quarta-feira, fevereiro 28, 2007

cartinha aberta ao papa


Para
Papa Bento XVI
Aposentos Papais
Basílica de São Pedro
Cidade do Vaticano
Vaticano


Caro papa Bento XVI,

Estamos escrevendo esta carta para lhe pedir um favor. Mas pode ficar tranqüilo, dessa vez não tem nada a ver com a camisinha ou com os anticoncepcionais. Até porque a gente adora bebês. Também não tem nada a ver com os muçulmanos, com os homossexuais ou com a masturbação. Ainda que pelo menos nessa última o senhor podia dar uma aliviada. Mas vá lá, a gente pode deixar essa discussão pra outra hora.
Voltando ao nosso assunto, então, o que a gente queria era pedir um apoio da sua parte pra uma amiga nossa que anda sendo injustamente denegrida pela igreja. Sim, estamos falando da Preguiça. Não conhecemos o autor da tal lista dos pecados capitais, e nem sabemos o que ele tinha na cabeça quando incluiu a Preguiça nela. O que a gente sabe, sim, é que desde que ela foi colocada na lista negra a Preguiça nunca mais conseguiu nada na vida. Nunca mais arranjou emprego em lugar nenhum, nunca mais apareceu com namorado por aí. Marido, então, nem pensar. Faz alguns séculos, pelo menos, que ela sai de noite e até consegue atrair a atenção de um gatinho ou outro (afinal a preguiça tem lá o seu charme), às vezes chega a dar um beijinho, quando muito uma rapidinha no banheiro. Mas quando ela se apresenta como Preguiça o papo sempre envereda pra algo tipo “pois é, sabe, eu tô aqui com um amigo e não posso deixar ele sozinho. Ou então “putz, esqueci de deixar comida pro cachorro em casa”. Ou até um “não, é que eu sou gay”, por parte dos mais desesperados. Particularmente se começa a aparecer gente conhecida em volta. Porque com essa história de pecados capitais ninguém hoje em dia teria coragem de admitir que namora a Preguiça. Não em público.
Resumindo, faz uns vinte séculos que ninguém liga pra Preguiça no dia seguinte. E isso não se faz com ninguém.
E se estamos falando da Preguiça, não é porque achemos que ela seja a única injustiçada da lista. De vez em quando trocamos uma idéia com a Gula e com a Luxúria também, e achamos elas umas gurias superlegais. Mas essas já tem lá os seus defensores pra fazer o seu marketing: a Gula tem o McDonald’s pra dar uma força, e a indústria pornográfica nunca deixa a Luxúria na mão. Mas a Preguiça, agora que o Jorge Amado morreu e o Dorival Caymmi não sai da rede há uns cinco anos, ficou sem ninguém pra defendê-la. E a gente gostaria de poder fazê-lo, mas ninguém escreve o que a gente lê nem ouve o que a gente diz. Então a gente achou que a única coisa cabível era pedir ajuda pro senhor. Ou pro Senhor, mas a gente não tinha o endereço desse aí, então resolveu tentar o senhor primeiro.
Assim, Sr. Papa, gostaríamos muito que você pensasse com carinho na situação da Preguiça. Não sabemos como funcionam esses assuntos internos de vocês, mas supomos que o senhor deva pelo menos conhecer um que outro cardeal na comissão de pecados capitais que lhe deva algum favor. Então confiamos que o senhor possa fazer alguma coisa pra livrar a cara da nossa amiga. E pode ter certeza, se nos ajudar, que se um dia o senhor for colocado na lista de pecados capitais, ou em alguma comunidade do Orkut que fale mal do senhor, a gente vai tentar ajudá-lo também.
Um grande abraço, agradecidos pela atenção,

