terça-feira, setembro 21, 2010

você sabe que a sua narrativa de vida está se tornando discretamente esquizofrênica quando



o caminhão à sua frente no trânsito começa a falar com você. E ainda por cima promete mudanças.

das vantagens de se andar com lágrimas nos olhos de vez em quando (i)

com bastante cílios e um pouco de criatividade, qualquer poste na rua vira uma fonte infindável de fogos de artifício.

sexta-feira, setembro 17, 2010

a propósito do post imediatamente abaixo (ii)

a ilustração, por essas coincidências da vida, é do manuscrito de 1984, do Orwell, clássico-mor sobre como reescrever a história. O ministério da verdade não me deixa mentir.

quarta-feira, setembro 15, 2010

nossas últimas versões

















então vocês começarão com versões tão diferentes da história que rirão à beça quando ganharem coragem pra trocá-las pela primeira vez. E descobrirem que apesar de terem estado nas mesmas cenas, ou mesmo juntos no centro do palco, vocês até então tinham feito parte de peças distintas, casualmente encenadas no mesmo teatro. Que tinham sido coadjuvantes involuntários de um texto que nem sequer tinham lido. E depois de rirem e beberem mais vinho e fecharem a janela pros vizinhos não verem o que vocês farão depois, vocês acordarão no outro dia dispostos a não deixarem mais suas versões divergirem. E passarão a se telefonar todos os finais de tarde dispostos a contarem e ouvirem como foram seus dias, e ao se encontrarem num bar qualquer revisarão suas versões, trocarão críticas, se frustrarão com as discrepâncias. Mas estarão sempre prontos pra puxar o lápis e rabiscar anotações, correções, maneiras de deixar as histórias mais compatíveis. E em algum momento, pra garantir que o espetáculo não saia do rumo, vocês talvez cheguem a unificar o cenário, contratem um cenógrafo ou um arquiteto e debatam longamente na loja de móveis pra ter certeza de que aquele abajur realmente combina com o enredo, que a essa altura vocês já têm a certeza de que é de fato o mesmo. E de tão certos de transitarem na mesma peça, tão convencidos de terem se tornado os personagens que representam, talvez vocês comecem então a deixar os ensaios de lado, seguros que serão capazes de improvisar, de se adaptar aos deslizes e aos esquecimentos um do outro, às falas empacadas na ponta da língua. Até o dia em que uma entrada ou saída de cena inesperada de um se atravesse na frente da história do outro, interrompendo bruscamente o fluxo da narrativa e fazendo vocês pararem a encenação pra revisar as anotações, descobrir exatamente quem errou a deixa. E cometerem o erro de tirar os scripts do bolso, apenas pra se darem conta de que os textos que vocês interpretam não são mais os mesmos. Sim, haverá pontos em comum, um mesmo cenário e uma mesma época. Mas as discrepâncias entre os acontecimentos serão óbvias, uma conversa romântica numa praia deserta transformada em um momento entediado numa estação de trem, os protagonistas de uma das histórias reduzidos a coadjuvantes da outra. E sem saber o que fazer com personagens tão distintos num cenário em comum vocês retrocederão para trás das cortinas sob aplausos tímidos, e sairão do teatro cada qual para o seu lado. Em camarins separados, trabalharão febrilmente em reescrever suas histórias, já não pra fazer delas a mesma, mas simplesmente pra fazer sentido, encontrar um fio narrativo pras falas desconexas e personagens desencontrados. E apelando pra suas soluções dramáticas preferidas, sem se preocupar demais com os fatos, vocês se converterão uma vez mais em ficcionistas onipotentes. Começando a gostar das suas novas versões, vocês as relerão antes de dormir e as carregarão no dia seguinte, tirando-as do bolso pra folhear no metrô e mostrar pros amigos. E começarão a interpretar seus novos personagens ao natural, antes mesmo de terem muita idéia da continuação do enredo. Até o dia em que vocês se encontrarão em alguma esquina movimentada, e sem que nenhum dos dois tenha nada de urgente pra fazer entrarão num café pra falarem do que andam fazendo. Então tirarão os textos do bolso, lembra aquela história que a gente tinha tentado escrever?, e mostrarão um ao outro suas últimas versões. E lendo aquilo, incrédulos, saberão que já não há nada mais de uma história em outra, que as falas estão todas trocadas, que os personagens que um dia foram seus já são outros nos quais vocês sequer se reconhecem mais. Sem querer aceitar, vocês ainda tentarão trocar reclamações banais, acusações baratas, cobranças de protagonismo. Mas a revolta será inútil, pois tão logo vocês virarem as costas mesmo essas reclamações já terão sido reescritas. Então o café termina, e sem saber o que fazer vocês se despedem rápidos e desajeitados. E caminham pra casa, abismados com a constatação de que a história que vocês carregam no bolso é o último exemplar de sua espécie. De que já não há coautores, atores ou espectadores. E de que ela sobreviverá apenas até o momento em que por cansaço ou alzheimer vocês resolvam esquecê-la. Já em casa vocês pegarão o texto, brincarão com as páginas olhando distraídos pra sacada, pra lata de lixo, pra lareira acesa. E saberão que o desaparecimento daquela versão depende apenas da vontade de começar um texto novo. A caixa de fósforos está sobre a mesa. Dou-lhe uma, dou-lhe duas.

