quinta-feira, outubro 25, 2007

comedores de criancinhas da contemporaneidade (i): computadores e jogos eletrônicos


é quase paranormal. O tempo passa, o tempo voa, e as pessoas continuam achando que videogame e computador são coisa do demônio. E isso inclui acadêmicos supostamente respeitados. Ou pelo menos é o que se depreende dessa pesquisa da American Psychological Association que acabou de aparecer no yahoo notícias (cujo release oficial tá aqui e diz a mesma merda). Chocantemente, nas conclusões da pesquisa lê-se o seguinte:

"While Americans deal with high levels of stress on a daily basis, the health consequences are most serious when that stress is managed poorly. Four in ten Americans (43 percent) say they overeat or eat unhealthy foods to manage stress, while one-third (36 percent) skipped a meal in the last month because of stress. Those who drink (39 percent) or smoke cigarettes (19 percent) were also more likely to engage in these unhealthy behaviors during periods of high stress. Significant numbers of Americans report watching TV for more than two hours a day (43 percent) and playing video games or surfing the Internet (39 percent).Healthy behaviors used to manage stress included: listening to music (54 percent); reading (52 percent); exercising or walking (50 percent); spending time with family and friends (40 percent); and praying (34 percent)."

a pergunta que me perpassa, óbvia, é "como diabos jogar videogame e surfar na internet foram parar no grupo de "comer excessivamente, fumar, e beber álcool", ao invés do grupo "ler, ouvir música, etc."" É absolutamente bizarro que em 2007 existam psicólogos profissionais da associação oficial da classe no país mais poderoso e evoluído do mundo dizendo que "ler texto num livro" seja uma atividade saudável e "ler texto na tela do computador" seja uma atividade insalubre. Quem é o idiota que concluiu isso? Qual foi o crime que as vidas passadas do videogame cometeram pra que ele tenha um karma tão incrivelmente negativo.
sério, pra qualquer pessoa nascida na era da informática, o fato de que o conceito de que "surfar na internet faz mal à saúde" ainda exista é atabalhoante. Vá lá, claro que excessos existem. Mas jogar videogame em excesso existe assim como fazer exercício em excesso, ler em excesso, ouvir música em excesso e rezar em excesso, e nenhum deles é saudável. Particularmente o último. Mas o preconceito ainda continua existindo, e ele parte de gente que define políticas de saúde do país mais influente do mundo.
explicações, só tenho duas:
(a) psicólogos e psiquiatras importantes tendem a ser um bando de velhos conservadores que, como a maioria dos pobres seres humanos, morrem de medo daquilo que não conseguem entender e conseqüentemente olham feio pra tudo que não compreendem.
(b) a tal pesquisa faz parte de uma campanha chamada "Mind/Body Health: For a Healthy Mind and Body, Talk to a Psychologist". E o press kit inclui até um telefone pra agendar uma consulta com um psicólogo pra manejar o stress. Hã, alguém aí na platéia sussurrou "conflito de interesse"? Putz, isso é quase pior do que a indústria farmacêutica.
e pra cada uma delas, só tenho uma sugestão
(a) lembrem do aviso do velho bob, ainda atual 44 anos depois.
(b) quite simply put, fodam-se todos e enfiem o dinheiro da consulta vocês sabem aonde.
e por enquanto é só. Outra hora escrevo um pouco mais sobre "como o mundo inteiro foi tornado doente mental pela psiquiatria moderna". Agora eu tenho que vomitar.

eu na feira (ii)

achei, tá aqui o anúncio oficial. Como pode ser constatado, eu tentei trocar a idade pelo ano de nascença na minha biografia pra ver se conseguia disfarçar o fato de ser o mais velho da trupe. Mas não sei se vai colar.

quinta-feira, outubro 18, 2007

eu na feira

a programação da feira do livro de porto alegre hesita em divulgar isso abertamente (seria medo do influxo excessivo de fãs?), mas aparentemente eu vou estar participando de um "encontro de jovens escritores" a ser realizado no dia de abertura da feira (26 de outubro) às 15h30 da tarde. A história vai contar com a mediação do Paulo Scott e com a participação de um pessoal novo e interessante da literatura de POA, incluindo este que vos fala. É pra acontecer na área juvenil da feira (talvez porque sejamos jovens, mas sabe-se lá...), na sala "Casa do Pensamento", Armazém A do Cais do Porto. Se vocês olharem direitinho na tal programação, verão que o evento de fato existe, ainda que o meu nome (e o dos outros participantes) não conste da lista.
se o convite acima não parece suficiente pra convencê-los a ir, repasso a convocação enviada a minha pessoa pelo Antônio Xerxenesky (que também vai estar por lá).

