quinta-feira, maio 31, 2012
transbordando Dutra abaixo
e enquanto a vida ruge e eu me afundo em prestações de contas, Correnteza e
Escombros será lançado em São Paulo nesse sábado, dia 2 de junho, na Livraria da
Vila/Lorena (Alameda Lorena, 1731). Estarei lá para autografar, trocar
uma ideia e tomar umas com vocês. Apareçam.
quarta-feira, maio 02, 2012
próximo capítulo, no qual o que está delineado no post abaixo toma uma forma concreta
não por acaso, meu próximo livro (ou a minha próxima tentativa de um, porque nada me garante que tenha qualquer chance de dar certo) é sobre o meu Rio de Janeiro cheio de monstros, sobre a minha cidade ideal do passado, e sobre o lugar real à minha frente que não é nenhum dos dois. Claro que misturado a isso tem uma Zona Sul submersa, favelas ocupadas por arranha-céus, captadores de atividade cerebral, síndromes de adição ao neurofeedback e outras coisas que só costumam existir no pós-apocalíptico ano de 2040, porque ninguém é de ferro pra falar a verdade o tempo todo. E ainda que por ora isso ainda seja apenas um devaneio inconsequente, dizê-lo aqui não deixa de ser uma tênue forma de compromisso. Os pacientes que me aguardem.
tabuleiro
é fascinante como as pessoas projetam suas crises sobre o território. Posso dizer que falo com alguma propriedade: quando se mora longe de onde se nasceu (mesmo que nem tanto), uma porcentagem significativa dos seus diálogos acaba recaindo sobre falar mal de um dos dois lugares. E isso vale tanto pros exilados como com os que nunca saíram (e que a essa altura da vida também se sentem um pouco exilados por isso).
e eu nunca deixo de me surpreender com o fato de que as reclamações das pessoas sobre os lugares onde moram são sempre muito diferentes das minhas. E às vezes são tão diversas a ponto de parecer fisicamente impossível que elas de fato se refiram ao mesmo lugar. Ou que o lugar seja realmente culpado por elas.
até porque o espaço, como bem se sabe, é uma dimensão em decadência. Num mundo que parece cada vez mais bem descrito pela teoria dos grafos, o território é um senhor decrépito, relativo e destituído de poder. E ainda assim ele segue levando uma carga enorme de culpa: tudo o que é pouco ambicioso no sul é culpa do provincianismo de Porto Alegre, tudo o que não funciona no trópico é culpa da malandragem do Rio de Janeiro, e seguir com mais exemplos seria chover no molhado.
e esse ressentimento direcionado ao território talvez seja um não dar-se conta - ou uma negação ativa - de que todo deslocamento ocorre não só no espaço mas no tempo. Por essa contingência física, cada lugar também corresponde a uma volta da vida, e a um pedaço particular de quem se desloca. E atribuir nossa insatisfação à geografia costuma ser só uma maneira de projetar nossas próprias frustrações num espaço em que elas pareçam deixar de ser só nossas. O que nos faz sofrer um pouco menos sozinhos, no fim das contas. O que já é uma grande coisa.
mas no fundo eu confesso que o espaço já não me engana como antigamente. Sempre vai haver uma cidade pra culpar pelas nossas agruras (e o Rio sabe como ele levou porrada de mim nos últimos anos). Mas por mais que ele me mostre o pôr-do-sol do Arpoador ou o trânsito na Linha Vermelha, ele já não me convence do seu poder. E cada vez mais eu sinto que minhas tristezas e alegrias no fundo são só minhas. E que o máximo que a cidade me oferece é essa tela colorida, esse espelho distorcido que reflete pedaços de mim mesmo.
e assim eu sigo em frente, cada vez mais convencido que qualquer lugar pra onde se vá, mais do que uma imposição geográfica, será apenas mais uma nova bola lançada na roleta, um pequeno reiniciar da vida, um terreno um pouco menos construído do que o anterior. E que o espaço, com toda sua pompa de cartão-postal, é apenas o tabuleiro dos verdadeiros donos do jogo: o tempo, o acaso e o desejo, que jogam sobre ele seus dados, fazendo ressurgir em todo deslocamento a esperança de um lance diferente.
e eu nunca deixo de me surpreender com o fato de que as reclamações das pessoas sobre os lugares onde moram são sempre muito diferentes das minhas. E às vezes são tão diversas a ponto de parecer fisicamente impossível que elas de fato se refiram ao mesmo lugar. Ou que o lugar seja realmente culpado por elas.
