domingo, outubro 29, 2006

foi comprar cigarros e nunca mais voltou

não sei porque diabos eu não fumo também.

terça-feira, outubro 03, 2006

nunca foi tão fácil


alguém tá a fim de uma boquinha no Congresso Nacional? Hein? Ouvi alguém dizer “sim”?
Então porra, galera, mexam-se! Sério, acho que se lançar na vida pública nunca foi uma barbada tão grande. Basta ter menos de quarenta anos e um mínimo de carisma. Tipo, a tal da Manuela fez uns duzentos e tantos mil votos simplesmente sendo jovem. O cara do tempo fez uns outros cento e tantos mil. O Mano Changes se elegeu com um slogan que dizia “chega dos falcatrua” (além de ter quatro vezes mais amigos do que o pessoal do orkut deixa). Pra não falar no Clodovil, obviamente. Sei lá, acho que é o enfado da população com a classe política. Mas nunca foi tão fácil se eleger sem outra arma que não seja a própria juventude. Se combinada com ausência total de experiência, então, acho que é melhor ainda.
Sério, olhando a propaganda política na TV, onde todos os candidatos a deputado falam exatamente a mesma coisa, sempre me vem à cabeça o fato de que não pode ser tão difícil. Tipo assim:
1. Arranje uma causa pop que ninguém ou quase ninguém assumiu de bandeira, tipo a defesa dos animaizinhos perdidos.
2. Arranje um trejeito que te identifique, tipo um jeito engraçado de falar, um chapéu esquisito, ou algo assim.
3. Mostre o quão jovem e cheio de hormônios vicejantes você é, e o quanto você não tem absolutamente nada a ver com política.
4. Mostre um mínimo de senso de humor. É incrível como ninguém consegue fazer isso em campanha eleitoral.
5. Diga que você vai militar pelos jovens, patatipatatá.
6. E, sei lá, acho que tá feito.
Sério, se tem alguma coisa que me deixa otimista nessa eleição é que parece que a classe política dominante, que na prática me parece mais ou menos a mesma desde que acabou a ditadura (ou seja, desde que eu me conheço por gente), nunca pareceu mais desgastada. Ao mesmo tempo que, pelo outro lado, nunca foi tão fácil conseguir exposição nos Orkuts e youtubes da vida. Sério, alguém aí duvida que a velhinha do Tapa na Pantera se elegeria? Ou a Cicarelli? Ou talvez até o Astronauta Roger, pelo menos enquanto ainda era famoso?
E se alguém aí acha que eu tô sendo irônico e ridicularizando a situação, estão redondamente errados. Sério, se as Manuelas da vida não entrarem na política, sobra quem? Nelson Marchezan Júnior? Mendes Ribeiro Filho? ACM Netto? Sinceramente, eu não conheço pessoalmente nenhum dos três. Mas só pelo adendo depois do nome, já sou mil vezes o Mano Changes.
Só resta achar quem tenha saco de ser deputado no meu círculo mais próximo. Se alguém se dispuser, tô lançando candidatura pra dois mil e dez amanhã. Lembrem, comparsas dos vinte pra cima e quarenta pra baixo, que pelo menos por um tempinho a gente ainda pertence à restrita elite cultural que consegue ter diploma universitário, pagar as contas e ser proficiente no MSN. É a nossa hora. Aproveitem porque não dura muito. Mas enquanto dura, vamo patrolá.

segunda-feira, outubro 02, 2006

e onde andará a veia que salta?


o Chico é foda. De tão profeta, previu até o seu próprio destino.