"Ei, vocês que participarão d'O Debate n'A Feira.
Espalhai a Palavra.
Se vocês não convidarem pessoas, ninguém irá. Não criemos ilusões, as pessoas não ficam caminhando pela feira do livro e "ó, está tendo um debate de jovens escritores, vou entrar!", ainda mais quando ela é situada na seção INFANTO-JUVENIL da feira (é no auditório que tem lá no Cais). Então convidem. Façam uma mega-divulgação. Ameacem castrar os amigos que não forem com uma foice enfurrajada que com certeza porta tétano em cada átomo. O espaço, se não me engano, é bem grande, cabe uma platéia de umas 200 pessoas. Enfim. Chamem mãe, chamem pai, chamem tia-avó, prima em terceiro grau, cachorro do vizinho. Acho que fui enfático o suficiente.
Forte abraço a todos e até dia 26."

enfim, acho que dá pra captar a mensagem. Ou pelo menos pra perceber que o pessoal é criativo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

emos protestam contra fábrica de picles

"estamos cansados de rótulos", afirmam.

notícias da colméia em tempos de DSM-IV


a abelhinha foi ao médico se queixando de um zumbido no ouvido e acabou internada na ala psiquiátrica. Disseram que estaria ouvindo vozes.

quinta-feira, outubro 04, 2007

pra quem acha que a história anda pra frente


cada vez mais eu me convenço que ela é muito mais parecida com um desses gráficos da bolsa que vão e vem cheios de tremeliques. A longo prazo o "progresso científico" (definam como queiram, mas alguma coisa do gênero existe) até empurra a coisa toda pruma tendência de alta, mas as oscilações do meio do caminho são bizarras. E todo dia aparece algo sugerindo nitidamente que nos últimos tempos algum especulador divino anda aproveitando pra realizar os lucros e jogar a merda pra baixo.

domingo, setembro 30, 2007

mais publicidade abjetamente parcial pros amigos















but i can't do otherwise, naturalmente. Apareçam.

sábado, setembro 29, 2007

pequena nota afetuosa sobre a vida cultural em porto alegre, baseada em fatos reais


você suspeita que está numa província quando entra num cinema pra ver um filme relativamente chique e falado na mídia na semana de estréia, depois que os trailers já começaram, e descobre que é a única pessoa ali dentro. Mas você só tem certeza que está na província quando uma segunda pessoa entra na sala, e você constata pasmo que ela é o seu cunhado.

terça-feira, setembro 25, 2007

clipagem (quaseauto)promocional


minha primeira incursão no fascinante mundo dos créditos de cinema (na inédita função de "pitacos tri especiais") ganhou as bê erres da vida no fim-de-semana. E aparentemente teve pelo menos alguém que gostou. Agora é esperar um pouquinho mais pra chegar no resto do universo. Por enquanto, em todo caso, parabéns pra todo mundo que trabalhou de fato no filme. Ao contrário deste que vos fala, cuja cômoda participação foi basicamente ler uns troços e ficar dizendo que não tava bom.

