sábado, abril 30, 2011

autodivulgação gratuita (e abrupta) (mcxviii)

esse domingo (dia 1º de maio) tem lançamento da coletânea da última Festipoa Literária no Pé Palito Bar (João Alfredo, 577, Cidade Baixa) às 20h30, intitulada "O Melhor da Festa 3". Como bom participante da festa, contribuo com um conto inédito.
e afora isso, os eventos rolam até o final da semana que vem, com muita coisa legal e amigos queridos do mundo literário de Porto Alegre (e alhures) falando, discutindo, debatendo, declamando e tomando cerveja (veja a programação aqui) - e com o livro à venda na maior parte deles, suponho. Não estarei por aí pra aproveitar desta vez, mas compareçam por mim.

quinta-feira, abril 07, 2011

teoria musical

a vida é essa sensação permanente de acorde com sétima menor. Parece sempre um estado transitório, prestes a resolver em alguma outra nota que nunca chega. Ou melhor, até chega, mas só quando você já não consegue mais ouvir.

segunda-feira, março 14, 2011

você, um artista

se você fizer um filme e ninguém assistir, isso não faz de você um artista.
do mesmo modo, se você fizer um filme e conseguir que ele passe num festival de cinema alternativo, numa sessão no meio da tarde de um dia de semana em que não mais que uma meia dúzia de pessoas vão chegar a assistir, isso também não chega a fazer de você um artista.
por outro lado, se você alardear pra não sei quantas centenas de pessoas via facebook, twitter, blogs e congêneres que seu filme está passando no CCBB, mesmo que nenhuma delas vá assistir, pelo menos uma parte razoável delas vai saber que você está fazendo cinema. Provavelmente uns tantos farão perguntas. Talvez alguns até comecem a apresentá-lo como cineasta. E paradoxalmente, num mundo em que todos os outros critérios caíram por terra, é justamente isso que acaba fazendo de você um artista. Pelo menos aos olhos dos outros.
vai entender.
feito o preâmbulo, era só pra dizer que “Um Filme Brasileiro”, minha pequena pílula cinematográfico-conceitual agora elevada à categoria de clássico, tá passando em uma das sessões retrospectivas da 10ª Mostra do Filme Livre, evento massa que tá rolando nos CCBBs do Rio e de São Paulo nas próximas semanas. O filme passa nos dias 25/03 (RJ) e 27/03 (SP) às 16h, mas tem bastante outras coisas legais na mostra (inclusive o Ainda Orangotangos, no qual também fiz uma pontinha). Vale a pena conferir o programa.
e pra quem não puder ir, o filme também tá no youtube, by the way – é só seguir o link no canto superior direito desse blog. Mas isso já não tem a mesma graça. E nem vai fazer de mim um artista.
novamente, vai entender.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

versinho zen-budista feito em casa (lxiii)

você não deve jogar suas esperanças no que ainda não aconteceu.
e nem pode jogar suas esperanças no que já aconteceu.
não vou dizer que toda dor venha daí.
mas já dá um bom tantinho