“...Muito bem, Jasão. Você é poeta, perigoso, porque de repente está dando às palavras a intenção que interessa a você. Só que essa ansiedade que você diz não é coisa minha, não. É do infeliz do teu povo, ele sim, que anda aos trancos, pendurado na quina dos barrancos. Seu povo é que é urgente, força cega, coração aos pulos, pois carrega um vulcão amarrado pelo umbigo. Ele então como não tem tempo, nem amigo, nem futuro, e uma simples piada pode dar em risada ou punhalada como a mesma garrafa de cachaça acaba em carnaval ou desgraça. É seu povo que vive de repente porque não sabe o que vem pela frente, então ele costura fantasia, sai fazendo fé na loteria, se apinhando, se esgoelando no estádio, bebendo no gargalo, pondo no rádio sua própria tragédia a todo volume, morrendo por amor e por ciúme, matando por um maço de cigarros e se atirando debaixo de carro. Se você não agüenta essa barra, tem mais é que se mandar. Se agarra na barra do manto do poderoso Creonte, e fica lá em pleno gozo de sossego, dinheiro e posição, com aquela mulherzinha... Mas Jasão, já lhe digo o que vai acontecer: tem uma coisa que você vai perder, que é a ligação que você tem com a sua gente, saber o cheiro dela, o cheiro da rua. Você pode dar banquete, Jasão, mas samba é que você não faz mais não. Não faz! E aí é que você se atocha, porque vai tentar, e sai samba ruim. Essa é a minha maldição! Gota d’Água nunca mais! Samba aqui, ó! Você não engana ninguém! Gota d’Água nunca mais!...”
(Monólogo de Joana, em Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, 1975)

e de fato, eu ao menos não consigo achar explicação melhor pro fato da maior parte da obra musical recente do Chico parecer trilha sonora pra ficar tomando uísque numa cobertura do Leblon. Porque porra, quando o país te idolatra, as mulheres te amam, a crítica te unta continuamente de creminhos, e tu é provavelmente o maior cidadão brasileiro vivo, em algum lugar há de se perder a veia que salta. E, junto com ela, a ligação com um povo de cuja angústia já não se compartilha. E o que resta então é ficar enfileirando harmonias e enfeitando com letrinhas líricas. Ou então aprender húngaro e tentar se expressar na língua nova. Pensando bem, o Chico continua foda.

segunda-feira, setembro 25, 2006

o incrível mundo dos typos falhos

ô vocês da psiquiatralha, alguém sabe se algum psicanalista atinado já se prestou a estudar os atos falhos cometidos no teclado? Sério, esses "typos falhos" (acabo de criar o termo, o google registra zero ocorrências anteriores - um dia serei citado nos compêndios de psicanálise, vocês verão!) são uma das coisas mais doidas do processo criativo. Acabei de abrir o rascunho da minha coluna do argumento nessa semana e onde deveria ler-se "contemplem minhas pernas" eu tinha escrito "contemplem minhas perdas". E não tem como explicar sem meter o inconsciente no meio, pois tem umas boas 4 ou 5 teclas entre o "n" e o "d" no teclado. Lembro também uma vez de ter escrito um troço tipo "apanho o microfone e falho", e assim por diante, quase sempre coisas nessa linha, frustrações recalcadas se infiltrando no texto onde não deviam. E o mais doente é que não precisa nem de analista pra apontar, porque esse é um pedacinho particular da tua história psicanalítica fica salvo nos meus documentos.
enfim, só uma sugestão. Se alguém criar um teste projetivo em cima disso, fico feliz com um reles depósito de 1% da renda obtido com ele na minha conta bancária. Aceito cheque pré-datado, também.

domingo, setembro 24, 2006

do impacto do vestibular sobre a comunicação escrita

pra aproveitar o link do último post, é incrível como múltipla escolha faz parte do nosso inconsciente coletivo. Aliás, acho que quase daria pra construir toda uma obra literária escrevendo só em múltipla escolha. Tava até pensando em começar, mas morro de medo de procurar no google e descobrir que alguém já fez isso. Melhor guardar como carta na manga e não me dar o desgosto, por enquanto.

presságios funestos (manhê, eles tão dentro do meu quarto!)















quando você começa a enxergar e fotografar monstros como o da imagem acima nas tomadas do seu quarto, isso deve ser um aviso. Mas do quê?
a) é hora de dar uma ligada pro psiquiatra
b) é mais do que tempo de sair do quarto
c) talvez comprar um estabilizador de voltagem não fosse uma idéia tão ruim assim
d) talvez você esteja ficando meio dependente de aparelhos elétricos demais
e) cadê aquele anúncio de seguro contra incêndio da semana passada mesmo?

quinta-feira, setembro 07, 2006

pequenas atrocidades pra se ouvir de 4 em 4 anos


dum candidato obscuro do PRONA a algum cargo de deputado, no horário eleitoral:
"Direitos humanos? Direitos humanos são pra você e pra sua família! Vote PRONA, deus, pátria e família"
(ou seja, a humanidade termina na sua família, pelo que dá pra entender)
a gente sempre teve fodido, na real. Mas às vezes a gente só se dá conta em ano de eleição.

quarta-feira, setembro 06, 2006

panapaná














a minha singela e básica coluna do argumento não aceita figuras. Mas deu uma puta vontade de botar uma ilustração pra acompanhar, então resolvi jogar aqui mesmo. Os leitores que se virem com o hipertexto.
p. s. devo mais uma pro scott por ter trazido essa palavra massa à minha atenção.

