sábado, dezembro 18, 2010

porto alegre, fim de uma década

A cidade me recebe com o silêncio do sétimo andar, em paz e sem conflagração. As tardes são quentes e inóspitas, propícias pra filmes de hollywood no ar-condicionado do shopping. O trânsito parece menor do que deveria ser. Uma brisa agradável sopra no fim do dia, e eu tenho dinheiro pra pagar as contas. Tenho a casa dos meus pais pra mim no fim-de-semana, quilos de lasanha na geladeira e ninguém pra convidar pra dormir comigo. Mas ainda consigo juntar um monte de gente em uma mesa de bar que termine cedo. Os dias são longos e o sol se põe com uma claridade branda e sem dramas. E até os mendigos parecem mais tranquilos do que eram na semana passada. Esquisitamente, estou em casa e me vem à cabeça o disco de exílio do Caetano, aquele que falava em grama verde, olhos azuis e céus cinzas. Diz uma lenda urbana que isso fez John Lennon chorar. Parafraseando esse último, tudo o que posso dizer é war is over. E o sonho também.

domingo, novembro 28, 2010

a vida nos tempos da guerra (versão zona sul)

sabe aquela manhã em que você acorda plenamente convicto de que dessa vez você não vai perdoá-la? Que vai fechar a cara por uma semana inteira, talvez um mês, por todo o mal que ela tem te feito nos últimos tempos? E então você abre a porta com a sua melhor cara de mau, pronto pra botar as coisas às claras, dizer que daquele jeito não dá mais. E se depara com ela mais linda do que nunca, toda coberta de hidratantes cheirosos, com um sorriso incontornável transbordando de amor no rosto. E descobre que não existe nenhuma palavra que você possa dizer que não contenha dentro de si todo o perdão do universo.
pois é, hoje foi assim.
essas cidades são todas umas putas.
particularmente por darem o seu amor a tão poucos.

segunda-feira, novembro 22, 2010

pessoanices gratuitas (iii)

viver é preciso.
navegar, sei lá eu.

pessoanices gratuitas (ii)

pessoanices gratuitas (i)

o dia em que decidiram que a coerência era uma virtude e a preguiça era um pecado foi o dia em que a humanidade rompeu relações comigo.

quinta-feira, novembro 11, 2010

coisas pra se pensar em instantes de asfixia (lviii)

nunca levei fé nessa história de tantos por cento de inspiração e tantos por cento de transpiração. Pra mim, escrever foi sempre cem por cento de respiração. Simples assim.

segunda-feira, novembro 01, 2010

da série "o que seria da minha confiança básica no mundo se não fosse hollywood?" (ii/iii)

talvez tudo se faça claro. Se a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos, e eu tenho 31, isso já me põe ali pelo meio do segundo terço. Talvez isso explique tudo que tem dado errado. Todo esse tempo nublado murrinha. Toda a neblina em cima do pântano. Todas as bases rebeldes invadidas por robôs andadores. E até essas fasciculações esquisitas nos músculos do braço. Isso tudo não é o fim, por mais que pareça. Isso é apenas o Império Contra-Ataca.

breve homenagem a um cachorro morto

falar mal de política hoje em dia é como chutar cachorro morto. Dizer que o país tá perdido, que o sistema não tem jeito e que tinha que explodir uma bomba em Brasília parece ser praticamente um senso comum, e é o jeito mais fácil de conseguir a empatia do taxista ou do cara na fila do banco. As estatísticas não mentem...
- Tiririca, “pior que tá não fica”: 1,3 milhões de votos.
- Abstenções no 2º turno: 29,19 milhões.
- Votos nulos: 4,69 milhões (e a apuração não terminou).
- Capitão Nascimento socando o secretário de segurança pública: 6 milhões de espectadores (e nem perto de parar por aí).
nessas horas, ver o país eleger um presidente sem sobressalto, contando os votos em um punhado de horas, com todo mundo assistindo o discurso de posse na TV como se fosse banal não tem preço.
e confesso que ao contrário de quase todo mundo ao meu redor, eu já andava torcendo pra Dilma e pro Serra cada vez que eles apareciam no debate. Mesmo não acreditando de verdade no que nenhum dos dois dizia. Simplesmente porque, em tempos de catarse coletiva em dizer que tá tudo uma merda e não tem como piorar (frequentemente vindo de gente que não tá nem minimamente próximo da merda), ver neguinho indo votar com adesivo no peito, por convicção, sem fanatismo nem ingenuidade, me inspira um certo respeito. Ver gente fazendo campanha ao invés de falando mal do mundo no twitter começou a me inspirar um certo respeito. E ver gente em cima de palanque dando a cara pra bater, ao invés de ser mais um cara sentado na mesa do bar se queixando de que a sociedade tá toda podre, como se a cerveja e o bolinho de bacalhau se materializassem ali por mérito exclusivo dele, no fundo também me inspira respeito. Mesmo que uma parte bastante grande dele não seja nem um pouco merecido.
e até eu, que normalmente não acredito em porra nenhuma, nesses dias tranquilos em que se assiste o discurso de posse na internet enquanto se pede uma pizza no telefone tenho a impressão extremamente pragmática de que alguma coisa não vai tão mal. Chutem os cachorros à vontade, mas aqui não é a Bolívia, nem a Etiópia, nem o Afeganistão. Também não é nenhuma Brastemp. Mas sei lá, se baixar a cabeça e botar pra funcionar, alguma coisa anda. E algum mérito nisso o tal do sistema deve ter. Por mais errado que esteja. E ao olhar o rosto igualmente pragmático e sem carisma que encarna pela primeira vez o posto de representante de tudo isso na TV, a minha maior esperança é que ele também intua isso. A julgar pelos primeiros vinte minutos, pelo menos, ainda dá pra esperar que sim, quem sabe.
enfim, boa sorte.