Olavo Amaral e abaixo-assinados
Porto Alegre, RS
Brasil

sábado, fevereiro 10, 2007

pequenos esclarecimentos a respeito dos anos oitenta


(especificamente destinados a esse pessoal por volta dos 30 anos)
a) não, os anos oitenta não foram os mais loucos e selvagens da história da humanidade. Você é que era jovem naquela época.
b) sim, existiu música que presta no mundo depois dos anos oitenta. E você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que eu tô inventando, mas isso não me importa nem um pouco.
c) jogar atari não tinha lá muita graça.
d) os desenhos animados e seriados de tevê de hoje em dia são infinitamente melhores do que o que quer que passasse no final da tarde daquela época. Isso que eu nem vejo tevê.
e eu poderia continuar pra sempre, mas na verdade só o que eu queria dizer é que chega de nostalgia por essa década idiota! O que se passa com essas pessoas? Será que ninguém consegue criar significantes depois dos quinze anos?
mas se essa humilde reclamação não conseguir mudar o mundo e fazer as pessoas verem que existe alguma emoção do mundo depois da adolescência, vou partir pro plano B, e lançar ao mesmo tempo um almanaque dos anos 90, uma festa thrash anos 90 que toque aquele som dance argentino bagaceiro de FM (...no te preocupes mááás... o no... mantienga el movimiento...), uma edição comemorativa de quinze anos do megadrive, uma banda cover do Oasis e um brechó de camisetinha xadrez amarrada na cintura. Fazendo as contas, o pessoal que era adolescente nessa época andou se formando nos últimos dois ou três anos, e os primeiros otários dessa geração a adquirirem poder aquisitivo já devem estar nas ruas. O filão de mercado lateja. É só cravar os dentes.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

cadernos de literatura brasileira, vol. 3478


apareceu a nova literatura. Depois de uns vários anos de críticos chatos dizendo que "pois é, a internet ajudou a veicular os escritos de muita gente, mas ainda não criou nenhuma forma literária nova de fato, etcétera e tal", eis que surge... o conto-comunidade-do-orkut-vindo-do- inferno. Sério, se vocês usam o dito cujo, chequem out as pérolas desse maluco. Verdade que uns noventa por cento das seiscentas e tantas são irritantemente idiotas, mas os dez por cento que sobram (tipo essa, essa, essa, ou ainda essa) valem a viagem. E não há quem possa dizer que não seja obviamente literatura.
mas o mais louco de tudo é que não há nenhum troço desses que não tenha pelo menos uns 500 membros que, pasmem, discutem a respeito do que foi escrito. Ou seja, pelo menos em termos de divulgação pessoal, esse cara é um gênio maior. Provavelmente nesse exato momento (quarta-feira de noite às 23h20) tem mais gente discutindo a obra dele do que a de Machado de Assis. E o pior é que é sério. No fim das contas, não sei o que diabos eu ainda tô fazendo no blogger. Menos ainda o que eu tô fazendo no word. E eu não vou nem entrar no mérito do papel.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

as veias abertas da américa latina


hã, se alguém aí ainda tem alguma esperança nesse continente, dêem uma olhada na interminável tripa de comentários sobre esse vídeo oportunista, tosco e vagamente genial de um coitado no equador. Sério, me parece que de cada três insultos ao filme, dois começam com "indio de mierda". E o terceiro começa com "negro de mierda", porque aparentemente gente meio escurinha dá tudo na mesma. E cada um desses insultos é imediatamente respondido por um "calate argentino hijo de puta", ou algo do gênero. Na real a coisa parece igual em qualquer lugar: vale a máxima que ninguém é racista até ser insultado por um negro, ninguém é xenófobo até ser lesado por um estrangeiro, e assim por diante. Mas o mais engraçado é ler esses troços e depois ver a elite branca da américa latina perplexa por não saber de onde vêm os hugo chávez e evo morales da vida. Talvez ela possa olhar pra dentro dos seus próprios apartamentos com internet a cabo e ver a mentalidade da sua prole no youtube. Tudo volta.
e no meio da distopia toda, provavelmente o único comentário insultante que se salva (e que eu não consigo achar mais) é um troço que dizia algo tipo "uau...se esse cara fosse boliviano, ele seria ministro da cultura". Vá lá, talvez seja preconceituoso igual. Mas pelo menos tem um saudável resquício de inteligência.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