até porque o espaço, como bem se sabe, é uma dimensão em decadência. Num mundo que parece cada vez mais bem descrito pela teoria dos grafos, o território é um senhor decrépito, relativo e destituído de poder. E ainda assim ele segue levando uma carga enorme de culpa: tudo o que é pouco ambicioso no sul é culpa do provincianismo de Porto Alegre, tudo o que não funciona no trópico é culpa da malandragem do Rio de Janeiro, e seguir com mais exemplos seria chover no molhado.
e esse ressentimento direcionado ao território talvez seja um não dar-se conta - ou uma negação ativa - de que todo deslocamento ocorre não só no espaço mas no tempo. Por essa contingência física, cada lugar também corresponde a uma volta da vida, e a um pedaço particular de quem se desloca. E atribuir nossa insatisfação à geografia costuma ser só uma maneira de projetar nossas próprias frustrações num espaço em que elas pareçam deixar de ser só nossas. O que nos faz sofrer um pouco menos sozinhos, no fim das contas. O que já é uma grande coisa.
mas no fundo eu confesso que o espaço já não me engana como antigamente. Sempre vai haver uma cidade pra culpar pelas nossas agruras (e o Rio sabe como ele levou porrada de mim nos últimos anos). Mas por mais que ele me mostre o pôr-do-sol do Arpoador ou o trânsito na Linha Vermelha, ele já não me convence do seu poder. E cada vez mais eu sinto que minhas tristezas e alegrias no fundo são só minhas. E que o máximo que a cidade me oferece é essa tela colorida, esse espelho distorcido que reflete pedaços de mim mesmo.
e assim eu sigo em frente, cada vez mais convencido que qualquer lugar pra onde se vá, mais do que uma imposição geográfica, será apenas mais uma nova bola lançada na roleta, um pequeno reiniciar da vida, um terreno um pouco menos construído do que o anterior. E que o espaço, com toda sua pompa de cartão-postal, é apenas o tabuleiro dos verdadeiros donos do jogo: o tempo, o acaso e o desejo, que jogam sobre ele seus dados, fazendo ressurgir em todo deslocamento a esperança de um lance diferente.
quarta-feira, abril 25, 2012
Dylan, ou a inevitabilidade do presente
um show de Bob Dylan é algo assim como um genocídio musical. Sem maiores constrangimentos, a banda pega um repertório genial, coloca-o contra a parede e metralha-o sem dó com suas guitarras elétricas. O que seria apenas um lugar comum, não fosse o velho fanho que assassina as canções o seu legítimo autor.
Dylan é automutilação.
e poderíamos argumentar que essa metamorfose constante é apenas uma forma de tentar soar original num mundo tão habituado a ouvir covers de si mesmos (sim, estamos falando com você, Paul McCartney). Mas a desconstrução é radical demais pra ser apenas isso . A resignação de “It’s All Over Now, Baby Blue” nessa levada alegre? O lamento folk de “Blind Willie McTell” metamorfoseado em country? A contemplação literária de “Desolation Row” estripada de um par de estrofes pra virar rock? A maneira com que Dylan faz tábua rasa de canções outrora perfeitas, mantendo apenas a letra (e olhe lá) pra tocar qualquer outra coisa por cima lembra Coltrane transformando standards em bebops enlouquecidos já sem nada a ver com os originais.
Dylan é jazz.
mas enquanto no jazz a desconstrução era a regra, na canção popular deveria valer a “perfeita harmonia entre letra e música”. Mas se a letra é a mesma e a música é algo completamente distinto, que harmonia pode restar? Será possível que o que “Simple Twist of Fate” dizia no original, a balada tristonha de um recém divorciado, possa representar a mesma coisa na voz desse velho sorridente, cujas dancinhas no palco dão o ar de um crooner diabólico que arde de prazer em soar como jukebox em bar de beira de estrada? Ou ele já teria se tornado apenas um pastiche inexplicável de si mesmo?
