quinta-feira, setembro 11, 2008

ganhando o mundo enfim


já faz um tempo, já tinha avisado pra alguns, mas tardei um monte pra fazer o anúncio oficial por causa da correria dos últimos tempos

em todo caso, a notícia é que o Estática, meu livro de contos lançado pelo IEL no final de 2005, tá disponível online em PDF há mais ou menos umas duas semanas. E, ao que tudo indica, deverá permanecer assim para todo o sempre.

o livro tá licenciado sob uma licença creative commons (assim como esse blog, aliás), que permite a distribuição, citação e utilização da obra pra fins não comerciais, contanto que citada a fonte e que as obras derivadas sejam disponibilizadas também. E me parece quase uma obrigação ética mantê-lo assim, já que:

(a) o livro foi editado por um órgão público, com dinheiro público, e portanto não pode ser mantido fora do alcance do público.

(b) a distribuição do IEL é mínima, fazendo com que o livro seja muito difícil de encontrar fora de Porto Alegre (e às vezes mesmo dentro).

(c) o que sobrou em livrarias já estava meio encalhado mesmo, ou seja, a exclusividade de direitos autorais não me dá retorno financeiro algum.

e

(d) a tiragem do livro é de 1.000 exemplares, enquanto o número estimado de usuários da internet ao redor do mundo está estimado em cerca de 1.463.632.361 pessoas, e crescendo rápido.

ou seja, não faz o menor sentido pra alguém que pretende ser lido se limitar a um troço tão tosco e restrito quanto papel.

até o momento o livro pode ser encontrado no overmundo, no scribd e no cypedia, mas talvez a lista venha a aumentar. E eu certamente não me importo nem um pouco com quem queira espalhá-lo por outros lugares.

a minha parte na história do livro está cumprida, portanto.

o resto da vida dele é com vocês bilhões de leitores todos.

compartilhar a aventura será um prazer.

segunda-feira, setembro 08, 2008

coisas a fazer quando você anda meio down (xxvii)

poucas coisas no mundo são tão terapêuticas quanto mexer no currículo lattes. O único lugar no mundo em que tudo se adiciona e nada se subtrai. Nada jamais é perdido depois de ser ganho no lattes, num confortante contraponto ao tempo, que nunca é ganho depois de perdido. Não que essa simétrica substituição da vida pela obra chegue perto de ser alguma forma de compensação. Mas é um grato refúgio pra desviar os olhos do desmoronamento contínuo da vida nos momentos de fraqueza.

sexta-feira, agosto 22, 2008

enxurrada de lançamentos com o meu nome nos créditos (ii)























ok, esse é mais curtinho. Mas é bem mais meu. Minha primeira e gloriosa incursão no cinema espanhol (junto com uma outra gente legal de POA), o Perro en el Columpio, tá sendo lançada oficialmente em Porto Alegre em exibição única no dia 28/8 (5a feira) às 20h30, na sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro. Cinco minutos de cinema, mais umas taças de champanhe pra comemorar uns prêmios que o filme ganhou do outro lado do globo terrestre enquanto a gente tava longe demais pra avisar. Espero-vos lá de verdade. Vai ser massa.

quinta-feira, agosto 21, 2008

pirateie um filme que passa no cinemark

semana passada fui assistir o filme do batman no cinemark de porto alegre. primeiro multiplex em um tempão. eu tinha até esquecido porque não vou muito nesses lugares. agora lembrei.
1.1. o ingresso custou 10 reais numa segunda-feira.
1.2. depois de pagar o ingresso, eu entrei na sala e fui forçado assistir pelo menos uns 8 comerciais.
1.3. como cada um tinha uns 2 minutos, mais os trailers, o filme começou com quase meia hora de atraso.
1.4. e como cereja no sorvete, depois de pagar o ingresso e perder meia hora da minha vida, eu ainda fui acusado de financiar o crime organizado no Brasil por esse comercial patético, que me recuso a postar aqui pra não manchar esse blog.
então faça a sua boa ação do dia:
2.1. entre no site do cinemark.
2.2 veja os filmes que estão passando.
2.3. escolha um.
2.4 baixe no emule, bittorrent ou similar.
2.5. disponibilize na rede, e com sorte alguém que baixe o filme será poupado de freqüentar esse lugar ridículo e ser tachado de assassino por um publicitário imbecil pago por uma indústria mentirosa.
porra, se é esse sistema que financia a arte no mundo, a mim pelo menos quase me dá vergonha de ser chamado de artista de vez em quando.

quarta-feira, agosto 20, 2008

enxurrada de estréias com o meu nome nos créditos (i)

depois de um ano de frescurinha de festival aqui, festival ali, o incomparável ainda orangotangos finalmente chega num cinema perto de você. Pré-estréia aberta ao público pagante dias 22 e 23 de agosto em Porto Alegre. Hora e lugar, pergunte a alguém mais da equipe ou ao seu jornal preferido, já que nem eu consegui descobrir (mas como já vi o filme três vezes, não chegou a me preocupar). Senão, entra em cartaz dia 29 de agosto em Porto Alegre, dia 5 de setembro no Rio e em São Paulo. Uma chance única de ver o meu nome nos créditos de um longa-metragem. Aliás, única mesmo: ele só aparece uma vez e é bem curtinho. Talvez porque toda a minha participação no filme tenha sido falar mal dele.

sexta-feira, agosto 15, 2008

sinais do fim dos tempos (xxiiviilx)


em mais uma crise global, alguns basquetebolistas espanhóis malvados e racistas estão sendo acusados de terem dado a entender que os chineses TÊM OLHOS PUXADOS! É sério. Olha aqui. Ou aqui. E aqui. E aí mande o seu multiculturalista politicamente correto preferido (como esse ou esse por exemplo) catar coquinho. O mundo agradece.
e o mais engraçado, na real, é que todos os idiotas que acusaram os caras de racismo parecem ter incluído uma história de "os espanhóis são mesmo uns racistas, porque xingam os negros em jogos de futebol". Como se fossem realmente os coitados da seleção de basquete que estivessem na arquibancada. Ou seja, acusar gente de ser racista pelo simples fato de ser espanhol é super OK. Mas dizer que chinês tem olho puxado, nem pensar.

quinta-feira, agosto 07, 2008

moto-contínuo

e talvez no fim das contas o mundo como ele é hoje gire de maneira tão autônoma e implacável que ajudar a empurrar a roda pra frente já não tenha tanto mérito assim. Talvez mais louvável seja tentar empurrar pra trás. Ou pelo menos tentar corrigir a rota.

domingo, julho 20, 2008

não se torne você também um criminoso

e não deixe que os seus filhos, vizinhos, amigos, e praticamente todo mundo que você conhece e acessa a internet caiam no crime também. Passa aqui e assina esse troço. É sério.