(do arquivo, Xingu, 6/2005)

quinta-feira, agosto 31, 2006

não bebo, não fumo, não cheiro, não minto, só ligo o som meio alto...

...e ainda assim o mundo me enche o saco












(do patético "Caderno Equilíbrio" da Folha de São Paulo, 31/8/06, reportagem "Chega de Barulho"):
" Exposição constante a sons altos, música inclusive, aumenta produção de endorfina e pode levar à dependência...
... A endorfina é analgésica, suprime a dor, suprime a punição que a pessoa sofre, e isso é condicionante de comportamento. Quanto à noradrenalina, ela é prazerosa, o que leva a pessoa a repetir esse tipo de comportamento. Esses mediadores químicos provocam uma ativação cerebral e combatem a depressão nervosa...."
Conclusão natural do parágrafo acima: "vá ouvir música alta", certo?
Não! Não para o Caderno Equilíbrio, porque aparentemente a liberação de substâncias prazerosas no corpo parece ser muito perigosa. Como explica um psiquiatra mais adiante, "tudo que é prazeroso pode levar ao vício." Ah, bom.
Ou seja, agora que meter o pau no tabaco e no álcool já nem tem mais graça, resolveram que a gente tem que ter muito cuidado com música alta. E não porque ela deixe surdo, ou algo assim, mas porque... ela causa prazer. Puta que o pariu, que medo.
(sinceramente, só me resta lamentar por um mundo que envereda pra esse lado. E mandar esses ridículos psiquiatras equilibrados irem comer biscoito de arroz integral com fluoxetina e deixarem os seres humanos em paz. Ou então que irem tomar uns porres e vomitar no meio-fio, sei lá. Faria um bem danado pra eles)
(e, bom, já que música alta não pode, talvez eu tente a cocaína)

quase um haicai (i)


Bahia, aquela puta
deu pra Todos os Santos
e hoje vive das pensões

terça-feira, agosto 29, 2006

roam seus ridículos negativos de 35 mm


Da Folha, sobre o festival de curtas de São Paulo
"... o curta, justamente por sua duração, se adapta bem para exibição em espaços que há alguns anos eram estranhos ao cinema: a internet e os telefones celulares. E a mostra dialoga com tais mídias: serão exibidos 18 trabalhos do Fluxus, festival de cinema na internet, e também o filme brasileiro "Tapa na Pantera", visto mais de 1 milhão de vezes no http://www.youtube.com/..."

Com licença? 1 milhão de pessoas? Desculpem, mas isso não é tipo, a segunda ou terceira bilheteria do cinema nacional esse ano?
(bom, checando no youtube o número ali presente é 590.087. E crescendo. Ainda assim, puta que o pariu)

Algumas considerações:
a) o pior é que, pelo menos pra quem tá de cara, o filme nem tem muita graça.
b) mas a questão não é essa.
c) A pergunta que não quer calar é "o que raios a gente ainda tá fazendo em festival de cinema?"
d) Tipo, o curta-metragem mais bem sucedido na história do cinema brasileiro não deve ter tido essa audiência toda em anos. Quanto mais em semanas.
e) Em todo caso, é mais ou menos o mesmo fenômeno que faz com que editar um livro fuleiro com uma tiragem de uns mil exemplares (dos quais quinhentos vão pro teus amigos e quinhentos vão encalhar) seja pra quem escreve o passo posterior a botar um blog no ar que vai estar disponível instantaneamente pra uns dois bilhões de pessoas (cerca de dois milhões de vezes mais)
f) o que no fim das contas deve ser só reserva de mercado. No momento em que qualquer adolescente espinhento pode montar um blog ou filmar alguma merda numa câmera digital e montar em casa, quem se diz "escritor", "cineasta", essas coisas pomposas, tem que se defender de algum jeito. E aí, como bons capitalistas, se apela como sempre pro grande fator de exclusão e estratificação universal
g) o dinheiro, óbvio.
h) e subitamente se declara que cineasta é quem filma em 35 mm, escritor é quem tem editora, fotógrafo é quem tem sabe-se lá que câmera, e assim por diante.
i) e assim se mantém os adolescentes longe do campinho.
j) vá lá, um pouco disso também é porque a gente ainda não aprendeu a se fazer ouvido nesse mar lamacento de informação. Ou não parou pra estudar uma estratégia.
k) mas puta que o pariu, que a gente tem que reformular urgentemente algumas idéias, ah tem.
l) porque a mentira que arte é uma coisa cara de fazer simplesmente não tem como perdurar por tanto tempo assim. Graças a deus, aliás.