Dylan é farsa.
ou então ele simplesmente não está nem aí pro seu passado. Já esqueceu porque escreveu essas canções. Não tem mais dentro de si o que queria dizer na época (e quem tem, no fim das contas?). E simplesmente trouxe o repertório que tem pra tocar, da maneira que lhe faz sentido tocá-lo hoje. A questão é simples: o que quer que tenha acontecido a essa altura são apenas fragmentos emoldurados, memórias amareladas, histórias costuradas em canções. E fingir que o passado ainda desperta a mesma emoção é fútil: ele é apenas um punhado de imagens compartilhadas, que uma vez mais podem servir de base pra fazer algo novo.
Dylan é o presente.
e a presença dele ali no palco, sorridente, no fim das contas é a mensagem que resta. O constante morrer de suas canções nas suas próprias mãos é a prova de que o passado se foi. De que ter sido uma das figuras mais influentes do século XX pouco importa. De que a realidade nesse momento é um homem de 70 anos, surpreendentemente vivo, tocando para a plateia de uma cidade provinciana no sul do Brasil em que quase ninguém entende o que está acontecendo. Não por acaso, a música mais fiel à roupagem original é “Ballad of a Thin Man” (you know something is happening/but you don’t know what it is), apesar dos ecos insanos na voz. E ainda assim a plateia pulará quando, traindo tudo o que fez até então, ele tocar uma versão inesperadamente pop de “Like a Rolling Stone” e deixar o público cantar o refrão.
Dylan é Judas.
mas dessa vez, ao contrário de 1966, o público já deixou de acusá-lo. A essa altura o velho caipira poderia fazer o que bem entendesse no palco e ser ovacionado, dado o peso de sua celebridade e a alienação geral do público cada vez mais genérico dos grandes shows. Mas mesmo que ninguém mais repare, Dylan teima em ser Judas, para uma audiência que já não se importa com o que ele toque, pois já não tem olhos para o homem, apenas para a lenda. Mas ele ainda enxerga a sua plateia, e sabe que naquele momento ela é a única realidade que existe. E talvez por isso ele a presenteie com um puta show, por mais que ninguém ali entenda mais nada do que ele quer dizer.
eu também não, aliás.
Dylan é automutilação.
e poderíamos argumentar que essa metamorfose constante é apenas uma forma de tentar soar original num mundo tão habituado a ouvir covers de si mesmos (sim, estamos falando com você, Paul McCartney). Mas a desconstrução é radical demais pra ser apenas isso . A resignação de “It’s All Over Now, Baby Blue” nessa levada alegre? O lamento folk de “Blind Willie McTell” metamorfoseado em country? A contemplação literária de “Desolation Row” estripada de um par de estrofes pra virar rock? A maneira com que Dylan faz tábua rasa de canções outrora perfeitas, mantendo apenas a letra (e olhe lá) pra tocar qualquer outra coisa por cima lembra Coltrane transformando standards em bebops enlouquecidos já sem nada a ver com os originais.
Dylan é jazz.
mas enquanto no jazz a desconstrução era a regra, na canção popular deveria valer a “perfeita harmonia entre letra e música”. Mas se a letra é a mesma e a música é algo completamente distinto, que harmonia pode restar? Será possível que o que “Simple Twist of Fate” dizia no original, a balada tristonha de um recém divorciado, possa representar a mesma coisa na voz desse velho sorridente, cujas dancinhas no palco dão o ar de um crooner diabólico que arde de prazer em soar como jukebox em bar de beira de estrada? Ou ele já teria se tornado apenas um pastiche inexplicável de si mesmo?
Dylan é farsa.
ou então ele simplesmente não está nem aí pro seu passado. Já esqueceu porque escreveu essas canções. Não tem mais dentro de si o que queria dizer na época (e quem tem, no fim das contas?). E simplesmente trouxe o repertório que tem pra tocar, da maneira que lhe faz sentido tocá-lo hoje. A questão é simples: o que quer que tenha acontecido a essa altura são apenas fragmentos emoldurados, memórias amareladas, histórias costuradas em canções. E fingir que o passado ainda desperta a mesma emoção é fútil: ele é apenas um punhado de imagens compartilhadas, que uma vez mais podem servir de base pra fazer algo novo.
Dylan é o presente.
e a presença dele ali no palco, sorridente, no fim das contas é a mensagem que resta. O constante morrer de suas canções nas suas próprias mãos é a prova de que o passado se foi. De que ter sido uma das figuras mais influentes do século XX pouco importa. De que a realidade nesse momento é um homem de 70 anos, surpreendentemente vivo, tocando para a plateia de uma cidade provinciana no sul do Brasil em que quase ninguém entende o que está acontecendo. Não por acaso, a música mais fiel à roupagem original é “Ballad of a Thin Man” (you know something is happening/but you don’t know what it is), apesar dos ecos insanos na voz. E ainda assim a plateia pulará quando, traindo tudo o que fez até então, ele tocar uma versão inesperadamente pop de “Like a Rolling Stone” e deixar o público cantar o refrão.