sexta-feira, julho 18, 2008

hilaridade involuntária

dum artigo da Science sobre transtorno bipolar em crianças, citando declaração da ex-atriz mirim Patty Duke num congresso de psiquiatria, descrevendo as agruras pelas quais passou devido ao atraso em receber o tal diagnóstico:
"Former child star Patty Duke, now 61, was diagnosed with bipolar disorder at the age of 35. In her late teens, she told psychiatrists at their May meeting, she experienced “eruptions of temper alternating with taking to bed for months at a time, getting up only to go to the bathroom and attempt suicide.”
(negritos meus)
ok, pode ser trágico, mas também foi a coisa mais engraçada que eu li nos últimos tempos. Aliás, parece algo saído diretamente de um filme do Woody Allen. Aliás, não duvido que tenha sido ele que tenha escrito o roteiro do tal depoimento pro analista dele levar pro congresso.
(e, já que eu tô no assunto, alguém pode dizer que alguém que vai a público na frente de centenas de psiquiatras com uma frase overthetop dessas realmente ficou muito melhor depois de tratado? Tipo, isso me parece o pico do pico da megalomania histérica. Mas enfim, talvez aí eu já esteja entrando na minha própria implicância com o sistema. For now, let's keep it just for laughs)

segunda-feira, julho 07, 2008

razões pelas quais a volta é a maior das viagens

andar no meio dos restos e olhar o lado de fora das coisas que se costumava ver de dentro. Descobrir aos poucos que o lado de dentro persiste impregnado de sentido, mas invariavelmente feito em pedaços, uma sugestão de um cheiro familiar, um meio sorriso, uma inflexão de voz, o jeito que a neblina dá lugar ao sol. Viajar com ares de turista por lugares familiares, caminhar pela terra semidevastada e deixar a luz entrar pelas rachaduras, pra ver se em algum lugar surge alguma sombra nova. Trocar a rigidez da geografia real pelo fluxo da geografias internas, países pelas linhas da mão, continentes por oceanos de lembranças. Ver o mundo em cacos e não ter pressa em preencher o espaço. E construí-lo de novo devagar, sem a pretensão de fazê-lo a partir de tábua rasa como o pintor abstrato, nem a partir de um modelo qualquer como o retratista. Mas sim como o mosaicista, fazendo uma colagem dos pedaços que restam dos sentidos antigos, dos que explodiram e dos que permanecem, dos pedaços da cidade nova e dos da que se foi, pra criar algo novo a partir das mesmas peças de sempre. Que no fundo é o que a gente sempre faz, porque afinal de contas é a única opção que o mundo nos dá. Apenas algumas dentre as muitas razões pra que as voltas costumem ser viagens muito maiores do que as viagens em si. Espero que continuem sendo.

segunda-feira, junho 30, 2008

diálogos curtos pra lembrar que o retorno e a vida valem a pena (dccxiii)

- quanto é a água de côco?
- um real.

pequenas transgressões que eu sempre tive vontade de cometer mas nunca tive coragem (lxxii)


só pelo prazer de ver a cara do tio da alfândega.

razões para ficar feliz com a existência das universidades privadas (i)








porque, francamente, eu ficaria realmente puto se soubesse que os meus impostos pagaram o diploma de publicitário de um cara que monta um sistema de milhagem em que a maior honra possível é ganhar um “cartão vermelho”. Se bem que, na real, o mundo precisa muito mais de maus publicitários do que de bons publicitários. Então acho que dessa vez passa. Mas só dessa vez.

evidência de que o pedestrianismo não existia na América dos peregrinos, e muito provavelmente é um vírus danoso trazido por imigrantes incultos













onde está a calçada?

sábado, junho 28, 2008

you may not help me

por que diabos o simples gesto de ficar parado com ar perdido em algum lugar desse país onde você supostamente não deveria fazê-lo (aeroporto, teatro, estádio de futebol, museu) faz com que em questão de segundos um segurança se aproxime com a indefectível pergunta “may i help you, sir?”. Suponho que essa frase em português deva significar algo como “com licença, mas nessa posição o senhor é uma ameaça à segurança nacional e é melhor ir dizendo rapidinho o que está fazendo aí”. Ou, menos paranoicamente, talvez isso queira simplesmente dizer que alguém que pareça sem direção por alguns segundos nesse país deva ser presumivelmente alguém que precisa de ajuda. De uma maneira ou de outra: não, você não pode me ajudar.

patenteando o mundo em todas as suas línguas














dia desses a gente não vai mais poder abrir a boca sem pagar esmola pro tio ronald. Alguém aí pode me explicar como esse tipo de coisa pode estar dentro da lei?
(p.s. ecologicamente pasmo: sim, o copo é de isopor. Como quase tudo que contenha comida nesse buraco negro)

sábado, junho 21, 2008

elaboração lógica a partir da existência dos números de série marcados a lápis nos cantos de gravuras e fotografias

- limitar o número de cópias é uma forma de agregar valor monetário a uma obra que, em tese, poderia ser reproduzida infinitamente a custo nulo ou muito baixo.
- logo, algo com poucas cópias tem mais valor do que algo com muitas.
- mesmo que o objeto seja exatamente o mesmo nos dois casos.
- tal valor, portanto, não tem nada a ver com mérito artístico, e sim com um fator mercadológico similar ao do mercado de figurinhas.
- logo, a obra de arte só possa a ter valor financeiro quando não está disponível para todo mundo.
- se o artista optasse por fazer cópias ilimitadas, ele perderia dinheiro.
- logo, ele tem que optar entre (a) ganhar dinheiro ou (b) deixar que mais gente tenha acesso a sua obra.
- mesmo que em tese alcançar outras pessoas deveria ser o objetivo fundamental de uma obra de arte.
- logo, o sistema obriga o artista a optar entre ganhar dinheiro com a arte ou a prejudicar ativamente seu objetivo primeiro, que é ser vista.
- logo, o sistema funciona de forma não só a não estimular o artista a divulgar sua obra, mas ativamente estimulando-o a escondê-la, ou mesmo a destruir sua possibilidade de reprodução.
- em última análise, a sociedade paga ativamente ao artista para que ele faça sua obra inacessível, efetivamente destruindo-a para a maior parte da sociedade.

com licença, mas sou eu a única pessoa a ter a impressão que algo tem que estar errado nesse sistema?

terça-feira, junho 17, 2008

melhor diálogo do dia de hoje


Personagens:
HOMEM 1, americano tradicional padrão, por volta dos 50 anos, meio gordo e com boné de beisebol.
HOMEM 2, americano cool padrão, por volta dos 30 anos, jornalista, bem-vestido e metido a engraçadinho.

HOMEM 1
- (olhando uma fila grande de pessoas) What is this line for?

HOMEM 2
- Sigur Ros concert. They're an Icelandic band.

HOMEM 1
- Oh... (segue em frente sem olhar pra trás)

domingo, junho 15, 2008

dois dias de metrô















(sábado)

meia hora de metrô de Jamaica até Manhattan em um sábado de tarde. Umas vinte pessoas no vagão quando eu entro. Nenhuma sorri. Eu pareço ser o único que olha em volta. Todas olham fixamente para baixo ou para frente, exceto por uma afro-americana que discute com o marido. A luz fluorescente tem uma aura de bar de cemitério.

talvez seja um vagão ruim, penso que pode ser que melhore quando troquem as pessoas. Mas metade da população se recicla e nada de sorrisos. O primeiro casal sorridente só vai aparecer lá pelos quinze minutos depois do embarque, um par de latinos com um bebê no carrinho. Um pouco depois, aparece um segundo par de meninas sorridentes. E é só. Dois pares de sorrisos entre cinqüenta ou sessenta pessoas passam pelo vagão em que eu estou. Algo não parece certo.

