ortografia que rançam com escritores ou jornalistas ou médicos ou jornaleiros que "não sabem sequer escrever português". Dizer que saber escrever é ter correção gramatical é a mesma coisa que dizer que cinema é só o que é filmado em 35 mm, ou que fotografia só se tira com câmera profissional e um laboratório à disposição, ou que arte é só pintura a óleo e escultura em mármore. Ou seja, reserva de mercado de uma elite cultural estúpida. E isso é uma grandesíssima bobagem (e notem que eu só escrevi isso porque não sei se "grandesíssima" é com esse ou com zê, e queria mostrar que i really don't give a fuck. Como também não dou um fuck pra invasão dos anglicismos devastando nosso patrimônio nacional, yeah!) .
Mas por menos que eu goste da correção ortográfica, eu ainda gosto muito menos da coluna social. E "nome & sobrenome" me pareceu o nome mais infeliz e inadequado do universo pruma revista no país do PCC. Pra não falar no "luxo" em prateado e dos cavalinhos na capa. Então não custa tripudiar um pouco. E lembrar que a elite, além de branca, na maior parte das vezes também é burra pra caralho.

selecione você também seu ambiente


essa já faz um tempo, eu deixei passar, mas como toda situação ridícula ainda me persegue de vez em quando. Dia desses a Zero Hora fez uma matéria sobre a proibição da cobrança de consumação na noite de Porto Alegre, com a substituição do valor por ingresso, essas bobagens que entram no jornal quando falta pauta. E aí entrevistaram uma que outra pessoa sobre o que elas achavam de comprar ingresso pra entrar em casa noturna. E das duas ou três que foram perguntadas, duas delas disseram que era bom porque ajudava a selecionar o ambiente. Ou o público, agora não lembro. Ruim igual, em todo caso.
Não que o preconceito me choque - isso é um troço meio esperado e óbvio. Mas tinha uma época que as pessoas ainda conseguiam mentir pra si mesmas, tipo assim, que entravam em lugares caros porque eles tinham um "ambiente mais legal", um "serviço melhor", um "público refinado", um "som ótimo", uma "decoração da moda", ou qualquer outra dessas desculpas idiotas. Mas agora pelo visto o pessoal anda mais direto. É só porque nesses lugares não entra pobre mesmo. Pelo menos é sincero. Não que isso adiante pra muita coisa.

quinta-feira, maio 25, 2006

paciente

(s.m.) aquele cara inconveniente que fica entre o médico e a doença a ser tratada.

segunda-feira, maio 22, 2006

exército de um homem só

da coluna do Gabeira na Folha de SP (disponível na íntegra no site do cara):

"[...] Segunda-feira, auge da crise de violência em São Paulo, parti para Brasília para fazer um discurso de solidariedade e propostas, pensado durante o fim de semana sangrento. Não pude realizá-lo até o fim, embora o plenário estivesse vazio. Minha palavra foi cortada por um presidente ocasional. Ele vem do Norte toda segunda-feira e assume a presidência porque não há ninguém para abrir as sessões. Dá a impressão aos seus eleitores de que é importante, embora já tenha sua prisão preventiva decretada e inúmeras processos. Limitei-me a dizer: "Vossa Excelência é um bandidaço", embora soubesse que até os insultos seriam usados por ele junto aos eleitores como sinal de importância. A um jornal de Brasília, declarou que aqueles que assistem à TV no seu Estado pensam que é o presidente da Câmara.
Ele é desse numeroso e sórdido grupo com que, depois de tantos anos de lutas e sonhos, tenho de conviver no café da Câmara: contas fantasmas, entidades fantasmas, ambulâncias superfaturadas, desvios de verbas no hospital do câncer. A própria luz do Planalto atravessando as vidraças e banhando os flocos de poeira que flutuam nos torna também fantasmas, e você olha a mancha de iogurte na mesa do café, duvida se aquilo não é um ectoplasma desses putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das secretárias. [...]"

E, bom... Alguém pode até argumentar que não é lá muito político chamar os membros da Câmara de "putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das secretárias. E que talvez isso seja simplesmente jornalismo, literatura, barulho, que não é isso que vai mudar alguma coisa e, enfim, é capaz até de estar certo. Mas no meio do lamaçal o Gabeira transparece pra mim como o único cara que parece reagir duma forma humana em relação à tal crise política. Tipo, o cara aparenta ficar simples e sinceramente puto, como qualquer um de nós, a ponto de chamar deputados de ectoplasma. E enquanto uns se defendem por necessidade e os outros atacam por interesse num lugar onde todo mundo já perdeu a moral, ele parece ter sobrado como a única figura que parece ser humana antes de ser Vossa Excelência. Algo como o que o próprio Lula conseguia passar antes de engolir o gravador que alterna variantes de quatro ou cinco frases ("eu fui traído", "isso é conspiração de quem quer me derrubar", "esse é o melhor governo que esse país já teve", "eu sou um homem do povo", e não muito mais). Só que parecendo bem mais inteligente. Ou pelo menos escrevendo melhor.
Enfim, claro que talvez eu esteja errado. Talvez ele simplesmente escreva bem. E talvez falar dos colegas como "putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das secretárias" seja simples marketing eleitoral, assim como fazer discurso pomposo ou se fingir de presidente da Câmara. Que se foda. Se é pra ganhar voto, já ganhou o meu.

quinta-feira, maio 18, 2006

jusante (35 minutos faltando)

sim, a sensação ultimamente tem sido a de estar nadando o tempo inteiro contra a corrente. Mas ao mesmo tempo, e mais sincera, é a sensação de que ainda assim tem alguma coisa me esperando lá no começo do rio, algum lugar mágico bem junto da nascente. Quase vinte e sete, e a jusante é o que me move.