domingo, agosto 20, 2006

o mundo ruge lá fora


e a gente atrás de portas fechadas discute koffs de enzimas e medidas do baço. Quando diabos a gente aprendeu a tapar os olhos pro mistério?

sábado, agosto 12, 2006

desculpa por coisas eventualmente óbvias como o post abaixo

a historinha abaixo é óbvia, mas bem ou mal é um troço que começou a fazer um puta sentido de um temo pra cá. Provavelmente porque o óbvio nem sempre é uma concepção instintiva. Entender um troço racionalmente, às vezes, é um tanto diferente de se dar conta de algo, de fato. Tipo quando a minha turma da faculdade passou no estágio de Ginecologia e um amigo meu comentou, meio perplexo, algo como "cara, tu já fez toque vaginal no estágio? É igual a meter o dedo numa buceta". Na hora eu fiz a minha cara de "óbvio, por definição um toque vaginal é mais ou menos isso". Mas naquele dia mesmo eu me dei conta que se dar conta de fato disso era diferente. Aliás, a figura que disse isso ganhou algumas estrelinhas de admiração naquele dia por ter dito aquilo. A maioria das pessoas raramente tá aberta a se dar conta das coisas. Ainda mais do que é óbvio.

sabedoria zen feita em casa (com forno a lenha)

o homem que anda pela estrada nunca a enxerga inteira. mas o homem que enxerga a estrada de cima da montanha nunca a enxerga de fato.

sexta-feira, julho 28, 2006

aposentadoria o caralho

"FORTUNE magazine's 2005 Retirement Guide selects Boquete as one of the 5 best places in the world to retire..."
aposentadoria o caralho. já tô lá. esses americanos não têm a menor noção de hormônios. vou me empregar de assessor de marketing e montar slogans escrotos pra imobiliária, tipo "um lugar que escorre pela boca". ou "sinta um aperto de felicidade na garganta." esses americanos também não têm a menor noção de marketing.
(p.s. agradecimentos ao tiagão pela idéia roubada. espero que ele não chegue antes de mim)

terça-feira, julho 25, 2006

um post longo e uma vida curta


sei não, mas acho que a revolução digital finalmente tem chegado no meu estômago. Talvez sejam só as circunstâncias que fazem o assunto mais presente. Mas a minha impressão é que mais e mais a minha perspectiva de vida tem sido cada vez moldada pelo ritmo absurdamente rápido do mundo à minha volta, em que os prazos de validade dos sonhos expiram cada vez mais rápido. Mas deixa eu começar do começo.
Até um tempo atrás eu tinha o meu discman. Ele era talvez o meu objeto mais querido, a ponto de uma vez há um pouco mais de cinco anos eu ter escrito um texto pra mim mesmo chamado “o discman e o mundo”. Ele começava, ingênua e pretensiosamente como convém a um guri de vinte anos, assim:

“Sou um fruto da geração CD, e isso pode parecer vago, mas na verdade é bem mais específico do que parece. Sou novo demais pra ter qualquer nostalgia em relação a vinil. Não que não os tenha conhecido e até ouvido, mas na minha memória LPs estão inevitavelmente guardados num armário. Do meu pai. Por outro lado, sou apaixonado demais pelos pequenos discos prateados em suas caixinhas tipo jewel box (como dizem acertadamente os americanos pra denominar o compartimento de um item tão precioso) pra conseguir aceitar a invasão iminente da música digitalizada em MP3 sem torcer o nariz.”