(domingo)

dez minutos de metrô de Washington Square até a Lexington com 63. Quando eu saio do metrô eu ouço um “Sir... excuse me”. Olho pra trás e vejo a minha câmera na mão de uma mulher, atrás da porta de vidro já fechada. Com certeza caiu do bolso. Eu bato na porta freneticamente e nada. Sinalizo “next stop” pra mulher que tem a câmera na mão. Ela não reage. Mas uma senhora oriental se compadece e prestativamente se levanta dizendo “next stop”. Ou pelo menos é o que a minha leitura labial me diz.

eu penso em correr até a próxima parada pra chegar antes, mas me dou conta que teria que atravessar o rio nadando. Melhor esperar o próximo trem. Que parece não chegar nunca, enquanto eu me remordo de constrangimento por estar atrasando a vida duma imigrante inocente que vai pro Queens no domingo de tarde. Quinze minutos de espera e nada. Nem ruído. As pessoas começam a olhar pro túnel. Eu sinto saudade de Barcelona. Quando o metrô finalmente chega, uns vinte minutos depois, um senhor de meia-idade pára na beira dos trilhos e faz sinal de “vai se foder” pro motorista. E mesmo depois do trem parar ele segue mandando o metrô se foder. Suponho que seja pelo atraso, mas vai saber.

a senhora oriental me espera na próxima parada. Eu tento agradecer o mais efusivamente que posso, expressando a minha felicidade, gratidão e essas coisas pra tentar demonstrar que o esforço dela valeu a pena. Ela não parece muito interessada. Parece mais preocupada em pegar o trem pra recuperar o tempo perdido. Talvez também não fale inglês. Em poucos segundos ela já está atrás das portas de vidro, sem falar palavra.

e também não sorri em nenhum momento.

sábado, junho 14, 2008

você sabe que está no novo mundo quando

o comissário avisa que a legislação proíbe “congregar-se na área de toaletes do avião”. Seja lá o que isso quer dizer.

quando acaba bem antes de poder chamar de amor


quando minha namorada (o rosto bonito da foto ao lado) chegou em Barcelona ela colocou um texto bonito no perfil do orkut (sim, eu sigo tentando mendigar uns hits pra este blog escrevendo "texto no perfil do orkut"), algo que falava sobre os nomes de ruas que ela ia lendo e que, ainda que não quisessem dizer nada naquele momento, pareciam indicar que viriam a significar algo. Uns dias depois ela tirou o texto correndo ao se dar conta que uma coisa muito parecida era mencionada no aborto espontâneo cinematográfico misteriosamente popular chamado “L’Auberge Espagnole”. Assim que (castelhanice bombando) eu não vou falar de ruas que virão a fazer sentido, porque não é fashion. Mas eu acho que eu tô no momento certo pra poder falar das ruas que quase chegaram a fazer sentido.
meus seis meses cronológicos de solo europeu acabaram hoje, abortados bruscamente pela improrrogabilidade do meu ridículo visto de estudos que quase me deporta cada vez que eu passo na fronteira. E sinto que nesse tempo eu conheci meio mundo, em termos de ruas, pessoas, lugares ou o que seja. Mas muito pouco disso teve tempo de se tornar realmente querido. Mesmo que tanto desse a impressão de que ia.
então essa é um pouco a história das inúmeras ruas que eu passei uma ou duas vezes. Dos restaurantes baratos cuja localização eu guardei mentalmente pra voltar mas nunca cheguei a ir de fato. Dos bares onde eu entrei uma única vez pra ver um jogo de futebol ou encontrar alguém e jurei que ia voltar, sem fazê-lo. Dos meus pratos favoritos que eu comi uma só vez. Das pessoas que apareceram e foram e começam a ser esquecidas tão rápido quanto chegaram a ser lembradas. Enfim, de um monte de experiências irrepetíveis. Não porque sejam tão incríveis ou espetaculares. Mas simplesmente porque o tempo não deu muito tempo pra que se repetissem.
quase nada chega a se repetir em seis meses de Barcelona, e suponho que isso seja um elogio à cidade. Mas me falta intimidade pra poder dizer muito mais sobre ela. E ao falar de Barcelona me sinto um pouco como um fracassado sexual tentando descrever as amigas que pensou em comer como se tivessem sido suas amantes de fato. Parecendo muito entendido mas no fundo não tendo ido fundo o suficiente em nenhuma pra falar com propriedade.
e pra não sair do campo sexual, uma coisa que começa a acontecer quando a gente deixa de ser adolescente (ou pelo menos fica um pouquinho menos) é que levar alguém pra cama ou mesmo se mudar pra casa de alguém passa ser um troço meio fácil e natural. E ainda assim, apaixonar-se vai se tornando cada vez mas difícil. E amar de verdade segue sendo tão difícil quanto sempre.
e enfim, um pouco maduro demais pra me apaixonar, tentei ir morar com uma certa mulher chamada Barcelona por um certo tempo, algo como um certo flerte que parecia que poderia levar a algum lugar e que subitamente virou “quem sabe a gente mora junto” na manhã seguinte. E agora me separo sem ressentimentos, sabendo que mudei muito pouco na vida dela. Que provavelmente ela nunca mais vai querer porra nenhuma comigo.
e, ainda que já seja calejado o suficiente pra saber que não tem nada de tão trágico nisso, vou embora meio de luto (e enrolando ao máximo a hora de chegar) pro meu apartamento de solteiro no fim do fundo do subtrópico, sem ter presunto cru nem janta me esperando quando chegar do trabalho. E no fundo morria de vontade de ter uma chance de continuar tentando ter e dar prazer à cidade, ao saber das milhares e milhares de ruas e dobras e pedaços do corpo dela que outros amantes percorreram e percorrerão com muitíssimo mais propriedade do que eu.
enfim, no fim das contas, nada que não se supere. Só um pouco de frustração. E não pelo tempo aqui, que foi dos mais felizes. Mas simplesmente porque ele acaba, porque o tempo é rei de fazer essas putadas. E depois de ter se escondido por uns tempos e me deixado viver meio fora dele por uma temporada, ele sempre volta pra mostrar quem manda. E pra me jogar de volta na consciência de que a gente não se desloca. É o tempo que nos carrega, e ele sempre tá andando, como um ônibus enfurecido que nos faz devorar quilômetros mesmo que a gente se sinta sentado no mesmo lugar.
enfim, nada que deixe ressentimentos. No fim das contas, é só mais uma história romântica que acaba bem. Mas também acaba bem antes do que se poderia chamar de amor.

terça-feira, junho 10, 2008

mais um que roubou a minha alma

mas enfim, tem sempre um discreto prazer em fazer parte da história. Quem me achar ganha um doce, em todo caso.

mais uma desvantagem da documentação obsessiva na era digital

já não se pode invadir o palco pulando que nem um adolescente e ficar incógnito. Particularmente quando visto de cima você é um amontoado de cachos balançantes.

domingo, junho 01, 2008

segunda-feira, maio 19, 2008

tudo é questão de perspectiva















nada no mundo que não se resolva empurrando meio centímetro pra baixo.

terça-feira, maio 13, 2008

canguro en el columpio


minha singela (e única, até agora) aventura cinematográfica barcelonina vai dar uma volta na Austrália. "Perro en el columpio" é o nome do bebê (meu, do Rabin, e de outros pais e mães). Desejem-nos sorte no tal festival, até porque prêmios em dinheiro nunca são demais pra quem paga o aluguel em euros. E se alguém andar aí do outro lado do mundo aí por junho ou julho, por algum acidente do destino, aqui estão as datas em que ele estará num cinema perto de você.

sábado, maio 03, 2008

sabedoria zen feita em casa - com o sabor da mamãe! (lxxxviii)


ser um cara focado certamente te ajuda a chegar mais longe na vida. Mas quando tu tá no ônibus errado chegar mais longe não é vantagem nenhuma.

quarta-feira, abril 23, 2008

filma nóis aqui, galvão!