quinta-feira, outubro 21, 2010

amendoeira blues











































tudo o que eu tenho a dizer.

sexta-feira, outubro 01, 2010

breviário da implosão

em dezembro implodem a famigerada “perna seca” do hospital do fundão. Aquela ruína com pinta de garagem intergaláctica que nunca chegou a ser ocupada. Minhas férias vão começar uma semana mais cedo às custas disso, mas de resto não parece nada de mais. Implosões são um procedimento simples e previsível, como explicou o pessoal engravatado que veio explicar pra gente esses dias, cheio de vídeos institucionais em que um prefeito sorridente detonava um prédio condenado. Pareceram convincentes.
mas o que importa na história não é a implosão (novamente, simples e previsível). O que fascina é a lenta, gradual e inexorável separação da parte funcionante do hospital da parte condenada. Que há semanas vem sendo executada a martelada, andar por andar, num ritmo agonizantemente lento por homenzinhos de laranja. E que pelas minhas contas ainda deve demorar uns dois meses de trabalho. Ou algo assim. Porque implodir um troço morto é a coisa mais fácil do mundo. Mas separar a parte morta da viva, pra que a parte viva não desabe junto com a outra, é uma sequência repetitiva e interminável de marteladas no concreto. Uma a uma. Do décimo quarto andar até o rés-do-chão.
não sei se sou eu que ando propenso a enxergar metáforas. Mas sei lá, ainda não me acostumei a chegar no trabalho e olhar praquele buraco. Ao contrário de todo o povo que passa, eu não ando imune aos abalos. Pain is in the eye of the beholder.

terça-feira, setembro 21, 2010

você sabe que a sua narrativa de vida está se tornando discretamente esquizofrênica quando



o caminhão à sua frente no trânsito começa a falar com você. E ainda por cima promete mudanças.

das vantagens de se andar com lágrimas nos olhos de vez em quando (i)

com bastante cílios e um pouco de criatividade, qualquer poste na rua vira uma fonte infindável de fogos de artifício.

sexta-feira, setembro 17, 2010

a propósito do post imediatamente abaixo (ii)

a ilustração, por essas coincidências da vida, é do manuscrito de 1984, do Orwell, clássico-mor sobre como reescrever a história. O ministério da verdade não me deixa mentir.