Dylan é Judas.
mas dessa vez, ao contrário de 1966, o público já deixou de acusá-lo. A essa altura o velho caipira poderia fazer o que bem entendesse no palco e ser ovacionado, dado o peso de sua celebridade e a alienação geral do público cada vez mais genérico dos grandes shows. Mas mesmo que ninguém mais repare, Dylan teima em ser Judas, para uma audiência que já não se importa com o que ele toque, pois já não tem olhos para o homem, apenas para a lenda. Mas ele ainda enxerga a sua plateia, e sabe que naquele momento ela é a única realidade que existe. E talvez por isso ele a presenteie com um puta show, por mais que ninguém ali entenda mais nada do que ele quer dizer.
eu também não, aliás.
sábado, abril 21, 2012
correnteza no ar
ok, tô chegando atrasado pra anunciar o que já foi divulgado via facebook, twitter e até no jornal. Mas é que o blog, esse meio de comunicação já meio retrô, já passou a ter esse tempo meio reflexivo. Correnteza e Escombros já está online na íntegra desde o início da semana em http://www.olavoamaral.com.br, com toda uma interface que permite ao texto receber comentários, links, imagens ou vídeos, como se fossem alfinetinhos virtuais num mapa.
como o site de certa forma fala por si, muito pouco me resta pra dizer por aqui. Mas queria elaborar só um pouquinho mais sobre as razões que me levaram a colocar o livro online (o que, pro meu estranhamento, ainda causa um certo espanto em pleno 2012).
(a) o livro teve financiamento público, logo deve ser disponibilizado ao público. O que deveria ser um conceito óbvio, mas por incrível que pareça continua não sendo. Sempre me deixou abismado o fato de que longa-metragens brasileiros custam milhões de reais ao contribuinte, por meio de financiamento direto ou renúncia fiscal, e depois passam em duas ou três salas em São Paulo e Rio de Janeiro por uma ou duas semanas, sequer saem em DVD e ficam inacessíveis a 99% do público que pagou pelo filme. E o pior de tudo é que todo mundo parece achar isso normal. Ainda que seja mais ou menos como pagar um pedreiro pra construir uma casa e depois descobrir que a casa pertence ao pedreiro.
(b) tenho a nítida convicção que o que se ganha em termos de divulgação com uma ação dessas é infinitamente mais do que o eventual livro que se deixa de vender porque a pessoa leu online. Acho que poucas pessoas ainda deixariam de comprar um livro a 25 reais porque ele pode ser lido no computador. E o universo de pessoas que podem ter acesso ao seu trabalho se ele estiver online aumenta exponencialmente. É claro que esse momento não vai durar pra sempre - uma vez que o ebook se estabelecer como formato padrão, o que não deve demorar, essa lógica vai pras cucuias (e talvez o mercado editorial também). Mas por ora, se o único cara que ganha dinheiro de verdade vendendo livros nesse país pirateia os próprios livros, quem sou eu pra dizer que é mau negócio?
(c) tendo escrito o livro, eu queria me divertir um pouco. E se divertir, pra um escritor, significa em última análise ver a obra evoluir independentemente de si mesmo. Desde que entrei no Facebook, o que mais me fascinou no conceito sempre foi o fato de que o meu perfil por lá cresceu completamente alheio à minha vontade. Nunca postei uma foto minha por lá, mas o meu perfil já tem 122 por conta dos tags alheios. Afora o fato de que pessoas preencheram por mim a cidade onde eu vivo, o colégio e faculdade onde estudei, o lugar onde eu trabalho, os membros da minha família, e inclusive alguns dos meus gostos (eu só tive o trabalho de aprovar). Então achei que seria legal se o meu livro crescesse dessa forma também. Me surpreendendo todos os dias sem me dar trabalho, como um filho criança que eu não precisasse sustentar. Enquanto eu faço algo um pouco mais útil, como deitar na rede e olhar pro mundo. E pra ele.
e por ora era isso. Ainda que eu espero que venha a descobrir muitas outras boas razões pra justificar a empreitada. Aguardo a ajuda de vocês pra isso.
como o site de certa forma fala por si, muito pouco me resta pra dizer por aqui. Mas queria elaborar só um pouquinho mais sobre as razões que me levaram a colocar o livro online (o que, pro meu estranhamento, ainda causa um certo espanto em pleno 2012).