ó eu aí na nature. ok, é só correspondência. ok, são só 3 parágrafos. ok, falar mal de psiquiatra e da indústria farmacêutica no século XXI é como tirar doce de criança. ok, foda-se a autocrítica. ó eu aí do lado de dentro.

segunda-feira, abril 21, 2008

evolução inegável

pra quem só era o número um do google em "higiene do cu" até então, descobrir que também se é o primeiro em "trepada massa" é no mínimo um belo dum salto qualitativo.

domingo, abril 20, 2008

tentativa escarrada e infame de quadruplicar o movimento deste blog

descubra quem é você, grátis!
frases pra botar no perfil do orkut
frases para botar no perfil do orkut
frases de perfil para o orkut
frases pra botar no quem sou eu do orkut
frases para botar no quem sou eu do perfil do orkut
frases de quem sou eu no orkut
frases prontas para o perfil do orkut
mensagens para o perfil do orkut

mensagens para o quem sou eu do orkut

frases criativas para o perfil do orkut
frases originais para o perfil do orkut
frases legais para o perfil do orkut

frases para prefil do orkut
frazes para perfil do orkut

e assim por diante, atendendo a demanda de todos os dias. taquilalia ao seu dispor.

pequeno ponto luminoso no currículo














acabo de tomar conhecimento que já faço parte do mundo dos sebos, que tanta felicidade me trouxe ao longo da vida. Sorte ou azar (e preço de 6 reais à parte), tenho que admitir que é uma puta honra. Aproveitem a barbada.

pequena explicação sobre o post abaixo

talvez pra evitar protestos escandalizados, o site em questão retirou os resultados da pesquisa citada do ar. Mas basicamente eram pais respondendo "o que mais lhe preocupa que seus filhos vejam num videogame. As opções eram
a) um homem e uma mulher fazendo sexo
b) dois homens se beijando
c) uma cabeça decepada
d) múltiplos usos da palavra "fuck"
não me lembro dos números exatos, mas o fato é que o sexo ganhava disparado, com os homens se beijando em segundo lugar. E a cabeça decepada, coitada, só conseguia ser mais perturbante do que a palavra "fuck" (talvez por mérito de hollywood ou do hip hop, que banalizaram a dita cuja). Suponho que dispense comentários.

terça-feira, abril 15, 2008

como eu ia dizendo uns dezessete ou dezoito posts mais pra baixo



tem alguma coisa muito errada com o mundo lá fora. Pelo menos na terra dos klingons. Dê você também uma olhada estarrecida nos resultados da pesquisa no canto inferior direito da tela desse site de pais preocupados. Dá vontade de cortar a cabeça dessa gente. Sem nem dar um beijo antes.

terça-feira, abril 08, 2008

be evil








ainda sobre o assunto abaixo, se alguém ainda não fez a brincadeira de comparar os resultados do google com os do google china pra coisas tipo "tiananmen" (veja aqui os resultados de imagens para um e outro), não sabe o que anda perdendo em termos de diversão. E dá-lhe tocha apagada.

enquanto isso, do outro lado da great firewall


quando vi um ativista político chinês no jornal dizendo que quando tu usa a internet na China aparecem uns policiais na tela do computador a cada meia hora pra dizer que você está sendo vigiado, achei que isso era uma história tipo a do flanelinha e do ácido muriático. Tinha muita cara de "história delirante para propagandear algo que ninguém vai checar mesmo" pra ser verdade. Mas o pior de tudo é que os tiozinhos aí ao lado existem mesmo. O mundo lá do outro lado é bem mais bizarro do que se pode imaginar. E às vezes parece bem pior, também.

sábado, abril 05, 2008

literatura (iii)

e ainda assim insistimos em olhar para os dedos, para os livros, para os filmes, para os tratados de filosofia e para os outros indícios dessa verdade mais funda apenas pressentida. E de tanto o fazermos, por séculos a fio, por vezes suspeito de que talvez o real seja a pilha de espelhos, e não a suposta verdade que ela tenta refletir. Que a impressão de que há alguma coisa mais profunda por baixo da poeira não seja mais do que algo imaginado, que tenhamos enterrado o tesouro tão fundo e deixado essas pistas apenas para esquecermo-nos coletivamente de que ele nunca chegou a existir. E para assim criar uma caça ao tesouro essencialmente insolúvel que possa durar o tempo que nos é necessário: uma vida inteira.

literatura (ii)

"A razão da literatura
É ser mais forte do que a realidade
Que tenta sufocá-la
Quando a pedra fere o vento,
Vive sua glória religiosa,
Vive sua pretensão imaginosa,
Vive sua não-tarefa,
Sua potencialidade total.
Em seguida cai no chão como pedra.
O imenso vento continua ventando.
Mas na imaginação da pedra
Jamais será o mesmo."
(Fausto Wolff, "Quinto copo de caninha", entregue a domicílio por cortesia do pessoal do Vaia)

literatura (i)

"A boa arte aponta, como um homem doente demais para falar, como um bebê! Mas se em vez de seguir a direção indicada pelo dedo encararmos a boa arte como uma coisa em si, possuindo algum valor absoluto, ou como uma tese sobre algo que pode ser resumido, cometeríamos um equívoco; perderíamo-nos de imediato em meio às abstrações estéreis dos críticos. Tente convencer-se de que o objeto fundamental da arte é apenas invocar o supremo silêncio curativo – e que o simbolismo contido em suas formas e padrões não passa de um sistema de referência no qual, como num espelho, podemos vislumbrar a idéia de um universo em repouso, um universo apaixonado por si mesmo."
(Ludwig Pursewarden; a.k.a. Lawrence Durrell, "Clea" (trad. Daniel Pelizzari))

descapacitação humorística crônica


entra século, sai século, e as esquerdas do mundo continuam sem o menor senso de humor. Tem gente que nunca chega a aprender a rir de si mesmo.

segunda-feira, março 31, 2008

catalunha














o único lugar do mundo onde jovens revoltados e anarquistas promovem exibições de dança folclórica.
da minha parte, continuo com a minha opinião caubói sobre o tema, de que nacionalismo bom é nacionalismo morto. Se não por qualquer preferência política, pelo menos pelo fato de que isso nos poupa de coisas ridículas como danças de roda.

sexta-feira, março 28, 2008

por que os cientistas usam o nome científico do gato para denominar as espécies?


não faço a menor idéia do que queira dizer a pergunta, mas o google diz que eu sei a resposta.

princípio de uma filosofia política

não li grandes coisas de filosofia política, mas lembro dos tempos de colégio (é sério) que geralmente os pensadores daqueles séculos com maior profusão de letras romanas (tipo XVIII e coisas assim) geralmente derivavam suas teorias políticas a partir do pressuposto de que o ser humano era em essência “bom” ou “mau”.
eu pessoalmente confesso que não poderia seguir essa linha, já que não tenho muita opinião a respeito do ser humano ser bom ou mau. Mas certamente me sentiria confortável pra começar o meu sistema filosófico a partir do pressuposto de que o ser humano, na média, é fundamentalmente tapado, tosco e míope. E eu diria mesmo que isso tem precedência sobre ele ser bom ou mau. E que tanto a bondade ou maldade do ser humano quase sempre são funções de sua própria tapadice e falta de crítica em relação ao discurso vigente, muito mais do que atributos em si.
e por enquanto acho que isso é só o que eu sei a respeito do assunto. Mas enfim, eu avisei no título que tava no princípio.