quarta-feira, setembro 15, 2010

nossas últimas versões

















então vocês começarão com versões tão diferentes da história que rirão à beça quando ganharem coragem pra trocá-las pela primeira vez. E descobrirem que apesar de terem estado nas mesmas cenas, ou mesmo juntos no centro do palco, vocês até então tinham feito parte de peças distintas, casualmente encenadas no mesmo teatro. Que tinham sido coadjuvantes involuntários de um texto que nem sequer tinham lido. E depois de rirem e beberem mais vinho e fecharem a janela pros vizinhos não verem o que vocês farão depois, vocês acordarão no outro dia dispostos a não deixarem mais suas versões divergirem. E passarão a se telefonar todos os finais de tarde dispostos a contarem e ouvirem como foram seus dias, e ao se encontrarem num bar qualquer revisarão suas versões, trocarão críticas, se frustrarão com as discrepâncias. Mas estarão sempre prontos pra puxar o lápis e rabiscar anotações, correções, maneiras de deixar as histórias mais compatíveis. E em algum momento, pra garantir que o espetáculo não saia do rumo, vocês talvez cheguem a unificar o cenário, contratem um cenógrafo ou um arquiteto e debatam longamente na loja de móveis pra ter certeza de que aquele abajur realmente combina com o enredo, que a essa altura vocês já têm a certeza de que é de fato o mesmo. E de tão certos de transitarem na mesma peça, tão convencidos de terem se tornado os personagens que representam, talvez vocês comecem então a deixar os ensaios de lado, seguros que serão capazes de improvisar, de se adaptar aos deslizes e aos esquecimentos um do outro, às falas empacadas na ponta da língua. Até o dia em que uma entrada ou saída de cena inesperada de um se atravesse na frente da história do outro, interrompendo bruscamente o fluxo da narrativa e fazendo vocês pararem a encenação pra revisar as anotações, descobrir exatamente quem errou a deixa. E cometerem o erro de tirar os scripts do bolso, apenas pra se darem conta de que os textos que vocês interpretam não são mais os mesmos. Sim, haverá pontos em comum, um mesmo cenário e uma mesma época. Mas as discrepâncias entre os acontecimentos serão óbvias, uma conversa romântica numa praia deserta transformada em um momento entediado numa estação de trem, os protagonistas de uma das histórias reduzidos a coadjuvantes da outra. E sem saber o que fazer com personagens tão distintos num cenário em comum vocês retrocederão para trás das cortinas sob aplausos tímidos, e sairão do teatro cada qual para o seu lado. Em camarins separados, trabalharão febrilmente em reescrever suas histórias, já não pra fazer delas a mesma, mas simplesmente pra fazer sentido, encontrar um fio narrativo pras falas desconexas e personagens desencontrados. E apelando pra suas soluções dramáticas preferidas, sem se preocupar demais com os fatos, vocês se converterão uma vez mais em ficcionistas onipotentes. Começando a gostar das suas novas versões, vocês as relerão antes de dormir e as carregarão no dia seguinte, tirando-as do bolso pra folhear no metrô e mostrar pros amigos. E começarão a interpretar seus novos personagens ao natural, antes mesmo de terem muita idéia da continuação do enredo. Até o dia em que vocês se encontrarão em alguma esquina movimentada, e sem que nenhum dos dois tenha nada de urgente pra fazer entrarão num café pra falarem do que andam fazendo. Então tirarão os textos do bolso, lembra aquela história que a gente tinha tentado escrever?, e mostrarão um ao outro suas últimas versões. E lendo aquilo, incrédulos, saberão que já não há nada mais de uma história em outra, que as falas estão todas trocadas, que os personagens que um dia foram seus já são outros nos quais vocês sequer se reconhecem mais. Sem querer aceitar, vocês ainda tentarão trocar reclamações banais, acusações baratas, cobranças de protagonismo. Mas a revolta será inútil, pois tão logo vocês virarem as costas mesmo essas reclamações já terão sido reescritas. Então o café termina, e sem saber o que fazer vocês se despedem rápidos e desajeitados. E caminham pra casa, abismados com a constatação de que a história que vocês carregam no bolso é o último exemplar de sua espécie. De que já não há coautores, atores ou espectadores. E de que ela sobreviverá apenas até o momento em que por cansaço ou alzheimer vocês resolvam esquecê-la. Já em casa vocês pegarão o texto, brincarão com as páginas olhando distraídos pra sacada, pra lata de lixo, pra lareira acesa. E saberão que o desaparecimento daquela versão depende apenas da vontade de começar um texto novo. A caixa de fósforos está sobre a mesa. Dou-lhe uma, dou-lhe duas.

domingo, setembro 05, 2010

breviário














em alguma esquina a paixão do momento deu lugar à da busca. E foi tudo o que houve. O resto é ruído.