segunda-feira, janeiro 31, 2011

sobre por que fazer antes o que alguém já vai fazer por você

imagine o seguinte cenário: você acorda de manhã, meio de ressaca, com aquela fome de não ter jantado na noite anterior. Meio sonolento, você levanta e pensa “pois é, pelo jeito vou ter que fazer o café da manhã”. E então você chega na cozinha e descobre que a sua mulher levantou antes de você e já está terminando de fazer um lindo café da manhã pra dois, com café com leite, chocolate quente, suco de laranja, iogurte, torradas, geléia, ovos mexidos e tudo o mais que você poderia querer.
o que você faz?
(a) diz “que ótimo, meu bem, você leu os meus pensamentos. Vou aproveitar que você já fez o café pra ir botando os talheres na mesa e dando uma limpada na cozinha, OK?”
(b) suspira algo como “caralho, eu te amo” e enche ela de beijos no pescoço, aproveitando que ela está ocupada com os pratos pra dar uma esfregada básica naquele corpo indefeso inclinado sobre a pia da cozinha.
(c) pensa “senhor, eu não mereço tanto” e volta sorrateiramente para o quarto, deitando novamente pra esperar que ela lhe traga o café na cama enquanto você finge dormir e não saber de nada do que está acontecendo.
(d) precipita-se pra dentro da cozinha, abrindo à geladeira às pressas, apanhando a comida e disputando espaço na pia pra fazer o mesmo café da manhã que ela já está fazendo, simplesmente pra terminar antes dela e ter o mérito de colocá-lo na mesa antes. E fica frustrado por semanas ou meses a fio se ela por acaso conseguir servi-lo primeiro.
sinceramente, não importa muito se você simpatiza com a alternativa “a”, “b” ou “c”. O que importa é que é imensamente provável que você (assim como qualquer pessoa minimamente normal) tenha imediatamente relacionado a alternativa “d” a algum grau de psicose em estágio avançado. Certo?
ok.
agora transfira a cena pra um laboratório de pesquisa, em que você tem uma ideia que lhe parece boa, está começando a trabalhar nela, e aí subitamente fica sabendo que alguém em algum lugar do mundo está trabalhando exatamente na mesma coisa que você estava pensando em fazer, e tentando encontrar os mesmos resultados que você esperava encontrar para publicá-los.
o que você faz?
não vou enumerar as alternativas. Mas da próxima vez que você disser que faz ciência (ou seja o que for que você faz) pra fazer uma contribuição para a humanidade, e não pelos seus próprios interesses, pelo menos pense nisso.

sábado, janeiro 22, 2011

certezas ruindo

diálogo verídico na bilheteria do cinema:
- Boa noite.
- Boa noite. Uma para "Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas." (morrendo de medo do que o caixa vai pensar de quem paga pra assistir um filme com um título esdrúxulo desses)
- Às nove e cinquenta?
- (com ar de incompreensão) Não, às sete e quarenta.
- Está lotado.
- Lotado? (incrédulo) LOTADO? Nunca ninguém disse para você que FILMES TAILANDESES NÃO PODEM LOTAR UMA SALA DE CINEMA! (furioso) Que isso vai CONTRA AS LEIS MAIS FUNDAMENTAIS DO UNIVERSO? (agarrando o caixa pelo pescoço) Você não leu ESTE POST?
(obs: última fala discretamente modificada por motivos de licença poética)
não há dúvida, todas as minhas certezas andam ruindo. Estranho lugar, esse rio de janeiro.

domingo, janeiro 16, 2011

a vida é uma sala vazia

nunca gostei muito de abarrotar minha casa de móveis. Desde o dia em que eu fui morar sozinho, minha mãe sempre tentou me empurrar mesas e armários que estavam sobrando na casa dela, mas eu geralmente fazia o que podia pra resistir à ideia. E o meu argumento era sempre mais ou menos o mesmo: e se tiver uma festa, onde vamos colocar as pessoas? O que no fundo não era assim tão verdade, porque por mais que as festas às vezes acontecessem, normalmente o pessoal acabava se aglomerando na cozinha (como em qualquer festa que se preze). Mas ao mesmo tempo era um argumento plenamente sincero: uma sala vazia sempre foi ao menos a esperança de uma festa (ou pelo menos de um punhado de amigos sentados em colchões e almofadas dispersos de improviso pelos cantos). Já uma sala cheia de móveis é... bem, só uma sala cheia de móveis.
e nesse momento peculiar, talvez o mais solto e desvinculado em uma década, eu olho pra trás e tenho a impressão de que, conscientemente ou não, eu tenho lidado com a minha vida do mesmo jeito que com a minha sala. Fugindo do jeito que posso de construir algo de que eu não vá conseguir me livrar. E mantendo o espaço aberto pra uma festa que talvez seja tão teórica e improvável quanto uma invasão dos tártaros. E cada vez mais eu me sinto capaz de enxergar isso não com remorso ou arrependimento, mas apenas com a consciência de que é inevitável. Porque mesmo que na terceira pessoa a gente seja definido pelo que constrói, a experiência da vida em primeira pessoa sempre vai ser a do espaço que se tem. E mesmo que preenchê-lo ande meio difícil nesses dias, a experiência e a inquietação do espaço aberto por si só já compõem um sentido. E têm sido a minha melhor maneira de me definir, de arranjar direção pro tempo, de encontrar um fio condutor pra narrativa dos meus dias. No fim das contas, mesmo com o apartamento menor, o espaço na sala segue sendo o único reflexo fiel do lado de dentro. O resto é só um punhado de móveis.