(a) o livro teve financiamento público, logo deve ser disponibilizado ao público. O que deveria ser um conceito óbvio, mas por incrível que pareça continua não sendo. Sempre me deixou abismado o fato de que longa-metragens brasileiros custam milhões de reais ao contribuinte, por meio de financiamento direto ou renúncia fiscal, e depois passam em duas ou três salas em São Paulo e Rio de Janeiro por uma ou duas semanas, sequer saem em DVD e ficam inacessíveis a 99% do público que pagou pelo filme. E o pior de tudo é que todo mundo parece achar isso normal. Ainda que seja mais ou menos como pagar um pedreiro pra construir uma casa e depois descobrir que a casa pertence ao pedreiro.
(b) tenho a nítida convicção que o que se ganha em termos de divulgação com uma ação dessas é infinitamente mais do que o eventual livro que se deixa de vender porque a pessoa leu online. Acho que poucas pessoas ainda deixariam de comprar um livro a 25 reais porque ele pode ser lido no computador. E o universo de pessoas que podem ter acesso ao seu trabalho se ele estiver online aumenta exponencialmente. É claro que esse momento não vai durar pra sempre - uma vez que o ebook se estabelecer como formato padrão, o que não deve demorar, essa lógica vai pras cucuias (e talvez o mercado editorial também). Mas por ora, se o único cara que ganha dinheiro de verdade vendendo livros nesse país pirateia os próprios livros, quem sou eu pra dizer que é mau negócio?
(c) tendo escrito o livro, eu queria me divertir um pouco. E se divertir, pra um escritor, significa em última análise ver a obra evoluir independentemente de si mesmo. Desde que entrei no Facebook, o que mais me fascinou no conceito sempre foi o fato de que o meu perfil por lá cresceu completamente alheio à minha vontade. Nunca postei uma foto minha por lá, mas o meu perfil já tem 122 por conta dos tags alheios. Afora o fato de que pessoas preencheram por mim a cidade onde eu vivo, o colégio e faculdade onde estudei, o lugar onde eu trabalho, os membros da minha família, e inclusive alguns dos meus gostos (eu só tive o trabalho de aprovar). Então achei que seria legal se o meu livro crescesse dessa forma também. Me surpreendendo todos os dias sem me dar trabalho, como um filho criança que eu não precisasse sustentar. Enquanto eu faço algo um pouco mais útil, como deitar na rede e olhar pro mundo. E pra ele.
e por ora era isso. Ainda que eu espero que venha a descobrir muitas outras boas razões pra justificar a empreitada. Aguardo a ajuda de vocês pra isso.
segunda-feira, abril 16, 2012
bem-vindos à correnteza
e agora de fato, Correnteza e Escombros faz sua estreia mundial no Rio de Janeiro amanhã, dia 17/04, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema (R. Visconde de Pirajá, 572).os porto-alegrenses ainda demorarão um pouquinho mais pra ver o livro, mais especificamente até o dia 21/04 (sábado), também às 19h, na Casa de Teatro de Porto Alegre (R. Garibaldi, 853), dentro da programação da FestiPoa Literária.
ainda na FestiPoa, também estarei num debate com Henrique Schneider e mediação de Leila Teixeira na Palavraria no dia 22/04 (domingo) às 14h30 na Palavraria (R. Vasco da Gama, 165). Naturalmente, teremos exemplares à venda lá também para atender o público matutino.
um terceiro lançamento em São Paulo deve rolar em maio, em data a ser confirmada em breve.
pros geograficamente impossibilitados de comparecer, o livro deve estar à venda a partir dessa semana (em versões física e ebook) no site da Editora 7Letras. Além disso, o conteúdo do livro estará disponível gratuitamente online, com uma interface que permitirá que o mesmo receba comentários, links, imagens e vídeos sobre o texto. Isso serve pra garantir que um livro feito com dinheiro público esteja disponível para o público (o que infelizmente ainda é mais regra do que exceção). E, se tudo der certo, deve permitir que o livro ganhe vida própria e siga em construção a partir dos seus leitores. O que, de certa forma, é tudo o que um autor pode desejar.