Rárárá. Ou, como se diria no MSN, huahuahuahuahuah. Naturalmente, durou um pouco mais de um ano até que eu deixasse de comprar CDs pro resto da vida, sem sentir nenhuma falta. E um pouco mais de quatro até que eu abandonasse eles completamente pra quem queira vir pegar aqui em casa.
E mais do que isso, desde então eu dou e continuo dando o testemunho vivo de que o Napster mudou a minha vida. Precisamente por ter feito a minha coleção de CDs que eu achava tão preciosa (eu era daqueles caras que guardava discos em estantezinhas, classificados em ordem alfabética) se tornar um troço absolutamente sem sentido de existir. E isso não foi ruim. Pelo contrário, isso sinceramente incorporou na minha cabeça o conceito de que acumular coisas era um troço meio sem nexo. Pelo simples fato de me dar conta de que maioria das coisas, incluindo toda a música do universo, estava disponível quando eu precisasse. Às vezes pagando, às vezes de graça. Mas que eu podia esperar precisar. Isso me fez, entre outras coisas, abandonar a minha biblioteca na casa da minha mãe, começar a passar livros e discos adiante quando parecia a coisa certa a fazer, ridicularizar de vez a idéia de comprar artesanato em viagem, me despreocupar em arrumar o meu quarto e ter a impressão de que eu preciso de bem menos dinheiro do que antes pra viver bem. Tudo isso hoje em dia me faz um cara bem mais feliz, e eu sou infinitamente grato à pirataria pro resto da vida por isso.
Mas vá lá, isso já anda mais ou menos incorporado há horas. Construir ou acumular coisas sólidas na modernidade líquida não faz sentido porque a validade delas expira antes que a gente consiga terminar. Parece óbvio. O novo é que essa mesma mentalidade agora parece estar lentamente se incorporando no plano das idéias. Parando pra pensar, eu tenho a impressão de que uns tempos pra cá escrever um livro, ou simplesmente o ritual de sentar depois do temporal pra tentar colocar as idéias no lugar e fazer um sentido das coisas parece tão fútil quanto organizar uma estante de CDs. Pra começar, porque tenho sérias dúvidas se alguém ainda vai estar lendo livros de papel daqui a 20 anos. Segundo, porque tenho sérias dúvidas se a noção de “livro” ou de autoria como ela existe hoje vai existir daqui a 50 anos. Terceiro, porque parece reproduzir cultura dum jeito moribundo, e tomar o lado do establishment ao invés do lado da revolução parece um papel deplorável pra qualquer artista. E por último, naturalmente, porque tenho a impressão que qualquer idéia ou projeto que leve algum tempo pra desenvolver pode ter perdido completamente o sentido no momento em que esse tempo tenha passado.
Isso me lembra com uma conversa de bar com o Gilson, meu parceiro de cinema, em que eu perguntei, pela milésima vez, porque raios fazer filmes pra essa gente que faz cinema como profissão tinha que ser tão caro e profissional e em 35 mm, e porque raios eles não pegavam uma câmera digital e uma equipe enxuta e faziam tudo low budget. E de tanto insistir, eu consegui arrancar um certo “pois é, eu estou começando a pensar um pouco assim” (cineasta profissional não se entrega tão fácil). E aí me deu uma explicação a respeito, falando de terceiros, mas de um jeito que pelo menos parecia um tanto quanto confessional. Que dizia algo tipo “velho, isso é complicado. Mas às vezes tu tem que pensar que o cara estuda e trabalha um tempão, dez ou quinze anos, sonhando com o dia que vai fazer um longa-metragem seguindo aquela tradição de sempre, 35 mm, várias semanas de filmagem, um troço tipo “A Noite Americana”. E aí quando ele finalmente chega no momento da vida em que isso passa a estar no alcance dele, as regras mudaram, e o tempo desse sonho meio que passou. É foda...”
(Obs: não sei se ele repetiria essa história sem a taça de vinho na frente, e também não sei se as palavras foram exatamente essas. Mas esse é o jeito com que eu prefiro lembrar da história, e eu admiro o cara um monte por ter contado ela do jeito que eu me lembro. Mesmo que ele não tenha dito nada disso).
Em todo caso, a questão é que acho que a minha sensação dos últimos tempos, no fim das contas, passa um pouco por aí. Não sei se os meus projetos de longo prazo não andam perdendo um sentido num mundo que muda tão rápido. Livros? Estranho como meio de permanência, no mínimo. Achar uma editora? Huahuahuahuahuah. Ciência? É como ser uma formiga no meio de milhares de pós-docs chineses trabalhando sessenta horas por dia pelo mundo afora.. Em todo caso, nada parece destinado a alguma forma de permanência. E eu não estou falando da imortalidade afora: nada que demore muito pra alcançar parece dar muita garantia de que vá continuar fazendo sentido quando eu chegar lá.
E como o mundo é quem dita todos os movimentos do jogo, talvez a única arte que ainda faça sentido de fato seja aprender a reagir. Talvez o único jeito de não ser ultrapassado seja afundar de vez na dispersão e tentar deixar de fazer um sentido estático das coisas (aliás, não deve ser coincidência que o meu único livro se chama “Estática”), e tomar o movimento e a efemeridade como as únicas realidades com que a gente pode de fato contar. E esquecer a história toda de fazer sentido, pois os únicos sentidos que continuarão a fazer sentido são os feitos na hora, em breves conversas de bar ou em postagens soltas, aqueles que não se importarem em morrer logo após de nascerem. Na prática, talvez a literatura já nem exista mais. O que existe é um mar de informação se atualizando todos os dias, e se tornando cada vez mais uma coisa só. E como o mar é muito maior do que o que cabe nas nossas veias, a gente nunca vai apreendê-lo. O máximo que a gente pode fazer é tentar flutuar e seguir sobrevivendo dentro dele.
E o mais engraçado de tudo é que nada disso chega a me fazer sofrer. No máximo talvez me cause uma certa desorientação, mas que em todo caso é quase despreocupada. E talvez seja justamente essa tranqüilidade a prova última de que eu ande incorporando de fato a dispersão como inerente à vida. E o que então resta fazer com todo esse barulho, no momento em que pensar ou escrever parece não dar conta do que se tem a dizer na velocidade adequada? Sei lá, acho que só o tempo dirá. E provavelmente vai acabar se desdizendo logo depois.