domingo, setembro 05, 2010

breviário














em alguma esquina a paixão do momento deu lugar à da busca. E foi tudo o que houve. O resto é ruído.

terça-feira, agosto 17, 2010

quem ama castra

então o mundo anda difícil pra você. Seus relacionamentos não dão certo, seus amigos se aproveitam de você, as pessoas lhe parecem todas mesquinhas e egoístas. Seu chefe é um filho da puta, seu ex-marido a trocou por uma mulher mais nova, seus filhos adolescentes levantam a voz o tempo inteiro. A vida não facilita as coisas e a sua paciência anda o tempo todo por um fio, suas explosões e crises de choro e enxaquecas cada vez mais frequentes, o mundo sempre prestes a desabar. Então um belo dia você perde a paciência e desiste. Desiste de se relacionar com pessoas como você, cheias de desejos e anseios e vontades e dores de cabeça próprias. E decide começar de novo. Então você vai numa loja cheia de alpiste, gaiolas e ossos de plástico, com funcionários animados e sorridentes. E na vitrine você encontra uma nova companhia. Um bicho orelhudo e fofo, de pelo malhado, cujo cérebro a ciência lhe assegura que jamais vai passar de setenta e cinco gramas. E então você o leva pra casa, constrói uma caminha, e o cria desde pequeno dando reforço positivo pra todas as demonstrações de amor que ele faz por você. Faz carinho na barriga quando ele senta do seu lado, dá um biscoito quando ele traz a bolinha, fala com uma voz fofa e idiota quando ele balança o rabinho. E não hesita em dar um tapinha no rosto quando ele esfrega os genitais na sua canela, gritar com ele quando rói o papel higiênico, e encher o tapete de spray de pimenta quando ele faz cocô no meio da sala. E a rotina de carinho na barriga aqui e tapinha ali se repete por dias cada vez mais repetitivos, num ritual capaz de adestrar o mais atrofiado dos cérebros. O bichinho então cresce, e quando seus filhos resolvem sair de casa porque não aguentam mais seu mau humor constante ele se torna a sua melhor companhia, aninhado nos seus pés vestidos com pantufas em frente à televisão. Na ausência de outra alma viva na casa, você divide a comida do jantar com ele e deixa-o dormir na sua cama, e todos os dias de manhã ele lhe retribui com uma lambida agradecida no rosto. Com o tempo os almoços de família começam a rarear, os compromissos se tornam mais esparsos, e a vida abranda sem que ninguém apareça, até porque você só sai de casa pra passear com seu amiguinho. E então você começa a achar que já é hora de levá-lo pra cruzar, passa a observar com atenção as fêmeas no parque, anota o telefone das donas com quem você puxa conversa. E chega o dia que você visita uma delas, e toma um chá enquanto deixa o seu amigo se lambuzar por minutos rigorosamente controlados com uma fêmea. Tempo suficiente pra produzir algumas cópias relativamente bem feitas dele dali a alguns meses, uma das quais você levará consigo. Pra reiniciar o ciclo previsível de carinho na barriga, biscoito e bolinha, tapinha e cocô. E já chegando na velhice você se associa ao instituto nina rosa, cola um adesivo fofo da sociedade protetora dos animais no seu carro, começa a contribuir com um fundo comunitário pra alimentar os gatos de rua do bairro. Recebe em casa folhetos de propaganda dos últimos lançamentos de ração, se cadastra em fóruns de discussão de suas raças favoritas, cola o telefone do veterinário na porta da sua geladeira. E sai espalhando pras poucas pessoas com quem ainda fala, as frequentadoras daquele mesmo canto do parque, que os seus cachorros são mais fiéis e mais amorosos do que qualquer ser humano que você já tenha conhecido, e que eles nunca deixaram de lhe fazer companhia. Quando na verdade tudo o que aconteceu foi que, ao contrário das pessoas, eles simplesmente não tiveram opção.