saudades do fórum social mundial

Na praça de alimentação:
- bom dia, senhor, o que vai ser?
- hmm... você sabe me dizer se essa bolachinha é feita com sal marinho?
- hããã...
(vai perguntar no fundo da cozinha e volta)
- É... Tudo o que a gente tem é orgânico e natural.
- Ah bom. Então me vê duas.
Porra, não dá pra imaginar que algum lugar no meio do Quênia tenha as mesmas condições de apreciar devidamente um evento onde se vendiam camisetas com a cara do Stalin. Onde se agitavam bandeirinhas de Cuba em shows de rock. Onde se linchavam suspeitos de estupro com as próprias mãos. E onde até rolava alguma coisa legal nas entrelinhas quando se sabia procurar direito. Ou mesmo se não se soubesse, porque a deriva costuma ser mais eficiente nesses casos. Bem ou mal, um evento tão complicado, confuso, desorientado e vital quando o mundo que ele buscava representar. Foram uns tempos legais aqueles em que Porto Alegre existiu no mapa múndi. Até um bando de tapados resolver que um outro mundo só era possível sob as benesses de um único partido, incidentalmente aquele que governa o país (aliás, será que isso só parece estapafurdicamente absurdo pra mim?). Enfim, a tacanhice sempre vence, no fim das contas. Mas foi legal enquanto durou.

terça-feira, janeiro 23, 2007

URGENTE - alerta de vírus FATAL de iPod


(praticamente uma história de terror)
estava eu trabalhando tranqüilamente no laboratório hoje de tarde quando comecei a ouvir baixinho aquela voz esganiçada cantando "eu dormi na praaaaaça... pensando nelaaaaaa...". E aí comecei a olhar em volta pra procurar de onde estava vindo, mas não vi nem computador nem caixa de som à vista. E aí me dei conta, com um arrepio na espinha, que o som estava vindo do meu bolso!
É sério. Eu juro, juro, juro por deus, por mais que essa história pareça literatura, que o meu iPod começou a tocar Bruno & Marrone sozinho. E tentei disfarçar na hora, peguei o troço rápido pra desligar. Mas eu já era motivo de chacota pra todos os presentes no resto dos dias.
Então sensibilize-se com essa causa e faça seu dever. Espalhe este alerta de vírus de iPod pelo mundo afora. Nem a Norton, nem a McAfee, nem a Microsoft e nem a Interpol tem um antivírus que funcione. Então pelo amor de deus nem sequer pense em fazer seja lá o que eu fiz pra merecer tal maldição. Seja lá o que tenha sido. Da minha parte, em todo caso, já prometo de antemão pro papai do céu que não compro mais aquelas revistas de pornografia tcheca bizarra em quiosque de beira de estrada.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

a uma leitora anônima


eu queria ter poesia pra botar aqui. Há pouquinho alguém perguntou se eu tinha um blog e aí eu dei o endereço e pensei “putz, aquela pessoa anônima vai entrar naquele troço anódino esperando, sei lá, pelo menos um pouco de literatura e... cadê?”. Sei lá, desde que eu dei pra me preocupar com coisas e causas maiores a poesia parece ter tirado férias. Talvez porque a poesia não tenha sido feita pra causas maiores. Maiakovski que me perdoe, mas acho que a poesia (verso ou não verso, não é uma questão de parágrafos, eu podia usar “literatura” mas não é uma palavra tão bonita) precisa de coisas que sejam apreensíveis numa escala humana. E o mundo já deixou de ser apreensível há tempos, pra mim ao menos. Pelo menos de uma vez só. Na real mesmo o meu restritíssimo metiê de cientista já me parece grande demais pra ser apreendido de uma vez só, então o que dizer do mundo inteiro. Então talvez eu precise voltar os olhos pras coisas simples. Hoje de tardezinha um pouquinho antes do sol se pôr ele entrou pela fechadura do banheiro do Elo, bar adentro, e formou um raio comprido e pungente que dava pra acompanhar por uns dois, três metros, até ele se chocar com a madeira velha do bar. Eu queria um troço mais ou menos assim pra poder trabalhar. Por outro lado, eu não posso ficar sem o mundo, porque enfim, ele tá aí, e isso já parece um bom motivo pra estar nele. Então talvez o verdadeiro desejo é que o mundo se transformasse em alguma coisa simples assim. Simples o suficiente que desse pra cantar com o meu conhecimento tosco de música sem que ninguém sentisse falta das diminutas, sem que ninguém sequer cogitasse a hipótese de um acorde aumentado. Se alguém tiver uma boa sugestão faça o favor de me avisar.