domingo, março 23, 2008

quase um haicai com a versão do papai papudo pra "infinita highway", dos engenheiros do hawaii

cinco e dez
cinco e vinte
cinco e sessenta

se bem que pensando bem


nada mais adequado do que a situaçao descrita no post abaixo. A Rambla é a tentativa mais bem acabada da Europa de criar a sua própria Tramandaí.

mas você só sabe que o mundo realmente é um lugar fucked up quando


entra numa sorveteria na maldita Rambla em Barcelona e ouve o Armandinho cantando que vai "pegar a freeway pra dar um banho lá no pier de Tramanda". Sério.

sexta-feira, março 14, 2008

você sabe que vive num mundo fucked up quando


um negro cego assume o governo de New York, e a manchete da metade dos jornais e sites do mundo afora é que "o estado vai ter seu primeiro governador negro". Ou seja, parece que o fato de ser cego ainda é um handicap menos importante do que a cor da pele. Ou que pelo menos parece ser pra um monte de gente. Ou talvez seja só o fato de que como os cegos são poucos e não lêem jornais pelas vias normais, melhor é direcionar as manchetes pra questões de mais apelo popular. Go figure, mas me deixem descer do mundo antes.

coisas cheias de ecos














e homens-aranha, velhos gordos maquiados, pictures of you e árabes mortos. Sem nenhuma pressa.

(Palau St. Jordi, 10-03-08)

domingo, março 09, 2008

a catalunya

les patates son fregides perquè les begudes son fresques.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

presentes educativos para criar consciência cívica em seu filho desde cedo (vii): álbum de figurinhas do Sebastião Salgado








- tu tem a marcha dos refugiados em Ruanda?

- não, mas eu troco pela criancinha passando fome em Bangladesh com os urubus ao redor.

- nada feito. Só se tu colocar o órfão cambojano no meio.

- mas bem capaz que eu vou te dar meu órfão. Vamos tirar isso no bafo, eu vou bater nesse monstrinho de olho puxado que tu tem na mão até virar a figurinha.

- e eu vou espancar esse teu pirralho subnutrido até ele cair de barriga d'água pra baixo.

- duvido.

- duvido um caralho.

domingo, fevereiro 24, 2008

só pra arrematar o tema abaixo












o que diabos o Marilyn Manson fez de tão horrível que o John Wayne ou o Charles Bronson não tenham feito antes?

obscenidades (ou dude, where's my universe?)

há uns quatro anos atrás, a irmã sem talento do Michael Jackson mostrou meio mamilo em cadeia nacional de televisão no intervalo do Super Bowl, o programa de TV mais assistido nos Estados Unidos. A rede de televisão ABC recebeu mais de cem mil ligações de protesto, e o furor foi tanto que naquele ano decidiram transmitir o Oscar com um delay de cinco segundos, pra ter tempo de cortar se alguém fizesse alguma coisa igualmente obscena. Eventos ao vivo para grandes públicos pareciam algo muito arriscado naquele momento. Eu escrevi um texto naquela época que bastante gente gostou naquela época – e que, só pra constar, tá postado abaixo.

hoje, quatro anos depois, o mesmo país vai transmitir o mesmo Oscar pra alguns milhões ou bilhões de pessoas. Não sei se com delay ou não. E diz a mídia, pelo menos até agora, que o No country for old men, dos irmãos Coen, é o franco favorito pra ganhar a estatueta. É verdade que não estou exatamente no centro da mídia americana. Mas pelo menos aqui onde eu estou não chegou nenhum protesto por obscenidade.

meio mamilo da Janet Jackson contém um punhado de pele, as aberturas de alguns túbulos mamários, algumas veias salientes e era mais ou menos isso. E nem dá pra ver inteiro, porque tem uma estrela de metal bagaceira na frente.

o filme dos irmãos Coen (como todos os anteriores) tem no mínimo umas cem mortes sangrentas, a sangue frio ou quente, pelo menos uns quinhentos tiros de calibre pesado, cabeças explodindo, gente vomitando sangue, fraturas expostas, cadáveres apodrecendo. Quase todos os inocentes morrem. Quase todos os culpados também. Nem os cachorros escapam.

e ainda assim o filme não é considerado diletante, nem obsceno, e não chega a incomodar ninguém no big business. A ponto de toda a equipe ser recebida com tapete vermelho em Hollywood, e provavelmente recompensada por ele. Com propagandas de Pepsi Cola e Fruit Loops nos intervalos comerciais.

um filme que tivesse um terço dessa obscenidade em matéria de sexo ao invés de violência (se é que uma escala comum pras duas coisas possa ser imaginada) provavelmente jamais entraria em cartaz em circuito comercial nos Estados Unidos. E as possibilidades de tal filme ser premiado por qualquer coisa no Oscar parecem bastante menores do que as do diretor ser assassinado por um fanático religioso qualquer.

as considerações acima não tem a ver com os critérios da academia, nem com o mérito artístico do filme, e muito menos refletem qualquer posição em favor de censurá-lo, ou de transmiti-lo com cinco segundos de atraso.

elas são só uma tentativa de me perguntar se o resto do mundo e eu, ou pelo menos se o americano padrão e eu, ainda pertencem à mesma espécie. Porque pelo menos as coisas que nos chocam e nos são obscenas parecem estar a alguns universos de distância. E eu tenho que confessar que o tamanho do abismo me preocupa.

cinco minutos depois


(isso foi originalmente um e-mail mandado pra alguns seletos há quatro anos. Não sou muito de postar textos antigos. Mas achei que talvez servisse de contraponto pro texto acima)

talvez já ande tarde pra comentar acontecimentos do início da semana passada. Por outro lado, talvez falar das coisas com atraso nunca tenha sido tão chique. O Grammy passou na segunda-feira pra algum número irrelevante de milhões ou bilhões de telespectadores com cinco minutos de atraso em relação ao espetáculo em si, num regime de quase ao vivo. Parece que o velho Oscar pensa em fazer o mesmo. Tudo isso, aparentemente, por causa do seio quase à mostra de Janet Jackson que escandalizou um país inteiro (e um universo à parte) durante o show de intervalo do Superbowl XXXqualquer coisa. Um dia depois, “Janet Jackson” era a palavra mais procurada no Google, abrindo links para milhares de sites de pornografia, e a CBS contava as reclamações em centenas de milhares. Isso que tinha um negócio prateado na frente do mamilo. Parece piada, mas é sério.

e a partir daí se geraram mais milhares de linhas de texto comentando o grau em que chegou o moralismo besta nos Estados Unidos. Tantas, aliás, que acho que não vale a pena entrar no mérito, porque seria como chutar um cadáver. Fácil, sem risco, e completamente inútil, porque o alvo é forte demais pra sentir coisa alguma. Não que deixe de ser completamente apavorante saber que o atraso de cinco minutos nas transmissões ao vivo coexiste com o maior arsenal atômico do planeta. Parando pra pensar, eles poderiam destruir o mundo em quatro minutos e ninguém nem ia ficar sabendo, porque daria tempo pra editar tudo. Mas isso tudo já foi dito, e se alguém duvidar da dimensão da coisa que entre num site de “organizações de valores tradicionais” na internet. Eu, particularmente, tenho mais a fazer.