terça-feira, agosto 17, 2010

quem ama castra

então o mundo anda difícil pra você. Seus relacionamentos não dão certo, seus amigos se aproveitam de você, as pessoas lhe parecem todas mesquinhas e egoístas. Seu chefe é um filho da puta, seu ex-marido a trocou por uma mulher mais nova, seus filhos adolescentes levantam a voz o tempo inteiro. A vida não facilita as coisas e a sua paciência anda o tempo todo por um fio, suas explosões e crises de choro e enxaquecas cada vez mais frequentes, o mundo sempre prestes a desabar. Então um belo dia você perde a paciência e desiste. Desiste de se relacionar com pessoas como você, cheias de desejos e anseios e vontades e dores de cabeça próprias. E decide começar de novo. Então você vai numa loja cheia de alpiste, gaiolas e ossos de plástico, com funcionários animados e sorridentes. E na vitrine você encontra uma nova companhia. Um bicho orelhudo e fofo, de pelo malhado, cujo cérebro a ciência lhe assegura que jamais vai passar de setenta e cinco gramas. E então você o leva pra casa, constrói uma caminha, e o cria desde pequeno dando reforço positivo pra todas as demonstrações de amor que ele faz por você. Faz carinho na barriga quando ele senta do seu lado, dá um biscoito quando ele traz a bolinha, fala com uma voz fofa e idiota quando ele balança o rabinho. E não hesita em dar um tapinha no rosto quando ele esfrega os genitais na sua canela, gritar com ele quando rói o papel higiênico, e encher o tapete de spray de pimenta quando ele faz cocô no meio da sala. E a rotina de carinho na barriga aqui e tapinha ali se repete por dias cada vez mais repetitivos, num ritual capaz de adestrar o mais atrofiado dos cérebros. O bichinho então cresce, e quando seus filhos resolvem sair de casa porque não aguentam mais seu mau humor constante ele se torna a sua melhor companhia, aninhado nos seus pés vestidos com pantufas em frente à televisão. Na ausência de outra alma viva na casa, você divide a comida do jantar com ele e deixa-o dormir na sua cama, e todos os dias de manhã ele lhe retribui com uma lambida agradecida no rosto. Com o tempo os almoços de família começam a rarear, os compromissos se tornam mais esparsos, e a vida abranda sem que ninguém apareça, até porque você só sai de casa pra passear com seu amiguinho. E então você começa a achar que já é hora de levá-lo pra cruzar, passa a observar com atenção as fêmeas no parque, anota o telefone das donas com quem você puxa conversa. E chega o dia que você visita uma delas, e toma um chá enquanto deixa o seu amigo se lambuzar por minutos rigorosamente controlados com uma fêmea. Tempo suficiente pra produzir algumas cópias relativamente bem feitas dele dali a alguns meses, uma das quais você levará consigo. Pra reiniciar o ciclo previsível de carinho na barriga, biscoito e bolinha, tapinha e cocô. E já chegando na velhice você se associa ao instituto nina rosa, cola um adesivo fofo da sociedade protetora dos animais no seu carro, começa a contribuir com um fundo comunitário pra alimentar os gatos de rua do bairro. Recebe em casa folhetos de propaganda dos últimos lançamentos de ração, se cadastra em fóruns de discussão de suas raças favoritas, cola o telefone do veterinário na porta da sua geladeira. E sai espalhando pras poucas pessoas com quem ainda fala, as frequentadoras daquele mesmo canto do parque, que os seus cachorros são mais fiéis e mais amorosos do que qualquer ser humano que você já tenha conhecido, e que eles nunca deixaram de lhe fazer companhia. Quando na verdade tudo o que aconteceu foi que, ao contrário das pessoas, eles simplesmente não tiveram opção.

segunda-feira, agosto 16, 2010

dois dias de inverno e uma morte gentil















o primeiro dia de inverno em um ano de rio de janeiro combina comigo. Combina com o meu jeito quieto, com os meus cabelos grisalhos, com a imobilidade do apartamento vazio. E me ajuda a conviver com uma morte lenta, quase que gentil, oferecida a mim entre sorrisos e bichos de pelúcia. E eu me dou conta que devagar vou entrando em acordo com ela, não por concordância senão por impotência em fazer algo que não seja acompanhar o fluxo do mundo. E como que em retribuição o mundo é gentil o suficiente pra acompanhar o meu luto, acinzentando o céu e derrubando os termômetros. E fazendo com que a dor vá devagar deixando de ser o peso reprimido no caminhar rápido sobre a barata ribeiro, na lágrima que escapa no banco do 485 preso no trânsito da linha vermelha. E passe a ser uma melancolia que extravasa a mim mesmo e escorre das minhas caixas de mudança abertas. Um frio discreto que invade a baía da guanabara, semeando araucárias na floresta da tijuca, pintando o calçadão da urca com flores de ipê, botando a faixa e o laço nas mãos daquele tio que fica em cima do morro. E enquanto a rua se esvazia e o mundo encolhe, começo a sentir novamente que ele possa fazer sentido, e me sinto esquisitamente feliz. Porque sinto que o frio de fora começa a substituir o de dentro, que novamente o que eu carrego em mim é o que pode me esquentar. Que se eu pegar um cobertor e um capuz eu possa quem sabe me proteger, já que o desconforto volta a viver do outro lado da epiderme. E assim abraçar dentro do casaco o que ainda me resta, manter apertado entre os braços, e com meu pequeno punhado de pedaços deitar na rede da sacada, olhar pra fora, ver o mundo. E reaprender a ficar imóvel, sabendo que agora é a vez dele se movimentar no meu lugar.

terça-feira, julho 20, 2010

filosofia zen feita em casa (xviii) - sobre a inevitabilidade da incoerência

por uma questão de coerência, não me moveria até o mundo começar a fazer sentido. Mas por uma questão de realismo, sei que ele só começa a fazer sentido depois que eu me mover.