"a vida não imita a arte...

...ela imita programas de TV ruins" (Woody Allen)
ou alguém tem mais alguma explicação pro fato de que os criminosos mais famosos do país se chamam os "Irmãos Cravinhos"?

sábado, julho 22, 2006

milagre da multiplicação dos posts

de tanto eu me queixar que ninguém comentava porra nenhuma que eu escrevia, parece que uns spammers belgas ficaram com pena e postaram uns 60 comentários duma vez só com os links pro lixo comercial de sempre (pílulas de dieta, oportunidades de ficar milionário sem sair de casa, etc.). Uma poluição do caralho, mas pelo menos é sempre bom saber que tem gente que se importa contigo no mundo.

quarta-feira, julho 19, 2006

fugindo de babel


pros que insistem em martelar que tudo já foi dito:
a) é verdade. E se nem tudo foi dito (como argumenta o Toni no seu egomaníaco e freqüentemente brilhante "Entre"), certamente tudo pode ser formado por análise combinatória, como na Biblioteca de Babel e portanto já existe, em tese, no universo das combinações possíveis.
b) não importa. Porque a arte está no que se escolhe, e não no que se cria. E num universo de absoluto excesso de palavras, informações e opções, a única criatividade possível, na arte e na vida, é o saber cortar. E guardar apenas o que parece merecer ser dito.
c) eu tenho certeza que alguém já disse isso antes. Talvez o próprio Borges (atribuir coisas ao Borges sempre é bom negócio, como diria a autora daquele texto piegas pendurado em metade das repartições públicas do mundo). Ou então a minha própria namorada, de um outro jeito, num prefácio perdido na biblioteca da UFRGS.
d) mas também não importa. O que importa é que hoje de noite, escolher isso (ou o que quer que fosse) pra escrever é a resposta possível ao infinito. Que, no fim das contas, é tão desprovido de sentido quanto o vazio. Até que se comece a abdicar da maior parte dele.