quinta-feira, setembro 13, 2007

transparente como um muro de concreto

o mais engraçado de tudo não é nem o fato do Senado ter absolvido o Renan (o link de fato vai pra página dele, entre e deixe o seu spam). O que é mais engraçado é ver que essa gente patética não tem nem sequer a coragem de assumir que o fez. Bizarramente, num levantamento de ontem da Folha, mais da metade dos senadores (41 deles, listados no jornal, exatamente o que era preciso pra aprovar o processo) dizia que votaria a favor da cassação . Pior do que isso, mesmo depois da sessão tinham pelo menos 38 caras (vide reportagem do Terra) dizendo que tinham feito o mesmo. E bizarramente a contagem oficial da sessão são 35 votos a favor. Ou seja, seis senadores mentiram (e continuam mentindo) deslavadamente pra população a respeito do seu voto. Isso pra não falar nos 20 e poucos que "não abriram o voto" (alguém tem alguma dúvida de pra que lado eles votaram, aliás?), numa linda demonstração de prestação de contas idônea para os seus eleitores. E assim, depois de uma memorável sessão em que 40 senadores votaram pela absolvição da figura, só 10 (dez, X, raiz quadrada de 100) de fato admitem tê-lo feito. Sério, quase dá vontade de bater palmas nesses caras por pelo menos terem um pouco de coragem (ou cara dura mesmo). E a triste conclusão é que o destino do país vai sendo definido em pleno Congresso Nacional e a gente não sabe por quem. Tipo assim, quem é que a gente pode cobrar pela decisão agora? Não tem alguma coisa, hã, digamos assim, vagamente errada (leia-se "completamente estapafúrdia") com uma democracia representativa onde os representantes não tem que prestar conta do que fazem? Quem foi a mula que introduziu a idéia de voto secreto no Congresso Nacional? Bom, se bobear isso também foi aprovado em voto secreto, então a gente é capaz de jamais ficar sabendo.
em todo caso, eu pessoalmente desisti de fazer campanha contra o Renan, porque já perdeu a graça, e porque no fim das contas o cara tem o grupo Abril inteiro mais meio mundo atrás dele, então mais cedo ou mais tarde ele vai acabar se fodendo igual, nem que seja pra servir de bode expiatório e livrar os outros tantos. A essa altura, eu tô mais interessado em saber quem foram os filhos da puta que livraram a cara dele e não admitiram. Os meios, ainda que tão efetivos quanto jogar balde d'água em incêndio, tão aí: escreva pra esses sujeitos que não abriram o voto na página do Senado e cobre deles pelo menos um pouquinho de coragem, hombridade, ou como queira chamar pra admitir pra população o que eles fazem em nome dela. E em relação aos seis mentirosos, se algum dia a lista aparecer, vamos contratar os seguranças do Senado pra bater neles dessa vez.

segunda-feira, setembro 03, 2007

eu DISSE que era um derivado do petróleo

já era hora. Depois de uns doze anos de internet, pela primeira vez chegou na minha caixa de correio uma corrente de e-mails paranóides trazendo pelo menos uma informação prazerosa. Sim, pasmem, depois de vários milhares de mails dizendo pra eu não comer hambúrguer no mcdonald's (porque era feito de minhoca), não beber coca-cola (porque mata criancinhas no iraque), não ir no cinema (porque eu posso ser seqüestrado ou sentar numa seringa contaminada com HIV), não abrir mail de pornografia (porque pode ter vírus, óbvio) e por aí afora, finalmente alguém se prestou a escrever algo minimamente otimista e positivo e alertar a população mundial a não comer produtos feitos de soja. Aleluia, indeed. Parece quase um milagre.

naturalmente eu não sei se nada que tá escrito nesse troço tem algum fundamento. Agora, que o bom senso faz suspeitar fortemente de que alguma coisa que é capaz de gerar leite, queijo, bifes, óleo, proteína, shoyu e salsicha só pode ser um derivado secundário do petróleo, isso sempre me pareceu meio óbvio. Em algum momento eu cheguei até a montar uma comunidade no orkut a respeito (muito possivelmente a única que eu criei na vida), que aliás mais de um ano depois de sua criação conta com gloriosos três membros – já que, mesmo que num momento de fraqueza eu possa ter caído na tentação de tê-la criado, eu jamais teria a falta de senso crítico necessária pra ficar enchendo o saco das outras pessoas pra entrarem nela. Mas depois resolvi guardar a convicção pra mim, até receber radiantemente esse mail lindo hoje de tarde e decidir que tava na hora de um post catártico.

aliás, se por acaso houver algum fundo de verdade nesse troço, isso não confirma só a minha convicção de que um troço repulsivo e sem gosto chamado “proteína de soja”, com um aspecto cujo correspondente mais visualmente próximo na natureza é cocô de galinha, não pode concebivelmente fazer bem pra saúde. Isso também confirma uma convicção ainda muito mais arraigada na minha mente: o bom e velho ditado sumério de que “não existe nada mais fácil do que enganar um natureba”.