mas parece haver um outro aspecto da coisa que talvez tenha passado desapercebido em meio ao absurdo da situação. Porque deixando de lado o incidente inicial, e a discussão a respeito do grau de escândalo que um quase-seio pode causar, o fato é que o resultado é o cancelamento de transmissões ao vivo pela simples razão de que alguma coisa pode acontecer. O que, de fato, faz qualquer um tremer de medo: como os americanos parecem ter acabado de descobrir, numa cerimônia de auditório dessas cheias de celebridades qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. Imaginem os possíveis riscos. Palavrões, arrotos, ofensas ao presidente, beliscões em partes íntimas. Até sexo, talvez. Parando pra pensar, é absurdo que alguém possa conviver com tal ameaça. Se querem saber a minha opinião, deviam simplesmente cancelar de vez todas as transmissões ao vivo. E tirar a TV da tomada, por via das dúvidas, porque sempre pode acontecer de alguém sentar no controle remoto.

mas isso não é nada ainda. Pior vai ser quando se derem conta de que um absurdo muito maior é que o mundo também acontece ao vivo. E se a gente não consegue nem sequer assistir o Oscar ao vivo, como raios vai poder sair na rua, sabendo que a qualquer momento qualquer coisa pode acontecer? Como deixar que nossas crianças vivam num mundo onde alguém pode tirar a roupa a qualquer minuto. Ou ter um ataque epiléptico. Ou atirar em cinco pessoas e depois se suicidar. Ou jogar um avião em cima de um prédio. Ou falar palavras obscenas. Ou mostrar um seio. Ou quase. Não dá. Não dá, não dá e não dá. E uma vez que se derem conta disso, é só questão de tempo até que as autoridades instituam que o mundo aconteça com um atraso obrigatório de cinco minutos. Porque é o único jeito de salvar a América.

alguém devia passar uma lei obrigando todo americano a vir pro Brasil em algum ponto da vida. As vantagens seriam inúmeras. Seria uma maravilha pra nossa indústria do turismo. Ia fornecer os nossos aeroportos com a maior coleção de impressões digitais do mundo. E ia instalar um pouco de maldade naquele bando de cabeças supostamente tão puras que têm medo dos seios da Janet Jackson. E a questão não é assistir à mulata Globeleza, e sim forçá-los a sair do hotel e caminhar no Rio de Janeiro, nem que seja em uma Copacabana já tomada de estrangeiros, e enxergar a pirâmide social brasileira inteira, os corpos malhados se expondo em busca de sexo, os ambulantes empurrando carrinhos de 5 bolas de sorvete a um real, os turistas com as prostitutas de todas as idades, o assalto ocasional, o mar verde quebrando em cima da praia e a ex-favela e atual comunidade do Cantagalo pendendo por cima dos hotéis de luxo.

e que fique bem claro que a idéia não é chocar ninguém. E nem querer impressioná-los com a violência da nossa realidade. É simplesmente fazer enxergar que a violência existe. E ponto. Até porque no fim das contas talvez não seja tão mais violento viver com as armas do tráfico apontadas contra a cabeça do que viver num confortável subúrbio no meio-oeste americano. A nossa violência é apenas um pouco mais próxima, um pouco mais escarrada, mas a verdade é que existir é intensamente violento em qualquer circunstância. Estar vivo em qualquer lugar do mundo é estar sujeito ao sol, à paixão, ao câncer, aos acidentes, aos fetiches, aos filhos mortos, à tentação. E ao destino, que aliás acaba não variando nunca. E a impossibilidade de ver o pôr-do-sol em Ipanema sem enxergar as luzes do Vidigal é apenas dar-se conta do irremediável. De que em algum lugar existe a maldade, o sofrimento, a pobreza, a luta, a morte. E que pelo menos a última acaba nos alcançando. E é claro que a gente se queixa de viver aqui, e tem todo o direito de se queixar. Mas no meio do caos, sintamo-nos ao menos um pouco privilegiados por poder saber que ele existe simplesmente saindo na rua. Até porque se a gente dependesse da TV, nesses tempos de cinco minutos de atraso, ia ser bem complicado.

pior que isso talvez seja saber que a história define seu curso num lugar onde pra um monte de gente o contato mais radical (e quase insuportável, pra alguns) com o resto do universo acontece no intervalo do Superbowl. E as coisas começam a ficar realmente estranhas quando se enxerga o mundo em 29 polegadas. Talvez porque enquanto as coisas continuarem acontecendo só pela TV, cai arranha-céu ali, morre soldado ali, toda essa bobagem que entra pela antena acaba se misturando e se esquecendo, e o título de Portador do Mal Supremo passa de Osama Bin Laden ao Grande Seio Semidesnudo quase sem se notar, conforme o que aparece no vídeo no momento. E entre uma bobagem e outra se decide o destino do mundo, e a gente a alguns milhares de quilômetros pouco pode fazer. Exceto assistir, e pensar que às vezes um pouco de maldade deve lhes fazer falta. Quem sabe se a gente exportasse o Comando Vermelho? Com cinco minutos de atraso, talvez eles não se importem em aceitar...

(escrito numa madrugada há quatro anos atrás, logo após voltar do Rio de Janeiro)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

karlovy láznĕ















a globalização nada teme. Ela bebeu demais pra isso. A globalização avança bêbada e socializa com facilidade, abarcando brancos e pretos e amarelos dançando sob o mesmo teto, contanto que seja sob a mesma música de FM de meados dos anos 90. A globalização não se preocupa com muita coisa: ela tem uma bolsa do programa Erasmus e não tem os pais conferindo que horas ela volta pra casa. A globalização ganha território rápido, muito rápido, e não encontra resistência – com exceção do eventual tcheco desdentado de olhos esbugalhados que nos xinga com ar ameaçador num bar fuleiro por falar inglês e rapidamente é expulso pela garçonete e descartado como psicótico, muito provavelmente com justiça. A globalização instala puteiros, irish pubs, restaurantes italianos ruins e lojas de souvenirs por todos os cantos, independentemente da localização geográfica. A globalização bebe cerveja e drinques metidos a besta em quantidades industriais e isso assegura a sua harmonia, porque nivelar o comportamento por baixo sempre funciona. A globalização, se eventualmente provoca surpresas bizarras a nível individual, é absolutamente previsível em relação ao seu comportamento de grupo, provavelmente por alguma questão de cálculo vetorial que sempre normaliza a resultante.

a globalização é um consenso, uma herança cultural coletiva entranhada nas tripas que reverberam canções fora de moda de nomes como Snap, Ace of Base ou Haddaway, justamente esquecidos até que as festas thrash anos 90 comecem a pulular na discoteca mais próxima da sua casa. As quais teriam shows dos Mamonas Assassinas em suas edições de aniversário se não fosse a intervenção da Serra da Cantareira. E hoje em dia a globalização ouve hip hop e simula sexo em pistas de dança pra exorcizar sua própria frustração sexual, e pra aproveitar o loophole na estrutura do politicamente correto que permite que ser machista, ganancioso e andar armado seja cool e fashion, contanto que num contexto de música afro-americana. A globalização se entende bem demais, num frenesi bêbado mas profundamente subjetivado de exibicionismo e sexo casual. E em nenhum momento a globalização se questiona, se controverte, entra em conflito consigo mesma ou com o outro, posto que não há um outro. E isso é o que me assusta. Francamente, nada a favor do conflito palestino, da guerra civil no Quênia ou de seus congêneres. Mas um mundo onde qualquer um se sinta em casa onde quer que seja tem o seu quê de perturbante.

a globalização é uma discoteca de cinco andares em Praga varada por multidões suadas por todas as partes do mundo que correm atrás de sexo e cerveja barata. E bizarramente, a única relíquia da primeira vez que eu estive aqui há quase oito anos atrás é esse computador no porão rodando o Windows 98, talvez o mesmo no qual uma vez eu me sentei pra escrever um e-mail fascinado e perplexo com o futuro que chegava. E talvez eu ande mais pessimista do que da última vez, ou simplesmente esteja meio bêbado pra raciocinar direitinho. Em todo caso, se disserem pra você que o ser humano finalmente começou a entender os outros, se pergunte duas, três, quatro vezes se isso não tem nada de suspeito. Mais provavelmente ele simplesmente deixou de encontrar o outro pelo caminho, já que não há mais estrangeiros que não falem a sua língua. E isso pode ter lá suas vantagens. Mas pode também ser bem mais perigoso do que a hipótese alternativa.

