você não deve jogar suas esperanças no que ainda não aconteceu.e nem pode jogar suas esperanças no que já aconteceu.
não vou dizer que toda dor venha daí.
mas já dá um bom tantinho
imagine o seguinte cenário: você acorda de manhã, meio de ressaca, com aquela fome de não ter jantado na noite anterior. Meio sonolento, você levanta e pensa “pois é, pelo jeito vou ter que fazer o café da manhã”. E então você chega na cozinha e descobre que a sua mulher levantou antes de você e já está terminando de fazer um lindo café da manhã pra dois, com café com leite, chocolate quente, suco de laranja, iogurte, torradas, geléia, ovos mexidos e tudo o mais que você poderia querer.
diálogo verídico na bilheteria do cinema:
nunca gostei muito de abarrotar minha casa de móveis. Desde o dia em que eu fui morar sozinho, minha mãe sempre tentou me empurrar mesas e armários que estavam sobrando na casa dela, mas eu geralmente fazia o que podia pra resistir à ideia. E o meu argumento era sempre mais ou menos o mesmo: e se tiver uma festa, onde vamos colocar as pessoas? O que no fundo não era assim tão verdade, porque por mais que as festas às vezes acontecessem, normalmente o pessoal acabava se aglomerando na cozinha (como em qualquer festa que se preze). Mas ao mesmo tempo era um argumento plenamente sincero: uma sala vazia sempre foi ao menos a esperança de uma festa (ou pelo menos de um punhado de amigos sentados em colchões e almofadas dispersos de improviso pelos cantos). Já uma sala cheia de móveis é... bem, só uma sala cheia de móveis.
A cidade me recebe com o silêncio do sétimo andar, em paz e sem conflagração. As tardes são quentes e inóspitas, propícias pra filmes de hollywood no ar-condicionado do shopping. O trânsito parece menor do que deveria ser. Uma brisa agradável sopra no fim do dia, e eu tenho dinheiro pra pagar as contas. Tenho a casa dos meus pais pra mim no fim-de-semana, quilos de lasanha na geladeira e ninguém pra convidar pra dormir comigo. Mas ainda consigo juntar um monte de gente em uma mesa de bar que termine cedo. Os dias são longos e o sol se põe com uma claridade branda e sem dramas. E até os mendigos parecem mais tranquilos do que eram na semana passada. Esquisitamente, estou em casa e me vem à cabeça o disco de exílio do Caetano, aquele que falava em grama verde, olhos azuis e céus cinzas. Diz uma lenda urbana que isso fez John Lennon chorar. Parafraseando esse último, tudo o que posso dizer é war is over. E o sonho também.
sabe aquela manhã em que você acorda plenamente convicto de que dessa vez você não vai perdoá-la? Que vai fechar a cara por uma semana inteira, talvez um mês, por todo o mal que ela tem te feito nos últimos tempos? E então você abre a porta com a sua melhor cara de mau, pronto pra botar as coisas às claras, dizer que daquele jeito não dá mais. E se depara com ela mais linda do que nunca, toda coberta de hidratantes cheirosos, com um sorriso incontornável transbordando de amor no rosto. E descobre que não existe nenhuma palavra que você possa dizer que não contenha dentro de si todo o perdão do universo.
talvez tudo se faça claro. Se a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos, e eu tenho 31, isso já me põe ali pelo meio do segundo terço. Talvez isso explique tudo que tem dado errado. Todo esse tempo nublado murrinha. Toda a neblina em cima do pântano. Todas as bases rebeldes invadidas por robôs andadores. E até essas fasciculações esquisitas nos músculos do braço. Isso tudo não é o fim, por mais que pareça. Isso é apenas o Império Contra-Ataca.
falar mal de política hoje em dia é como chutar cachorro morto. Dizer que o país tá perdido, que o sistema não tem jeito e que tinha que explodir uma bomba em Brasília parece ser praticamente um senso comum, e é o jeito mais fácil de conseguir a empatia do taxista ou do cara na fila do banco. As estatísticas não mentem...
em dezembro implodem a famigerada “perna seca” do hospital do fundão. Aquela ruína com pinta de garagem intergaláctica que nunca chegou a ser ocupada. Minhas férias vão começar uma semana mais cedo às custas disso, mas de resto não parece nada de mais. Implosões são um procedimento simples e previsível, como explicou o pessoal engravatado que veio explicar pra gente esses dias, cheio de vídeos institucionais em que um prefeito sorridente detonava um prédio condenado. Pareceram convincentes.