e agora é hora de ficar quieto, e deixar que ele comece a falar por si. A palavra está com vocês. Façam-se presentes.
terça-feira, abril 10, 2012
em uma semana
e essa é a quase capa, rejeitada na última semana por um surto de indecisão maluca, e por um grau de ensolaramento um pouco maior do que o do livro. Foto minha de nos escombros do Hospital do Fundão, barco feito por algum artesão de Ganchos, cortesia da tia Gigi.
terça-feira, abril 03, 2012
em duas semanas
mais uma capa alternativa, cortesia do Flávio Vaz Brasil, cujo surgimento foi responsável por toda uma linda, saudável e desesperadora crise de capas há duas semanas atrás.
sexta-feira, março 30, 2012
correnteza na nascente
se a ideia toda da internet de fato gira em torno de "compartilhar", compartilho com todos vocês a minha melhor notícia dos últimos tempos. Meu livro foi pra gráfica hoje.
e pra tentar fazer jus a todo esse processo algo insano e obsessivo das últimas semanas, compartilharei aqui não uma, mas pelo menos cinco ou seis ideias de capa que nasceram e morreram ao longo dos últimos dias. Simplesmente por apego a tanta coisa legal que acabou não indo pra gráfica.
a primeira candidata a capa a bater na trave é essa abaixo. Foto minha, origamis de Vanessa Maurente, escombros do Hospital Universitário do Fundão. E juro que de onde essa aí veio tem muitas outras ainda por vir.
e pra tentar fazer jus a todo esse processo algo insano e obsessivo das últimas semanas, compartilharei aqui não uma, mas pelo menos cinco ou seis ideias de capa que nasceram e morreram ao longo dos últimos dias. Simplesmente por apego a tanta coisa legal que acabou não indo pra gráfica.
a primeira candidata a capa a bater na trave é essa abaixo. Foto minha, origamis de Vanessa Maurente, escombros do Hospital Universitário do Fundão. E juro que de onde essa aí veio tem muitas outras ainda por vir.
domingo, março 18, 2012
hora de abrir a porta
parece mentira, mas meu curta-metragem "A Porta do Quarto", originalmente filmado em 2007, finalmente estreia nessa sexta (23/03) às 20h30 no Santander Cultural, depois de um longo parto de mais de quatro anos de idas e vindas (o que dá mais de um ano pra cada dois minutos de filme). Mas acho que valeu a espera.
pros que quiserem compartilhar o momento, incluindo equipe, apoiadores, amigos e público em geral, estaremos por lá, levando nossa proposta ousada e mimimalista de filmar uma pequena história de vida em um único enquadramento, na sala de casa, com dezenas de móveis emprestados e um orçamento de produção de uns duzentos reais (mais da metade dos quais gasto em pizza pra equipe). E de chamar isso de cinema de verdade. Pela simples razão de que de fato é.
pra quem por acaso não possa comparecer, resta esperar o festival mais próximo. Ou o dia em que o filme desaguar na rede, como tudo o mais nos dias de hoje. Mas por ora, ainda é melhor aparecer na sexta pra ver o primeiro choro do bebê ao vivo. E pra depois comemorar junto com a gente mais um parto bem sucedido entre tantos nessa vida.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
terça-feira, fevereiro 07, 2012
mônade
essa noite tive um pesadelo horrível: sonhei que estava preso em meu próprio corpo. Que era refém do movimento de minhas pernas, e não me era permitido ver nada além do que meus olhos enxergavam. E que era forçado a conviver o tempo todo com meus pensamentos, como se estivesse encarcerado em minha cabeça e não tivesse opção senão estar ali.
então acordei assustado e me joguei na água.
então acordei assustado e me joguei na água.