sério, pouca coisa me deixa mais perplexo no mundo moderno do que o fato de que pessoas que se acham ultraespertas, descoladas, críticas e esclarecidas a respeito das pérfidas mentiras que o capitalismo e a sociedade de consumo nos impõem são capazes de acreditar docilmente em gurus barbudos de aspecto psicótico e livros picaretas de cultura macrobiótica comprados em sebos, cujos argumentos megacientíficos pra apoiar o consumo de alimentos naturais variados geralmente são coisas tipo “os chineses fazem isso há cinco mil anos” (assim como acreditam em horóscopo, lêem o futuro em folhas de chá, exploram o trabalho infantil e traficam órgãos) ou “o que é orgânico e vem da natureza não pode te prejudicar” (vide estricnina, urtiga, chá de dama da noite e o vibrião da cólera), ou ainda “fulano foi pra índia comer só arroz e curou sua leucemia em cinco dias” (e, curiosamente, isso passou tão desapercebido que depois de milhares de anos milhões de pessoas continuam gastando bilhões de dólares tentando fazer algo tão simples). Tudo meio baseado na crença primordial neorousseauniana de que a natureza era um lugar inocente e fofo em que ninguém nunca morria nem ficava doente até que a civilização malvada veio tocar o horror. Sem jamais imaginar que talvez a razão pra não existir doença crônica na pré-história é que não tinha comida tampouco, e todo mundo morria com vinte e poucos anos da primeira infecção que aparecesse.

pessoalmente,em termos de coisas naturais e orgânicas sou mais a opinião do Werner Herzog no “Homem Urso”, de que "the common denominator in the universe is not harmony, but chaos, hostility, and murder", como pode facilmente constatar qualquer um que tenha assistido o Discovery Channel ou seus congêneres amadores. Vá lá, eu concedo que o denominador comum da civilização não é muito melhor do que o da natureza nesse aspecto. Mas o mais chocante de tudo é que essa galera natureba consegue se deixar enganar pelos dois. Tipo, nada é mais fácil do que botar um selinho de orgânico e natural em alguma coisa, dizer que tem antioxidantes e sal marinho e que previne o câncer, a cegueira e a infelicidade, e vender por três vezes o preço dum produto industrializado normal. E o pior de tudo é que as pessoas compram e acreditam piamente, torrando dinheiro em nome duma pureza virtual de benefício no mínimo duvidoso – por piores que sejam alguns produtos industrializados, pelo menos a origem deles tende a ser um pouco mais transparente, enquanto que ninguém sabe exatamente a densidade de ratos no porão onde foi feito um queijo colonial qualquer.

mas enfim, acho que o ser humano tem vocação pra ser patinho. E então as pessoas basicamente optam por serem manipuladas pelo McDonald’s ou pela proteína de soja, pelo PT ou pelo PSDB, pelo Papa ou pelo Sai Baba, pela medicina chinesa ou pela indústria farmacêutica. Aliás, a nossa patinhice intrínseca é bem capaz de ter sido uma força evolucionária determinante na escalada da nossa espécie rumo à supremacia global: se o ser humano fosse desconfiado e arredio ao invés de ser ingênuo e propenso a se tornar massa de manobra fácil, provavelmente nunca teria sido convencido a construir essa história de "civilização". Então talvez a gente só tenha a agradecer pelo fato de sermos mais patos e ovelhas do que lobos ou leões, o que nos permite levar bem menos chifrada de búfalo hoje em dia. E deixar de se incomodar com a falta de senso crítico alheio, até porque lá pelas tantas a gente vai acabar ludibriado também. Já que, pelo menos em termos de promoção da saúde, nutrição e essas coisas todas a ignorância e picaretagem da medicina ocidental instituída ainda é quase tão grande quanto a dos gurus macrobióticos.

e enfim, já que ninguém sabe porra nenhuma, o meu bom senso ao menos me diz que é sempre melhor acreditar que um troço gosmento como carne de soja dá câncer do que achar que lasanha à bolonhesa engorda. Se ser enganado é inevitável, afinal, que pelo menos a gente seja enganado por algo gostoso.

quarta-feira, agosto 22, 2007

roquenrol, uga-uga!



pô, acabei de descobrir que sou o primeiro hit do google pra "cantores negros de Tuvalu". Quer dizer, pelo menos nos últimos três meses. Então, em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Grande Oráculo e à pequena nação por esse privilégio. Mas afora o orgulho que me solapa neste momento... quem diabos serão esses caras? E quem diabos entrou aqui por essa via? Alguém se acusa?

sábado, agosto 11, 2007

irmãozinhos famosos

sempre achei que distúrbio de fala era uma coisa que tinha um certo charme tresloucado, tanto que nunca troquei o nome desse blog e nem fui no fonoaudiólogo. Mas certamente esse primo distante é muito mais louco do que eu poderia sonhar em ser. Em todo caso, deu um baita orgulho de ser da família.