segunda-feira, agosto 16, 2010

dois dias de inverno e uma morte gentil















o primeiro dia de inverno em um ano de rio de janeiro combina comigo. Combina com o meu jeito quieto, com os meus cabelos grisalhos, com a imobilidade do apartamento vazio. E me ajuda a conviver com uma morte lenta, quase que gentil, oferecida a mim entre sorrisos e bichos de pelúcia. E eu me dou conta que devagar vou entrando em acordo com ela, não por concordância senão por impotência em fazer algo que não seja acompanhar o fluxo do mundo. E como que em retribuição o mundo é gentil o suficiente pra acompanhar o meu luto, acinzentando o céu e derrubando os termômetros. E fazendo com que a dor vá devagar deixando de ser o peso reprimido no caminhar rápido sobre a barata ribeiro, na lágrima que escapa no banco do 485 preso no trânsito da linha vermelha. E passe a ser uma melancolia que extravasa a mim mesmo e escorre das minhas caixas de mudança abertas. Um frio discreto que invade a baía da guanabara, semeando araucárias na floresta da tijuca, pintando o calçadão da urca com flores de ipê, botando a faixa e o laço nas mãos daquele tio que fica em cima do morro. E enquanto a rua se esvazia e o mundo encolhe, começo a sentir novamente que ele possa fazer sentido, e me sinto esquisitamente feliz. Porque sinto que o frio de fora começa a substituir o de dentro, que novamente o que eu carrego em mim é o que pode me esquentar. Que se eu pegar um cobertor e um capuz eu possa quem sabe me proteger, já que o desconforto volta a viver do outro lado da epiderme. E assim abraçar dentro do casaco o que ainda me resta, manter apertado entre os braços, e com meu pequeno punhado de pedaços deitar na rede da sacada, olhar pra fora, ver o mundo. E reaprender a ficar imóvel, sabendo que agora é a vez dele se movimentar no meu lugar.

terça-feira, julho 20, 2010

filosofia zen feita em casa (xviii) - sobre a inevitabilidade da incoerência

por uma questão de coerência, não me moveria até o mundo começar a fazer sentido. Mas por uma questão de realismo, sei que ele só começa a fazer sentido depois que eu me mover.

domingo, julho 11, 2010

do lento aprendizado das tortinhas de palmito congeladas








uma só é pequena pra dois
mas abrindo duas vai sempre sobrar
pra guardar pra alguém que chegue
ou convidar um a mais pra jantar
mas embora pareça certo
a partilha nunca é precisa
as facas são cegas, as divisões toscas
e alguém sempre acaba com fome
então quem sabe melhor
comer três quartos sozinho
guardar o resto no congelador
e esperar que acumule, caso não
chegue ninguém inesperado
nenhuma fome imprevista
e sem saber do futuro
ir juntando os pedaços
aos poucos

sábado, julho 10, 2010

sobre a sanidade escoando pelo ralo

mais de duas semanas que ninguém dorme aqui em casa, e o ralo do chuveiro continua entupindo com cabelo. Algo me diz que logo vou ter que optar entre a paranóia de que alguém invade meu apartamento pra tomar banho e a depressão de encarar a calvície como possibilidade.

quinta-feira, julho 01, 2010

quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas (mcxviii)

reclamar que a internet vai acabar com o português culto é a repetição exata da velha ideia de que escrever no vernáculo vai acabar com o latim. Só que com uns quinhentos anos de atraso. É incrível como tem gente com dificuldade pra mudar o disco.
by the way, a resposta é "sim, vai mesmo." Mas e daí?

quarta-feira, junho 23, 2010

das verdades mais imbecis que já se conseguiu botar na boca de um público com doutorado completo

americanos: um povo que resolve botar um país abaixo e reerguê-lo do zero no meio do deserto no oriente médio, mas que se considera terminantemente incapaz de financiar um ensaio clínico sem ajuda da indústria farmacêutica porque é “muito caro”. Como se, no fim das contas, não fosse um pobre coitado com alguma doença crônica de merda que fosse pagar a conta. Porra, com toda a franqueza, vão catar coquinho.

domingo, junho 20, 2010

quase solstício de inverno















alguém aí sabe de concurso aberto pra intelectual sem dedicação exclusiva? Aceito vinte horas ou menos.