domingo, janeiro 29, 2012
segunda-feira, janeiro 23, 2012
enquanto os tártaros não vêm
você espera. Monta seus quebra-cabeças e ensaia suas peças imaginárias e veste suas bonecas e monta seus castelos indestrutíveis. Brinca de esconder e chuta bolas divididas como se a sua vida dependesse disso. Até o dia em que começa a parecer óbvio e evidente que ela não depende. Que aquilo que antes parecia tão importante é apenas a espera de uma outra coisa, um ritual de preparação pra algo que aguarda logo adiante. Uma conflagração que vai dominando aos poucos os seus pensamentos e os dos seus amigos e não tarda por acontecer, despedaçando a ordem inocente do que era antes.e então você chega na idade adulta, e descobre toda uma gama de brinquedos novos, que envolvem pessoas ao invés de bonecas, poderes reais e não imaginários, capacidades reais de seduzir, recompensar, machucar. E brinca com eles por um bom tempo como se a sua vida dependesse disso. Até que em algum momento isso tudo também começa a parecer insuficiente como da primeira vez. Como se fosse apenas a espera de uma outra coisa, um ensaio interminável para algo que você não consegue precisar o que seja, mas que permeia o seu tempo morto, os seus sonhos, os seus primeiros instantes depois de acordar, antes que o mundo tenha tempo de disfarçar-se.
só que dessa vez ninguém mais à sua volta parece notar, e seus amigos continuam andando de balanço e jogando verdade e consequência feito pré-adolescentes, como se nada estivesse por acontecer. E encoberta pela conspiração da ordem vigente, a conflagração que você espera não chega, mesmo que você a intua cada vez mais nítida cada vez que acorda.
até o dia em que ela vem, e então já é tarde demais pra fazer qualquer coisa a respeito.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
porto alegre, dois mil e doze
a cidade num domingo de verão é toda estase, asfalto quente. Prédios feios e concreto cinza, vivos só no verde desconexo que infiltra a laje como se fosse uma ruína antiga. E é: porto alegre é hoje todos os mundos que foram antes e que se recusam a sumir, que eu encontro aqui pelos cantos sem procurar. Quase como um reflexo de mim mesmo, com minhas lajes infiltradas e goteiras, fazendo água também. Como de hábito, sinto que mudei mais que o mundo ao redor, que minhas goteiras são mais vivas do que as das ruas nesse tempo de seca; rápido a laje começa a parecer estéril, tédio, modorra ensolarada. E só devagar, à medida que a efervescência do contato passa, é que eu me lembro do que eu costumava encontrar nesse lugar. Que nunca foi mesmo muito mais do que rés-do-chão, terra arrasada, tabula rasa. Um lugar seguro pra pisar e ser eu mesmo risco, meu próprio desenho em hidrocor. Um sólido necessário, pra que sobre ele eu seja líquido, correnteza, desejo, escombros.
terça-feira, janeiro 03, 2012
relatividade

há duas maneiras de relativizar as coisas.
a primeira é se dar conta de que tudo depende da maneira com que você enxerga o mundo. Que dependendo da forma com que se olha, a mesma garrafa pode não só estar meio cheia ou meio vazia, mas também pode conter uma mensagem secreta ou um gênio da lâmpada (contanto que olhada com desejo suficiente). Que um mesmo fato representa infinitas histórias possíveis, e que com um pouco de criatividade você terá pelo menos um leque razoável de versões na mão. E por mera estatística, nas próximas jogadas da vida, é provável que você tenha alguma carta pra baixar.
e a segunda é se dar conta de que nada depende da maneira com que você enxerga o mundo. Por que não importa o que aconteça, o que você faça, pense ou escolha, algumas coisas vão continuar acontecendo exatamente do mesmo modo. A tarde vai cair do mesmo jeito, escorregando devagar no escuro na hora prevista, enquanto os rumores aumentam ao redor de quem a olha de um canto quieto o suficiente (pois as cigarras não fazem idéia de como você enxerga o mundo). E no fim das contas as cartas que você tem na mão talvez nem importem tanto, porque algumas cartas sempre estarão no monte pra serem compradas. Como essa de ficar em silêncio e olhar o mundo.
que as versões da história continuem mudando, e que os fins de tarde continuem iguais. Feliz ano novo.
segunda-feira, dezembro 05, 2011
domingo, novembro 27, 2011
antes
e depois de tudo isso, com ossos quebrados, reputação manchada, cheiro de esgoto e ficha na polícia, por fim criar coragem de encarar a pior das perguntas: por que caralho eu não fiz tudo isso antes?