terça-feira, janeiro 16, 2007

lava, passa, seca, cozinha, amarra os seus cadarços e faz cafuné, com flocos crocantes

mais duas do extreme tracker, só pra deixar o papai polímata todo coruja com o seu blog multiuso:
as+melhores+prostitutas?
máquina+para+desentupir+cano?
taquilalia: a solução que você precisa.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

eu na área (e a jovem fla também)























verdade que se todo mundo for não vai ter espaço no elo. Especialmente se todos os trinta em transe resolverem aparecer. Mas suponho que a boa e velha brincadeira de botar metade da cena cultural de porto alegre dentro dum mesmo cubículo continue legal como sempre. Longa vida a esse tal de elrodris.

domingo, janeiro 07, 2007

alguém com mais coragem do que eu


isso é o que eu chamo de encarar o demônio de frente

começou a revolução cultural!!!



estapafurdicamente, parece que é verdade. Aparentemente a brasil telecom e a brturbo ambas acataram a ridícula decisão da justiça de bloquear o youtube inteiro por causa de uma mísera trepada no mar. Alguns avisos de utilidade pública.

1. O site ainda acessa normalmente usando um proxy qualquer, inclusive o da ufrgs (e suponho que o de qualquer universidade pública). Senão, dá pra pegar um proxy de web (tipo esse aqui) e entrar por ele, que aparentemente funciona do mesmo jeito.

2. E segunda-feira é começar o panelaço. Eu ao menos pretendo me descadastrar do BR turbo o quanto antes. Não porque o youtube me seja tão importante pra mim, mas pelo puro dever cívico de mandar a falência qualquer idiota que aceite censura arbitrária assim tão facilmente. Tô escrevendo pro jornal amanhã, também. E espero sinceramente que bem mais gente esteja se mexendo. Não acho que essa pataquada vá durar. Mas se por acaso dura, a gente tá completamente fodido. Então não custa fazer escândalo, pra garantir que não se repita.

belisquem-me, please

hã, o youtube tá fora do ar aqui em casa. Alguém por favor me belisque e diga que isso não tem nada a ver com essa pataquada ridícula da justiça de São Paulo a respeito do vídeo da Cicarelli.
Vá lá, é mais provável que tenha sido só um crash, mas em todo caso tô me antecipando pra discutir o assunto. Não acho que sequer caiba a discussão de se faz sentido ou não fechar o veículo de mídia mais importante dos últimos tempos por inteiro por causa de uma mísera trepada no mar (algo um pouquinho análogo a dinamitar uma cidade inteira porque tem uma maçã podre num mercadinho de bairro). Ainda por cima depois que todo mundo já assistiu. Isso é uma discussão ridícula na qual sequer vale a pena argumentar sob pena de soar óbvio ao ponto do ridículo, e suponho que nenhum argumento em contrário possa se sustentar por muito tempo.
A questão maior, a meu ver, é como diabos um tribunal de justiça tem poder pra determinar isso de uma hora pra outra, assim na maior? Tipo assim, eles também podem resolver que todas as televisões tem que ser retiradas das casas das pessoas porque tem algum canal passando putaria? Ou bloquear todas as emissões de rádio porque alguém disse palavrão? Não entendo muito bem como o judiciário funciona, mas será possível que não tenha nada na constituição que previna que um juiz oligofrênico em algum lugar ponha a mídia do país abaixo por causa de um surto de apoplexia?
E bom, se for verdade, alguém me acorda, por favor. E no que a gente acordar, é começar o panelaço geral. Eu particularmente sugiro que todo mundo que baixou essa merda de vídeo mande ele por e-mail pra toda a sua lista umas 10 vezes. Se ficar muito grande, mandem só a parte que ela se sacode que nem um sapinho no cio. Ah, e não se esqueçam de enviar pros nossos deputados também. O site da câmara tem o mail de todos eles. E não se esqueçam de colocar alguma coisa tipo "no youtube tem muito mais desses" no subject. Talvez aí aqueles putos que pintam o cabelo e beliscam a bunda das secretárias tomem alguma atitude a respeito.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