sábado, dezembro 18, 2010

porto alegre, fim de uma década

A cidade me recebe com o silêncio do sétimo andar, em paz e sem conflagração. As tardes são quentes e inóspitas, propícias pra filmes de hollywood no ar-condicionado do shopping. O trânsito parece menor do que deveria ser. Uma brisa agradável sopra no fim do dia, e eu tenho dinheiro pra pagar as contas. Tenho a casa dos meus pais pra mim no fim-de-semana, quilos de lasanha na geladeira e ninguém pra convidar pra dormir comigo. Mas ainda consigo juntar um monte de gente em uma mesa de bar que termine cedo. Os dias são longos e o sol se põe com uma claridade branda e sem dramas. E até os mendigos parecem mais tranquilos do que eram na semana passada. Esquisitamente, estou em casa e me vem à cabeça o disco de exílio do Caetano, aquele que falava em grama verde, olhos azuis e céus cinzas. Diz uma lenda urbana que isso fez John Lennon chorar. Parafraseando esse último, tudo o que posso dizer é war is over. E o sonho também.

domingo, novembro 28, 2010

a vida nos tempos da guerra (versão zona sul)

sabe aquela manhã em que você acorda plenamente convicto de que dessa vez você não vai perdoá-la? Que vai fechar a cara por uma semana inteira, talvez um mês, por todo o mal que ela tem te feito nos últimos tempos? E então você abre a porta com a sua melhor cara de mau, pronto pra botar as coisas às claras, dizer que daquele jeito não dá mais. E se depara com ela mais linda do que nunca, toda coberta de hidratantes cheirosos, com um sorriso incontornável transbordando de amor no rosto. E descobre que não existe nenhuma palavra que você possa dizer que não contenha dentro de si todo o perdão do universo.
pois é, hoje foi assim.
essas cidades são todas umas putas.
particularmente por darem o seu amor a tão poucos.

segunda-feira, novembro 22, 2010

pessoanices gratuitas (iii)

viver é preciso.
navegar, sei lá eu.

pessoanices gratuitas (ii)

pessoanices gratuitas (i)

o dia em que decidiram que a coerência era uma virtude e a preguiça era um pecado foi o dia em que a humanidade rompeu relações comigo.

quinta-feira, novembro 11, 2010

coisas pra se pensar em instantes de asfixia (lviii)

nunca levei fé nessa história de tantos por cento de inspiração e tantos por cento de transpiração. Pra mim, escrever foi sempre cem por cento de respiração. Simples assim.

segunda-feira, novembro 01, 2010

da série "o que seria da minha confiança básica no mundo se não fosse hollywood?" (ii/iii)

talvez tudo se faça claro. Se a expectativa de vida do brasileiro é de 73 anos, e eu tenho 31, isso já me põe ali pelo meio do segundo terço. Talvez isso explique tudo que tem dado errado. Todo esse tempo nublado murrinha. Toda a neblina em cima do pântano. Todas as bases rebeldes invadidas por robôs andadores. E até essas fasciculações esquisitas nos músculos do braço. Isso tudo não é o fim, por mais que pareça. Isso é apenas o Império Contra-Ataca.