quinta-feira, agosto 09, 2007

"É assim que eu penso... e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!"


e o que dá mais medo é a sensação de que, se a gente for olhar as sentenças do Judiciário brasileiro que não saem no jornal porque não dizem respeito a figuras públicas, é capaz de achar milhares de estrupícios como esse. E deixando de lado toda a questão da homofobia, que é repugnante e ridícula o suficiente pra não requerer maiores comentários, será que alguém um pouco mais esclarecido juridicamente pode me explicar como diabos um juiz pode justificar uma sentença com a frase "é assim que eu penso"? Tipo, a coisa funciona assim de verdade na prática? As sentenças não deviam fazer referência a alguma lei, jurisprudência, constituição, essas coisas? Não tem alguma coisa meio errada nisso? E, já que você está aqui, amigo juridicamente esclarecido, tem alguma coisa que a gente possa fazer pra contribuir pro afastamento desse palhaço? Alguma via oficial? Algum abaixo-assinado? Alguma sugestão? Alguém, anyone? Houston?

segunda-feira, agosto 06, 2007

rumo ao fundo do poço, mas abraçadinhos

"As três bandas [Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju e Teatro Mágico] levam adiante a bandeira da "autenticidade" propalada pelos [Los] Hermanos. Algo que, na música, se traduz numa atitude calculadamente despojada e na pose de quem "não se vende ao sistema". O Mombojó até se vincula a uma gravadora - mas uma que ainda mantém certa aura alternativa, a Trama. Nos três casos, contudo, a estratégia de divulgação é de guerrilha. Elas disponibilizam todas as suas músicas de graça na internet e usam os shows como principal fonte de renda (e também como canal de venda de seus discos). ("Os remelentos do rock"; Revista Veja, 08/08/07)
Francamente, isso é o fim da picada. Num mercado em que as gravadoras quebraram de vez, sem perspectiva de volta, e não tem dinheiro nem vontade de investir em nenhum artista cujo nome não comece com "Ivete" e termine com "Sangalo", muito menos de tentar vender CD a menos de 30 reais, os músicos começam a encher o saco desse mercado falido e estúpido e resolvem botar o seu trabalho na internet de graça pra não depender de executivo engravatado (e pro público não depender de grana pra ter acesso ao trabalho). E, tcham-tcham-tcham-tcham, qual é a resposta da mídia? Obviamente, meter o pau nos caras por estar "fazendo pose" de independente, "autêntico" (as aspas não são minhas), e ainda por cima metido a esquerdista. Dá vontade de vomitar. Em todo caso, acho que esse é o legítimo testamento do quão fundo no poço chegou o conceito atual (ou passado) de indústria cultural. E uma demonstração surpreendente de que pelo menos uma parte da mídia está disposta a acompanhar essa massa falida de parasitas até ela sair pelo outro lado do planeta terra.

quinta-feira, julho 26, 2007

o tempo passa, a angústia aumenta, mas os baralhos seguem exatamente os mesmos

JERRY: "(...) what I wanted to get at is the value difference between pornographic playing cards when you're a kid, and pornographic playing cards when you're older. It's that when you're a kid you use the cards as a substitute for a real experience, and when you're older you use real experience as a substitute for the fantasy. But I imagine you'd rather hear about what happened at the zoo. (Edward Albee, The Zoo Story)