sinais de vida terrena inteligente



verdade que é na escandinávia, mas é sempre um alento. Aliás, os suecos continuam tão na frente do resto do mundo que eu me pergunto porque diabos a gente não dá mais bola pra eles. Vá lá, o partido pirata (motivo do post que vos fala, com o logotipo aí do lado) só ganhou 0,63% dos votos nas últimas eleições. Mas só a existência de um troço desses em algum lugar do mundo é sinal de que existe vida muito mais inteligente por aí do que a gente costuma imaginar.

Não convencidos de que há motivo prum troço assim? Chequem out essas estatísticas de investimentos que os putos da Pfizer, Novartis e AstraZeneca têm a cara dura de botar no ar. Aliás, o resumo da "política sobre patentes" dos amigos piratas é tão simples, singelo e convincente que eu não sei porque eu não fiz essa conta antes.

Esse papo todo parece sério demais? Leia as respostas do pessoal do PirateBay a ameaças legais diversas.

Necessitado de estímulo audiovisual? Assista um filminho de meia hora sobre essa história toda. Tem um quê de filme institucional, e umas imagens de Hollywood explodindo meio constrangedoramente adolescentes. Mas a intenção e a causa são as melhores possíveis. Tô entrando no paypal amanhã pra dar o dólar que eles pedem no final.

E lembrem-se antes de dormir, fofos, que um mundo em que "compartilhar" é considerado uma atividade ilícita, ilegal e perigosa é um mundo sem a menor possibilidade de redenção. Nada é mais claro e óbvio do que a palavra, no fim das contas. E se os monstros verdes escrotos da MPAA quiserem ganhar essa briga, eles vão ter que reescrever o dicionário.

Evite lavar o seu cérebro. O mundo agradece.

sábado, dezembro 23, 2006

auschwitz no quintal de casa



por algum motivo acho que essa versão moderna da lista de schindler não vai ganhar aqueles óscares todos. Mas me fez botar o link da anistia internacional aí no canto da página. De vez em quando um soquinho no estômago faz bem. Pena que tenha estreado com ridículas 15 cópias lá na terra dos klingons e tenha desaparecido da programação do cinema por aqui tão rápido quanto entrou. Suponho que a assessoria de imprensa dos judeus deva ser melhor do que a dos paquistaneses. De qualquer maneira, não custa clicar no link da anistia. Funcionando ou não, é sempre divertido mandar e-mails pra endereços tipo f_castro@cuba.gov.

terça-feira, dezembro 19, 2006

breviário de uma ponte aérea comprida

todos os posts que eu teria colocado anteontem se já tivesse internet na estratosfera

(a) agradecimentos à Organização Mundial do Comércio e às Leis de Propriedade Intelectual
pela oportunidade única de ver as economias de pessoas doentes serem revertidas para entreter o meu vôo de San Francisco pra Miami com anúncios televisivos de homens de meia idade felizes recomendando remédios pro colesterol, antialérgicos e descongestionantes nasais. Era exatamente o que eu queria ter de volta por toda a grana que já gastei em Claritin D na vida. Sério, como diabos o mundo pode ter sido convencida de que a grana que se gasta em remédio serve pra fazer ciência?