breve homenagem a um cachorro morto

falar mal de política hoje em dia é como chutar cachorro morto. Dizer que o país tá perdido, que o sistema não tem jeito e que tinha que explodir uma bomba em Brasília parece ser praticamente um senso comum, e é o jeito mais fácil de conseguir a empatia do taxista ou do cara na fila do banco. As estatísticas não mentem...
- Tiririca, “pior que tá não fica”: 1,3 milhões de votos.
- Abstenções no 2º turno: 29,19 milhões.
- Votos nulos: 4,69 milhões (e a apuração não terminou).
- Capitão Nascimento socando o secretário de segurança pública: 6 milhões de espectadores (e nem perto de parar por aí).
nessas horas, ver o país eleger um presidente sem sobressalto, contando os votos em um punhado de horas, com todo mundo assistindo o discurso de posse na TV como se fosse banal não tem preço.
e confesso que ao contrário de quase todo mundo ao meu redor, eu já andava torcendo pra Dilma e pro Serra cada vez que eles apareciam no debate. Mesmo não acreditando de verdade no que nenhum dos dois dizia. Simplesmente porque, em tempos de catarse coletiva em dizer que tá tudo uma merda e não tem como piorar (frequentemente vindo de gente que não tá nem minimamente próximo da merda), ver neguinho indo votar com adesivo no peito, por convicção, sem fanatismo nem ingenuidade, me inspira um certo respeito. Ver gente fazendo campanha ao invés de falando mal do mundo no twitter começou a me inspirar um certo respeito. E ver gente em cima de palanque dando a cara pra bater, ao invés de ser mais um cara sentado na mesa do bar se queixando de que a sociedade tá toda podre, como se a cerveja e o bolinho de bacalhau se materializassem ali por mérito exclusivo dele, no fundo também me inspira respeito. Mesmo que uma parte bastante grande dele não seja nem um pouco merecido.
e até eu, que normalmente não acredito em porra nenhuma, nesses dias tranquilos em que se assiste o discurso de posse na internet enquanto se pede uma pizza no telefone tenho a impressão extremamente pragmática de que alguma coisa não vai tão mal. Chutem os cachorros à vontade, mas aqui não é a Bolívia, nem a Etiópia, nem o Afeganistão. Também não é nenhuma Brastemp. Mas sei lá, se baixar a cabeça e botar pra funcionar, alguma coisa anda. E algum mérito nisso o tal do sistema deve ter. Por mais errado que esteja. E ao olhar o rosto igualmente pragmático e sem carisma que encarna pela primeira vez o posto de representante de tudo isso na TV, a minha maior esperança é que ele também intua isso. A julgar pelos primeiros vinte minutos, pelo menos, ainda dá pra esperar que sim, quem sabe.
enfim, boa sorte.

quinta-feira, outubro 21, 2010

amendoeira blues











































tudo o que eu tenho a dizer.

sexta-feira, outubro 01, 2010

breviário da implosão

em dezembro implodem a famigerada “perna seca” do hospital do fundão. Aquela ruína com pinta de garagem intergaláctica que nunca chegou a ser ocupada. Minhas férias vão começar uma semana mais cedo às custas disso, mas de resto não parece nada de mais. Implosões são um procedimento simples e previsível, como explicou o pessoal engravatado que veio explicar pra gente esses dias, cheio de vídeos institucionais em que um prefeito sorridente detonava um prédio condenado. Pareceram convincentes.
mas o que importa na história não é a implosão (novamente, simples e previsível). O que fascina é a lenta, gradual e inexorável separação da parte funcionante do hospital da parte condenada. Que há semanas vem sendo executada a martelada, andar por andar, num ritmo agonizantemente lento por homenzinhos de laranja. E que pelas minhas contas ainda deve demorar uns dois meses de trabalho. Ou algo assim. Porque implodir um troço morto é a coisa mais fácil do mundo. Mas separar a parte morta da viva, pra que a parte viva não desabe junto com a outra, é uma sequência repetitiva e interminável de marteladas no concreto. Uma a uma. Do décimo quarto andar até o rés-do-chão.
não sei se sou eu que ando propenso a enxergar metáforas. Mas sei lá, ainda não me acostumei a chegar no trabalho e olhar praquele buraco. Ao contrário de todo o povo que passa, eu não ando imune aos abalos. Pain is in the eye of the beholder.

terça-feira, setembro 21, 2010

você sabe que a sua narrativa de vida está se tornando discretamente esquizofrênica quando



o caminhão à sua frente no trânsito começa a falar com você. E ainda por cima promete mudanças.