quinta-feira, outubro 27, 2011
sobre como e por que voltar
o exílio tem um jeito todo seu de acelerar o tempo. E a existência em câmera lenta da cidade natal, a mesma que aborrecia há alguns anos, começa a parecer frenética quando acompanhada em visitas de ocasião, ao invés de vivida dia após dia. Como se o tempo se comprimisse nos espaços entre uma ponte aérea e outra, em que eu chego a espiar um mundo que ainda chamo de meu. Mas que agora evolui fora do meu controle, num veloz estroboscópio que transforma três meses em três dias. E pela estreita fenda de luz, você descobre que bebês nasceram sem que você soubesse da gravidez, pessoas morreram sem que você soubesse da doença, casamentos acabaram sem você saber que eles tinham acontecido. E tudo naquele lugar que antes era lento, e era seu, agora acontece em uma velocidade trinta vezes maior, indiferente às suas astênicas intenções de acompanhá-lo. O que, pra alguém minimamente sensível à violência imensa da passagem do tempo (e esses tempos dos trinta e poucos sabem ser particularmente violentos), é uma porrada e tanto. E joga na cara o que o cotidiano, na sua falsa e sedutora lentidão, normalmente camufla tão bem atrás do tédio e da distração. Pra quem olha de fora, não existe camuflagem possível: o tempo mostra suas garras, e não há opção senão encará-lo. Ou então fugir, não voltar, fingir que o mundo que era seu não mais existe, e adotar um outro tempo que ainda consiga enganá-lo, em outro lugar qualquer.
àqueles incapazes disso, resta aguentar a porrada na cara.
terça-feira, setembro 20, 2011
adeus escombros

esses dias apareceu uma retroescavadeira pra revirar os meus escombros. Uma geringonça que vagarosamente começa a recolher os destroços da implosão do hospital do Fundão, do outro lado da rua do meu local de trabalho. Por enquanto, nada se nota além de um pequeno arranhão nas montanhas de destroços. Mas já é motivo de festa pra comunidade universitária: nos últimos meses, já tinha rolado festa de aniversário pros escombros, protestos raivosos, cartazes de “o entulho não é nosso”, e assim por diante. Nossa sociedade não costuma prezar muito as ruínas do que não deu certo, afinal. E a chegada das máquinas sinaliza o auspício de uma nova era no campus, de um espaço se abrindo, de um futuro sem elefantes brancos ou pernas secas.
da minha parte, porém, eu não me incluo entre os que festejam. E no meu canto, sofro quieto com a limpeza do terreno. Não um sofrimento apocalíptico. Mas uma tristeza surda, latente e real, que inegavelmente me bateu ao ver a primeira cicatriz de escavadeira nos escombros.
e não poderia ser diferente. Por um bom tempo, desde o meu primeiro encontro com aquelas pedras (e a ideia quase imediata de fazer um filme ali), aquelas pilhas de entulho malquistas e abandonadas pelo mundo civilizado se tornaram um pedaço peculiar do meu universo pessoal. Por muitos meses, elas foram ao mesmo tempo minha locação dos sonhos, meu casamento ruído, meu planeta depois do apocalipse, minha fonte de perturbação, meu ponto de reflexão. E a minha companhia do outro lado da rua enquanto eu tomava um açaí no intervalo do expediente.
e enquanto o mundo rejeitava os escombros, eu fui um dos poucos a abraçá-los como velhos amigos. Um dos seletos privilegiados a enxergarem a inegável beleza que sobra quando algo cai por terra. O que talvez seja apenas sintomático de mim mesmo. Do cara que nunca conseguiu jogar coisas fora, que corria atrás do caminhão do mensageiro da caridade pra pegar os seus papéis de volta. E que resolveu fazer um filme sobre escombros sem nem perceber que publicava um livro com a mesmíssima palavra no título, como se enxergar escombros por todos os lados fosse apenas a coisa mais natural do mundo.
sintomas à parte, porém, talvez a maior parte da tristeza não tenha nada a ver com metáforas de apego ao que cai por terra. E se explique meramente pela perda de um canto que me era querido – não por ser uma pilha de escombros, mas por ser o lugar que eu escolhi pra plantar um pequeno pedaço de mim. Como poucos outros, talvez a sacada da Espel ou a pedra de Ganchos, aquele foi um espaço que eu conheci vazio. E que eu consegui, dum jeito muito próprio, popular de sonho e desejo, criando um universo que por um tempo eu pude chamar de meu. Como calha de acontecer com esses lugares, é certo que sentirei saudades.
(ah, e antes que eu me esqueça, “Depois da Poeira” já tá em processo de montagem. Eu e o resto da equipe esperamos ter mais notícias em breve)
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trovoou trusz, dava vento, fez-se correnteza.