(b) frases que eu gostaria de ter dito mas deixei a oportunidade pra alguém mais (i)
“If you’re a creative doctor, someone dies and you get sued”
(um certo Miles Beckett, ex-residente de cirurgia plástica e atual co-criador do bizarro fenômeno pop chamado Lonelygirl15).

(c) gestos brilhantes de autopromoção gratuita (i)
se algum dia eu for grande o suficiente em qualquer coisa pra despertar a ira dos críticos, eu juro que quero fazer igualzinho a esse cara. A história tá na “wired” desse mês.

(d) aliás
você sabe que o mundo anda estranho quando as tuas fontes sobre cultura pop passam a ser as revistas de informática.

(e) e por fim, um último comentário sobre idiotas correndo atrás duma bola do outro lado do mundo
tal como eu disse na alfândega, tão logo terminei de assistir o jogo no desembarque internacional, nada a declarar.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

américa, essa puta

digam o que queiram, o fato é que os Estados Unidos são uma puta. Uma puta fazida, é bem verdade. Fazem um charminho aqui e ali e vivem se fingindo de difíceis, feito na hora de te deixar tomando chuva na calçada enquanto espera pra pegar visto (pra alegria dos camelôs vendendo guarda-chuva a vinte reais), ou na cara cada vez mais mal-humorada dos funcionários da imigração. Mas no fim das contas, em menor ou menor grau, a América acaba dando pra todo mundo. Verdade que a qualidade do sexo varia conforme a grana do cliente. Pra alguns ela se entrega de fato, bundinha e tudo; pra maioria, por outro lado, sobra só um carinho de vez em quando, um cafuné aqui e ali, uma rapidinha num banheiro público. Mas qualidade do sexo à parte, todo mundo nesse país vai te contar que alguma vez teve uma de suas maiores fantasias realizada pela América.
Como uma meretriz da melhor qualidade, os Estados Unidos conseguem atender a todos os tipos de demandas, desejos e fetiches. Porque independentemente das possibilidades e expectativas do cliente, sempre haverá algo a ser conquistado aqui. Uma casa de subúrbio pra molhar o jardim depois de quarenta anos de dedicação à empresa? Got it. Internet sem fio com um emprego part time numa república de estudantes? Também tem. Educação razoável pros filhos que ficam em casa enquanto você carrega sofás? You bet. Maconha importada do Afeganistão via tele-entrega? Quando quiser, é só ligar.
É foda ter de admitir, mas essa ainda é a terra das oportunidades pra muita gente. E numa idade em que a minha geração está no momento de se agarrar nelas com unhas e dentes isso só se faz mais claro. E em cada cidade por que passo eu encontro alguém que de alguma maneira foi seduzido pelo fascínio da Grande Puta e conta que anda comendo ela de um jeito ou de outro. Uns são imigrantes clandestinos, outros são importados com méritos, outros estiveram aqui desde que se conhecem por gente. Mas todos parecem ir atrás de alguma coisa, e parecem encontrá-la. Sejam eles mexicanos de inglês porco trabalhando no McDonald’s, jovens empresários promissores em empregos de quatorze horas por dia, pseudointelectuais que acabaram a universidade e relaxam trabalhando como baby sitters ou surfistas brasileiros subempregados na Califórnia. Todos se aproveitando dos Estados Unidos, cada um pros seus próprios fins.
E ainda assim, mesmo com a genitália assada de tanta gente pra satisfazer, a América segue se comportando como uma profissional do sexo por excelência. E como as melhores prostitutas, ela jamais se deixa apaixonar por nenhum dos seus clientes. Por mais que trepe com montes de gentes nos mais diferentes níveis e posições, ela nunca se entrega de fato, e o seu cerne permanece intocado e inalterado. Porque independentemente do uso que se faça do sistema, o pressuposto básico da vida aqui é que o sistema em si permaneça imutável, e que sua lógica fundamental não seja questionada. Paga-se uma quantia e se recebe por um serviço, de maneira geralmente mais regular e previsível do que em qualquer outro lugar. Os Big Macs são sempre iguais, como são os Whoppers, como são as highways, como são os shoppings de beira de estrada, como são as lojas de souvenirs. As ruas são sinalizadas, os correios funcionam, os garçons são gentis, e os Republicanos e Democratas se alternarão eternamente no poder pelo resto dos dias. Mudar o mundo e fazer revolução já saíram de moda há uns 40 anos, e mesmo mudar o país não parece um discurso particularmente efetivo. Até porque quem ia alimentar os mendigos se o Mc Donald’s fosse embora?