(16/2/08, karlovy láznĕ, praha, subsolo, lá pelas 3 da manhã)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

marmotas, essas putas

cientistas da flórida acabam de descobrir a verdade sobre as marmotas da pradaria, uns roedores falcatruas que posavam de bons moços por formarem casaizinhos pela vida inteira (e não só já foram citados por esse blog como eram usados como exemplos morais pela abjeta raça dos abstinencistas, que entre outras coisas regem a política de planejamento familiar da terra dos Klingons lá da América do Norte).
enfim, a nature acaba de noticiar que aparentemente alguém resolveu fazer uns testes de paternidade nas pequenas marmotinhas. E, voilà, parece que as cercas da pradaria não eram assim tão altas.

domingo, fevereiro 10, 2008

a al qaeda chega à prateleira de frios da geladeira


eu sei que eu já fiz essa piada antes, mas a minha compulsão por trocadilhos poliglotas é mais forte do que eu

sábado, fevereiro 02, 2008

divertimentos para uma manhã de sábado (xxi): criacionistas brincando de ciência


tentando a todos os custos suprimir as risadas (mas não conseguindo), dou-lhes às boas vindas ao Answers in Genesis Research Journal, a "publicação profissional, técnica e revisada pelos pares para a publicação de dados científicos interdisciplinares e outras pesquisas relevantes a partir da perspectiva da Criação recente do Mundo e do Dilúvio universal dentro de um modelo bíblico."
e como me disse o porteiro que me barrou no trem-fantasma esses dias: "no, no es una broma". A descrição da publicação no site é exatamente esta. E os artigos até agora (menos mal que são só três, por enquanto, sendo um do editor da revista) são destinados a questões de vital importância, tais como:
a) debater o papel dos micróbios como parte da "criação perfeita de Deus", trazendo hipóteses, por exemplo, de como o papel patogênico dos mesmos pode ter evoluído a partir de funções originalmente fofinhas após a Queda do Homem do paraíso.
b) debater a questão vital e controversa de quando foram criadas as bactérias, as quais, pobrezinhas, não são mencionadas no livro do Gênesis. Teriam sido no terceiro dia, junto com as plantas? Ou aos poucos, junto com os organismos que elas habitam? (eu, pelo menos, tenho perdido horas de sono pensando nisso todas as noites depois de ter lido isso)
c) providenciar evidência geológica de que o mundo realmente só tem alguns milhares de anos de história através do estudo duns pedaços de granito.
mas mais divertido do que isso é ler as "instruções para autores", que colocam entre os critérios para seleção dos artigos:
"o artigo é relevante para o desenvolvimento do modelo da Criação e Dilúvio?"
"o artigo é formulado dentro de um modelo de um universo jovem?"
"o artigo é fiel à interpretação gramática-histórica/normativa da Bíblia?"
tipo assim, se eles estão certos que a verdade está na Bíblia, e o pré-requisito pra publicação é que os achados do trabalho confirmem à verdade tal como está escrita na Bíblia, por que eles não param com esse teatrinho ridículo de fazer ciência, já que eles já sabem o que vão encontrar antes de começar a pesquisar mesmo, e não vão fazer melhor uso do próprio tempo? Será que a vida sexual dos cristãos ortodoxo-criacionistas é realmente tão sem graça quanto o papa faz parecer?
tem várias outras coisas divertidas, tipo o "manual de estilo" (i.e. "utilize letra maiúscula para "Flood" quando referindo-se ao Dilúvio de Noé, mas minúscula para outros usos da palavra; use maiúscula em pronomes se referindo a Deus, e assim por diante). Mas se eu fosse mencionar tudo eu estaria desestimulando a experiência impagável de dar um rolê pelo site da revista. Take a look.

terça-feira, janeiro 29, 2008

vencendo a batalha dos gus




















(ranking do público, Film Festival Rotterdam, 28/01/08. Atentem pros números 14 e 15. Pelo menos por enquanto, um a zero pra nóis)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

o meio


"Diria, sem muito rodeio
No princípio era o meio
E o meio era bom" (Luiz Tatit)

como poucas temporadas alhures, talvez como nenhuma antes, essa definitivamente começa no meio. Já faz mais de mês que eu estou aqui, e estranhamente em nenhum momento pareceu o começo de nada. Certamente não parece o fim de coisa nenhuma tampouco. Só o meio.
não sei porque essa impressão é tão presente. Mas é fato que todos os dias acordo com a impressão de que a seta do tempo tirou férias. Vá lá, talvez isso tenha a ver com o fato de eu estar um pouco de férias, pelo menos de horário formal. E na ausência de rotina tudo acaba virando um pouco um contínuo. A semana e o fim-de-semana. O trabalho e o lazer. A paz e o tédio. Até o amor e o desejo. Como em poucas vezes na vida, as divisões são pouco claras, e aquela história de dividir a luz e da escuridão e fazer-se o verbo parece só um papinho pretensioso. E eu me sinto o tempo todo no meio de alguma coisa que não começa, não termina, e não se dirige muito claramente pra lugar nenhum.
eu ando me sentindo tri bem, aliás.
estranho, talvez. Porque vá lá, “falta de direção” nunca foi um dos meus valores preferidos. Pelo contrário, se eu for ler tudo que é bobagem que tem escrita nos meus documentos da vida (nunca faria isso de verdade, seria um porre), aquele monte de palavras são sempre permeados de uma constante sensação de “estar por vir”. De estar indo em direção a alguma coisa, de estar prestes a conseguir alcançar a compreensão de algo, de estar na soleira da porta, de se enxergar sempre mais como potencial do que como presença, de enxergar o futuro sempre maior do que o presente.
a grosso modo, isso tudo parece andar meio sumido.
vai ver eu cheguei em algum lugar.
onde? Sei lá. Em todo caso, talvez valha a pena comparar com as minhas expectativas de uns tempos atrás. Eu sempre tive a impressão que o dia ia chegar em que eu ia me livrar de todos os compromissos e aí ia ter tempo pra (a) descobrir o segredo do universo, (b) escrever uma obra-prima, ou no mínimo (c) ler todos os livros que eu queria. Ou mais provavelmente (d) todas as anteriores.
bem, se a evidência empírica até agora significa alguma coisa, isso tudo era provavelmente uma grande bobagem. Faz um mês que eu tô aqui, e não descobri grande verdade nenhuma. A minha produção literária tem sido absolutamente exígua. A parte de ler tá indo um pouco melhor, vá lá, mas ainda assim acho que anda abaixo do esperado. Na verdade o que tem me acontecido é acordar tarde, ser tragado por bobagens e pendengas no computador, numa mistura caótica de trabalho e tempo perdido, e aí precisar ir no supermercado, ou arrumar a casa, ou alguma outra burocracia. E aí começa a ficar tarde e eu sinto que tenho que sair pra aproveitar o sol, já que ele se põe tri cedo. E aí quando eu volto eu já dispersei e tentar produzir algo mais elaborado fica meio difícil. E por aí vai. E eu sigo flutuando num meio, que não vai pra frente e certamente não volta atrás.
por outro lado eu tenho comido um monte de presunto cru, azeitonas recheadas com anchovas, pimentões em conserva e queijo camembert. Comprados no super, são baratos e bons pra caralho.
e o engraçado é ir descobrindo, devagar, que o meio não tem me feito tão mal assim. Há não muito tempo eu morria de medo do dia em que todas as turbulências de fins de noite de inverno iam desaguar num dia claro. Ou, como dizia um amigo meu, do dia em que a era de aquário ia chegar. Inclusive tentei sem sucesso escrever um roteiro comprido e engavetado (ainda bem) sobre esse medo uma vez. Vá lá, alguma coisa talvez se perca quando o meio chega. Tipo aquela sensação megalomaníaca orgulhosa de flecha que se move em direção a um futuro promissor e glorioso. Por outro lado, também se perde um pouco a incômoda presença da porta logo à frente, aquela sensação de que o futuro nunca chega porque sempre tem alguma coisa entre a gente e ele.
então não sei muito bem se o futuro chegou, ou se a porta se abriu. Mas pelo menos a sensação dela na minha frente tem se tornado bem menos nítida.
eu diria que talvez tenha chegado o meio.
e como dizia o Luiz Tatit, o meio não parece ruim. Fato consumado, não me sinto com nada de muito novo a dizer sobre o mundo. Mas provavelmente isso tem a ver com o fato da eloqüência quase sempre nascer da vontade de dizer, e a vontade de dizer quase sempre nascer da angústia, e da angústia quase sempre nascer daqueles incômodos cães do porão que rosnam no fundo do inconsciente. E que, ao menos por hora, têm se mantido plácidos e quietinhos no seu canto. Talvez apaziguados por uns pedaços de presunto cru.
por enquanto, eu não ando reclamando.
e se alguma angústia dá as caras de vez em quando, é só a percepção racional de que tamanha tranqüilidade não pode durar pra sempre. O conhecimento de que tudo é incrivelmente tênue, muito mais do que parece, e que em algum momento alguma coisa sempre acaba. Às vezes é o dinheiro, às vezes é o amor, às vezes é o tempo livre. E mesmo se em alguma conjunção astral contribui pra manter todo o vento a teu favor, em algum momento é um corpo que acaba por quebrar. Mas isso tudo parece uma angústia surpreendemente bem recalcada hoje em dia. Talvez porque percepções racionais, no fundo, nunca tenham tido muita importância pra ninguém mesmo.