as fossas abertas do cinema brasileiro



ainda não consegui decidir se esse “Saneamento Básico” do Jorge Furtado é o supra-sumo da auto-ironia ou o maior ato falho da história do cinema brasileiro. Aliás, também não consigo entender muito bem por que diabos eu sou a única pessoa que parece estar se fazendo essa pergunta. Mas enfim, vamos aos fatos.
o argumento inicial do filme já foi amplamente divulgado pela mídia, e consiste num questionamento metalingüístico interessante: uma cidadezinha da serra gaúcha precisa fechar uma fossa aberta, mas a única verba pública de que dispõe é pra fazer um vídeo, ganho num concurso de baixo orçamento pra cidades com até 20.000 habitantes. Sem muita opção, os moradores resolvem fazer um vídeo sobre o “monstro da fossa” como pretexto pra usar o dinheiro para fechá-la.
a questão levantada pelo filme urge. Afinal, qualquer cidadão medianamente informado hoje em dia sabe que a dependência de financiamento quase que inteiramente público (via leis de incentivo e concursos) é há tempos a grande fossa aberta do cinema brasileiro, na qual ninguém da área tem muita coragem de tocar. Porque ao revirar a fossa surge a boa e velha questão insolúvel: quantas casas com saneamento básico valem um longa-metragem? Quantas escolas? Quantos postos de saúde? A resposta não é fácil nem óbvia, e provavelmente não tem como fugir da total arbitrariedade. A não ser que, feito um poeta russo entusiasmado e estúpido do início da revolução cujo nome me foge, a gente decida que “um queijo vale mais do que toda a obra de Pushkin”. Mas isso é ridículo, triste, e em última análise não só desumano como mentiroso. Eu pelo menos me sinto convicto e confortável em dizer que a obra de Pushkin vale muito mais do que um queijo. Mas e um milhão de queijos? Ou uma enorme indústria de queijos que empregue um montão de pessoas? E aí, novamente, chega o ponto em que a pergunta se torna insolúvel, porque felicidade não se compra, assim como não se compram vidas humanas. E eu sinto sincera pena do cara do governo que tem que equacionar esse tipo de coisa.
apesar de, ao ouvir falar do argumento do filme pela primeira vez, eu ter pensado que, apesar da questão ser importante, parecia uma idéia difícil de fazer funcionar, a verdade é que o filme, pelo menos inicialmente, é interessante, bem executado, simpático e francamente muito engraçado (particularmente pra quem já tentou fazer um filme amador entre amigos e/ou cônjuges). E, às custas da ignorância dos personagens, das cenas toscas da produção amadora e do interesse crescente dos personagens por “essa história de cinema”, o filme consegue ser divertido e ao mesmo tempo levantar um debate mais do que necessário: afinal, do que vale fazer um filme quando se tem uma fossa a fechar?
as à medida que seus protagonistas vão esquecendo a questão da fossa e se entusiasmando com a idéia de fazer cinema, o filme vai tomando um certo tom de panfleto didático de exaltação ao próprio métier e defesa do investimento na área, e evolui devagarinho prum tom de “final feliz de comédia em que tudo acaba dando certo”. E no fim das contas o filme dentro do filme é um sucesso, todo mundo sai ganhando com ele, e tudo de fato parece acabar lindamente bem. Isso por si só seria meio que um desmérito, já que faz o desfavor de, após levantar uma questão urgente, fechá-la duma maneira um tanto autocomplacente. E quando eu saí do cinema me sentindo meio irritado, eu achei que fosse por isso. Mas parando pra pensar, voluntariamente ou não, o desfecho é muito mais revelador que parece. Acompanhem os seguintes detalhes:


1. A fossa continua aberta. Concordo que, se a idéia é argumentar que o investimento em cinema vale a pena mesmo quando o país tem fossas abertas, esse detalhe era necessário. Mas é surpreendente como os personagens do filme parecem esquecer disso facilmente: aliás, esse “pequeno” detalhe só vem à tona porque o cara que estava construindo a fossa reclama que faltou verba pra ele terminar a fossa. Do pessoal que originalmente pegou o dinheiro pra fechar a fossa com o pretexto de fazer um filme (e acabou fazendo um filme com o pretexto de fechar a fossa), não se ouve um pio.

2. As razões apresentadas pra dizer que “o investimento no filme valeu a pena” são de um capitalismo simplista. Listemos tudo o que “acaba bem” no fim do filme: o casamento e o negócio de móveis do casal de realizadores floresce e faz um belo marketing em cima do filme; o dono da câmera, que é proprietário também de uma pousada, recebe investimentos do setor hoteleiro, feitos por uma mulher linda; o “co-diretor” e montador do filme ganha notoriedade local e espaço pra falar abobrinhas em público, além de um cachê de 2.000 reais; a atriz principal do filme vira uma estrela; a região ganha um punhado de turistas.
sinceramente, se é por isso que a gente precisa investir em cinema, me dêem os queijos. Não que eu seja contra a idéia de investir em cinema. Pelo contrário, minha opinião é que dar 10.000 reais prum vilarejo tosco fazer um vídeo é uma puta idéia. Mas essas são todas as razões erradas pra isso. O item certo pra obter esse tipo de retorno deveria constar no orçamento público como “publicidade turística”, ou qualquer outra coisa. Mas não é cinema, muito menos cultura. Se tem uma boa razão pra dar 10.000 reais pra alguém filmar algo, é pra fazer as pessoas pensarem. Tanto quem faz como quem assiste. E pensarem sobre questões relevantes, inclusive sobre a necessidade de gastar dinheiro fazendo cinema. O que, suponho eu, tenha sido o que os financiadores públicos do filme pensaram quando investiram no projeto. Estranhamente, a idéia de mérito que o próprio filme passa no fim das contas parece absolutamente diferente.