E o que me deixa meio perplexo, de vez em quando, é tentar entender como diabos a máquina continua rodando tão vigorosamente e sem acidentes quando a vida é fácil mesmo pra quem se mantém à parte dela. É fácil entender que a galera estrebuche trabalhando no Brasil, em que mesmo com uma jornada de doze horas muita gente mal consegue pagar as contas. Mas quando qualquer um se sustenta mais ou menos tranqüilo trabalhando de entregador de pizza, às vezes parece paradoxal que o sistema não entre em colapso. Mas suponho que o grande mérito da América seja exatamente o de saber seduzir as pessoas pra continuarem correndo. As cenouras na frente dos cães são inúmeras, elas brilham nas vitrines da Quinta Avenida enquanto o pessoal faz as compras de natal, elas se escondem atrás da parede de clubes lotados em que seguranças expulsam arbitrariamente as pessoas da fila, elas escorregam entre as celebridades nas revistas de fofocas. E mais do que qualquer outra coisa, talvez a maior das cenouras que mantêm a máquina girando seja a própria indiferença da Grande Puta. Porque como qualquer mulher esperta, ao nunca se entregar por inteiro, ela sempre deixa entrever alguma coisa a mais. E enquanto houver alguém que parecer estar comendo ela dum jeito diferente, é quase certo que todo mundo vai continuar tentando melhorar.
E assim, independentemente da gente, das eleições, do Iraque, do aquecimento global ou de quem quer que seja, a América segue andando em frente como um monolito imutável, proporcionando a satisfação garantida, imediata e previsível do consumo, contanto que se tenha grana. E ao mesmo tempo em que nunca pareceu tão fácil mudar o mundo (pelo menos se você for o dono do Google), nunca pareceu tão improvável que alguém consiga mudar os Estados Unidos, que vão continuar botando gasolina nos carros, comendo fast food, comprando nachos em jogos de baseball e enrolando copos de plástico em sacos plásticos pra servir drinks de plástico. O sistema é simples e direto demais pra aceitar sutilezas, e é exatamente isso que torna ele acessível pra tanta gente. E os detratores não se dão conta que o que faz o fascínio da América é justamente a sua previsibilidade.
Vá lá, pra quem quer virar o mundo de cabeça pra baixo, pode parecer péssimo. Mas a maior parte das pessoas está mais preocupada com a certeza do sustento em troca duma quantidade pré-estabelecida de suor e de grana. E pra isso, feliz ou infelizmente, continua não havendo lugar melhor no mundo. Pouco poético? Sim, e certamente em alguma outra terra os poetas hão de continuar sonhando com pássaros revoando e fontes murmurantes de água fresca. Mas em resposta a eles, os americanos hão de perguntar, perplexos, por que diabos se precisa de água fresca quando o Gatorade é mais barato. E não deixarão de ter alguma razão.

você sabe que a sua anorexia está ficando séria quando...

... até as placas de trânsito começam a rir da sua cara.















(Big Sur, 14/12/06)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

este blog orgulhosamente anuncia

que já é o sexto hit do google para os termos de procura "bebendo+própria+porra". Agradecimentos ao extreme tracker pela estupefaciente notícia. Aparentemente o meu hábito de usar a palavra "porra" pra qualquer porra finalmente anda rendendo frutos.

duas imagens pra ficar com um pé atrás em relação à tal de esperança


duas imagens pra se ter esperança no mundo
















(Utah, 10/12/06)