domingo, maio 30, 2010

novas roupas coloridas

como dizia a minha mãe, e também aquela outra menina que chamava o mensageiro da caridade pra levar as minhas coisas embora no meio da tarde, eu sempre tive uma puta dificuldade pra esvaziar o meu armário. Por outro lado, ao contrário do que dizia o belchior, o passado é uma roupa que continua quase sempre me servindo. Ainda que eventualmente eu tenha que me apertar um pouquinho dentro dela. E somando todos os figurinos que vão se acumulando pelo caminho, eu sinto quase como se pudesse acordar de manhã e escolher a idade com a qual eu quero viver o dia. E também como se todo fim de noite eu chegasse em casa e me despisse dela, e deitando no colchão inflável assumisse a idade que levo colada no corpo, que a essa altura nem eu mesmo sei direito qual é.

terça-feira, maio 25, 2010

i'm not there

não sei porque achei que devia compartilhar isso, mas em egosearches recentes a função autocompletar do google tem sempre me sugerido "olavo amaral medicina" e "olavo amaral médico" como opções. Como se alguém lá fora andasse procurando o meu nome e resolvesse refinar a busca depois de bisolhar os primeiros hits, talvez por não achar que eu fosse médico. Ou, melhor ainda, por não achar que eu fosse eu. Vai saber por quê, mas ambas as possibilidades me orgulham pra burro.

quinta-feira, maio 13, 2010

regras pra justificar uma exceção

sempre desconfiei do conceito de “music video”. Tanto no que diz respeito a videoclipes (ai que palavra mais século passado...) como a DVDs de shows ou a imagens randômicas pra acompanhar música nas mais variadas mídias. Pura e simplesmente, nada contra a idéia em si. Mas nunca me pareceu algo que olhar alguém tocando um instrumento numa tela adicionasse suficientemente à música pra que justificasse o marketing em volta.
e no fundo, no fundo, esse troço de botar imagens em música sempre me pareceu simplesmente empacotá-la pra tornar algo vendável. Primeiro passando videoclipes na TV, que naturalmente é um veículo de publicidade muito melhor do que o pobre rádio. Depois com o ridículo advento dos “DVDs de shows” (e DVDs em geral) que alguém empurrou goela do público abaixo como algo a ser comprado (alguém lembra de alguma vez ter comprado uma fita de videocassete? Pois como diabos convenceram a geral que a mesma coisa numa mídia diferente era algo pra comprar?). E sem vender nada, mas ainda por força do mercado, hoje em dia se abate sobre o mundo uma terceira onda de vídeo forçosamente acoplado à música. Meramente porque por razões obscuras, compartilhar vídeo em streaming tornou-se fácil e universal enquanto fazer isso com áudio nunca chegou a ficar tão simples assim. Fazendo com que hoje em dia o jeito padrão de mostrar uma música pra alguém online seja mandar um link do Youtube. O que seria ótimo, não fosse o fato de que 95% dos vídeos feitos por pessoas bem intencionadas que devidem compartilhar suas músicas são sequências toscas de imagens piegas que eu jamais teria coragem de enviar pra ninguém.
enfim, só pra dizer que o excesso de imagens que não acrescentam nada às vezes cansa. Mas só pra dizer também que sempre tem uma exceção. Essa em particular transtornou meu dia por várias horas no início da semana depois que algum obcecado jogou no meu twitter. E o pior de tudo é que fica bem melhor em alta definição. Chamem-me de vendido. Mas sei lá, devem ser as mãos.

segunda-feira, maio 03, 2010

procura-se

algo inútil e urgente pra fazer. Logo.

domingo, abril 18, 2010

me autodivulgando a mim mesmo de novo

como parte da festipoa literária, que chega ao seu terceiro ano (pelas minhas contas) já dando passos decididos sem apoio e falando em português fluente, vai aí o meu calendário de eventos literarioportoalegrenses da semana:
- dia 21 de abril (quarta) às 20h, estarei no lançamento da coletânea O Melhor da Festa - volume 2, com textos do pessoal que participou da edição 2009 do evento. Sim, tem um troço meu lá no meio, como seria de se esperar. E a companhia em volta é deveras honrosa. Vai ser no Boteco do Pé (João Alfredo, 571), e além dos autógrafos deve rolar alguma espécie de agito cultural depois.
- dia 25 de abril (domingo) às 14h, estou num debate com Flávio Wild e Cássio Pantaleoni sobre "Conto, imagem e construção do invisível". Rola na Palavraria (Vasco da Gama, 165), ali pertinho de casa.
o resto da programação do evento tá no site, pros interessados. Apareçam. É tudo de graça, (ok, minto, o livro deve custar alguma coisa). E eu tenho várias saudades pra matar.