3. Os beneficiários do filme são basicamente os seus realizadores. Isso é o mais engraçado, mas é inegavelmente verdade. Todo mundo que é mostrado se beneficiando diretamente com o filme (o dono da pousada, os donos da loja de móveis, o co-diretor, a atriz principal) são os seus próprios realizadores, que fazem marketing pessoal em cima da própria obra e recebem amplos benefícios secundários. O retorno de interesse público de fato é mísero: algumas dezenas de turistas a mais, e as risadas que a população dá ao assistir o filme. Vá lá, talvez eu esteja sendo ranzinza: acho que se pode argumentar que boas risadas não sejam um retorno mísero, e que elas sejam motivo válido e suficiente pra fazer um filme. Mas é inegável que o grosso do retorno (e praticamente todo o benefício financeiro) aparece indo pra mão dos realizadores. Enquanto a fossa continua aberta.


4. 30% da verba é gasta pagando direitos autorais para os herdeiros de Billie Holiday. Um pouco menos grave, mas igualmente intrigante é o fato de que de 10.000 reais do projeto, inexplicáveis 3.000 (com a obra da fossa inacabada!) vão pra comprar os direitos duma trilha sonora da Billie Holiday! Sob a bênção de alguém que diz: “é, é caro, mas tem que ser essa música”. Excuse me? Isso é pra ser um final feliz? Eu usaria um absurdo desses pra fazer campanha em prol do domínio público, ou então pra fazer uma denúncia contra a falta de economia com o dinheiro público. Mas dizer que “tem que ser assim” é o fim da picada.
dizer que “o investimento em arte é válido” não tem nada a ver com dizer que “qualquer investimento em arte é válido”. Aliás, o outro problema latente do cinema brasileiro (que anda de mãos dadas com o financiamento público, naturalmente) é que uma parte significativa dele (não por acaso, a mais visível) tem padrões inexplicavelmente hollywoodianos. Pra filmes por vezes muito ruins. O que faz com que (a) boa parte dos filmes custe significativamente mais do que poderia custar (com pouco acréscimo de qualidade artística de fato, porque isso raramente se compra) e (b) os poucos realizadores que conseguem criar público pra pagar pelo menos uma parte dos seus filmes, ao invés de usarem isso pra se tornar independentes, geralmente passam simplesmente a pedir mais dinheiro pra fazer filmes mais caros, perpetuando o ciclo de dependência. Mas como ninguém tá botando grana do seu bolso mesmo, afora o contribuinte, quem se importa?

sinceramente, 3.000 reais em uma trilha duma cantora morta prum filme de 10.000 (que na verdade eram 2.000 inicialmente, já que a obra ia custar 8.000) me parece o clássico exemplo de desperdício do cinema brasileiro. Vá lá, pode ser que fosse a melhor trilha do mundo praquela cena. Mas pra um filme desse tamanho e orçamento, não importa. Não dá, e ponto. Está fora de alcance, assim como filmar uma batalha de naves espaciais, ou algo do gênero. E que se pegue um violão e grave uma trilha parecida, ora bolas. Ninguém vai morrer com isso. E a gente vai fazer um cinema possível pra cidade. Ou pro país. Que provavelmente, além de mais barato, vai acabar sendo mais representativo do Brasil que ele quer mostrar (e que está pagando o filme, diga-se de passagem). Mesmo que seja um pouco mais tosco. Ou exatamente por causa disso.