e como eu andava pensando na rua esses dias (consciente do privilégio enorme de poder andar na rua pensando nesse tipo de coisa), talvez a grande demonstração de sanidade mental seja quando o “ter um filho” começa a substituir o “escrever um livro” na lista de coisas importantes a fazer antes de morrer (aquele troço de plantar árvore sempre achei uma puta bobagem, e na verdade vou deixar por último pra não sugerir pra ninguém lá em cima ou lá embaixo que já esteja na minha hora). Não que as alternativas sejam mutuamente excludentes, obviamente. Mas não deixam de ser estratégias meio opostas pra lidar com a existência. Uma delas é pegar a condição humana em toda a sua dor e falta de sentido e tentar extrair alguma beleza (ainda que por vezes terrível) disso pra tentar justificar a coisa toda. A outra é olhar a dor, a falta de sentido, o sol, o amor e o presunto cru, sem tentar transmutar nada. E tendo colocado tudo no liquidificador e provado a mistura, achar que ela é boa o suficiente pra merecer ser passada adiante, sem precisar de grandes justificativas. Por achar que a única moral, no fim das contas, é tentar fazer com que de algum jeito não termine.
e, sei lá, acho que quando esse tipo de coisa começa a passar pela minha cabeça é porque eu ando feliz. Ou porque eu ando ficando velho.
de um jeito ou de outro, que eu seja bem-vindo ao começo do meio.
(Barcelona, 14 a 18 de janeiro de 2008, escrito na cama e revisado em cima do gramado verde do Parc Joan Miró)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

conexões insuspeitas (xxi): o guarda-livros e o engenheiro agrônomo

não fosse a citação ao mestre lá no meio disso aqui, talvez tivesse passado batido, ao menos pra mim. Mas agora tudo me parece claro como a luz do dia. Michel Houellebecq e Bernardo Soares são a mesma pessoa. A mesma depressão melancólica. A mesma visão clarividente e desiludida do mundo. E a mesma lógica ferrenha de guarda-livros (ou engenheiro agrônomo), tão inquebrável e desprovida de ilusão que chega a ser míope de vez em quando. Aliás, por acaso alguém já viu os dois juntos numa mesma sala?

verdade que com o tempo (e a reencarnação), tio Bernardo parece ter perdido o pouquinho de capacidade de transcendência que ainda lhe restava quando o Esteves passava do outro lado da esq... (oops, isso foi o Álvaro de Campos). Mas certamente compensou ganhando vários pezinhos no mundo. Além de uma capacidade pra escrever cenas de sexo sanitizado e desinfetado de sentimento que teriam feito Ofelinha corar. A idade não lhe cai mal.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

como dizia Mick Jagger

deus dá nozes a quem não tem dentes
e dá dentes a quem não tem nozes
e dá fome a quem não tem nenhum
e dor de barriga a quem quiçá os tenha
resta a nós, na terra vazia
dar nozes a quem tem dentes
dar dentes a quem tem nozes
injeções de corticóide aos que tem alergia
e bandas gástricas aos donos das nozes
e quando a questão estiver resolvida
e as enxurradas de nozes varrerem a terra
manter a chama da fome acesa
e dar colo em longos dias de inverno
de barriga cheia ou não
árveres somos
amém

quarta-feira, janeiro 02, 2008

sabedoria involuntária (e alheia) em portunhol

Puedes contarme tus segredos. Soy todo olvidos.

quem são eles


finalmente achei alguém que fez o trabalho sujo de fazer um comentário sério sobre o estapafúrdio e desgovernado aglomerado de pseudociência do filme mais pavorosamente ruim que eu me lembro de ter visto na última década (e talvez na minha vida). Desde que assisti esse troço eu tenho sido acometido por ataques de perplexidade durante as minhas noites insones, nas quais me pergunto incessantemente como um punhado de gente que eu conheço (e que está longe de ser ignorante) possa ter levado a sério, gostado, e até mesmo recomendado uma coisa dessas.
ah, e apesar das três partes da análise linkada acima serem convincentes o bastante no sentido de apontarem os desméritos científicos do filme, me parece que elas ainda deixam a desejar por não ressaltarem suficientemente a dolorosa ruindade cinematográfica da parte ficcional do filme. Infelizmente esta não pode ser tão facilmente descrita ou desconstruída por argumentos científicos. Mas aos que não assistiram, confiem na minha palavra: o filme é tão ruim que mesmo que tudo que ele diz fosse verdade, e que a gente conseguisse andar sobre a água com o poder do pensamento e coisas do gênero, eu acho que ainda assim ele continuaria sendo uma bosta.
em todo caso, coisas tamanhamente pavorosas são tão ruins que chegam a ser engraçadas. E eu mesmo confesso que volta e meia eu sou tentado por uma vontade imensa de assistir O Segredo. Nem que seja só pra ter assunto, ou pra ter alguma coisa pra falar mal. Mas ainda não criei coragem. Até porque depois desse Quem somos nós?, eu acho que o meu estômago precisa duns cinco anos pra se recuperar. E por enquanto não passou nem a metade desse tempo.