5. No fim das contas, o filme (dentro do filme) é um lixo. Ok, esse é o menor dos problemas. Afinal, o filme (de fora) é uma comédia, e a ruindade do filme de dentro era absolutamente necessária pra história funcionar. E eu concordo que talvez pruma comunidade de meia dúzia de habitantes, mesmo fazer um filme ruim possa ser um troço muito significativo e importante. Afora que é inevitável que investir em cinema sempre vá gerar alguns monstrinhos. Mas enfim, não deixa de ser relevante e pelo menos um pouco representativo de boa parte do cinema nacional que, mesmo com todo o dinheiro gasto e a fossa ainda aberta, o resultado final do investimento ainda assim seja muito ruim.


mas como todo mundo parece feliz no fim do filme, ninguém parece se importar muito com nada disso. E eu não sei se era a intenção dos realizadores do filme de fora, mas o resultado do filme de dentro, quando olhado com cuidado, acaba se tornando não uma defesa do investimento em cinema, mas um retrato relativamente significativo de alguns dos maiores problemas, distorções e maus hábitos do cinema brasileiro. Se isso foi consciente (e é possível que pelo menos parcialmente tenha sido), isso é um baita mérito, ainda que meio escondido. Mas o tom de final feliz meio autocomplacente do fim do filme parece sugerir que é mais provável que a maior parte dessas controvérsias tenham simplesmente emergido meio por acaso. E, se for esse o caso, é bastante sintomático que isso tenha acontecido sem que ninguém se dê conta. Talvez porque todo mundo no meio já tenha se acostumado com elas. Igualmente sintomático, e talvez mais preocupante, é o fato de que praticamente ninguém na crítica parece ter notado esses detalhes tampouco; pelo contrário, todo mundo parece ter exaltado o filme como uma “comédia prazerosa de humor inocente e sagaz”, ou uma “defesa da produção nacional”, sem conseguir enxergar o óbvio latejante.
pra mim, no entanto, o que salta aos olhos é o quanto de podre se esconde num final aparentemente feliz sem que ninguém sinta o cheiro. Ironicamente, a impressão que fica é que os realizadores do filme de fora fizeram o mesmo que os realizadores do filme de dentro. Ganharam verba pública pra fazer o filme e tentaram usar essa verba pra, no processo de fazê-lo, tentar tapar as fossas abertas do próprio cinema brasileiro. Mas, intencionalmente ou não, mudaram de rumo em algum ponto do caminho. E acabaram por deixar a fossa mais exposta ainda.

terça-feira, julho 24, 2007

se é pra ir embora...

que seja afogado numa banheira com champanhe e pétalas de rosa, ou de alguma outra maneira cheia de glamour. Anyway, esse post é pra comunicar que a minha coluna do argumento está suicidando-se por tempo indeterminado, até o momento de desfechar para balanço. Mas também é pra dizer que ela pelo menos se despede com estilo.

sexta-feira, julho 13, 2007

o óbvio, o reiterado e o repetido

pra algumas pessoas parece tão fácil entender...
"Praticamente toda música é derivada de outros artistas. Se você é guitarrista numa banda de rock, toca notas em progressão de um jeito que alguém já fez. Isso num instrumento que não foi você quem inventou. Coloca as notas numa ordem que rearranjou de alguma canção de que gosta, produz num instrumento, contextualiza inserindo outros instrumentos e chama isso de sua criação. É basicamente o que faço também. Nenhuma lei de direito autoral diz que roubo música."
(Gregg Gillis, vulgo Girl Talk, sampler convicto, sobre a acusação de "roubar música dos outros")
também nunca entendi como alguém de fato pode reclamar pra si o mérito de ter "inventado" algo. Na ciência muito menos do que na arte, aliás. Mas alguém há de ter trabalhado pesadamente o inconsciente coletivo do mundo ocidental pra encobrir esse fato escancarado. Em todo caso, é sempre bom ver gente levantando a voz pra reiterar o óbvio.

quarta-feira, julho 11, 2007

mergulhando corajosamente nas águas do futuro

sempre tive um forte complexo de inferioridade (e sentimento de profunda defasagem) ao ver esses vídeos de adolescentes com 500.000 hits no youtube, ou comunidades no Orkut com 1 milhão de membros, particularmente ao lembrar que o meu livro de contos tem uma tiragem de uns mil exemplares, e que metade deles tão na mão de gente que sequer deve ter lido. Mas tá na hora da virada. Graças a esse tradutor automático, tô pronto pra invadir os êmeésseênes da vida. Aí embaixo vai o primeiro conto traduzido. Daqui por diante, não vai ter banda larga o suficiente pra tanta fama.
(com créditos pro pelizzari, jp cuenca e scott pelo telefone sem fio).